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terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Sati, o esforço
(Palestra em sesshin, Goiânia, outubro 2014)
Monge Kômyô: Nós estamos percebendo que a prática tem ficado mais difícil na medida em que o tempo, o dia vai passando né? Ainda que o retiro sob a ótica da tradição dos Sesshins Zen está bastante leve. Mas eu compreendo que naturalmente, a sequência de zazens exige do corpo e da mente. Isso é compreensível, é natural, eu peço a todos que mantenham um aspecto importante na pratica que é sati, o esforço, não desistam, mesmo que estejam com dificuldades se arrumem, procurem se colocar de uma maneira melhor, mas confiem que mesmo que pareça que vocês não estejam fazendo nada, quer dizer que, a dor ou a distração seja muito grande e você pensa: “eu não estou conseguindo praticar”, isso aqui não serve para qualquer coisa, não é verdade!
Existe uma qualidade na experiência contemplativa que é, podemos dizer assim, de acúmulo de consciência. Tudo depende da intenção. Se temos uma intenção firme, a despeito de problemas ou limitações, nós estaremos experimentando um acúmulo de consciência, mesmo que não seja claramente perceptível. Eu comecei a praticar e a minha introdução ao zazen foi muito novo, eu tinha em torno de 16 a 17 anos, isso foi no inicio dos anos 80 e naquele período eu estava muito empolgado em começar a fazer o zazen porque eu achava que ia conseguir desenvolver poderes paranormais, estou falando sério, que eu ia sair do corpo, fazer viagem astral, desenvolver a capacidade de telepatia. Eu estava muito empolgado para praticar meditação Zen. E o que veio foi uma dor nas costas muito grande, isso sim. Era uma dor ardência e, com toda honestidade, naqueles primeiros períodos, era a experiência que eu tinha. Era como se as minhas costas estivessem literalmente pegando fogo. Era muito difícil! Isso não durou alguns meses, foram anos.
Na verdade eu nunca pensei em parar, mas a experiência da dor era muito intensa. Mas depois de uns, eu não me lembro direito, talvez entre 3 e 5 anos, eu não me lembro depois de prática, ocorreu um evento, banal, mas que me deu um insight, despertou em mim uma das minhas primeiras aprendizagem do Zen. Na aprendizagem prática eu estava lá no zazen, minhas costas estavam em fogo e brasa, e em determinado momento pousou no meu braço um mosquito. E o que ocorreu foi que no momento que o mosquito pousou no meu braço ele começou picar, a dor nas costas acabou na hora e agora o problema era o mosquito. Não tinha mais dor nenhuma nas minhas costas. A minha encrenca agora era com o mosquito! Nesse momento eu tive uma grande percepção. Não de que o nosso corpo tem limites, quando a gente entra em certos limites do corpo, e ele responde demonstrando a exigência, mas a questão não é essa, a questão é que grande parte da experiência de desconforto, por mais que possa não parecer, está na mente. A mente exacerba aquilo que já é físico. A partir daquele ponto eu consegui superar o desconforto nas costas de tal maneira que hoje em dia, já há alguns anos depois daquela época, eu poderia ficar em zazen durante horas e horas. Eu simplesmente não sinto mais dores nas costas. O máximo que eu sinto hoje em dia se for um grau para ficar muito tempo, sei lá, mais de uma hora ou uma hora e pouco, é um pouco de dormência, às vezes, na perna. Evidentemente, existem pessoas com problemas físicos graves, problemas no joelho, problemas na coluna, que precisam lidar com a prática de maneira mais adequada, e como eu falei hoje de manhã, essa é minha experiência, apenas estou compartilhando com vocês. Vocês todos, cada um de vocês, tenham as suas próprias experiências. Mas o que eu quero chamar atenção é que embora apareça impossível, não é impossível! Embora pareça que vocês estejam realizando nada, vocês não estão realizando nada. Vocês estão conseguindo obter mais potencial de consciência, simplesmente mantendo sati, o esforço. (continua)
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Desistir de aparentar
P: Uma vez li um livro sobre meditação que falava sobre as dores. E se referia a certas dores como “dor Dharma”, porque essa dor de alguma forma desata alguns nós. Isso é assim para o Zen?
Monge Genshô – Tradicionalmente, muitos mestres já declararam isso, nenhum caminho para a iluminação é tão rápido quanto o do sofrimento. O sofrimento físico é útil, vocês irão reparar isso no final do sesshin, mesmo com o aparente sofrimento, fica uma sensação boa. Lembro-me bem do Lucas, o Seigaku San, em seu primeiro retiro, ao final ele dizia: “foi horrível, horrível”. De alguma forma interessante, há anos seguidos ele continua vindo aos sesshins, embora tenha sido horrível a primeira experiência. Mas existe o sofrimento emocional, muitas vezes, isso é frequente, talvez alguns já tenham passado por isso no sesshin, angústia, dor emocional, remorso, culpa, muitas coisas do passado retornam, essa é uma grande oportunidade de saber de onde vem isso, porque estou sentindo, qual a origem? Esse sofrimento psicológico vale a pena, você está sozinho de frente para a parede, não há ninguém para enganar, desculpar-se. Os que são psicólogos sabem quanto esforço as pessoas fazem para enganar os terapeutas. Mas de frente para a parede, quem você irá enganar? Depois, no sesshin e na prática do Zen, nos atos, enganar com a postura da meditação, com o jeito que faz kinhin, enganar com o comportamento na cerimônia? Você não irá conseguir. Ninguém é tão bom ator que consiga enganar, chega um momento que você desaba, desiste de tentar ser bom, de tentar fazer certo, então a verdade aparece. Que bom que existe o sofrimento físico e psicológico.
P: O senhor disse que a verdade aparece, qual a verdade de uma pessoa que está sentada e não aguenta mais?
Monge Genshô – Não aguento mais. Essa é uma grande verdade.
Aluno – Mas o que eu faço, continuo sentado?
Monge Genshô – Se você não aguenta mais, mas continua sentado é porque você aguenta. Quando você realmente não suportar mais, irá trocar de posição, levantar-se ou sentar na cadeira. Terá que fazer alguma coisa. Vai chorar e, se não aguentar, irá se manifestar. Normalmente quando se pensa, “eu não aguento mais” ainda temos um longo caminho pela frente, dizemos isso muito cedo. Uma experiência pessoal minha comprova, é muito bom quando a gente desiste. Porque desistimos de nosso orgulho, do que queremos mostrar para os outros, isso é muito bom, pois é a verdade.
Aluno - Pessoalmente, no primeiro zazen eu já desisto, a questão que fica pra mim é: mas então como faço zazen? Apilhado, chorando, rolando pela sala?
Monge Genshô – Bom, não role pela sala, mas chorar é legítimo. Talvez seja melhor contar uma história. “Akiba Roshi”, que foi meu Abade em um Angô (treinamento de 3 meses em mosteiro), deu a seguinte instrução. Em um retiro de Monges, estes se revezam passando com o kyosako; em todas as sessões de zazen tem algum monge passando com o bastão atrás. Ele disse então: “se alguém está cabeceando de sono, você se aproxima e toca nele com o bastão, apenas para chamar sua atenção. Quando você está passando pela segunda vez, ele dormiu. Então você bate nele com o kyosako. Na terceira vez que você passa, ele novamente adormeceu. Deixe-o, ele está manifestando uma verdade, deixe-o, ele está com sono”. Não é um “mau” Monge, é apenas um Monge cansado e com sono. Não há nada de errado nisso. Saikawa Roshi uma vez respondeu a seguinte pergunta: “o que eu faço, sinto muito sono no zazen?”. “Durma”, foi sua resposta.
Aluno - Só para complementar. Isso ocorre há anos, posso dizer que já suportei em outros sesshins muito mais dores que nesse, mas tomei uma decisão, não preciso sentir tamanha dor e sofrimento. Eu fico sempre patinando, fico empacado. Minha pergunta é no sentido de, o que eu faço, fico sentado, tenso, cabeça baixa sentindo dor ou simplesmente desabo e desisto?
Monge Genshô – Você é quem sabe. Se você abandonar o zafu, curvar-se, ou colocar os joelhos para cima e abraçá-los, isso só fará com que você respire com dificuldade, não é zazen, mas você está na sala junto com todos, isso é uma grande coisa, você não foi embora. Eu vejo tudo o que acontece, eu compreendo, minha perna também dói. É muito bom quando alguém desiste, pois abdicou do orgulho. Tentar ficar numa bela posição aguentando tudo pois sabe que o mestre senta de frente para as pessoas e está vendo, é bobagem. O melhor é que você realmente assuma quem você é, com suas limitações, isso já é uma grande lição.
Aluna - Para mim acontece um pouco diferente, estou bem e minha mente começa a tentar fazer com que eu me mexa. Então de repente eu mexo, mas não precisava, eu poderia suportar mais um pouco. O pior é quando isso acontece bem perto do sino...
Monge Genshô – E você se importa?
Aluna – Me sinto uma idiota.
Monge Genshô – Mas isso é tão bom. Uma vez disse à meu Mestre Saikawa Roshi: “percebi nesse angô, como sou um idiota, um estúpido”. Ele respondeu: “É ótimo quando podemos dizer, eu sou um estúpido, mas sem importar-se com isso”. Mas não se comparem, porque quando nos comparamos existe um “eu” que se compara, vejam que tudo gira em torno dessa questão do eu: “eu quero ficar com uma postura correta”, “eu não quero me mexer”, então, desistir é abdicar de seu “eu”, assumir que é um idiota é abdicar de seu “eu”, não se comparar com os outros é abdicar de seu “eu”, pois todos somos idiotas. Alguém nessa sala é capaz de levantar-se e dizer, “não, eu não sou idiota”? Lá dentro tem um orgulhoso que quer dizer que é o bom, mas você sabe que não é verdade. Nós estamos no sesshin e sentamos todos juntos, por isso sabemos que todos são idiotas, nosso companheiro do lado sabe que sou idiota e eu sei que ele também é um idiota. Isso é maravilhoso.
Aluna – Ainda sobre a dor. Existem alguns livros, inclusive livros do zen, que dizem para usarmos a dor como objeto de meditação.
Monge Genshô – A instrução é: torne-se um com a dor. Veja como você pode ser a própria dor.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
O construtor da jaula
Pergunta - Estou vivendo um certo conflito. Normalmente eu consigo meditar. E através de minha técnica consigo alcançar um estado que me traz serenidade, que me coloca num estado de melhor consciência do que se passa comigo ou ao meu redor, os fenômenos começam a se esclarecer. O choque desse processo zen com minha técnica, tem impedido que eu consiga alcançar o que alcanço normalmente. E segundo o que foi colocado, isso é feito de propósito, a fome, o cansaço, as dores do sentar imóvel. Sei que isso tem um objetivo, embora ainda não tenha entendido qual, vim para cá com objetivo de melhorar minha meditação e não estou conseguindo. Talvez isso seja um aprendizado mais profundo do que eu possa compreender.
Monge Genshô – Quem está tentando conseguir algo?
Aluno – Aquele que busca alguma coisa.
Monge Genshô – Quem é este que busca alguma coisa?
Aluno – É esse que tem o sentido da existência.
Monge Genshô – Quem é esse que tem o sentido da existência?
Aluno – É o ser.
Monge Genshô – Quem é esse ser?
Aluno – É esse processo de busca através da introspecção.
Monge Genshô – Quem está sendo introspectivo?
Aluno – Esse ser que tem a vontade da libertação pois se sente preso.
Monge Genshô – E quem o prendeu?
Aluno – Eu mesmo. Através de meus pensamentos, da minha mente me tornei um escravo...onde se forma esse ego...
Monge Genshô – Se foi você quem se prendeu, onde está esse “se libertar”? Quem construiu a gaiola e quem faz com que a gaiola exista?
Aluno (Guimarães)– Exatamente esse estado de ilusão e ignorância que me faz viver esse sonho.
Monge Genshô – Se você percebe que seu eu construiu a prisão, se você simplesmente abandona-lo, desistir dele, o que significa desistir de procurar, desistir de se libertar, desistir de alcançar algo, desistir de ganhar alguma coisa, você estará no caminho. O problema é que você sentou para conseguir melhorar a sua meditação. Meditação de quem? De Guimarães. Você tem que esquecer Guimarães, se você conseguir esquecer e sentar sem nenhum objetivo, no momento que você desistir, e talvez esse sesshin não seja suficiente pois você fica sofrendo dores e cansaço. Normalmente não se explica as coisas, esperamos que a dor e o cansaço vençam você de tal forma que você desanime e desista. Essa é uma experiência real. Quando você desistir e só não sair da sala pois não pode abandonar seus colegas, quando estiver derrotado estará perto de se livrar do construtor de sua jaula, e o nome dele é Guimarães, livre-se dele.
Decupada da gravação por Chudô San, palestra em Sesshin na Reserva Passarin.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Yoga para o zen
Exercícios baseados na yoga podem ser úteis para auxiliar na prática do zen. Ajudam a obter uma postura melhor e aliviam dores musculares provenientes da imobilidade. Yoko San, membro da Sangha de Florianópolis, ensina esta técnica para os amigos regularmente. Na foto praticantes zen de Florianópolis fazem esta atividade num intervalo de retiro com o auxílio desse instrutor.
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