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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Nadando contra a corrente


Quando Joshu, aos 116 anos morreu, os discípulos chegaram ao lado dele e disseram: “Mestre nos diga alguma coisa”, e ele - “eu já disse tudo”. Mas um discípulo continuou: “não, mas nos deixe alguma coisa”, e o Mestre disse: “a vida é um sonho”. Cento e dezesseis anos é muito tempo para alguém morrer lúcido, como aconteceu com Joshu, ele é um recordista entre os Mestres Zen. O nosso  superior da ordem que morreu em 2008, Miyazaki Roshi, morreu  com 108, ele trabalhou até 30 dias antes de morrer. 

Esse negócio de ficar sentado de frente para a parede, fazer regime, pensando em termos de vida de Monge Zen, fazendo meditação, acaba não apenas você vivendo mais, como também a vida parece mais comprida, porque é o oposto do que chamam de “se distrair ou se divertir”, que é ouvir música alta, se embriagar, se drogar ou qualquer coisa assim. 

Acaba sendo o contrário, pois para se obter clareza e lucidez, sentamos em meditação. Por isso no Zen dizemos que estamos aqui em busca da clareza e da lucidez, de compreensão, então não usamos nada que altere a consciência. Tudo o que aumente a consciência é o que nós estamos buscando, e acaba sendo distinto do que o mundo procura e chama entretenimento.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Mente em Movimento


Dois homens estavam discutindo sobre uma flâmula que tremulava ao vento:

- É o vento que realmente está se movendo! Declarou o primeiro.

- Não, obviamente é a flâmula que se move! Contestou o segundo.

Um mestre Zen, que por acaso passava perto, ouviu a discussão e os interrompeu dizendo:

- Nem a flâmula nem o vento estão se movendo, disse, "É a MENTE que se move.


Conto Zen


segunda-feira, 15 de junho de 2015

SOBRE O SILÊNCIO


Eu queria falar um pouco sobre o silêncio. É notório que durante um sesshin se peça para que as pessoas, os praticantes, mantenham o silêncio. Evidentemente, como se pode ver, às vezes as pessoas responsáveis pela organização precisam conversar um pouquinho, sussurrando. Mas aos praticantes, nós pedimos que mantenham o silêncio. A prática Zen – a prática de Buddha – propõe o silêncio em pensamentos palavras e atos. Mas o que seria o silêncio, nesse sentido? Obviamente o conceito nos leva a entender que silêncio é não fazer barulho. Mas esse é um aspecto, digamos, secundário do processo. O aspecto principal é fazer com que as pessoas aos poucos consigam compreender o valor da autorregulação, da autoconsciência, da introspecção. 

Eu não sei quantos aqui tiveram a oportunidade de conhecer o Reverendo Mestre Dōshō Saikawa, o líder da tradição Zen SotoShu na América Latina, um grande mestre Zen. Saikawa Rōshi é um exemplo muito bom, na minha opinião, de uma pessoa que se mantém silenciosa mesmo quando está falando e fazendo coisas. Por quê? Porque as ações e as palavras realizadas por uma pessoa assim, parecem silenciosas. Elas têm uma espécie de força interior, que nos induz a calar e prestar atenção. A forma de expressão de pessoas tão centradas como o Mestre Dōshō Saikawa, têm em si um aspecto que nos chama à reflexão, que nos chama à observação. Ficamos silenciosos para aprender a observar melhor. 

Nós não observamos bem. Nós não percebemos bem a nós mesmos e uns aos outros. Não temos consciência clara do que fazemos, falamos, pensamos. O obstáculo que nos impede de perceber as coisas claramente, no âmbito da mente, é o “Egoísmo”. O egoísmo é uma endemia mental, uma doença endêmica, um fenômeno de artificialização de necessidades, prioridades, e compreensão do mundo, que nos torna cegos para os aspectos saudáveis da vida. Os maiores males do mundo são derivados do egoísmo. 

Eu afirmo: não existe um único mal, em nenhum aspecto da natureza humana, que não seja derivado do egoísmo. No retiro, quando alguém lhes pede o silêncio, a pessoa que assim o faz esforça-se para ajuda-los a perceber melhor o egoísmo agindo em vocês. Sendo assim, compreendam a si mesmos. Reconheçam-se. E, através da prática, com o tempo, aprendam a transformar e curar o egoísmo.   

Eu sei que ninguém gosta de ser chamado de egoísta. É uma palavra forte e às vezes, a pessoa têm boas intenções, bons motivos, e pensa: “eu não sou egoísta! ”. Mas somos todos egoístas. Realmente, a questão fundamental sobre a natureza do egoísmo em nossas mentes condicionadas é de nível. Alguns são mais egoístas, outros são menos egoístas. A prática não é uma disputa, não é uma disputa para saber quem é mais ou menos egoísta. A prática é de profunda auto-observação para aprender a reconhecer em nossos pensamentos, nossas palavras e nossos atos qual é o nível do nosso egoísmo. 

Apontar o egoísmo alheio é muito fácil. Reconhecer e aceitar o nosso egoísmo e pedir desculpas por isso, trabalhar para que isso seja superado, é mais difícil. Quando eu digo que todos nós somos egoístas eu não quero de maneira nenhuma que durante a prática alguém se sinta culpado, ou fique paranoico. Eu estou apenas estabelecendo um fato relacionado a natureza do fenômeno da mente, segundo os ensinos de Buddha. Estamos aqui juntos. As ações e as práticas são feitas por todos juntos, unidos. Então uma forma muito boa de vocês começarem a trabalhar o silêncio é reconhecerem os aspectos egoístas. Nas palavras do mestre Thich Nhat Hanh, precisamos pensar assim: “o que eu estou fazendo ou deixando de fazer para favorecer as pessoas que estão praticando comigo? Para ajudar as pessoas que estão praticando comigo? Para não tirar tempo delas? Para não as atrapalhar? ”. Se todos nós pensarmos assim, não vamos nos sentir atrapalhados, incomodados, todos nós vamos realmente praticar juntos. 

Trecho de palestra realizada no Sesshin de Goiânia, em maio de 2015, por Monge Komyô

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Professores e Mestres, Alunos e Discípulos

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, "Tendô Nyojo", e então ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com Tendô Nyojo por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. Então, o problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia esse problema e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres antigos". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Então nós temos que olhar com cuidado. Tem um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". 

É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido. Não vai mais ser discutido. Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Porque ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não tem uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganando, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".

É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu fiquei na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu Mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que escolher, silente, não resistente e obediente. Não dá para gente ficar lutando com aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Ó, tem um bocado de músicos, né. Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Friedrich, Seu Frederico, disse que em um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que o professor que está ensinando.


Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu em Florianópolis de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não tem condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a vinte anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram vinte anos treinando? Eles não discutem mais. "Porque tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. O Mestre disse que é assim, limpa o prato com o pão e come o pão. 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Charlotte Joko Beck - Últimos dias



Muitos leram seus livros, por exemplo o best seller "Sempre Zen", agora esta grande professora do Zen americano está em seus últimos dias, abaixo a tradução de trechos de uma carta escrita por sua filha e publicada no blog de Monja Elihu Genmyo Smith, também renomada mestre zen.

De Brenda.

Minha mãe, Joko, está agora no hospital e eu não espero que ela viva mais do que uma ou duas semanas. Eu a coloquei no hospice (hospital para pacientes terminais) porque ela não estava comendo e perdia peso. Sei que ela é completamente feliz. Ela tem que estar na sua cama de hospital e ninguém diz que ela tem que se levantar e andar a cada hora. Ninguém está pedindo a ela para comer. Agora, ela vai ter porções no café, e talvez algo nas demais refeições e comer todo o seu sorvete de baunilha com calda de chocolate. Ela é feliz como um animalzinho, como ela me disse, irá morrer quando estiver pronta. Ela diz que é cedo.
Se você gostaria de visitá-la, há algumas orientações. Por favor, ligue o seu número de casa e peça ao cuidador (Robin, Olivia, Cari ou Diane) se não há problema em visitar e estabelecer um tempo. (O cuidador irá verificar com Joko.) Quando você visitá-la, um pouco de conversa é bom, mas a maior parte do tempo é só para estar com ela. Além disso, se seu cuidador lhe pedir para sair ou qualquer outra coisa, por favor, sei que eles têm a melhor das intenções.
......................

Como vocês sabem, minha mãe ama a todos vocês e queremos acomodar tantos visitantes como possível, desde que ela possa recebê-los. Mais uma vez, sei que ela está bastante contente e sem qualquer sofrimento.
Perguntei-lhe se ela tinha algum palavras para este e-mail e ela disse para você descobrir por si mesma.
Obrigado e amor a todos vocês.
Brenda


Tradução M. Genshô

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O boi que Issan retirou


Emerson Ricardo Zamprogno escreveu:

Palestra do Sôkan (Saikawa Roshi) no Tenzui Zendô: Ele nos apresentou o caso de um mestre chamado Issan e seu discípulo, do qual me esqueci o nome (alguém pode me ajudar?). Ele disse que a introdução desse caso compara um bom mestre a uma pessoa que tira o boi de uma família que depende dele para arar a terra e assim garantir seu sustento. Ou ainda a uma pessoa que retira a comida de uma pessoa que está morrendo de fome, e ainda lhe sufoca a garganta com as mãos. "Pode existir um mestre assim tão rígido?", ele nos perguntou. - Sim, ele mesmo respondeu, que Issan era assim.
Depois ele desenvolveu uma belíssima palestra nos mostrando como esse "boi", ou esse "alimento", dos quais dependemos para sobreviver, são as palavras que
usamos para estabelecer nossos conceitos. Ele contou como um bom mestre como Issan consegue retirar esse "apoio" de seu discípulo e qual a conseqüência disso.
Nos falou do tempo e da eternidade.
No entanto ele terminou a palestra de uma maneira um tanto,digamos,enigmática.
:-) Ele finalizou dizendo,"há um problema nisso tudo... isso pode nos levar a
crer que palavras e pensamentos são algo ruim, no entanto, é tudo o que possuímos" e deu uma risadinha.
Depois da dedicação de méritos, olhou pra monja Coen e disse, "posso ir?", e entraram para tomar chá... :-)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Genpo Roshi


Genpo Roshi encaminha-se para dar uma de suas aulas aos alunos do Angô de certificação de professores em Yokoji, 2010.

"Genpo Roshi é formado em educação pela University of Southern California e ordenou-se monge Zen em 1973. Recebeu Inka – o selo final de aprovação como um Mestre Zen – em 1996, tornando-se assim um dos poucos ocidentais reconhecidos como Mestre das tradições Zen Soto e Rinzai. Em 1982 Genpo Roshi começou a ensinar pela Europa e fundou a Kanzeon Sangha, uma comunidade Zen com sede em Salt Lake, com centros na França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Polónia, Inglaterra e Malta. É igualmente presidente da White Plum Asanga, uma comunidade que compreende todos os sucessores de Taizan Maezumi Roshi.

Em 1999 desenvolveu o Big Mind Process, um método directo e poderoso para mudar a perspectiva de uma visão egoísta limitada para uma perspectiva sem ego. Genpo Roshi escreveu cinco livros: The Eye Never Sleeps, Striking to the Heart of Zen; Beyond Sanity and Madness, The Way of Zen Master Dogen; 24/7 Dharma, Impermanence, No-Self, Nirvana; The Path of the Human Being e Big Mind, Big Heart."
(Blog Bigmind)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O mestre Zen, Daigaku Rumme

Zen Priest, Daigaku Rumme, disusses Zen and the Zazen practice. from Kevin Mullin on Vimeo.

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O mestre Zen, Daigaku Rumme, descreve o Zen como uma técnica e uma prática. Mestre Rumme, ligado a tradição Soto zen, ensinou no Angô anual de certificação de professores organizado pela SotoShu, treinamento para o qual são selecionados anualmente de 15 a 20 monges do ocidente, fluente também em japonês, trabalhou como tradutor e permaneceu semanas conosco, ele explica sobre a realidade oculta que transcende passado , presente e futuro. Como disse Dōgen Zenji, o mestre que trouxe o zen Soto da China para o Japão no século 13, "Toda pessoa está amplamente tomada pelo Dharma, mas sem prática ele não se manifestará."

A meditação zen é o coração da prática. Mestre Rumme descreve zazen como sentar quietamente sem um objetivo, "sente esquecendo que você está sentado", acrescenta, "não é algo fácil de se fazer." A meta do zazen é "eliminar o senso de separação que percebemos entre nós e o que estamos fazendo ou qualquer objeto que haja em nossa consciência".