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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O mundo é o mesmo a diferença é o olhar


Pergunta – Antes da manifestação na forma, haveria além do carma, a consciência?

Monge Genshô – O que chamamos de “consciência” é a onda cármica se movimentando. Não estamos falando de consciência de um “eu”. Esse é o problema da palavra consciência, precisaria existir outra palavra. Eu prefiro a expressão “manifestação cármica” ou “onda cármica”. Não há um “eu” e sim movimento, e é esse movimento que gera uma identidade. Porque você não se lembra do passado? Porque não há memória, pois a onda cármica não carrega a memória da vida passada.

Teoricamente tudo no universo está registrado e mantido, porque o universo sendo uma manifestação do que aconteceu antes, é ele próprio o registro do passado. Quando olhamos a Terra sabemos que aqui já viveram dinossauros, que houve períodos gelados, chuva de meteoros etc., podemos saber disso tudo, pois tudo está registrado no evento presente que contém o passado. Esse passado pode, então, ser acessado, mas não carregado como uma memória por uma manifestação cármica.

Pergunta – Isso me fez lembrar a palestra de ontem onde o senhor falava sobre o gás e o explorador e de que ao comermos o arroz, toda a história do universo está ali. É esse acesso que Buda teve, ou seja, conseguiu ver além da forma e do vazio?

Monge Genshô – Sim, existe na Escola Yogacara o conceito de “Alaya Vijnana”, que é a consciência depósito do universo. Se você conseguir acessar essa consciência, terá acesso a suas vidas anteriores. Porém está lá e não em você. Você terá o acesso a esse arquivo que você mesmo é parte. Não há nada de milagroso dizer que alguém possa recordar suas quinhentas manifestações anteriores. Dentro desse raciocínio não. Mas repetindo, essas coisas não são dogmas ou artigos de fé, são elaborações teóricas construídas pelos filósofos Budistas ao longo de milênios. Eles tinham que construir uma filosofia em cima de uma não-crença, sem um criador ou coisas desse tipo.

Pergunta – Ainda sim tudo isso é uma teoria.

Monge Genshô – Exato, faz parte da filosofia Budista. Cada escola Budista tem um arcabouço diferente. A Escola Yogacara, que influenciou muito o Zen, vai ao extremo de dizer que tudo não passa de consciência, é minha consciência quem cria a realidade, cria essa mesa e essa xícara, mas no Zen essa idéia não foi adotada nesse nível. Essa xícara existe independente de mim, mesmo que eu desapareça, a xícara continuará aqui. A única coisa que posso dizer é que a xícara deixará de ser uma xícara, ela poderá ter todas as características de xícara, porém se não existirem os seres que a vejam como tal, um recipiente para bebidas com uma alça, ela deixa de ser xícara, será apenas um pedaço de cerâmica.

Se olharmos as coisas sem nossa consciência não sabemos sua finalidade. Uma xícara só é uma xícara porque tem uma função de xícara que nós lhe damos. Vamos supor que toda a civilização desaparecesse do planeta Terra e seres de outro planeta aqui chegassem. Vamos imaginar o relatório desses cientistas visitantes: “existiam seres que habitavam pequenas casas e a julgar pelo tamanho dessas moradias esses habitantes tinham uma altura que variava entre um metro e setenta a dois metros. Porém encontramos edifícios maiores nos centros com portas de mais de dez metros de altura. Isso pode significar que existiam outros seres maiores, que moravam nos centros, eram importantes, pois moravam em casas maiores e especiais e eram muito maiores que a maioria da população”.

Nós que sabemos a função das catedrais temos outra leitura. Do ponto de vista do Zen, nós construímos nossa interpretação e percepção das coisas com a nossa mente, mas as coisas existem independentemente de nossa mente, o que muda é nossa interpretação e esta depende da mente. Por isso pela mesma mente uma pessoa pode andar nesse mundo e julgá-lo um lugar maravilhoso e outra pessoa no mesmo caminho e no mesmo lugar ver todas as coisas como horríveis e sem sentido.

O mundo é o mesmo, o que é diferente é a mente das pessoas. O que estamos fazendo quando praticamos zazen? Treinando para mudar a mente, pois mudando a mente mudamos o mundo, foi isso que Shakyamuni Buda disse: “Que maravilha, eu a grande Terra e todos os seres nesse momento atingimos a iluminação”. Tudo mudou porque o olhar dele mudou. Temos que tirar nossos olhos deludidos e colocar os olhos de Buda e passar a ver o mundo de outra forma, uma coisa que era obscura e sem sentido, transforma-se em algo maravilhoso e profundo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Budismo - Religião ou Filosofia ?


Compreendendo Melhor o Ensinamento do Buddha
Buddhismo é uma religião ou uma filosofia? Essa é uma pergunta que freqüentemente se escuta. Se por "religião" entendermos um conjunto de dogmas e "verdades" já prontas que devem ser cega e inquestionavelmente observadas e acreditadas, então, o Buddhismo não é uma religião.

Ou, se entendermos religião como um conjunto de rituais, cerimônias e cultos, assim também o Buddhismo não é religião. Por outro lado, se por "filosofia" entendermos a atividade da razão e lógica humanas, ou o estudo do produto desta atividade "racional", então, ele não é uma filosofia.

O Buddhismo é o fruto de uma percepção superior e aprofundada da realidade, percebida e experimentada por sábios do passado, seguida e confirmada por experiência própria por outros sábios que os seguiram, e confirmável também, por experiência própria, por todos aqueles que se disponham a seguir alguns dos caminhos por ele apontados com o genuíno amor pelo saber superior (filo-sofia) e com o sincero anseio por religar-se consigo mesmo e com o fundamento último de toda a natureza (religião vem do latim religare). Somente neste sentido podemos falar que é uma religião e uma filosofia.

A partir disto podemos seguir para a pergunta seguinte: qual o propósito do Buddhismo? Podemos responder a partir de vários níveis. Falando do objetivo mais alto, podemos dizer que é a Iluminação e a Libertação. Estas duas palavras são como irmãs no Buddhismo.

Iluminação é a visão clara da realidade ou de sua essência. É a realidade interior de cada um de nós, como também a realidade externa na medida em que nos relacionamos com ela. Não significa conhecer "tudo" em um sentido quantitativo. Por exemplo, saber o número de galáxias no espaço ou o nome de todos os órgãos e conjuntos musculares do corpo humano, não é "saber" para o Buddhismo, mas mero acúmulo de informações. Interessa,aqui, a qualidade. O que é de fato essencial ou fundamental para a vida, desde a vida cotidiana até as suas dimensões mais profundas.

O Caminho Contemplativo
Prof. Ricardo Sasaki