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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Raspar a Cabeça



Quando um Monge raspa a cabeça, há um significado: você se torna mais feio, torna-se estranho e chama a atenção das pessoas, mas isso faz de você um Monge e só pode sentir como é isso aquele que o faz e repete esse ato, muitas vezes, de forma que você está sempre raspando os fios da ignorância. Tem uma oração para quando raspamos a cabeça, como tem uma oração para cada ato, e ela diz que os fios da ignorância estão sempre brotando, as paixões, suas tolices, tudo está sempre querendo surgir, e, ao raspar, você não se conforma com o que tenta surgir de dentro de você, você raspa porque não permite que essa ignorância surja.

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Monge e a Família




Aluna (Suuen San): Para complementar um pouco, eu acho que sofrimento existe em qualquer momento da vida. Ser monge é só um caminho, não é ser um Ser Iluminado, é só um caminho que você escolheu como qualquer outra profissão que tem as coisas positivas e negativas. Tem gente que escolhe ser engenheiro da Nasa e tem que viajar, e aí abandona a família em algum momento, e assim é a vida do monge também. De certa forma é uma profissão, porque há uma dedicação, e a família tem que estar apoiando isso.

Monge Genshô: Está muito bem colocado, porque a capacidade de se iluminar não é diferente entre um monge e um aluno, exatamente como Suuen San disse. E ela como esposa de monge sabe o que acontece. O monge chega e diz: "fui chamado e tenho que passar três meses fora, incomunicável". É isso o que acontece. Então, se tem um lado egóico, ele é contrabalançado por outras coisas, e normalmente, como tinha dito, é uma fantasia das pessoas imaginar que depois que se tornam monges é uma maravilha: não é! Só tem um sentido você se tornar monge:  trabalhar para os outros.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A Vida Monástica




Aluno: Quando os monges saem de casa para praticar num mosteiro. Ele saindo de casa não pode causar um sofrimento?

Monge Genshô: Pode sim! A ordenação monástica significa literalmente, Shukke Tokudo em Japonês, deixar o lar, e na verdade é cortar seus laços, mas tradicionalmente consideramos isso uma bênção para a família e para o mundo, porque alguém precisa fazer esse trabalho, e isso vai depender muito de como olhamos. Mas veja  que para aquele que está deixando o lar não é fácil também, porque há ligações afetivas, e a vida no monastério está longe de ser uma vida confortável, privacidade zero, você nunca está sozinho, não dorme sozinho, dorme no chão com muitas pessoas, banho é coletivo, refeições são coletivas, trabalho é coletivo e não tem nem um minuto de agenda livre. Até para ir ao vaso sanitário você tem que correr, porque você pode estar roubando tempo do trabalho, e todos ficam chateados com você se não estiver trabalhando junto. Você tem que cuidar para ir ao banheiro num momento adequado.



Não é fácil ser um monge. Muitas pessoas me escrevem perguntando o que fazer para ser um monge. Eu sinto que a pessoa está dizendo que a vida não está boa, que está difícil de ganhar dinheiro, que está desempregado ou que sofreu uma separação conjugal e acha que ir para um mosteiro vai ser o céu, a paz, e que vai ser bem tratado. Mas, na realidade, um monastério zen não é um monastério para acarinhar a pessoa, mas sim para dobrar o seu ego, pois toda a vez que você cometer algum erro será repreendido de joelhos, e a repreensão pode ser das coisas mais simples, como botar a xícara na bandeja de forma errada. Você é a pessoa mais desimportante do mundo, e isso será afirmado o tempo todo. No mosteiro em que eu estava, no Japão, como eu era noviço, não podia usar uma torneira de água quente no inverno com temperaturas próximas a zero grau. As torneiras de água quente são para os veteranos.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]