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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

APENAS SENTE E ACEITE (Zazen Parte III)



Aluno – Eu só consigo meditar com olhos fechados, eu vou visualizando cores que vêm aleatórias e me concentro nas cores e nos sons...isto está errado?

Monge Genshô – Não é para se concentrar em nada. Isso não é zazen, ainda não é zazen. Você está vendo coisas, ilusões, e se concentrando nelas. Não é para se concentrar nas ilusões que surgem, mas na realidade tal como ela é. Então nós abrimos os olhos levemente, semicerrados para baixo, não focamos em nada, também é errado abrir os olhos e começar a olhar, procurar cavalinhos, elefantes, nas frestas da parede etc. Um bom exercício é olhar para a parede e não procurar ver nada, desligar, é só isso que existe, as coisas tais como são, na sua frente, não as coisas que você fabrica na sua mente. Onde estão as imagens que nós vemos nas nuvens? Na mente. 

Então você não tem que projetar as imagens da sua mente, procurar ver cores ou se concentrar em algo. Não é para se concentrar. Zazen não é concentração simples. Zazen é aceitar tudo que vem. Eu estou aqui olhando, mas estou ouvindo um pássaro lá fora. Eu aceito. Um carro subiu a ladeira. Eu aceito. Começou a chover. Eu aceito. Eu não julgo nada. Um mosquito veio, voou e me picou. Eu aceito (afinal de contas ele precisa comer). Se eu fizer isso, aceitar as coisas tais como elas se apresentam, eu estou treinando para a vida. Se eu fechar os olhos eu aumento as probabilidades de sair daqui deste lugar, porque eu quero ficar aqui, neste lugar, no presente. Com os olhos um pouco abertos, eu ainda estou aqui, vendo este local, que é a realidade. Eu quero aceitar a realidade, os sons reais, as coisas como são. Não julgá-los, não apreciá-los, não é para apreciar, é só para aceitar. Por isso meditação é com os olhos abertos, não é com os olhos fechados. Esqueça o objetivo de “me concentrar”. Sente e aceite. Só. Só exista. Uma árvore que está ali fora, passa o vento e ela balança. Ela aceita. Seja como a árvore, aceite os ventos.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Invisível para os olhos comuns


3) Imaginando que entrasse nessa sala agora um ser totalmente desperto, nós conseguiríamos perceber?

Monge Genshô – No século XX o cientista mais reconhecido talvez tenha sido Albert Einstein. Ele era uma pessoa brilhante desde criança, porém um de seus professores disse que ele não seria ninguém na vida, foi reprovado em um vestibular embora suas notas altas em exatas. Foi recusado como professor de física na Universidade de Berna porque não tinha diploma universitário, tinha apenas um diploma de técnico do curso que havia feito na Escola Politécnica de Zurique. Trabalhava no sistema de Patentes e era um funcionário de terceira classe. Em 1905, ainda como funcionário de terceira classe, escreveu cinco trabalhos e entre eles estava a “Teoria da Relatividade”, um artigo sem notas de referência a ninguém, um trabalho totalmente novo.

Descreveu também o “Efeito Foto Elétrico”, o Movimento Browniano onde explicava porque as partículas não param de se movimentar. Qualquer desses trabalhos era suficiente para ganhar o Prêmio Nobel, fato que aconteceu para o Efeito Foto Elétrico. Em 1917 ele escreveu a Teoria Geral da Relatividade. Antes de todos esses trabalhos ele não havia tido qualquer tipo de reconhecimento. Seu trabalho sobre a Teoria da Relatividade não recebeu o prêmio Nobel, pois não foi compreendida integralmente pela Academia Sueca que cogitaram a possibilidade de que ela estivesse incorreta, por isso ele recebeu o prêmio pelo Efeito Foto Elétrico, era algo que eles conseguiam entender.

Hans Kilian, famoso cirurgião alemão, conta em sua autobiografia que era um adolescente muito alto, acima do normal e seu professor de latim sempre o ridicularizava e o chamava de burro “sic longus, sic stultus” (tão alto, tão tolo). Quando pensamos no caminho espiritual, se eu lhe perguntasse se você concorda que Jesus Cristo foi um grande líder espiritual, o que você diria? Sim, não é? E o que fizeram os soldados romanos? Você acha que se eles vissem que ele era uma pessoa iluminada o teriam tratado daquela forma? Bodhidarma esteve frente a frente com o Imperador Wu, mas este não o reconheceu como um grande mestre, até que escreveu um poema que dizia: “Eu o vi, sem ver”.

Havia pessoas que chegavam a desafiar Buda e até quem tentasse matá-lo. Se ao olhar para uma pessoa fosse claro ou houvesse uma espécie de luz dourada em volta, isso não aconteceria.  Só consegue ver a iluminação quem é iluminado. Aos olhos de alguém que conseguiu uma realização espiritual, quando surge uma pessoa que também obteve uma realização, ele consegue perceber. As vezes a própria pessoa ainda não percebeu.

Saikawa Roshi uma vez me disse que estava na Espanha e durante uma entrevista encontrou uma pessoa iluminada. Ela sentou-se à sua frente no dokusan e lhe disse: “uma vez eu morri”. Através de uma série de perguntas ele pode confirmar que aquela pessoa havia despertado. O despertar precisa ser testado e só quem pode fazê-lo é quem sabe, quem já passou pela experiência. Muitas outras experiências também são assim, se você já amou e uma pessoa vem lhe falar de amor você imediatamente sabe do que ela está falando.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Como um homem na luz mas de olhos fechados


1) Nessa maneira como eu posso explicar a sensação de “deja-vu”?

Saikawa Roshi – O que você quer dizer com isso?

Aluno-  Essa sensação de que as coisas se repetem.

Saikawa Roshi – Elas parecem a mesma coisa, mas o momento que você sente essa experiência é esse momento.

2) Devemos buscar a iluminação ou não?

Saikawa Roshi – Sem dúvida. Porque estamos iluminados mas não vemos. (Como um homem na luz de olhos fechados). Porque originalmente estamos além de delusão e iluminação, mas sua atividade mental não concorda com essa experiência. Buda levou seis anos e nossos ancestrais praticaram duramente zazen. Dogen iluminou-se na China e voltou ao Japão onde fundou Eihei Ji, era uma pessoa muito inteligente e escreveu vários livros em chinês, livros muito, muito difíceis de escrever e entender. Quando Dogen tinha oito anos já havia lido difíceis livros de teoria Zen chineses. Uma vez monge, estudou Sutras e mesmo assim não estava satisfeito, pois isso era um entendimento mental e esse entendimento mental é baseado nos opostos.

A realidade estava além destes dois lados, bom ou ruim, certo ou errado, por isso ele precisava experimentar, precisava da experiência. Isso é chamado de iluminação num pequeno sentido, mas no grande sentido ele já era iluminado, além disso ou daquilo, dentro e fora, vida e morte. Mas até que você realmente veja a realidade antes de começar a atividade mental, você nunca estará satisfeito, você precisa dessa experiência.

3) A compreensão da parte filosófica do Budismo é bastante fácil e compreensível para quem se esforça. A grande dificuldade é quebrar os condicionamentos da mente e dos atos, de sua prática diária.

Saikawa Roshi – Porque vivemos num modo dualista. Algumas pessoas pensam que a mente é o corpo. Na vida diária temos que identificar e entender as coisas. É muito fácil ser fisgado, apanhado pela mente. Do ponto de vista de Shakyamuni Buda, quero salvar os seres, mas, não posso encontrá-los, mas no ponto de vista de nossa vida prática, mesmo Shakyamuni e Bodidharma tiveram dificuldades para atingir a iluminação e permaneceram no caminho da prática. Tornar-se presente na vida diária é muito difícil.

4)  E o zazen é a forma de prática, é o caminho da prática?

Saikawa Roshi – Sim. É a maneira de ver o self e de salvar o self.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Uma bola de ferro incandescente para ser engolida



Em um famoso diálogo Zen, o aluno chega para o Mestre e pergunta: “O que o senhor tem para me oferecer no Dharma?”, e o Mestre responde: “gostaria muito de lhe oferecer algo, mas no Dharma só há uma bola de ferro incandescente para ser engolida”. Essa bola é: “Você que tanto se ama não passa de uma ilusão de sua mente”.

Se você deseja despertar como o Buda, tem que acordar do sonho. Por isso Sidharta Gautama era um homem comum que quando desperta passa a chamar-se Buda, “o desperto”. Como ele era um homem comum como todos nós, todos temos a mesma capacidade de despertar. Aquele que acorda livra-se instantaneamente de toda dor, ilusão e sofrimento.

Nós construímos essa individualidade e nos agarramos à ela. Olhos iluminados vêem a vida e dizem “Que linda”. Alguns podem pensar que existem pessoas morrendo e sofrendo no mundo e que isso é trágico, mas eu lhes pergunto se as florestas são trágicas? Há nesse momento folhas e árvores morrendo nas florestas, existe tragédia nesse acontecimento? Não, não é mesmo? Olhamos as florestas e não lamentamos os troncos e folhas mortas. Essas folhas se transformarão em húmus e os troncos caídos e mortos servirão de abrigo e morada para outros seres vivos. Vemos todos esses fenômenos que ocorrem nas florestas como naturais e pensamos, “Que maravilha que é a natureza”. Porque não temos a mesma visão sobre a vida dos homens? Porque a vemos com olhos iludidos. Essa é a essência do Budismo, desculpem-me se isso parece terrível.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Com os olhos abertos



Mas voltando ao tema inicial, construímos o sofrimento e fazemos os votos de Bodhisatva não apenas para escapar do sofrimento, mas para diminuir o sofrimento de todos os seres, mas isso pode ser um caminho bem complexo, cheio de idas e vindas e temos que aceitar com tranquilidade o fato de que existe mudança. Essa pessoa que me disse que o sofrimento que existia “desapareceu”, simplesmente ela está dizendo que, quando frente à um problema, ela pensa e só depois resolve, e aí lhe perguntam: “Mas você não vai reagir?” ao passo que ela responde: “Depois eu resolvo, agora vou dormir”.

Se você conseguir dormir frente à um grande problema, fico muito feliz com esse fruto da prática, sinal que você aprendeu a comer a frutinha vermelha, doce, e depois vai pensar no tigre lá embaixo, afinal de contas ele é inevitável, completamente inevitável. Já estou no precipício, a vida é um precipício. Melhor ainda se for capaz de saltar com os olhos abertos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sonhos



Pergunta – Gostaria que o senhor comentasse um pouco sobre os sonhos. Como e se os sonhos podem ser usados como uma ferramenta. Desculpe se não tem muito a ver com o assunto abordado hoje.

Monge Genshô – Como que não tem a ver? Os sonhos são produzidos pelos conteúdos de nossa mente, cheios de simbolismos muito explicados pela psicanálise. Mas nada muda com relação ao que os budistas e os mestres já haviam analisado há muito tempo sobre os sonhos. Nas experiências meditativas temos muitas experiências com sonhos. Já tive a experiência de passar a noite acordado em meditação sem dormir. No fim você só consegue sentar por quinze minutos, levanta, anda um pouco, senta novamente por mais quinze minutos. E as vezes quando sentado você instantaneamente sonha. Abre os olhos para voltar ao momento presente, fecha os olhos e novamente sonha. O cansaço é muito forte.

Essa não é uma prática do Soto Zen. É uma prática da Escola Son (zen coreano). Muitas vezes os sonhos podem nos dar respostas porque usam a linguagem do inconsciente. Sentado em Zazen você entra em frequências cerebrais que pertencem aos sonhos de modo que consciente e inconsciente se misturam e você tem acesso à profundidade de sua mente. Os sonhos são provocados com aquilo com que você alimenta sua mente. Se você tem medo de perder seus filhos, poderá sonhar que eles são sequestrados ou com sua morte. Se tem medo de ser roubado, sonha com roubo. Tem desejos sensuais, sonhará com eles. Tudo que você possui dentro de você aparece livremente nos sonhos. O que devemos fazer? Apenas observa-los e reconhecer que é dessa forma. Sem culpas ou remorsos, apenas reconhecer que tem medo, raiva, desejos, que é como todos os outros seres humanos.

Posso mudar os sonhos? Claro. Se você pratica o Dharma e fala dele, você acaba sonhando com o Dharma. Já tive muitos sonhos com o Dharma e acordei extremamente feliz. No sonho eu agi como eu penso que se deva agir. No momento do conflito fui pacificador. No momento da morte fui tranquilo e feliz. Que maravilha, se você tem  um sonho Dharmico, sua prática está funcionando!Se você tiver absoluta e plena liberdade seu sonho será o próprio paraíso.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Que assim seja



Somente depois de desistirmos de ter um eu próprio é que podemos estar libertos. Como usamos olhos de eu para olhar as coisas, é necessário tirar esses olhos e colocar os olhos de Buda para olhar o mundo como ele é. Esse mundo que é visível com os olhos de Buda é o nirvana, é este mesmo, não é outro lugar, é aqui. Então toda a infelicidade e insatisfação que temos no mundo e em tudo que fazemos, só tem um lugar de origem, nossa mente. É essa mente que gera tudo isso. E nós temos a capacidade, a habilidade de, mudando nossas qualidades mentais, mudar esse mundo inteiro completamente.

Por isso que dizemos no zen, “quando um homem se ilumina o universo inteiro se ilumina”, o universo dele, aquele que ele olha, não existe mais nada que não seja iluminado naquele universo, porque ele pode ver as coisas como realmente são e não as coisas como nós acalentamos. Então a pura felicidade já está presente e disponível, aqui e agora, nesse momento, nas próprias coisas que fazemos. Nos nossos trabalhos, nas nossas viagens, nos relacionamentos a pura felicidade já está aqui. Só não a percebemos porque temos um mente que não aceita com tranqüilidade absoluta.

Eu estava lendo um ensinamento de um famoso mestre chinês que morreu com 101 anos e ele recomendou à uma mulher apenas uma coisa, que dissesse para tudo que acontecesse, que assim seja. E ela então começou dizer “assim seja” para todas as coisas. Para a morte do marido, para a morte do filho, para cada coisa que aconteceu. E ao dizer “assim seja” aceitando tudo plenamente, sem nenhuma reação, sem nenhum sentimento de oposição, com perfeita equanimidade mental, ela atingiu a iluminação, atingiu a completa libertação. A libertação estava disponível, só era necessário mudar sua mente para uma mente de pura aceitação, que podia aceitar todas as coisas tais quais elas se apresentam. Aceitar as coisas tal como se apresentem é uma maneira de transformar o samsara em nirvana. Isso não significa, em absoluto, não agir no mundo, significa sim, agir no mundo, por que não? Agimos no mundo da maneira correta apenas, vendo o mundo como ele é e tentando agir no mundo tranquilamente, da melhor maneira. Vivenciando o mundo e reagindo ao mundo com a mente mais tranqüila possível, com a melhor aceitação possível, só então nós treinamos a nossa mente. Esse treinamento começa na meditação, por isso na meditação sentamos e podemos fazer muitas coisas. Simplesmente sentar e ouvir os sons do mundo, e aceitar os sons do mundo tais como eles se apresentam, sem nenhuma reação de bom, ruim, certo, errado, gosto, não gosto, aceitar completamente tudo que acontece enquanto estamos sentados respirando.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Abrindo os olhos



Pergunta – Como a meditação ajuda no despertar. O que difere o sentar do ficar quieto?

Monge Genshô – Boa pergunta. Se você sentar e ficar quieto, mas sua mente continuar funcionando, você continua no sonho. Se você sentar e for apagando com a imobilidade do corpo, todas as informações para a mente, como a sua noção de ter um corpo, começam a diminuir as percepções e a atividade mental. Seus pensamentos começam a esmorecer e suas memórias, no momento de samadhi - de concentração - desaparecem. Nada mais surge. 

Quando nada mais surge, você está presente e ouve os sons do presente, como o canto dos pássaros, os carros que passam, o rumor do seu coração. Percebe-se, em seguida, uma sensação de grande contentamento, pois toda agitação desapareceu. Esse é o primeiro passo da meditação, e é preciso ir além, cada vez mais profundamente. Por isso estou colocando no site uma palestra antiga sobre os dez passos do boi, que narra os dez passos da iluminação. 

O que acontece? Como é que se faz? A meditação é a maneira para conseguirmos nos libertar dessas noções, pois elas são alimentadas pelo funcionamento da mente. A noção de um “eu” é produzida pelas formações mentais. É tudo muito simples, mas é bastante difícil. Na verdade, não é nenhum grande segredo, mas a dificuldade de executar é muito grande. Sentar-se, esquecer-se de todo o passado, não alimentar nada, nem uma memória, não seguir nada, não ir para futuro, estar aqui e agora, o que não significa não pensar, mas, sim, pensar além do pensar em não pensar. 

Quando você estiver, aproximadamente, metade do tempo do zazen numa situação assim, experiências significativas começarão a ocorrer. Não são mágicas, mas são extraordinárias e lhe permitem criar uma outra visão, uma outra sabedoria. Todo mundo muda e todo o mundo se altera. Não porque o mundo mudou, mas porque seus olhos se abriram verdadeiramente. É isso.

Fim

Palestra decupada da gravação por Ápio San e revisada por Eleonora San.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Terra da Plenitude


Foto do último sesshin de iniciantes em Florianópolis.



"Ó Saiichi, onde fica a tua Terra da Plenitude?
Minha Terra da Plenitude fica aqui mesmo.
E onde fica a fronteira
Entre este mundo e a Terra da Plenitude?
Os olhos são a fronteira."

Asahara Saiichi

Lembro aos praticantes zen budistas próximos à Florianópolis que o sesshin de iniciantes, (retiro), do próximo fim de semana, é o último que dirigirei este ano de 2010, vejam cartaz na postagem do dia 2 de novembro. O sesshin de iniciantes é especialmente programado para facilitar a prática para os que nunca fizeram longos períodos de meditação.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dedicação


A Comunidade Zen Budista de Florianópolis convida à todos a participarem da Cerimônia de Dedicação da Sede de sua Comunidade, situada na Praça Getúlio Vargas, 126, (praça dos bombeiros) no centro de Florianópolis, com a presença do mestre zen Saikawa Roshi. Será nesta quinta feira (22/07) às 19:30h, quando o mestre fará uma palestra e realizará a "Cerimônia de Abertura dos Olhos da estátua de Buda".

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Olhos Vagabundos


A COMPLICADA ARTE DE VER
Rubem Alves

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria!

Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de
estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.

De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas.
Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro:
'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca.
Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.

Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.

"Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram".

Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas,eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática.
Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.

Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.

Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar
para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão
seria partejar "olhos vagabundos"...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Mokugyô



O mokugyô é um instrumento que marca o ritmo de recitações em chinês arcaico, tem um som de madeira oca e pode ser bem grande e produzir um tom grave. Tem a aparência externa de uma cabeça de peixe, porque um peixe mantem sempre os olhos abertos.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Tu tens um medo


Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que és eterno.

Cecília Meirelles

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sempre sentamos no Soto Zen em frente a paredes?



Nem sempre...muitos monges no passado não tinham paredes disponíveis em suas peregrinações, Buddha, em sua iluminação, tinha o solo e as estrelas à sua frente, no momento de seu despertar via a estrela da manhã, uma boa confirmação do metodo de meditar zen de olhos abertos.
Um famoso mestre zen disse que um bom lugar era uma ponte com muitas pessoas passando, mas isso é para mestres, iniciantes precisam começar com o mínimo de estímulos. Em geral a natureza pode ser um bom lugar e grandemente inspirador.