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quarta-feira, 27 de maio de 2015

O PAPEL DO ZEN (Parte I)



Muitas vezes surgem questionamentos de qual é o papel do Zen realmente, na Escola Soto Zen budista. Então nós temos que compreender um aspecto interessante, de que o Zen surgiu na China, dentro de uma sociedade, vindo da Índia, trazido por Bodhidarma, por volta do ano 527 d.C., e a China já era um país budista, onde o budismo estava presente há 500 anos e, naquele momento, era um país predominantemente budista. O próprio imperador se considerava budista.

Então nós perguntaríamos:  “o que faz o Zen quando surge nessa sociedade budista? Como é que o Zen se comporta?”. O Zen tinha a característica de ter Mestres que estavam procurando pessoas que demandassem a iluminação. Bodhidharma queria alunos que demandassem a iluminação. Muitas vezes eu já repeti a história de Bodhidharma e do imperador Wu. Bodhidharma se apresenta à frente do imperador Wu, chamado pelo imperador, que ouviu falar que um grande Mestre budista havia chegado da Índia, lugar de onde era originário o budismo. Chegando à frente do imperador Wu, este pergunta: “'eu, imperador, construí muitos templos e mosteiros para o budismo, que méritos eu acumulei nos céus por ter feito isso?”. E Bodhidharma responde: “mérito nenhum, majestade”. Aí a majestade não gosta muito da resposta e diz: “'Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?”. E Bodhidharma responde: “vazio ilimitado, essa é a grande verdade”.

O que ele quer dizer? Nenhuma coisa tem um EU inerente, não existe nada que seja um eu no mundo, nada que seja realmente separado. “Vazio ilimitado. E não há nada que possa ser chamado de sagrado”. É uma resposta muito interessante, não há nada que possa ser chamado de sagrado. Tudo é sagrado. Se tudo é uno, tudo é sagrado. Não há nada separado do sagrado, isso é sagrado, aquilo é profano. Isso é divisão na cabeça dos homens. Tudo é sagrado. O imperador não entende a resposta e pergunta: “Então quem é que eu tenho na minha frente?”. E Bodhidharma responde, “não faço a menor ideia”. O que é uma resposta coerente com a primeira, ele diz, “eu não faço a menor ideia de quem está na sua frente porque eu não sou separado, eu não posso nomear a mim de maneira tal a me distinguir do resto, se eu fizer isso estarei elaborando um engano”. É isso que Bodhidharma responde.

Aí Bodhidharma sai, atravessa o rio e vai pra Shaolin, interna-se numa caverna e diz-se que ficou 9 anos fazendo zazen. E muitos apareceram lá querendo aprender com aquele grande e famoso mestre que tinha respondido para o imperador, deixado o imperador confuso. Aí Bodhidharma não dá atenção pra nenhum deles, e eles quando veem aquilo vão embora, até que Taiso Eka vai até lá e fica na frente da caverna sem desistir durante 3 dias. No terceiro dia neva, a neve cobre os pés de Eka, que fica desesperado, já com fome, sede, e agora frio excruciante, ele corta o braço pra mostrar sua sinceridade, pra jurar pelo seu sangue. Vendo seu sangue cair na neve, Bodhidharma vai até ele e pergunta: “muito bem, o que é que você quer”? E Eka diz. “minha alma não tem paz, por favor pacifica minha alma”. E Bodhidharma responde, “me mostra tua alma e eu a pacificarei”.

Eka não consegue resposta nenhuma, não consegue encontrar sua alma. E Bodhidharma diz: “pronto, já pacifiquei a tua alma”. Tendo passado por toda aquela angústia, desespero, ter chegado até lá, disposto a aprender com um Mestre, depois de tudo aquilo que Eka tinha passado, quando Bodhidharma dá essa resposta pra ele, ele desperta das ilusões, descobre que ele não tem uma alma, sente-se uno com todas as coisas, compreende o que Bodhidharma estava querendo dizer. E assim Eka fica como discípulo de Bodhidharma e ele é nosso 27º patriarca da linhagem. Bodhidharma é o 26º e Taiso Eka Daioshô, grande mestre, o 27º. E nós descendemos dessa linhagem de ensinamento.

Por causa disso, e seguindo essa tradição, nós não tratamos os alunos muito bem, eles vêm aqui desejando ser muito bem tratados e a gente senta eles de frente pra parede. O aluno chega, faz zazen. Se ele não vai embora, é bem-vindo. Esse é o gosto, é o sabor do Zen. Depois de ter passado isso então ele pode assistir a uma palestra. Mas se ele tivesse ido embora não poderia ouvir nenhuma palestra, porque primeiro o aluno tem que passar por algo. Não foram 3 dias do lado de fora sem comer nem beber, não nevou.... não precisou cortar o braço. Taiso Eka é representado sem um dos braços. A história, o mito em si, provavelmente Taiso Eka não cortou o braço, cortou o braço pra fazer juramento de sangue, ou seja, deu um talho no braço pra mostrar seu sangue, pra mostrar sinceridade, antigamente se dizia: “juro pelo meu sangue”. Então o mito amplifica as histórias, mas o mito conta pra nós o espírito do Zen. (continua)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Professores e Mestres, Alunos e Discípulos

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, "Tendô Nyojo", e então ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com Tendô Nyojo por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. Então, o problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia esse problema e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres antigos". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Então nós temos que olhar com cuidado. Tem um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". 

É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido. Não vai mais ser discutido. Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Porque ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não tem uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganando, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".

É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu fiquei na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu Mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que escolher, silente, não resistente e obediente. Não dá para gente ficar lutando com aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Ó, tem um bocado de músicos, né. Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Friedrich, Seu Frederico, disse que em um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que o professor que está ensinando.


Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu em Florianópolis de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não tem condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a vinte anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram vinte anos treinando? Eles não discutem mais. "Porque tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. O Mestre disse que é assim, limpa o prato com o pão e come o pão.