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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Professores e Mestres, Alunos e Discípulos

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, "Tendô Nyojo", e então ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com Tendô Nyojo por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. Então, o problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia esse problema e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres antigos". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Então nós temos que olhar com cuidado. Tem um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". 

É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido. Não vai mais ser discutido. Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Porque ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não tem uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganando, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".

É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu fiquei na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu Mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que escolher, silente, não resistente e obediente. Não dá para gente ficar lutando com aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Ó, tem um bocado de músicos, né. Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Friedrich, Seu Frederico, disse que em um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que o professor que está ensinando.


Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu em Florianópolis de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não tem condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a vinte anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram vinte anos treinando? Eles não discutem mais. "Porque tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. O Mestre disse que é assim, limpa o prato com o pão e come o pão. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A conduta do discípulo


É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, (visitar a comunidade budista) você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que aceitar, silente, não resistente e obediente. Não dá para o mestre ficar lutando com o aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Oh, tem um bocado de músicos! Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando eu era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Frederico Richter, ele disse que em um trecho de um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que a que o professor  está ensinando...

Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não há condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a quarenta anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram quarenta anos treinando? Eles não discutem mais. "Por que tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. Professor disse que é assim, limpe o prato com o pão e coma o pão.

Quando a gente come com oryoki, a gente lava o oryoki com  água quente no final, passando de uma tigela para outra e depois, bebe. "Mas vou beber a água que lavei a tigela?" Só beba, não pergunte nada. Depois você vai descobrir, vai olhar e dizer: "eu comi e de tudo que comi, não sobrou nada, não foi nada para o lixo, nada foi poluir a natureza". Se todo mundo comesse assim, como seria? Seria completamente diferente. Isto são as questões da prática, da relação com o mestre e da questão da prática que é a iluminação. Quando vocês ouvirem "a prática é a iluminação", está certo, mas não confundam: a prática não é a iluminação. (Final da palestra de Monge Genshô, abre para perguntas)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Aluno não é discípulo

                   Mestre raspa os últimos fios de cabelo em cerimônia de ordenação de monge

A relação professor/aluno é uma relação de certa maneira simples. É a relação que temos nesse momento. Admitimos que haja um professor dando uma aula e nós o ouvimos. Não significa uma escolha profunda, mas uma situação momentânea que acontece nas escolas, nas universidades e em “n” situações.

Podemos ouvir o professor com bastante reserva e não somos obrigados a aceitar nada. Uma relação mestre/discípulo, não é uma relação professor/aluno, ela é, no Zen, uma relação em que escolhemos alguém para ser nosso mestre na vida e essa escolha deve demorar, não deve ser apressada.

Normalmente os alunos visitam vários lugares, ouvem diferentes pessoas até encontrar um local onde se sentem conectados, se sentem bem, sentem que aquele lugar fala ao seu coração, que aquele professor específicamente está falando ao seu coração. Depois de um tempo bastante variável, pode ser que se estabeleça uma relação mestre/discípulo e nessa relação não existe uma atitude crítica e sim uma aceitação ampla daquilo que esta sendo ensinado, com um mínimo de resistência.

Três características definem o discípulo, silente, obediente e não resistente. Significa, eu ouço e fecho minha boca, sou silencioso, mesmo que eu não concorde, fecho minha boca na esperança de que mais tarde eu entenda aquele ensinamento, agora não entendo, mas não protesto, fico silente. Obediente, o mestre diz, “Faça isso!”, eu vou e faço, não importa se parece coerente ou não. As vezes os mestres pedem coisas que parecem sem sentido, por exemplo, “limpe essa sala”, e você olha e a sala está imaculadamente limpa, mas você vai lá limpar. Significa que não protesto nem penso se tem sentido ou não fazer aquela prática que o mestre está me pedindo.

 Em algumas escolas o mestre pode dizer ao seu discípulo, ”faça cem mil prostrações” isso significa que terei que fazer no mínimo cem prostrações por dia durante três anos para poder acumular as cem mil prostrações. O discípulo não contesta isso, ele simplesmente assume a tarefa. Existem histórias de mestres do passado mandando o discípulo construir uma torre e depois de pronta, desmontá-la, e depois construa a torre novamente. Numa célebre história isso acontece oito vezes.

Isso não é exclusivo do budismo, nos monastérios cristãos também existem esses tipos de práticas. Está chovendo e o Abade ordena aos monges que vão regar o jardim. É preciso ter plena consciência do que é obediência não resistente para pegar o regador e ir na chuva regar o jardim. Evidentemente todos podem se dar conta que tem que haver absoluta confiança na relação mestre/discípulo para se fazer esse tipo de prática, porque ela, dentro de si mesma, tem riscos.

Normalmente no Zen as instruções são de práticas gerais, ou seja, todos os dias levantamos num horário determinado, como acontece num sesshin, vinte minutos depois sentados para fazer zazen. São instruções de prática ritual, “faça assim!”, não há um espaço para questionamentos do tipo, “Por quê quando o professor passa atrás eu faço gasshô?”. Você tem que descobrir sozinho.

Uma vez eu estava no mosteiro e passou o mestre atrás e por acaso naquele instante eu pensava em outra coisa, como minha mente viajou, ele passou, eu ouvi o ruído dos chinelos, mas não fiz gasshô. Ele simplesmente tocou no meu ombro e continuou adiante. No mesmo instante, percebi, ele sabe que embora aqui sentado imóvel de frente para a parede, estou distraído. Ele tocou no meu ombro para me dizer, “Volte para cá!”.

Então, a forma do Zen nos dá muitas informações. Nós podemos ficar atrás dos alunos e saber, por exemplo, ele está entrando na sala, e entra com o pé direito, posso saber facilmente através desse pequeno ato, “Ele não está atento!” e isso se repetirá em todos os momentos, na maneira de comer, na maneira de sentar, na maneira de andar, cada pequeno gesto, como está o mudra, podemos saber muito apenas observando o aluno. Na relação mestre/discípulo, a obediência ocupa um lugar central, porque exige o abandono do pensamento centrado em si mesmo, seu ego.

(Os posts são trechos de palestras de Monge Genshô decupadas da gravação por Chudô San e revisadas por Rachel San)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Professor e Mestre


Akiba Roshi, como mestre em Angô, Yokoji 2010.

P: Qual a diferença entre professor e mestre no zen?

R: Podemos ouvir o professor com bastante reserva e não somos obrigados a aceitar nada. Uma relação mestre/discípulo, não é uma relação professor/aluno, ela é, no Zen, uma relação em que escolhemos alguém para ser nosso mestre na vida e essa escolha deve demorar, não deve ser apressada. Normalmente os alunos visitam vários lugares, ouvem diferentes pessoas até encontrar um local onde se sentem conectados, se sentem bem, sentem que aquele lugar fala ao seu coração, que aquele professor especificamente está falando ao seu coração. Depois de um tempo bastante variável, pode ser que se estabeleça uma relação mestre/discípulo e nessa relação não existe
uma atitude crítica e sim uma aceitação ampla daquilo que está sendo ensinado, com um
mínimo de resistência. Três características definem o discípulo, silente, obediente e não resistente,dize-se Sunae este conjunto de atitudes que fazem o discípulo. Significa, eu ouço e fecho minha boca, sou silencioso, mesmo que eu não concorde,
fecho minha boca na esperança de que mais tarde eu entenda aquele ensinamento, agora não entendo, mas não protesto, fico silente.
(continua)