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terça-feira, 19 de junho de 2018

A modificação das heranças culturais



Pergunta: O senhor se referiu a nossa mitologia e a diferença de comportamento dos brasileiros em relação aos japoneses, isto quer dizer que não há como mudar nossa conduta ?

Monge Genshô: De modo algum, tudo é sempre alterável, vivemos e somos herdeiros de uma cultura sempre em mutação, o Japão, que em alguns pontos é admirável em outros não o é, temos folclore diverso mas no Japão também há seres trapaceiros nos mitos, o que ocorreu é que nas ilhas nipônicas, cheias de corrupção, assaltantes e ronins criminosos, nos idos de 1600, houve uma mudança e o comportamento geral se alterou.
Da mesma forma isto pode suceder no Brasil, a esperteza pode ser substituída pela dignidade e honra. Como apontei é o investimento nas mentes e na educação que pode modificar nossa atual situação que nos faz ter representantes políticos que envergonham a nação. Não é um destino inelutável, os japoneses como seres humanos não são diversos dos brasileiros, ocorre que imersos em uma cultura que se reciclou e foi profundamente influenciada por princípios budistas, criaram um país diferente e educam diversamente. Nós podemos fazer a mesma coisa, basta mudar as mentes, não somos escravos dos mitos, assim como eles foram modificando seus mitos mais antigos e incorporaram e deixaram crescer as noções dos bodisatvas, de consideração e compaixão com os outros, podemos fazer o mesmo.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

As Grades Mentais



Os chineses poderiam ter colonizado as Américas por volta de 1.400, pois eles tinham navios muito maiores e melhores que os navios europeus. Todavia, o imperador da China decidiu que não queria fazer essas explorações para o mundo exterior, porque a China era o império do centro, então de que adiantaria o contato com os bárbaros? Em meados do século XIX, a Terra estava coberta de ferrovias, e os Estados Unidos tinham sido atravessados da costa leste à costa oeste por ferrovias. A China, então, construiu, em 1885, uma ferrovia com 25 quilômetros. No ano seguinte, o imperador mandou destruir, porque para ele as coisas novas os iriam atrapalhar. 

Se não fossem por essas ideias, por essas grades mentais do povo chinês de outrora, provavelmente seríamos descendentes de chineses e eu estaria falando em mandarim agora com vocês. O que aconteceu foi que Portugal pensava diferente e não quis acreditar nos mitos horríveis  que existiam naquela época sobre essas viagens, de modo que descobriram novos territórios, expandiram o mundo e conquistaram territórios. 

Aquilo que você acredita, aquilo que você pensa é mais importante. Esse conceito é muito importante para nós, porque como nós pensamos a vida vai fazer toda a diferença, não só para nós mesmos, como também para nossos familiares e pessoas que têm contato conosco.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O PAPEL DO ZEN (Parte I)



Muitas vezes surgem questionamentos de qual é o papel do Zen realmente, na Escola Soto Zen budista. Então nós temos que compreender um aspecto interessante, de que o Zen surgiu na China, dentro de uma sociedade, vindo da Índia, trazido por Bodhidarma, por volta do ano 527 d.C., e a China já era um país budista, onde o budismo estava presente há 500 anos e, naquele momento, era um país predominantemente budista. O próprio imperador se considerava budista.

Então nós perguntaríamos:  “o que faz o Zen quando surge nessa sociedade budista? Como é que o Zen se comporta?”. O Zen tinha a característica de ter Mestres que estavam procurando pessoas que demandassem a iluminação. Bodhidharma queria alunos que demandassem a iluminação. Muitas vezes eu já repeti a história de Bodhidharma e do imperador Wu. Bodhidharma se apresenta à frente do imperador Wu, chamado pelo imperador, que ouviu falar que um grande Mestre budista havia chegado da Índia, lugar de onde era originário o budismo. Chegando à frente do imperador Wu, este pergunta: “'eu, imperador, construí muitos templos e mosteiros para o budismo, que méritos eu acumulei nos céus por ter feito isso?”. E Bodhidharma responde: “mérito nenhum, majestade”. Aí a majestade não gosta muito da resposta e diz: “'Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?”. E Bodhidharma responde: “vazio ilimitado, essa é a grande verdade”.

O que ele quer dizer? Nenhuma coisa tem um EU inerente, não existe nada que seja um eu no mundo, nada que seja realmente separado. “Vazio ilimitado. E não há nada que possa ser chamado de sagrado”. É uma resposta muito interessante, não há nada que possa ser chamado de sagrado. Tudo é sagrado. Se tudo é uno, tudo é sagrado. Não há nada separado do sagrado, isso é sagrado, aquilo é profano. Isso é divisão na cabeça dos homens. Tudo é sagrado. O imperador não entende a resposta e pergunta: “Então quem é que eu tenho na minha frente?”. E Bodhidharma responde, “não faço a menor ideia”. O que é uma resposta coerente com a primeira, ele diz, “eu não faço a menor ideia de quem está na sua frente porque eu não sou separado, eu não posso nomear a mim de maneira tal a me distinguir do resto, se eu fizer isso estarei elaborando um engano”. É isso que Bodhidharma responde.

Aí Bodhidharma sai, atravessa o rio e vai pra Shaolin, interna-se numa caverna e diz-se que ficou 9 anos fazendo zazen. E muitos apareceram lá querendo aprender com aquele grande e famoso mestre que tinha respondido para o imperador, deixado o imperador confuso. Aí Bodhidharma não dá atenção pra nenhum deles, e eles quando veem aquilo vão embora, até que Taiso Eka vai até lá e fica na frente da caverna sem desistir durante 3 dias. No terceiro dia neva, a neve cobre os pés de Eka, que fica desesperado, já com fome, sede, e agora frio excruciante, ele corta o braço pra mostrar sua sinceridade, pra jurar pelo seu sangue. Vendo seu sangue cair na neve, Bodhidharma vai até ele e pergunta: “muito bem, o que é que você quer”? E Eka diz. “minha alma não tem paz, por favor pacifica minha alma”. E Bodhidharma responde, “me mostra tua alma e eu a pacificarei”.

Eka não consegue resposta nenhuma, não consegue encontrar sua alma. E Bodhidharma diz: “pronto, já pacifiquei a tua alma”. Tendo passado por toda aquela angústia, desespero, ter chegado até lá, disposto a aprender com um Mestre, depois de tudo aquilo que Eka tinha passado, quando Bodhidharma dá essa resposta pra ele, ele desperta das ilusões, descobre que ele não tem uma alma, sente-se uno com todas as coisas, compreende o que Bodhidharma estava querendo dizer. E assim Eka fica como discípulo de Bodhidharma e ele é nosso 27º patriarca da linhagem. Bodhidharma é o 26º e Taiso Eka Daioshô, grande mestre, o 27º. E nós descendemos dessa linhagem de ensinamento.

Por causa disso, e seguindo essa tradição, nós não tratamos os alunos muito bem, eles vêm aqui desejando ser muito bem tratados e a gente senta eles de frente pra parede. O aluno chega, faz zazen. Se ele não vai embora, é bem-vindo. Esse é o gosto, é o sabor do Zen. Depois de ter passado isso então ele pode assistir a uma palestra. Mas se ele tivesse ido embora não poderia ouvir nenhuma palestra, porque primeiro o aluno tem que passar por algo. Não foram 3 dias do lado de fora sem comer nem beber, não nevou.... não precisou cortar o braço. Taiso Eka é representado sem um dos braços. A história, o mito em si, provavelmente Taiso Eka não cortou o braço, cortou o braço pra fazer juramento de sangue, ou seja, deu um talho no braço pra mostrar seu sangue, pra mostrar sinceridade, antigamente se dizia: “juro pelo meu sangue”. Então o mito amplifica as histórias, mas o mito conta pra nós o espírito do Zen. (continua)

terça-feira, 7 de maio de 2013

O fruto da árvore da ciência do bem e do mal



Pergunta – Mas por que a gente faz isso, se é nossa natureza, por que fazemos isso...a gente vê os pássaros, estão ali, simplesmente sendo, parecem tão livres, tão felizes em harmonia...

Monge Genshô – É que eles não conhecem a ilusão.

Pergunta – E quando começamos a fazer isso?

Monge Genshô – Quando começamos a ter consciência de nós mesmos. Quando dissemos “eu sou”. Saikawa Roshi diz, “Os pássaros são verdadeiramente pássaros, os peixes são verdadeiramente peixes, somente os homens não são verdadeiramente homens”.

Pergunta – Talvez a grande pergunta seja, “o que foi a maçã?”. Quando o homem decidiu, “não quero mais viver no paraíso”.

Monge Genshô – Esse mito que está na Bíblia é esclarecedor. A Bíblia não fala numa maçã, na verdade o Gênesis fala da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Se formos traduzir para palavras budistas diríamos que o homem tomou do fruto do pensamento e dividiu o mundo em pedaços com sua mente dual, colocou de um lado o bem e outro o mal, tomou conhecimento da dualidade, você aí e eu aqui, certo e errado, o pecado e a virtude e quando fez isso se perdeu e foi expulso do paraíso, na porta um anjo com uma espada flamejante para que não pudesse retornar.

Por algum motivo, no rumo da história, transformaram popularmente isso numa desobediência ou num fruto prazeroso. Mas o que está escrito no Gênesis é a Árvore da Ciência do Bem e do Mal e a serpente que antigamente era considerada um símbolo da sabedoria diz à Eva, “se tomardes desse fruto, sereis como os Deuses”, virou então um símbolo do demônio.  Os Deuses na mitologia budista também estão perdidos, também acreditam no bem e no mal, também acreditam no prazer, no nascimento e na morte, também estão perdidos. Na mitologia budista os Deuses vivem muito, tem vida muito prazerosa, porem grande dificuldade em ouvir o Dharma. Por isso também envelhecem e morrem, decaem e nascem como homens, Deuses caídos.

Pergunta – essa tentação porque passou Eva, pode ser comparada às filhas de Mara?

Monge Genshô – Os mitos não são verdades, os mitos são metáforas. Mara e suas filhas representam os desejos que nos chamam, as tentações. Aqueles que levam as pessoas para a festa. O que leva as pessoas para as festas? A sensualidade, desejos de sensações, embriaguez, os prazeres, o esquecimento. As filhas de Mara representam isso, as tentações. Quando Buda está para se iluminar, as filhas de Mara vem até ele, na realidade esse mito significa o que? Que você senta para meditar na busca de esclarecimento, de clareza de escapar do sofrimento. Daí apresentam-se para você os desejos sensuais, o desejo de conforto, desejo de ir pra cama e esticar as pernas, de comer melhor, todas essas coisas são as filhas de Mara. O mergulho na sensualidade leva a perda da clareza, esse é um problema básico, por que para distanciar-se disso você precisa distanciar-se de si mesmo, de seu próprio corpo, por isso os monges no começo eram convidados a meditar em cemitérios para verem os corpos se decomporem. Dessa forma ter mais clareza do que era vida, os monges não podiam ter companheiras, casar, ter filhos, casas, posses, nem guardar comida para o dia seguinte, era uma tentativa radical de distanciar o homem de seu próprio corpo.

Tentamos fazer isso no sesshin, comer pouco, dormir pouco, nenhum prazer sensual, mas temos ainda muito conforto. Pode parecer que não, mas é muito conforto. As vezes as pessoas perguntam, “por que no tempo de Buda tantos se iluminavam?” É só olhar o treinamento que eles tinham. Não é de se admirar que a iluminação fosse mais frequente. Nosso desafio é maior, porque na prática somos todos leigos, não somos como os monges do tempo de Buda. Não somos como Mahakasyapa que nunca se deitava para dormir. Vivemos vidas confortáveis, é muito mais difícil. Por outro lado ficamos pensando nisso “É difícil demais despertar e escapar dessa roda com essa vida que levamos”. Mesmo assim é possível.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Atravessar o primeiro portal



O portal a nossa frente começa, assim, a abrir-se. Uma pequena fresta poderá nos mostrar a luz do outro lado da porta, nossa intenção é atravessar o portal, mas só o faremos se o merecermos. Não existe um ritual, uma roupa ou mestre que possa abrir o portal para você. Só você pode passar o portal. E esse portal implica não em um engrandecimento pessoal, mas em um apagar da consciência pessoal para integrar-se à dimensão suprema. Para enxergar a dimensão suprema. O resultado disso é abandonar toda a dimensão histórica, quem perde a dimensão histórica e penetra na dimensão suprema não nasce nem morre mais, porque ele engoliu a eternidade.

Pergunta – Me veio a mente a famosa frase de Descartes, “Penso, logo existo”, o senhor poderia falar um pouco sobre essa frase sob o ponto de vista budista?

Monge Genshô – Esse é na verdade o erro de Descartes. “Cogito, ergo sum”. Assim ele começa seu Discurso do Método. Descartes queria transformar tudo em plena lógica e raciocínio. Então à pergunta, “como sei que existo?”, ele responde, “penso, logo existo”. Do ponto de vista do Zen a frase estaria mais correta dessa forma, “penso, logo, penso”, apenas porque penso, a única coisa que posso dizer de quem pensa é que pensa, do ponto de vista do Zen, porque ele pensa ele pensa que existe, a frase de Descartes cristaliza a ilusão. Ele não percebeu que pensar é que constrói a noção de um eu. Porque eu percebo ouço e vejo, porque eu penso, então eu acredito em mim. Essa é nossa verdadeira tragédia. Porque ao fazer isso e acreditarmos em nós mesmos, perdemos a dimensão suprema, porque acreditarmos em nós mesmos é a perdição do homem. Ela está oculta em muitos mitos e metáforas. Na tradição judaico-cristã o homem come, no paraíso, do fruto de uma árvore. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Nesse mito a metáfora é que para o homem perder-se do paraíso ele toma consciência da dualidade e começa a pensar, porque o pensamento é dual, é dessa forma que ele funciona, bem e mal, certo e errado, gosto e não gosto, direita e esquerda, toda nossa linguagem é construída dessa forma, em pares de opostos.

Quando o homem começa a mergulhar nessa questão, ele deixa de ser o Adão do Éden, é expulso do paraíso e para que não retorne é colocado um anjo na porta com uma espada flamejante. Por que ele não pode ficar? Porque ele começou a pensar a dualidade. Tornou-se, como diz o Gênesis, como os deuses, conhecedor do bem e do mal. Na mitologia Budista os deuses estão perdidos, os deuses não estão libertos, eles acreditam em si mesmos. Alguns se crêem tão poderosos que acreditam que criaram mundos. Nessa dimensão tudo passa pela ilusão de acreditar em sua separação e perder-se da dimensão suprema. A libertação é retornar, abandonar o pensamento dual, o raciocínio, a distinção, bem e mal, gosto e não gosto e retornar para a dimensão suprema.

(Final da palestra em sesshin de 7 de setembro 2012, realizada pelo Rev. Genshô e decupada da gravação por Chudo San.)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Mitos sobre o expressar e sobre os mestres



Pergunta – Me intriga essa questão...O senhor deu o exemplo da internet, dos meios de comunicação, que são um canal para esse tipo de abertura...Sempre pensei que o que fica trancado, proibido, um dia aparece. O melhor exercício seria sofrer as conseqüências do ato de falar. Me parece que essa possibilidade de expressar é positiva...

Monge Genshô – É uma excelente pergunta. Existe uma escola psicológica que diz que se você não se expressar isso fica guardado dentro de você e isso lhe fará mal. Do ponto de vista budista essa escola está errada. Se você tiver raiva, e expressar essa raiva, ele não diminuirá, quando você a expressa e fala sobre ela você a alimenta, coloca energia nela e com isso ela torna-se mais forte.

Podem observar as pessoas que começam a discutir. Um diz uma coisa, o outro diz outra, o primeiro retruca. Não é a lei da ação e reação, que diz que a cada ação corresponde uma reação de igual força e sentido contrário. Isso nos relacionamentos humanos não funciona. Nos relacionamentos a cada ação corresponde uma reação duplicada, triplicada, quadriplicada, etc. todos sabemos que é assim, todos nós já discutimos.

Experimente quando alguém começar a lhe insultar, não dizer nada, ou melhor, experimente dizer, por favor, fale mais, que preciso mesmo escutar isso tudo. Se não for alimentada com oposição, os cartuchos acabam. Todo mundo tem experiência de família e sabe instintivamente que isso é verdade. Difícil é ficar quieto, não responder. Mas a melhor maneira de retirar a força de uma discussão é não se opor.

Eu posso falar enfaticamente, não é verdade que colocar para fora é bom. Em termos de relacionamento humano o melhor seria você ir até o fundo de uma floresta e insultasse as pedras, as árvores e esvaziar-se...Mas em lugar de você esvaziar-se, do ponto de vista budista, seria ainda melhor você sentar e imaginar a situação e a transformar numa situação de amor, afeto, perdão e compaixão. Deveríamos pensar, “isso não é assim, não é proposital, há um motivo para as pessoas agirem dessa forma, essa pessoa fez muitas coisas no passado que a levam a agir dessa forma comigo hoje, mas eu não devo alimentar”.

Os professores do dharma sofrem com isso freqüentemente. É frequente em conversas entre professores descobrirmos que todos temos os mesmos problemas com alunos que o veneram em um momento e no momento seguinte se transformam em seu maior inimigo. Isso acontece porque existe uma idealização do professor como um homem perfeito, um ser maravilhoso em seu manto de monge, cheio de sabedoria. Eles o julgam sem defeitos, choram em sua frente emocionados.

Mas a sua primeira falta real ou imaginária, tomados por sentimentos de desilusão e raiva, muitas vezes tentarão voltar toda a comunidade contra o professor, dizendo que ele não era o ser perfeito que todos imaginavam. O problema está justamente aí, o ser perfeito estava em sua mente.

Diferentes escolas têm diferentes atitudes. Nas escolas tibetanas há um ditado que diz, “More dois vales distantes de seu mestre”. Na escola Zen o professor senta no mesmo nível dos alunos, não senta em um trono. Cada vez que um aluno o procura dizendo sentir raiva e perder a paciência frequentemente, ele responde que também tem os mesmos sentimentos. Os problemas de todas as pessoas também estão presentes na vida do professor, ele também é homem. É um milagre que ele consiga andar mais ou menos reto. É uma coisa maravilhosa que minha esposa consiga sentar ao meu lado para ouvir palestras e praticar zazen. Ninguém no mundo me conhece mais profundamente do que ela. Ela sabe quando fico irritado, quando perco a paciência, sabe de minhas dores, ela está comigo há muitos anos. Ela sabe o quão humano eu sou. O fato de ela vir praticar sabendo de tudo é realmente maravilhoso.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Verdade, ciência, budismo


Algumas observações:
Talvez o problema esteja em se supor que existe uma "verdade", (mesmo para o zen em si, nada pode ser declarado do tipo " tenho a verdade", embora alguns budistas fiquem tão convictos de sua escola e conhecimentos que querem impor a outros suas interpretações particulares ou de sua escola) um dos grandes benefícios do método científico foi partir do princípio de que o que a ciência faz é descrever aproximações cada vez mais acuradas dos eventos de maneira a que possam ser criticados por novas observações e assim aperfeiçoados constantemente, isto cria um problema que também aparece várias vezes nos textos que foram postados na lista, o de que a ciência provaria alguma coisa, o que ela pode fazer é provar que uma determinada tese é, a luz das observações possíveis até o momento, bastante acurada, mas certa ou definitivamente provada seria um contrasenso científico, pois isto impediria um novo e mais profundo aperfeiçoamento e ampliado conhecimento.
Seria perigoso que o budismo estivesse alinhado com a ciência de "hoje", e com a de amanhã? O budismo não tem este compromisso, transitou pela história, felizmente, sem defender uma visão em particular e assim evitou este conflito, seu campo de atuação é outro e posso, como budista, descartar qualquer visão particular que tenha algum mestre budista, descrições míticas nada mais são do que isto, e os textos budistas estão cheios de interpolações, os sutras cresceram impressionantemente de tradução em tradução, cada escola acrescentando o que lhe aprouvesse, e muito do que é atribuído a Buda não sobrevive a uma exegese, boa razão para o zen enfatizar a conexão direta e entender os textos como a útil sabedoria "dos outros", Abhidharma, que são comentários com muitas versões diferentes, dependendo da escola, incluso.
Quanto a este assunto Ken Wilber (adorado por uns e detestado por outros) propõe que certos métodos simplesmente não se aplicam a certos temas, por exemplo, o método científico da anatomia é excelente dentro de seu objetivo, porém se aplicado ao estudo da consciência ou do amor é inútil, a maior parte do que se lê de estudos sobre o funcionamento cerebral na meditação tem a profundidade da observação de que os amantes dilatam suas pupilas quando veêm o ser amado, ora, dizer que esta verificação explica o amor é quase uma grosseria, é um fato interessante, mas do âmbito da fisiologia, deve ser usado para estudar a manifestação da emoção em fisiologia, mas não para estudar o amor, coisa que passaria ao quadrante de estudo da psicologia talvez.
Assim o estudo da religião em si está em um quadrante diferente do da ciência exata, é interessante ver suas interconexões mas a teoria dos quadrantes descarta a possibilidade de que , em algum tempo, instrumentos pouco sutis possam examinar o que é pura sutileza. Nada disto descarta a ciência e seus siddhis (poderes) maravilhosos é só que o budismo em si está transitando em outro terreno, o próprio Dalai Lama (como o Rev. Wagner observou, respeitado líder de algumas escolas budistas, não de todas...) usou a afirmação de que se a ciência provasse a inexistência de renascimentos ele aceitaria, mas, ao que me lembre, observou a seguir que duvidava que este tipo de prova fosse acessível ao método científico.
Pessoalmente penso que a questão sequer se coloca, e que o âmbito da ciência tem limites naturais de investigação, do mesmo modo que existem os problemas matemáticos indecidíveis.
Outra coisa: a declaração de que o zen está além dos textos é tradicional, porém acharemos inúmeros textos de mestres zen, livros , estudos etc... a declaração se refere a transmissão última, mas não descarta o estudo, vamos achar em Dogen Zenji, a afirmação de que o estudo dos sutras é essencial à prática. Frequentemente estas declarações sobre o zen são contraditórias e precisam ser lidas em seu contexto, elas formam um quadro completo em que pode-se ver, sim, que o estudo dos textos é necessário, em outras ocasiões um obstáculo e que a transmissão em si está separada de tudo isto, mas que dificilmente alguém chega a ela sem passar pelos passos preliminares. Ou seja, com estudo não se vai longe, mas sem estudo não se vai a lugar algum.
Genshô

(Resposta na lista budismo no ano de 2005)

terça-feira, 17 de julho de 2007

O que pensar da história de Buddha tendo uma dor de cabeça por ter, em outra manifestação, maltratado um peixe?

Esta história serve para ilustrar que Buddha também está sujeito ao carma. É útil para ensinar isto, se você não precisa destas coisas porque se importar? Nosso modelo de apreciação não necessita ser imposto aos demais, cada um tem sua forma de aprender. Tolerância e equanimidade são as palavras aí. Mitos são linguagem para o inconsciente, bom instrumento. Quanta a verdade ela é múltipla, depende do âmbito de aplicação.