Mostrando postagens com marcador homens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homens. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
O louvor a igualdade das mulheres por Dogen Zenji
Postado por Monge Komyô:
Nestes dias de conscientização sobre a cultura de misoginia e abuso contras as mulheres, apresento excertos de um belo ensaio do grande mestre zen Eihei Dogen, em seu tratado Shobogenzo.
Em um período (1240 C.E.) onde o desmerecimento às mulheres era galopante, Dogen Zenji escreve um maravilhoso ensinamento de respeito ao Feminino, e um louvor a igualdade.
A tradução destes poucos trechos é minha, adaptada para sintetizar alguma passagens. O texto original que usei é de tradução do Prof. Emeritus Stanley Weinstein Ph.D., especialista no Budismo Sino-japonês da universidade de Yale.
“Raihai Tokuzui” (Prestando homenagem e atingindo a Essência)
Eihei Dogen - Dezembro 1240 C.E.
Não há dúvida de que existem pessoas que não prestam homenagem a mulheres ou monjas, tendo estas obtido o Dharma e que o estejam transmitindo. Aquelas pessoas não entendem o Dharma, e desde que obviamente elas jamais o estudaram, são como bestas, completamente afastadas dos Buddhas e ancestrais.
O feminino não é diferente do masculino, portanto homens e mulheres podem obter o Dharma sem distinção entre os dois (...) Assim, não te percas em ideias de separação como a de que homens são diferentes das mulheres.
Do mesmo modo, hoje em dia, existem aqueles que são extremamente estúpidos e pensam, "Mulheres são nada mais do que objetos sexuais e provedoras de comida." Estas pessoas falham em considerar que esse tipo e pensamento resulta de visões distorcidas e erradas. As crianças de Buddha não deveriam ser assim.
Há monge tolos, na China, que fazem o seguinte voto, 'Eu não irei olhar para uma mulher por incontáveis renascimentos no porvir.' Em qual Dharma isto está fundamentado? Qual é o terrível demérito em ser uma mulher? Qual é o grande mérito em ser um homem? Há muitos homens maus, e muitas boas mulheres. Se tu desejas ouvir o Dharma e pôr um fim ao seu sofrimento e tumulto, esqueças de tais coisas como a ideia de distinção entre mulheres e homens.
Monges que tem aversão às mulheres estão profundamente inebriados com o vinho da arrogância, e suas palavras de desprezo são palavras de loucura induzida pela intoxicação. Seres humanos e deuses jamais deverão levar a sério estas atitudes.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
O despertar não precisa de crenças
O despertar não precisa de crenças, nós não temos
deuses e só o budismo tem chance num mundo assim. Nós temos dificuldade de
entender isso, porque também precisa ser esta forma de budismo cética e não é
bem o que encontramos. Isto aqui ainda é raro, mas este é o futuro espiritual
da humanidade, porque não é através de crenças e milagres que nós vamos fazer
com que a humanidade cresça espiritualmente. Caso contrário vamos ficar
perdidos e presos em busca de prazeres momentâneos. O fato de vocês estarem
sentados aqui ouvindo isso é uma demonstração desse futuro.
segunda-feira, 14 de março de 2016
Nunca percam o senso crítico
Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 4]
Buda não pode ajudar as pessoas, assim não tem sentido pedir coisas para Buda, nem para ninguém. O único jeito de mudar nossas vidas é mudando nossas mentes, isso que é a verdadeira mudança. É isso que é o budismo. Claro que não estamos dizendo que o apoio mútuo seja insignificante. Não é isso! A Sangha é um dos tesouros do budismo. No entanto, é importante perceber que as estátuas, os rituais, as roupas, as tradições são só meios hábeis... não sou nenhum tolo, eu sei que quando coloco a roupa de monge, embaixo da roupa aqui tem só um homem velho, não tem nada de especial, mas porque eu uso as roupas de monge, eu ganho poder. Esse poder, essa respeitabilidade que vem de todo trajeto das cerimônias, dos certificados, dos reconhecimentos, todo esse conjunto de coisas, acaba criando uma espécie de poder mágico que permite que você consiga fazer coisas que sem isso não conseguiria. Por isso, nas entrevistas, acontecem muitas vezes de as pessoas se emocionarem. O que eu tenho a dizer? Que eu sou como você, tenho os mesmos defeitos, os mesmos anseios, eu compreendo porque eu também vivi essas coisas, perdas, decepções, todas essas coisas. O que isso quer dizer? Que sou homem comum, todos os monges são homens comuns, todos os mestres são homens comuns. Meu mestre é um homem comum, mas ao mesmo tempo ele é profundamente incomum. É preciso tentar entender estes paradoxos.
Não podemos nos iludir, como aconteceu com um homem que foi entrevistado pelo Jô Soares um tempo atrás ( se autointitulou um dos mais inteligentes e sábios do mundo). Na verdade ele era um louco, um psicopata, e enganou algumas pessoas. No programa seguinte foi um delegado para dizer que ele era um psicopata, um louco. E foi desmascarado em público, foi fácil. Mas às vezes não é tão simples assim, e loucos podem enganar povos inteiros e levar nações inteiras ao desastre. Nós temos muitos exemplos de loucos que fizeram coisas assim, porque as pessoas simplesmente querem acreditar. Então eu tento dizer para meus alunos que nunca percam seu senso crítico, não se enganem. E eu não quero enganar fingindo ser o que eu não sou. Então temos que entender que nós todos somos seres comuns. Por sua vez, seres comuns podem despertar, tem natureza búdica e se eles podem despertar, eles podem ser extraordinários. (Continua)
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Ligação e apego entre pais e filhos
Aluno: Sensei, eu sinto momentos de muita angústia pensando nos meus filhos (durante o sesshin). Existe solução para o apego entre pais e filhos?
Monge Genshô: Nós seres humanos queremos nos conectar com a eternidade e a nossa compreensão é que os filhos fazem essa ligação. No fundo o apego com os filhos vem de um amor ao eu. A ideia é: “eu quero permanecer, mas eu sei que este corpo vai morrer, então eu olho para o filho como minha ligação com a eternidade”. Disso surge uma diferença importante entre homens e mulheres. Através do tempo eu tenho notado que os homens são mais angustiados e as mulheres menos, porque por uma condição biológica as mulheres se sentem mais ligadas à vida. Na verdade, biologicamente acontece o contrário das lendas, não é a mulher que saiu da costela de Adão, nós homens é que viemos depois, porque a separação dos sexos acontece depois na biologia. Primeiro há um ser único e depois ocorre a separação para ter um ser que faça a fecundação, ou seja, um macho, mas ele sai da fêmea, então é ela quem representa a espécie. Além disso, como o filho nasce da fêmea, ela o sente como dela. O homem não sabe, ele foi informado, alguém diz “esse filho é seu” e você acredita. Então a realização do filho no homem é intelectual e na mulher é física. Vemos homens desesperados querendo escrever sinfonias, livros e realizar grandes obras porque tentam se eternizar de alguma forma, na verdade essa busca vem do medo do desaparecimento. As mulheres não sentem tanto isso, mesmo quando não têm filhos elas ainda se sentem mais ligadas à vida pela sua natureza.
Esse esforço dos homens explica de certa forma a angústia criadora, que também é medo do desaparecimento. Então essa ligação com os filhos é a manifestação do nosso desejo de permanência, por isso às vezes é tão difícil abrir as mãos e deixar os filhos seguirem seus próprios caminhos. Muitas vezes os pais querem que os filhos sejam aquilo que eles são e isso é um grave erro. Só uma ampliação de consciência pode aliviar esse tipo de angústia. Se você se ilumina e desperta das desilusões do eu isso também desaparece. Mas por outro lado que bom que existe amor, que existe sexo, que existem filhos, porque são partes integrantes da vida. Se você perguntasse qual é o sentido da vida eu responderia que é justamente viver. E viver também é sofrer, se você dedica amor, tem que aceitar a perda, você só precisa se dar conta de que o preço é o sofrimento. É natural que existam as preocupações e os medos, mas tudo isso é o preço que se paga. Tem alguma maneira de viver sem isso? Não. Nós temos sangha e na medida em que você conhece, conversa e entrevista as pessoas, também vai criando amor por elas. De repente um fica doente, outro sofre uma tragédia e tudo isso vem para você também, mas esse é o preço. Se você não quiser nenhum sofrimento tem que se isolar numa montanha e não ter relação com nada.
Existe uma anedota Zen em que um Monge estava numa montanha e sentiu que estava iluminado. Então ele resolveu descer até a cidade e entrou no mercado. Nesse momento alguém pisou no pé dele, ele sentiu raiva e percebeu que a sua iluminação era pura ilusão. Então só é possível dentro da turbulência da vida você acordar. O que você prefere: ter amor e sofrimento ou não ter amor nenhum? É isso.
Monge Genshô: Nós seres humanos queremos nos conectar com a eternidade e a nossa compreensão é que os filhos fazem essa ligação. No fundo o apego com os filhos vem de um amor ao eu. A ideia é: “eu quero permanecer, mas eu sei que este corpo vai morrer, então eu olho para o filho como minha ligação com a eternidade”. Disso surge uma diferença importante entre homens e mulheres. Através do tempo eu tenho notado que os homens são mais angustiados e as mulheres menos, porque por uma condição biológica as mulheres se sentem mais ligadas à vida. Na verdade, biologicamente acontece o contrário das lendas, não é a mulher que saiu da costela de Adão, nós homens é que viemos depois, porque a separação dos sexos acontece depois na biologia. Primeiro há um ser único e depois ocorre a separação para ter um ser que faça a fecundação, ou seja, um macho, mas ele sai da fêmea, então é ela quem representa a espécie. Além disso, como o filho nasce da fêmea, ela o sente como dela. O homem não sabe, ele foi informado, alguém diz “esse filho é seu” e você acredita. Então a realização do filho no homem é intelectual e na mulher é física. Vemos homens desesperados querendo escrever sinfonias, livros e realizar grandes obras porque tentam se eternizar de alguma forma, na verdade essa busca vem do medo do desaparecimento. As mulheres não sentem tanto isso, mesmo quando não têm filhos elas ainda se sentem mais ligadas à vida pela sua natureza.
Esse esforço dos homens explica de certa forma a angústia criadora, que também é medo do desaparecimento. Então essa ligação com os filhos é a manifestação do nosso desejo de permanência, por isso às vezes é tão difícil abrir as mãos e deixar os filhos seguirem seus próprios caminhos. Muitas vezes os pais querem que os filhos sejam aquilo que eles são e isso é um grave erro. Só uma ampliação de consciência pode aliviar esse tipo de angústia. Se você se ilumina e desperta das desilusões do eu isso também desaparece. Mas por outro lado que bom que existe amor, que existe sexo, que existem filhos, porque são partes integrantes da vida. Se você perguntasse qual é o sentido da vida eu responderia que é justamente viver. E viver também é sofrer, se você dedica amor, tem que aceitar a perda, você só precisa se dar conta de que o preço é o sofrimento. É natural que existam as preocupações e os medos, mas tudo isso é o preço que se paga. Tem alguma maneira de viver sem isso? Não. Nós temos sangha e na medida em que você conhece, conversa e entrevista as pessoas, também vai criando amor por elas. De repente um fica doente, outro sofre uma tragédia e tudo isso vem para você também, mas esse é o preço. Se você não quiser nenhum sofrimento tem que se isolar numa montanha e não ter relação com nada.
Existe uma anedota Zen em que um Monge estava numa montanha e sentiu que estava iluminado. Então ele resolveu descer até a cidade e entrou no mercado. Nesse momento alguém pisou no pé dele, ele sentiu raiva e percebeu que a sua iluminação era pura ilusão. Então só é possível dentro da turbulência da vida você acordar. O que você prefere: ter amor e sofrimento ou não ter amor nenhum? É isso.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Guerreiam porque tem medo
Aluno: queria saber sobre a miséria, escassez de recursos materiais.
Monge Genshô: Nós nunca tivemos um tempo tão abundante na Terra. Nunca tanta gente se alimentou. No entanto, há um bilhão de pessoas passando fome, por exemplo. Agora, se a sua pergunta é por quê existe isso, a resposta é carma. Carma nosso, da humanidade, da nossa condição humana, etc. O budismo não existe para dar explicações sobre a ciência, economia e tudo mais. Os budistas têm que mudar por dentro e, agindo no mundo, o mundo tem condições de mudar. Se todas as pessoas pensassem no bem alheio, o mundo seria diferente. Agora, quando as pessoas pensam no seu eu e tentam obter coisas para si em detrimento dos outros, claro que vai dar errado. É da natureza do mundo que dê errado, da maneira como o mundo está constituído. Por esta razão queremos mudar o mundo mudando os homens.
Você poderia me perguntar "Por que no Oriente Médio os homens estão se matando?" Porque um tem uma religião, o outro tem outra. Por quê se matam uns aos outros? Porque têm medo. Um tem medo que o outro domine, então tem que matar o outro para não permitir que tenha poder. Como há grupos equivalentes, então eles vão se matar até um grupo conseguir dominar. Sorte sua que você não nasceu lá. Porem se você for uma pessoa que cultiva ódio, raiva etc., talvez na próxima manifestação, aonde seu carma se sentirá atraído para se manifestar? Em um mundo em guerra. Se você morre cheio de ódio, com vontade de matar os outros e tudo mais, quem sabe não nasce em uma família com um pai homem-bomba que ensinará a você ser mulher-bomba.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Dilemas morais
Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?
Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz há que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério.
Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente salvam-se primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida, homens sempre foram vistos como mais descartáveis pois bastava um para garantir a sobrevivência da tribo, até hoje quando morrem homens são contados como números enquanto a expressão “mulheres e crianças” parece se referir a inocentes, como se eventualmente os homens não o fossem e suas mortes em guerras também não devessem causar horror. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo é isto que está por trás destas tradições. Não há resposta fáceis e um budista tem que saber que tem que decidir e arrostar o carma correspondente sem regras “fechadas”.
terça-feira, 8 de julho de 2014
Dogmas e leis universais
(continuação, palestra pública)
Pergunta – Para o Zen existem leis universais que regem o universo, por exemplo, causa e efeito é uma lei?
Monge Genshô - Parece que é, não é? Pode ser que um físico quântico diga que existam alguns efeitos sem causa perceptíveis, estamos investigando isso mas até o momento, parece que todos os efeitos têm causa e, pelo menos na nossa vida de mente e de carma, todos os efeitos têm alguma causa. Tudo o que acontece com vocês tem uma causa pregressa.
Se existem leis universais? Nós progredimos muito do tempo de Buda para cá em termos de ciência, muito, muito. Bem mais ainda nos últimos 200 anos. De lá pra cá, quanta coisa mudou. Na minha vida, quanta coisa mudou! Eu me lembro quando cheguei em casa e a empregada me chamou para ver um fogão novo que ela tinha ganhado e que tinha “um ar que saía de dentro e pegava fogo”. Uma coisa extraordinária, porque ate então só tínhamos visto fogões a lenha e, detalhe por detalhe é tão rápida a alteração neste momento, que é difícil acompanhar, é difícil você se informar de tudo que está acontecendo agora, nesse instante em termos de progresso e conhecimento humano.
Nós devemos manter nossa mente aberta e não nos agarrarmos a nenhum dogma. O budismo conseguiu escapar disso, porque ele nunca se comprometeu com descrições do universo, e aí, a cada nova descoberta, não há problema para o budismo. Mas, quando você tem uma religião e ela tem uma cosmogonia e descreve o universo de uma determinada forma, quando você ameaça aquele dogma, parece que o mundo vai desabar, e às vezes a solução é mandar queimar aquele indivíduo que veio com essa história, porque ela é ameaçadora do “status quo”.
Assim, o budismo se salvou desse problema do dogma, e isso é um grande privilégio. E outro grande privilégio é o fato do budismo não achar que tem que convencer os outros a ferro e fogo, então nós não temos na história, uma guerra de conquista budista nesses 2.500 anos e isso é um enorme privilégio. Não que não tenham havido perseguições ou disputas, até entre budistas, isso houve, mas não uma guerra.
Pergunta – Mais cedo o Senhor se reportou à historia de uma jovem que reencarnou numa família budista porque havia vestido um manto. Eu não sei se era uma historieta mas, se é fato, de onde vem essa informação de que ela renasceu numa determinada família?
Monge Genshô - Não, essa história é uma anedota Zen. Então ela pretende passar um “ensinamento”, de que o contato com o Dharma, mesmo que seja sobre uma forma espúria, tem um bom efeito. Agora, se informações como essa não existem, pouco importa. Aliás, se você acredita ou não em renascimento, não tem interesse. Se entra alguém aqui pela porta e diz assim: “Monge, eu queria praticar o Zen, mas queria lhe dizer que acredito que há homenzinhos verdes que vivem na galáxia de Andrômeda”. Eu respondo: “Muito interessante você acreditar nisso, mas eles por acaso falam com você”? E ele diz: “Não”. E eu digo: “Bom, então não é tão grave, pode sentar”. Agora se ele fala com os homenzinhos verdes, aí devo mandá-lo para outra pessoa, porque não é a especialidade do Zen tratar com psicoses. Então o que uma pessoa acredita ou não, não tem muita importância.
Eu estava uma vez com Saikawa Roshi e um rapaz perguntou: “E Deus”? E Saikawa Roshi disse: “Ah, esse é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem, se você não acredita, está bem também”. Não faz diferença, vá sentar. Pratique meditação e, quando tiver lucidez, aí as coisas clareiam, e você não precisa ficar discutindo, argumentando a respeito de coisas como essa.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Resgatar o último nos infernos
(continuação de palestra)
Sobre inferno e paraíso as pessoas dizem: “se eu me comportar bem, vou para o paraíso, se eu for um santo, vou para um mundo maravilhoso”. Ontem um rapaz me perguntou isso na internet: “se a gente cumpre as regras, numa religião que promete o paraíso, para onde eu vou?” Eu respondi: “Para o paraíso”. Mas o paraíso acaba, o paraíso é a paixão. Ele começa, tem mérito para isso, mas os méritos se esgotam, porque o paraíso também é impermanente. Então na realidade, procurar por mérito atingir o paraíso, significa ignorar todos os outros seres. Então eu sou santo, vou para o paraíso, vocês pecadores, fiquem aí, vão para o inferno, condenados, e encho a boca para condenar todos os outros, que não fazem parte da minha solução que é perfeita, a única que promete o paraíso.
Estes tempos, duas senhoras bateram na minha porta e tentaram me explicar que elas tinham uma salvação, um paraíso, e eu não queria ofendê-las, e elas disseram que só 144.000 escolhidos iriam para o paraíso, os outros todos estariam condenados e que eu teria a chance de fazer parte desses 144.000 escolhidos. Aí eu desisti e disse assim: “Minhas senhoras, vejam, eu sou budista e para um budista, na realidade, eu não quero fazer parte dos 144.000 e ver todos os outros no inferno. O objetivo de um budista é salvar todas as pessoas que estão no inferno”.
Então, o voto do Bodhisattva é: “Mesmo que os seres sejam inumeráveis, eu faço o voto de libertá-los todos”. Significa: EU não vou me libertar, enquanto houver uma só pessoa no inferno, porque eu vou lá dar a mão paro último o mais abjeto, mais terrível, mais cruel dos criminosos, porque eu quero salvar o último dos homens que estiver nos infernos, porque eu não posso usufruir do paraíso enquanto houver um homem no inferno. Esta é a ótica budista. É claro que elas desistiram de mim.
Mas, na realidade meu sentimento é compassivo. Como alguém pode achar que estará feliz, sendo do grupo dos privilegiados? É como os brasileiros que não se sentem felizes por estarem comendo e em suas casas enquanto outras pessoas estão na rua sem casa ou passando fome. Você não pode ser feliz com isso. Você pode ser feliz na Noruega, onde o país dividiu o dinheiro do petróleo entre todos os habitantes, de forma que cada habitante na Noruega hoje tem um patrimônio equivalente a um milhão de dólares, aí dá pra ser feliz, porque você não se sente injusto em sentar na mesa e comer, porque todos os outros estão comendo. Não é verdade?
Eu então diria que todos os sistemas no mundo funcionariam muito bem se os homens fossem diferentes. Não importa qual fosse o sistema. Se fosse o sistema comunista, em que todos dividem tudo entre todos, em todos os países onde isso foi feito todo mundo relaxou no trabalho, porque afinal de contas os outros estão trabalhando, e os países empobreceram e quebraram, se os homens fossem diferentes, eles se esforçariam também, e é por isso que não funciona. Mas o sistema comunista funciona muito bem dentro de um mosteiro budista, pois todos dividem tudo e continuam se esforçando e ninguém é proibido de sair. Então não é o sistema em si que é errado, são os homens. É como o sistema capitalista também, que pode ser maravilhoso se todos pensarem em todos. Acabamos de dar o exemplo da Noruega, eles pensaram em dividir as riquezas de seu país, porque é de todo um povo, não de um pequeno grupo, não de um grupo que se aproveita e que enriquece sozinho. Então as diferenças estão dentro dos homens. (continua)
Sobre inferno e paraíso as pessoas dizem: “se eu me comportar bem, vou para o paraíso, se eu for um santo, vou para um mundo maravilhoso”. Ontem um rapaz me perguntou isso na internet: “se a gente cumpre as regras, numa religião que promete o paraíso, para onde eu vou?” Eu respondi: “Para o paraíso”. Mas o paraíso acaba, o paraíso é a paixão. Ele começa, tem mérito para isso, mas os méritos se esgotam, porque o paraíso também é impermanente. Então na realidade, procurar por mérito atingir o paraíso, significa ignorar todos os outros seres. Então eu sou santo, vou para o paraíso, vocês pecadores, fiquem aí, vão para o inferno, condenados, e encho a boca para condenar todos os outros, que não fazem parte da minha solução que é perfeita, a única que promete o paraíso.
Estes tempos, duas senhoras bateram na minha porta e tentaram me explicar que elas tinham uma salvação, um paraíso, e eu não queria ofendê-las, e elas disseram que só 144.000 escolhidos iriam para o paraíso, os outros todos estariam condenados e que eu teria a chance de fazer parte desses 144.000 escolhidos. Aí eu desisti e disse assim: “Minhas senhoras, vejam, eu sou budista e para um budista, na realidade, eu não quero fazer parte dos 144.000 e ver todos os outros no inferno. O objetivo de um budista é salvar todas as pessoas que estão no inferno”.
Então, o voto do Bodhisattva é: “Mesmo que os seres sejam inumeráveis, eu faço o voto de libertá-los todos”. Significa: EU não vou me libertar, enquanto houver uma só pessoa no inferno, porque eu vou lá dar a mão paro último o mais abjeto, mais terrível, mais cruel dos criminosos, porque eu quero salvar o último dos homens que estiver nos infernos, porque eu não posso usufruir do paraíso enquanto houver um homem no inferno. Esta é a ótica budista. É claro que elas desistiram de mim.
Mas, na realidade meu sentimento é compassivo. Como alguém pode achar que estará feliz, sendo do grupo dos privilegiados? É como os brasileiros que não se sentem felizes por estarem comendo e em suas casas enquanto outras pessoas estão na rua sem casa ou passando fome. Você não pode ser feliz com isso. Você pode ser feliz na Noruega, onde o país dividiu o dinheiro do petróleo entre todos os habitantes, de forma que cada habitante na Noruega hoje tem um patrimônio equivalente a um milhão de dólares, aí dá pra ser feliz, porque você não se sente injusto em sentar na mesa e comer, porque todos os outros estão comendo. Não é verdade?
Eu então diria que todos os sistemas no mundo funcionariam muito bem se os homens fossem diferentes. Não importa qual fosse o sistema. Se fosse o sistema comunista, em que todos dividem tudo entre todos, em todos os países onde isso foi feito todo mundo relaxou no trabalho, porque afinal de contas os outros estão trabalhando, e os países empobreceram e quebraram, se os homens fossem diferentes, eles se esforçariam também, e é por isso que não funciona. Mas o sistema comunista funciona muito bem dentro de um mosteiro budista, pois todos dividem tudo e continuam se esforçando e ninguém é proibido de sair. Então não é o sistema em si que é errado, são os homens. É como o sistema capitalista também, que pode ser maravilhoso se todos pensarem em todos. Acabamos de dar o exemplo da Noruega, eles pensaram em dividir as riquezas de seu país, porque é de todo um povo, não de um pequeno grupo, não de um grupo que se aproveita e que enriquece sozinho. Então as diferenças estão dentro dos homens. (continua)
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
A igualdade pregada por Buda
5) Mas, por exemplo, as regras sociais são ditadas por uma maioria, um grupo.
Monge Genshô – Você tem certeza? Moisés, por exemplo. Existiam as regras sociais da época e todos viviam de acordo com elas. O que ele fez? Desceu do Monte Sinai com os Dez Mandamentos e disse: “As regras agora são essas”. Foi a maioria de pessoas que decidiu ou foi somente ele? Quando Jesus Cristo surgiu, apresentou idéias muito revolucionárias para sua época e não foram idéias de um grupo, mas seu ensinamento. Em todos os lugares vemos isso, por exemplo, andando pelas ruas vemos as casas numeradas, mas antes de 1805 não eram assim. Quem mandou numerar as casas? Napoleão, mas essa não foi sua única contribuição, ele mudou todo um código civil que alterou o comportamento da sociedade. Antes dele somente os filhos mais velhos tinham direito a herança e essa mudança foi adotada por toda a Europa. Se dependesse da maioria, as casas seriam numeradas por ordem de construção, como até hoje é no Japão, onde para encontrar uma casa tem que se ter um mapa. Por que os Estados Unidos e a Inglaterra têm um sistema de medidas diferente do resto do mundo? Porque o sistema métrico foi criado na revolução francesa por um pequeno grupo de sábios e como na Inglaterra não queriam usar o mesmo método, ficaram com medidas que representam um verdadeiro atraso como, por exemplo, um pé que era a medida do pé de Henrique VIII, uma polegada, uma jarda.
Buda também foi assim, ele disse que homens e mulheres são iguais espiritualmente, ambos podem ser monges, oficiar cerimônias, ser mestres, castas são bobagens, os monges podem ser de qualquer casta, de qualquer sexo, a iluminação é igual para todos. Num mundo cheio de deuses deixou de falar neles, onde se falava em almas e espíritos os negou. Quantas religiões existem ainda hoje que dizem que homens e mulheres são diferentes para o sacerdócio?
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
A outra margem e homens e mulheres
TEXTO (continuação de comentários sobre o texto clássico Shushogi)
Acordar a mente Bodhi significa fazer voto de não atravessar para a outra margem antes que todos os seres o tenham feito. Tanto leigo como monge, vivendo nesse mundo de seres celestiais ou humanos, sujeito à dor ou prazer, todos rapidamente devem fazer esse voto.
Comentário
Atravessar para a outra margem significa sair da margem de cá, que é o Samsara, o mundo do sofrimento, atravessar o rio e chegar à margem Prajna Paramitha, a margem da sabedoria e do despertar. Mente Bodhi significa a mente compassiva, é quando chegamos à outra margem ao olharmos para trás vemos todos os outros seres sofrendo. Em vez de abandonar o barco e ir embora, voltamos e ajudamos as pessoas a atravessar o rio. Essa é a mente Bodhi, a mente que deseja ajudar as pessoas a saírem do sofrimento. A pessoa faz o voto de só entrar no Nirvana quando todos os seres tiverem atravessado o rio, isso significa renunciar à felicidade perfeita e ficar nesse mundo de sofrimento. Nosso mestre, Saikawa Roshi, pediu que fizéssemos esse voto no final do zazen, “Seres são inumeráveis, faço votos de libertá-los”.
TEXTO
Embora de aparência humilde, uma pessoa que tenha acordado para a mente Bodhi já é um professor de toda a humanidade. Até mesmo uma menina de sete anos pode se tornar uma professora budista e ser mãe compadecida de todos os seres, pois homens e mulheres são completamente iguais. Esse é um dos mais altos princípios do Caminho.
Comentário
Isso é realmente impressionante sobre o budismo. Há dois mil e seiscentos anos Buda teve a coragem de dizer que homens e mulheres são completamente iguais. Em nossos dias, em muitos lugares, homens e mulheres não são considerados iguais. Em algumas sociedades, principalmente as patriarcais, os homens podem ser sacerdotes, as mulheres não. Em algumas seitas islâmicas homens podem ir para o paraíso, as mulheres não, pois não têm alma, “são como os cães”. Também existem sociedades onde as mulheres ocupam posições privilegiadas e os homens são subalternos do ponto de vista religioso.
Marcadores:
boddhi,
budismo,
homens,
igualdade,
leigo,
margem,
mente,
Monge,
mulheres,
outra,
Prajna Paramitha,
sacerdotes,
superioridade,
zen
terça-feira, 16 de julho de 2013
Os pássaros são verdadeiramente pássaros...
Por que o Dharma é raramente encontrado? Primeiro porque mesmo que existam muitas oportunidades de vida no universo, na Terra nós estimamos - mesmo que a ciência tenha dificuldades em estimar - que trinta bilhões de formas diferentes de vida já surgiram. Dessas formas de vida, 99,9% já se extinguiram e, desta forma, restam muito menos espécies do que já existiram em nosso planeta.
Esse não é um evento de agora, já tivemos várias extinções de vida na Terra. O primeiro grande momento de explosão de vida foi o período Cambriano, onde surgiram os “trilobites” e dos quais hoje não sobra nada. Das grandes florestas do período carbonífero também não restou nada. Já tivemos na Terra uma atmosfera redutora que não era baseada em oxigênio. Quando a Terra produziu muito oxigênio e a atmosfera começou a ter cada vez mais O2, este era um gás muito venenoso para as espécies anaeróbicas e extinguiu praticamente toda a vida no planeta. Tivemos a extinção do Período Cambriano, depois a extinção dos dinossauros e dos animais de grande porte. Os únicos animais que sobraram foram os muito pequenos que viviam em tocas e não foram afetados pelos meteoros que atingiram o planeta mudando seu clima. Dentre esses pequenos animais encontravam-se alguns mamíferos e desses descendem os mamíferos que hoje habitam o planeta.
Uma única espécie de hominídeo sobreviveu entre várias, com um cérebro melhor dotado, foi povoando o planeta. Então, desses trinta bilhões de espécies que já habitaram o planeta, uma única conseguiu desenvolver uma civilização. Ainda assim, é uma história muito recente de apenas dez mil anos, se contarmos a história da agricultura, frente aos quatro e meio bilhões de anos da Terra.
Os faraós morriam em média com trinta anos de idade. Nesse momento em que estamos, vivemos o dobro do que vivíamos em meados do século XX. E isso aconteceu dos anos quarenta pra cá, antes disso havia mais homens que mulheres porque as mulheres morriam no parto. Mas isso é para ilustrar que cada pessoa dessa sala é descendente direto de uma linhagem de vida que começa por volta de dois bilhões e meio de anos atrás. Somos descendentes daquele início de vida. Parece que a matéria inorgânica no universo tende a formar vida. O mais extraordinário é que cada um de nós pode traçar uma genealogia até um ser unicelular, até dois bilhões e meio de anos atrás. Pode ser que alguns de vocês não tenham descendentes e a linhagem morra com vocês.
Somos descendentes dos que ganharam guerras, cometeram crimes, estupraram e dos que fizeram com que seus genes fossem adiante. Não somos uma linhagem de pessoas boazinhas e sim daqueles que ganharam a batalha da sobrevivência. Não é de se admirar, portanto, que olhemos para dentro de nós e vejamos sentimentos agressivos e muitas coisas que vêm dessa linhagem herdada.
Tudo que foi dito é para chamar atenção para o fato de que, mesmo que exista vida em bilhões de mundos, é muito provável que existam mundos com vida estuante, mas sem que uma única espécie tenha desenvolvido a capacidade de criar civilização e que isto seja um acontecimento muito breve na história de um mundo ou universo e, mesmo assim, somos prodigiosos no sentido de nossa sobrevivência.
Devemos nos perguntar então, como surgiu a espiritualidade, como surgiram as perguntas “por quê estou aqui? Como surgiu minha consciência? Como é que desenvolvemos uma consciência tal que compreendeu sua finitude e se viu em um beco sem saída”? Os pássaros, os peixes, os micróbios, nossos corpos cheios de vida, não são nossas próprias células; mais da metade do nosso peso são de bactérias que coexistem simbioticamente e nos ajudam a sobreviver. Como aconteceu algo tão complicado, como cada célula tem um código de vida tão longo que estendido chegaria a dois metros? O que é isso que aconteceu conosco? O que é essa mente que pensa dentro de nós? Quem é esse que diz “eu sou”? Por que tememos uma morte que sabemos ser certa?
Os pássaros e os peixes não pensam nessa morte que para eles também é certa. Apenas vivem. Então, "os peixes são verdadeiramente peixes, os pássaros são verdadeiramente pássaros, só os homens não são verdadeiramente homens". Existe algo dentro de nós que pensa fora disso, “não somos verdadeiramente seres humanos”. Algo dentro de nós deseja mais, por isso nos angustiamos com nossa finitude e queremos descobrir um sentido para nossa vida.
Buda teve o mesmo problema e ele sentou e meditou, para resolver esse problema. Mas ele resolveu de forma diferente de todos os outros que apresentaram à humanidade crenças e esperanças de sobrevivência eterna de seu “eu”. Ele descobriu que o “eu” construído por ele é que é a ilusão e libertar-se dessa ilusão, é voltar-se para a verdadeira natureza. O universo inteiro sou eu mesmo. Ele entendeu que essa expressão de vida que falamos aqui é mera manifestação, não é uma criação. Somos fagulhas do universo. Não temos como sair do universo, estamos sujeitos a nascimento e morte, aliás, essa ilusão de um “eu” pessoal é que está presa a nascimento e morte. Tão logo passo a pensar, eu penso: “eu sou”, e esse “eu sou” sabe que é função desse corpo e desse cérebro e por isso surge e desaparece, essa é a tragédia do homem, essa consciência do “eu sou”.
A iluminação da qual Buda falou, é libertar-se completamente do “eu sou” e voltar a perceber-se como o todo abrangente, o grande ser que está além desta manifestação pessoal. Esse grande ser que nós e todos os outros seres somos, não está sujeito a nascimento e morte. Embora seja cíclico, surja e desapareça, ele é a própria vacuidade e dele surgem todas as coisas, não é um algo do qual surgem todas as coisas, mas é a própria natureza de todas as coisas e todos os seres. Serem vazios de um “eu” inerente.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Os reinos
Sobre a pergunta, a cosmogonia budista divide o mundo em reinos e estes são os Reinos dos Infernos, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, dos Humanos, dos Semideuses e dos Deuses, esses reinos estão presentes no nosso mundo e podemos vê-los com certa facilidade. Se abrirmos nossos olhos veremos pessoas vivendo no Mundo dos Infernos, o que caracteriza o Mundo dos Infernos? A raiva, o ódio, nenhuma compaixão. Os lugares onde se matam pessoas, os nossos dias. O terrorista está no mundo dos infernos, compaixão zero, ele mata crianças, adultos, pode inclusive se matar junto. Para realizar sua tarefa não existe compaixão pelos outros. Então a primeira maneira para sair do Mundo dos Infernos é ter compaixão. Uma imagem é um mundo infernal todos sendo torturados, empurrando uma carroça na lama e ninguém sai dali, daquele inferno. Mas um dia um cai, e outro em vez de simplesmente pisar em cima do corpo caído, larga tudo e ajuda o caído. Nesse momento ele sai do mundo dos infernos, no exercício da compaixão é que o Mundo dos Infernos é abandonado.
O segundo mundo, o dos Fantasmas Famintos, a imagem é de seres com corpos do tamanho de montanhas e gargantas como fios de cabelos, eles morrem de fome e de sede e não conseguem comer ou beber. Esse é o mundo dos insaciáveis, pessoas que não conseguem saciar sua fome ou sede de qualquer coisa. Esse dois mundos podem ser vistos diariamente na TV. É o mundo do crime. Aquele que vive e pratica o crime e morre com aquela mente, novamente se manifestará num mundo infernal, num mundo de ódios e de raiva, onde só existe isso. Ele nasce num lugar de guerra, onde seu carma só consegue se manifestar, um lugar onde haja crimes, armas, mortes, sangue, ele quer vingança, que é uma característica do Mundo dos Infernos. O Mundo dos Fantasmas Famintos, lugar de pessoas insaciáveis, pode ser visto, por exemplo, num bingo ou cassino. Pessoas que dia e noite jogam se parar, querendo ganhar algo, ambiente com fumaça, bebidas, sem relógios para que não se perceba o tempo passar, lugar onde todos querem ganhar algo para si, não existe nada sobre partilhar. A máxima do Mundo dos Fantasmas Famintos é não partilhar, é querer tudo para si e ao querer tudo para si, nada será satisfatório. Um mundo de grande infelicidade, grande angústia.
Essas pessoas sempre tem renascimentos em situação de privação, pois não possuem mérito suficiente para que seu carma se manifeste em mundo onde exista abundância e facilidades. Como ele possui grande ambição só consegue se manifestar nos lugares de privação. Mesmo que você dê para uma pessoa com essa marca cármica, uma grande quantidade de dinheiro ou prêmio, esse valor desaparecerá de suas mãos, pois ela não consegue operar de forma a produzir abundância.
O Mundo Animal é caracterizado pela obscuridade, pela não compreensão, não clareza. As pessoas que tem essas marcas cármicas operam num mundo onde as soluções são buscadas através de magias. As pessoas acreditam que irão conseguir determinada coisa através de simpatia, de uma formula mágica, através de uma oferenda, doação para uma divindade obscura qualquer, todas criadas pela mente. Sempre com a tentativa de alcançar alguma coisa de uma forma não operativa, que não funciona na realidade, e é apenas imaginária. Essa é a característica da obscuridade, não compreensão, uma sensação de individualidade, grande egoísmo, como um cão que rosna quando alguém vai pegar seu osso, mesmo que você queira ajudá-lo tirando-lhe um osso envenenado, ele irá rosnar, pois não pode entender o que está acontecendo, pois opera no mundo de forma reativa.
O quarto reino é o Mundo dos Homens, no qual nós estamos, é caracterizado pelo apego, pelo desejo, e também por situações mistas. Dentro do Reino Humano existem características dos outros reinos e também dos reinos mais elevados e você tem como escolher. Você pode, como manifestação humana, escolher ser egoísta ou generoso, vingativo ou compassivo, você tem escolhas. Você pode transitar em ambos os mundos, essa é uma característica do Mundo dos Homens. E o mundo humano tem sofrimentos justamente por causa dessa característica. Como ele tem sofrimento, ele sacode as pessoas e dá oportunidades para as pessoas se realizarem. Então no Mundo dos Homens o Dharma surge e é ouvido com mais facilidade até do que em reinos superiores. O mundo humano, por ter sofrimento, é o mais precioso nascimento, porque permite a libertação das condições anteriores e permite uma realização direta.
Vamos examinar os reinos acima do reino humano. O Reino dos Semideuses pela luta, é sempre competitivo, e por grande poder. Ao mesmo tempo eles tem meios, tem armas para obter suas coisas. O Mundo dos Semideuses pode ser observado, no mundo humano, naquelas pessoas que tem jatos particulares, muito dinheiro e podem realizar coisas com facilidade, o Dharma fica difícil para eles, a realização espiritual fica difícil porque tudo está disponível e eles tem sensação de grande poder , o jogo da competição é muito inebriante e por querer ganhar esse jogo a pessoa mergulha nele e não consegue mais escapar.
A imagem mítica no budismo é os Semideuses atacando os Deuses, sempre querendo obter as riquezas dos Deuses. Os Semideuses estão sempre querendo ser Deuses, mas perdem-se em seu poder, sua vaidade e tentar adiar todas as coisas que seriam do mundo humano. Os Semideuses fazem muitas operações plásticas, compram objetos valiosos etc. e não tem limite para a ambição.
Temos depois então, o Reino dos Deuses, estes nem precisam competir, eles tem tudo. Os deuses estão além dos mundo da competição, é como se já tivessem nascido numa situação de grande abundância, tudo é muito fácil, parece que as coisas caem na mão facilmente das pessoas que tem os méritos de um carma divino. Mas esse méritos se esgotam e também decaem, vão sendo usufruídos mas vão decaindo. E também os Deuses, mesmo que vivendo por longo tempo em abundância e felicidade, de nenhuma dificuldade, eles um dia morrem. E os outros Deuses não querem saber deles quando seu carma se esgota.
O grande problema do Mundo dos Deuses e Semideuses é que embora tenham condições melhores do que os humanos, do ponto de vista material, eles tem poucas marcas de sofrimento, assim é muito difícil ouvir o Dharma, é muito difícil praticar nessas condições. Então os budas, mesmo que preguem aos Deuses, não são ouvidos. Os Deuses ouvem o Dharma e dizem – Que maravilhoso, que lindo que é o Dharma, vou fazer uma doação para esses budas – e assim produz mais méritos, mas ele mesmo não consegue praticar, joga flores no dharma, mas não pratica porque falta inquietude, angústia e sofrimento. Aqueles que tem inquietude, angústias e desejo de solucionar a vida, esse sim irão fazer sesshin (retiros). Tem a marca do mundo humano.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
O EU separado de tudo
Poucos dias atrás eu vi um vídeo com um pequeno trecho de uma palestra de Thich Nhât Hanh. Vou reproduzir as idéias que ele expôs. É um vídeo bem curto.
Naquela pequena aula ele disse: “Minha mão direita escreve poemas. Minha mão esquerda não escreve poemas. No entanto, minha mão direita não menospreza nem diminui a mão esquerda dizendo: “Eu sou melhor que você”. Ela não tem complexo de superioridade com relação à mão esquerda. Nem a mão esquerda tem complexo de inferioridade com relação a minha mão direita. Há algum tempo eu estava pregando um prego na parede, e bati com o martelo no dedo da mão esquerda. Imediatamente, as duas largaram o que estavam fazendo e a mão direita segurou a mão esquerda para cuidar dela carinhosamente. Minha mão direita não disse: “Estou cuidando de você agora que você esta machucada, lembre-se, no futuro se acontecer alguma coisa você cuida de mim, não seja mal agradecida”. Minha mão esquerda não disse: “Você me feriu, dê-me o martelo, eu quero vingança”. Porque minha mão direita e minha mão esquerda, se sentem unas. Sentem-se em uma unidade. Sentem-se uma junto à outra em tudo. Não sentem inveja, nem sentimentos de cobrança, nem sentimentos de vingança, nem superioridade nem inferioridade.”
Nós somos, na verdade, mãos da grande unidade de todos os seres. E quando nos sentimos melhores ou piores, ou queremos justiça, ou compensações, é porque nós não vemos isso, porque começamos a ver a noção de eu dentro da mão. Se a mão direita sentisse “eu sou”, ela teria esses sentimentos. O mesmo ocorreria se a mão esquerda tivesse esse sentimento de “Eu sou, eu sou separada” – elas são separadas, não são? Fisicamente são separadas, mas não existe o sentimento “eu sou separada”. Por isso uma cuida da outra, não pedem compensação, por isso uma não pede vingança à outra. O que existe nas nossas duas mãos, é uma noção dentro da nossa mente de unidade; ambas se referem à mesma mente, ambas se comunicam com a mesma mente e por isso não se sentem separadas, embora o estejam fisicamente.
Mas nós aqui nos sentimos realmente separados. Não sentimos que pertencemos a uma grande unidade. Sentimo-nos sós. Quantas vezes vocês já ouviram a frase “é possível estar sozinho dentro de uma multidão”? Na verdade, a iluminação significa o abandono de todo eu, então é impossível estar só daí em diante. É impossível sentir solidão. É impossível ter quaisquer desses sentimentos de que estávamos falando antes - superioridade, inferioridade, vingança, justiça. Qualquer coisa assim é impossível se houver percepção da nossa verdadeira natureza. Numa palestra, há algum tempo, eu disse que o eu possui ganchos, ganchos nos quais nós penduramos coisas - conceitos, nomes, cargos, títulos, noções de superioridade, inferioridade, raça, espécie. Eu sou homem, os outros seres não são homens. Aqueles que não são homens eu posso matar, não tem importância, eles não são da minha espécie.
(continua)
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Homens inquietos

Moriyamma Roshi
Pergunta – Gostaria que o Senhor falasse um pouco sobre a transformação da mente. Nesse processo existe sofrimento, porque algumas vezes, teoricamente, a gente sabe e entende, mas a grande questão - me corrija se estiver errada - é a prática, a convivência, a atitude da pessoa. Entre a teoria e a prática há um sofrimento de, talvez, querer e desejar chegar a esse ponto.
Monge Genshô – O simples fato de haver desejo - o desejo de se libertar - implica nesse sofrimento. Na realidade, todos os professores que eu conheci foram homens inquietos, com grandes desejos de se libertar que se entregaram a uma profunda e sofrida busca. Você tem toda a razão. Meu mestre, Moryama Roshi, ficou vinte anos dentro de um mosteiro e passou alguns anos, completamente sozinho nas montanhas, sem energia elétrica e tendo que carregar água. Ele costuma dizer que tomar banho era uma tarefa de três horas, pois tinha que carregar a água e fazer uma fogueira para aquecê-la. Nós estávamos em uma palestra e alguém perguntou a ele, “Mestre, o que o senhor aprendeu com tantos anos de retiro solitário?” ao que ele respondeu, “Bem, na primeira noite em que fiquei sozinho, na hora de dormir, eu não conseguia, porque sentia medo. Pensava que poderia ser surpreendido por um assaltante ou por um animal selvagem, visto estar em um local deserto, então, não conseguia dormir por medo. Depois desses anos sozinho, descobri que essa era a grande lição que tinha que aprender: eu tenho medo”.
Aluno – Eu queria entender um pouco a diferença entre esse estado de iluminação e o estado de adormecimento. Porque para vocês esse estado de iluminação, teoricamente, seria um estágio onde nada ocorre, onde a mente está obliterada, mas...
Monge Gensho – Eu acredito que essa visão não seja bem correta. Não se trata de uma obliteração da mente, em absoluto. Trata-se de um estado em que você tem clareza, ou seja, você pensa, raciocina e age, mas com clareza. Você vê claramente o resultado de suas ações, porque deve agir de determinada forma e toma decisões com clareza. A diferença da mente iluminada para a mente deludida é a clareza. Quando alguém está iluminado, sabe o que deve fazer, quando, como e de que maneira, sempre, limpidamente. Mas não significa que não aja no mundo, que não fale, que não lhe ocorram pensamentos; o que acontece é que estes não o levam de um lado para outro. Não é que não lhe surgem pensamentos, é que nenhum pensamento o arrasta. Se nós nos sentarmos e ficarmos com a mente completamente vazia, sem nenhum pensamento, Hui Neng, famoso mestre Zen do século sete depois de Cristo, chamaria isso de quietismo, e ficaria furioso. Vou lhes contar uma pequena historia Zen. Um monge chegou num mosteiro de um grande mestre Zen e pediu, “O senhor pode me ensinar, pode me aceitar?” “Pode ser - disse o mestre. “O que você já fez?” “Já treinei muito meditação, vou lhe mostrar”. Sentou-se rapidamente em posição de lótus com as pernas cruzadas e entrou, em segundos, em profundo samadhi. O mestre pegou um bastão e começou a surrá-lo expulsando-o do mosteiro e dizendo:”Budas de pedra já tenho muitos, nesse mosteiro”. Portanto, não é isso que é desejável, a libertação não é apagar-se, não é morrer, é outra coisa completamente diversa disso. A libertação tem dentro de si a ação, mas ação iluminada.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Ordenação monástica feminina no budismo
P: Qual o motivo da predominância masculina no budismo?
1) Nos tempos de Buda, foram admitidas as mulheres na ordem e ordenadas monjas, sendo pacífico não haver distinção entre mulheres e homens na capacidade de alcançar a iluminação. Embora seja fácil achar passagens sexistas em textos, a tese budista da igualdade dos seres não encoraja esta posição.
ex:
"A primeira monja foi Prajāpati. Khemā era a monja com mais sabedoria. Entre as monjas com mais poderes sobrenaturais, Uppalavannā era a maior. Nas regras de disciplina, Patacāra era a maior. Dhammadinnā era a maior na exposição dos ensinamentos. Em poderes meditativos, Nandā Sāvikā era a maior. Sonā era a maior no esforço. Em clarividência, Sakulā era a maior. Bhaddā Kundalakesā foi a mais rápida a atingir a realização. Bhaddā Kapilāni era a maior na lembraça de vidas passadas. Nos grandes poderes sobrenaturais, Bhaddā Kaccāna era a maior. Entre as que atingiram o poder superior, Kisāgotamī era a maior. Sigālamāta era a maior em devoção." (Dharmanet)
2) Criou-se uma linhagem de ordenação feminina, sendo sua primeira matriarca a tia de Buda, sua mãe adotiva. Esta linhagem foi prosseguindo até o sec 13 quando a invasão muçulmana que praticamente extinguiu o budismo na Índia deixou a sucessão feminina interrompida. Não sobreviveram mulheres que pudessem prosseguir a linhagem. Muitas linhagens masculinas também se extinguiram com o tempo, mas sobreviveram suficientes para o prosseguimento do budismo de ordenação em linha contínua até Buda.
3) Dois comportamentos então sucederam: escolas que daí em diante só ordenaram homens nas linhagens masculinas, tais como as do sul da Ásia, ficando as mulheres sem esta possibilidade, e escolas que passaram a ordenar mulheres em linhagens e com mestres homens tal como sucede com o zen até hoje.
4) O motivo da predominância masculina no budismo deve ser encontrável nas mesmas origens do que sucede nas atividades humanas normais,.(composição musical, pintura, matemática, filosofia etc...) sendo que no momento presente, no ocidente já encontramos mais mulheres ensinando o zen e famosas como mestras do que homens.
Assinar:
Postagens (Atom)












