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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Convite ao Despertar


É difícil demais enxergar e superar nossa prisão, porque nós estamos na situação da rã no poço: ela nasceu num poço. Quando ela olha para cima, vê um pequeno círculo de luz no céu, as paredes do poço e aquela água no fundo. A rã está lá, um pássaro vem e ela conversa com ele. O pássaro diz que há um mundo imenso lá fora e ela diz que não pode ser, que o universo é aquele cilindro de pedras que ela conhece, com aquela poça no fundo. Não pode existir alguma coisa maior e nem um céu maior do que aquele círculo que ela vê lá em cima, nem mais alimento, nem mais insetos que caem no poço todos os dias. À rã tudo é tão suficiente, tão pleno, mas para o pássaro não. Para o pássaro existe o oceano, florestas, luz, milhares de poços, muitos seres lá fora. Ele viu. A rã nunca viu, e ela acha que tudo é aquilo que ela já tem. 

Nós não somos diferentes da rã, pois nós olhamos para nós mesmos e pensamos: o universo é isso tudo que esta embaixo da minha pele. Eu sou estes pensamentos, este corpo, estes sentimentos, eu sou isto. Você senta-se em zazen e vê isto, o seu poço, a sua cela. O Zen é um convite para que você abandone a cela, é um convite à rã para que pegue uma carona com o pássaro e voe lá fora, e veja o mundo de forma completamente diversa. Mas para isso é necessário abandonar nossa identidade, que é a nossa cela, que é esse acreditar em si mesmo, em “minhas opiniões”, “meu eu”, “minha vida”, “minhas doenças”, “meu corpo” - tudo isso é o aprisionamento, a cela, a limitação, não tem nada a ver com o infinito, com universo. No entanto, é possível para a rã pegar carona com o pássaro, está disponível, ela só precisa ter coragem para isso. 

 [Trecho de Palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Esquecer-se de si mesmo


Nós ouvimos as pessoas dizerem que nós temos uma missão aqui, nossa missão na Terra, mas o Zen vai dizer que não há essa missão que você não é importante, que você é só consequência de carma e que não existe nada tão importante assim para ser alcançado. Ao mesmo tempo, nós nos sentimos amarrados a essa cela, a essa prisão, e mesmo que as portas sejam abertas, nós não queremos sair, porque essa prisão é tudo que conhecemos, é tudo que amamos como a nossa própria identidade. E quando perguntamos a alguém quem ele é, ele responde sobre as qualidades de sua cela: eu sou assim, eu sou assado, eu tenho tal nome, eu tenho tal genealogia, tenho tais títulos, então aqui na minha cela tem os cursos que eu fiz, a minha aparência está aqui nesse retrato, e tudo é a cela, ela é tudo o que você olha, é a prisão. Então, nós nos sentamos em zazen, como disse Dogen, “para nos esquecermos de nós mesmos”, mas esquecer de si mesmo é abandonar a cela, é ver que não tem significado você se agarrar a esse nome e forma, e esta é a única maneira em que você pode sair da cela e engolir o universo, sendo participante do próprio universo e compreendendo todos os seres. O único jeito de abrir a porta é esquecer de si mesmo. Por isso, Dogen disse que "estudar o Zen é estudar a si mesmo, e estudar a si mesmo é esquecer de si mesmo, e esquecer de si mesmo é ser iluminado por todas as coisas".

[Trecho de Palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Prisão


Bem, há muitos métodos de fazer o que chamamos meditação. Há métodos preparatórios, de observação do corpo, com o propósito de nos tornarmos conscientes. Há métodos com recitações que nos dão uma âncora e, mais do que isso, um som harmônico que pretende nos sintonizar com o todo. 

Há também métodos voltados a algo que está fora de nós, e eles conduzem a um grande engano, um sentimento de separação, porque é necessário chegarmos a noção, ao sentimento de que entre nós e fora de nós não existe distância alguma, que todo fora está dentro e o que está dentro pertence a esse fora. Nós somos altamente perturbados pelo fato de que nos sentimos separados, por causa da nossa mente, do funcionamento das nossas formações mentais, da nossa consciência que é dependente dos nossos sentidos: nós abrimos os olhos e vemos tudo fora, separado de nós. Então, é necessário criar um insight, uma visão de que na verdade estamos como que aprisionados dentro desse saco de pele, cheio de ossos e órgãos. Nós nos agarramos a este aprisionamento como um prisioneiro que amasse a sua cela, e não quisesse dela sair. Nossa libertação é altamente dependente do fato de que temos que abandonar esse amor à nossa prisão, a essa prisão que vivemos e sentimos por estarmos aqui, como seres, e estendermos nossos sentidos a um mundo que nos rodeia.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A Verdadeira Prisão


Quando alguém se ilumina, a saída de Buda, “eu vi a vacuidade do meu eu, me liberei disto, meu carma foi todo trabalhado de tal forma que eu não tenho mais impulsos que se agregam a mim, não faço nada pensando em mim, nada, eu simplesmente vivo”, então esgota-se o carma e ele não precisa se manifestar. Mas significa  que Buda desapareceu? Não. Não é isso. Isso seria a mesma coisa de você dizer que quando uma onda quebrou na praia, deixou de existir a água. Não. Na realidade a água sempre esteve lá e sempre estará lá. O aprisionamento é ficar se manifestando. A verdadeira prisão é ter carma e ficar se manifestando,  repetindo vidas, fazendo sempre as mesmas coisas. Este é que é o problema e é este o problema do qual Buda se livrou. É uma perspectiva completamente diferente da nossa cultura geral que quer que o eu sobreviva para sempre. Uma cultura demasiada individualista, que pensa “eu quero existir para sempre”, mas apoiado de uma série de soluções religiosas que tentam chancelar essa noção de um eu permanente, achando que a felicidade é continuar existindo como um eu, ter vida eterna, numa condição boa, que seria a condição, por exemplo, paradisíaca.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Budismo e Religião (2): Abandonar o Barco




Pergunta: A espiritualidade profunda, esta última de concepção e meditação, não está ausente nas outras religiões, porque podemos verificar em freiras religiosas, que se concentram nessa unidade com a divindade e que obtêm o mesmo esclarecimento da concentração e da meditação, não é?

Monge Genshô: Vamos dizer assim, corrigindo um pouco: outros caminhos espirituais conduzem a realizações espirituais. O fato de em alguns deles haver uma prisão em algum aspecto, faz com que o caminho espiritual vá até um certo ponto. Por exemplo, se você pratica um caminho espiritual virtuoso, com uma porção de práticas espirituais, você cresce espiritualmente. Mas se você faz isso para obter algo, você sempre fica preso à identidade, não é? "Eu vou para um lugar assim! Eu vou!". Você fica preso a uma identidade. Você não se liberta disso. Nesses casos, o caminho espiritual vai bastante longe, mas não há uma libertação completa, porque há um materialismo implícito: "EU fiz". 

Houve uma Santa que tinha um caderninho que anotava suas boas ações todos os dias, uma espécie de contabilidade do que eu estou fazendo de certo, de bom: "eu vou cobrar isso. Eu vou cobrar a minha contabilidade". O budismo diria: não, isso é materialismo espiritual. Você está negociando alguma coisa. A única maneira de você conseguir se libertar disso é você conseguir se libertar de toda essa amarra. 

É por isso que há um dito budista  que  diz assim: o budismo é um método, como uma jangada para atravessar um rio. Se você atravessar o rio e chegar na outra margem, você não vai sair carregando a jangada nas costas, não é? O budismo tem uma porta de saída para ele, porque ele também não quer ser aprisionador. Então, também como método de prática, é claro que você pratica, pratica, pratica e parece que nunca tem fim, não tem fim. Mas está dito que se você chega ao fim, você não precisa do budismo. Se chegar na outra margem, você precisa abandonar o barco (o método), senão você não sai andando: fica preso lá na jangada. Essa é a analogia relatada por Buda.
No entanto é preciso não ser pretensioso, há pessoas que tem um vislumbre e se acham plenamente iluminadas e pulam do barco no meio do rio e se afogam...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Paisagem mental



(continuação)
Um homem estava metido num grande problema, porque ele precisava “aparentar”, então ele precisava ter um carro muito caro, precisava ter um apartamento enorme, mas estava metido em dívidas impagáveis e isso causava uma grande infelicidade para ele, crise de hipertensão, e tudo o mais um monge lhe disse: “mas você pode vender tudo isso, não precisa ter esse padrão de vida. Vá dormir tranquilo”. “Mas o que é que os outros vão pensar”?
Para quem ele precisava mostrar que era milionário? Só que ele não era rico, ele era endividado. E ele não conseguiu escapar disso, era possível mas não conseguiu e continuou vivendo em ansiedade. Um monge não conseguiria entender o “mundo” dele, ele precisava usar um relógio Rolex.

Então, no fundo, a prisão está na paisagem que a pessoa criou dentro da cabeça. Ela acreditou em determinadas coisas e isso a aprisionou. Nós temos que olhar pra nós e dizermos assim: “qual é a fantasia na qual eu acredito”? No Zen queremos desarmar isso.

Então a mente pode mudar, mas, se você ficar preso numa paisagem qualquer, ela pode impedir sua vida. Porque você pensa: “eu vou ser monge e isso vai me fazer feliz”. E quando você se torna monge, o quê que acontece? É só trabalho. A prioridade são os outros, não é mais a “sua” prioridade.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Felicidade é libertação


Pergunta – Eu fico pensando numa prisão, esta própria vida mesmo.

Monge Genshô - O próprio desejo e o sonho daquilo que você quer alcançar é a fonte do seu sofrimento. A melhor maneira de não sofrer é não desejar.

Pergunta – Quando a gente senta em zazen todos os seres também sentam em zazen, e a gente senta para estabilizar, dessa forma então nós também estaríamos estabilizando todos os seres?

Monge Genshô - Você mesmo é um universo inteiro, se você se ilumina, todo o universo se ilumina com você. Cada um de vocês é o centro de um universo inteiro, porque ele surge simultâneamente com o observador, quando vocês sentam para meditar sentam com todos os seres. Se vocês se iluminam, todos os seres se iluminam e toda a terra se ilumina, porque cada homem põe óculos e olha o mundo. Normalmente nós temos óculos coloridos, vamos dizer assim, uma pessoa que está sempre com raiva tem óculos vermelhos, uma pessoa sempre invejosa tem óculos lilás, uma pessoa que vê tudo maravilhoso tem óculos cor de rosa.

Na realidade nós sentamos para tirar os óculos coloridos, para ver o mundo como ele é. O mundo existe, mas ninguém vê a realidade como ela é. Todo mundo a vê distorcida, através de suas opiniões, preconceitos, imagens, formações, personalidades, então todos estão vendo um filme ilusório.
Por isso a palavra Buda vem da raiz “bud”, acordar. Quer dizer “aquele que despertou”, só isso. Ele era um homem como nós, que acordou, e acordar é se iluminar, Por isso o iluminado é maravilhoso, mas não é mágico. É extraordinário, mas não é impossível. Qualquer um pode acordar, porque todos são Budas em potencial. Se estão dormindo, é só acordar. A função dos professores é sacudir os ombros. Um homem está dormindo e tem um pesadelo, e ele sofre, sua, etc. Então você, que é amiga dele, vai lá e diz: “acorda”! E quando ele desperta vê que era apenas um sonho e tem alívio, mas ainda está suado e o coração ainda bate forte. Era só um sonho, havia sofrimento real mas ele acordou.

Então a função dos professores é sacudir os ombros, por isso os professores do Zen são às vezes muito chatos, maus, dizem coisas tão duras, porque o que querem é acordar você. Acordem das suas ilusões, não existem crenças que possam nos socorrer, não existem seres lá fora para nos ajudar, nós é que podemos nos ajudar. Os mestres não são perfeitos, os professores são homens como nós, eles já aprenderam algumas coisas então podem transmitir algo, ou podem talvez sacudir os ombros e dizer “acorda”, mas quem acorda somos nós. Então todos somos Budas, em potencial, por isso precisamos sacudir seus ombros e dizer para não se agarrarem em crenças ou ilusões, nem em anjos, nem em demônios, nem em deuses, nem em almas eternas, nem em mundos maravilhosos para onde você vá depois que morrer. Não é assim, a vida simplesmente continua.

Eu gostaria de dar boas notícias, a boa notícia é: “todos podem acordar, e instantaneamente toda a agonia e sofrimento desaparecerão”. Porque você pode se agarrar em algo e dizer que esse algo vai te salvar, mas você continua com medo. Um medo de não dar conta, medo de errar e ser condenado, medo de ser castigado, medo de alguém que está lá fora vigiando você todo o tempo e todos nós somos seres tão errados, não é mesmo?

Na verdade felicidade é libertação, você tem que se libertar de tudo isso e aí então pode ser feliz.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Quem te impede de ser feliz?


Buda colocou o foco de seu treinamento no sofrimento. Quando alguém lhe perguntava sobre a existência de espíritos e deuses ou sobre a origem do mundo e vida após a morte, ele se recusava a responder, pois especular sobre esse assunto não resolve o problema do sofrimento, portanto não é relevante.

Desta forma Buda se recusava a discutir coisas não verificáveis e dava atenção aos problemas da mente e em como construímos nosso sofrimento. Por mais incrível que possa parecer, a felicidade está plenamente disponível. Nosso sofrimento é construído dentro da nossa mente. Quando alguém pergunta como construir sua liberdade, a única resposta possível é: “Quem lhe impede? Quem te impede de fazer qualquer coisa”? É com nossa maneira de ver o mundo que construímos nosso sofrimento e nossa prisão.

Construímos nossa ansiedade alimentando expectativas futuras. Construímos nossa angústia pensando em nossa finitude, nossa morte e no fim de todas as coisas. Pensamos logo em seguida em qual o sentido da vida se tudo caminha inevitavelmente para uma dissolução. Ao nos enchermos de angústia e ansiedade perdemos o mar, as montanhas, os pássaros e as flores, perdemos esse imenso privilégio de estarmos aqui. Por fazermos as coisas rápido demais perdemos o contato com a realidade e todo o sesshin é construído para que retomemos esse contato com a realidade do momento presente.

Ao ficarmos silenciosos não agitamos nossa mente com conversas inúteis, não fazemos piadas e nem brincamos com os outros, desta forma não agitamos nossa mente e nem a dos outros. Os rituais são longos e monótonos para que comecemos a prestar atenção aos detalhes. A refeição com oryoki é uma aula de momento presente onde em cada palavra e cada verso, somos chamados a prestar atenção. Com nossa mente temos a capacidade de transformação.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Impermanência e os eruditos de bar


1) O senhor poderia falar sobre a  impermanência?

Monge Genshô – Impermanência em sânscrito é “Anitya”, que é uma das marcas da existência. Toda existência é impermanente, não existe nada permanente e sólido no mundo. Nós, seres humanos, colocamos nossa felicidade na permanência, desejamos que nossos amores durem para sempre, não é assim que terminam os contos de fadas? “E foram felizes para sempre...” Temos o desejo pela estabilidade, gostaríamos de um emprego público com salário excelente e zero possibilidade de demissão. Gostaríamos de viver em um país de contos de fadas onde uma pessoa que cometesse um grave erro fosse aposentada compulsoriamente com salário integral. O problema é que colocamos nossa felicidade na estabilidade, estabilidade de todas as coisas, inclusive, como acontece em alguns contos de fadas, uma fonte da juventude onde pudéssemos beber de sua água e jamais envelhecer. O sonho da vida eterna.

Esse sonho de vida eterna é recorrente nas fantasias religiosas, onde teremos uma vida eterna em um corpo perfeito. Outras religiões têm o sonho de um “eu” sobrevivente com uma alma eterna que igualmente não envelhece ou morre. Um paraíso que dure para sempre, imutável. Do ponto de vista do Zen, talvez fosse isso um castigo, estar eternamente na mesma situação sem nunca ela se alterar.

A experiência mostra que quando uma pessoa se vê nessa situação ela sente-se mal. Imaginem uma pessoa em uma prisão. Ninguém poderá incomodá-lo, lhe será fornecida comida duas ou três vezes ao dia, essa pessoa terá cama, banheiro e comida para sempre. Uma prisão perpétua em solitária. Para o Zen isso seria um castigo inumano. É a situação da estabilidade perfeita: a pessoa recebe tudo, não tem contas para pagar, ninguém para incomodar, nenhuma situação que comece e termine, tudo perfeito.

Parece que a impermanência tem dois lados: de um, é a fonte de todo o sofrimento humano, pois ele coloca a felicidade na estabilidade mas, por outro lado, se você propicia a uma pessoa a estabilidade perfeita, ela poderá encarar como um castigo, pois é a vida sem aventura. Nunca me esqueço de quando estive em Andorra, um Principado que fica entre a França e a Espanha. Não existe moeda local, eles usam o Euro; não tem exército, vivem do turismo; todos os habitantes possuem casa, habitação e tudo funciona perfeitamente bem. Em Andorra os jovens se queixam que não existe nada para fazer, nada acontece no país, eles já sabem onde irão morar, com quem se casarão, onde trabalharão, não existe serviço militar, vivem de receber os turistas, sabem que terão a vida igual a de seus pais. Aposto que o pensamento deles é - “como eu gostaria de morar em um lugar como o Brasil, onde as coisas mudam constantemente”.

“Anitya”, a marca da impermanência, é ao mesmo tempo benção e maldição. Que bom que a gente envelhece e morre. Se fôssemos todos eternamente jovens não poderíamos amar e ter filhos, pois não haveria lugar no mundo para tanta gente. Para que haja lugar para os filhos temos que ir embora. Esse é o fluxo da vida e a impermanência.

Na semana passada falamos sobre os três corpos, o “Tri Kaya”, que é uma construção, é conveniente para raciocinar e pensar, mas não nos ajuda necessariamente no caminho da iluminação. A teoria budista pode construir outro tipo de ilusão, do erudito budista que imagina que saiba muito sobre o budismo, conhece muitos termos, mas não sabe viver. Esse tipo é ótimo para sentar em mesas de bar para tomar uma cerveja e impressionar os amigos com seus conhecimentos profundos.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O destino



Aluno - E o destino?

Monge Genshô – Então eu tenho um papel e esse papel eu não posso mudar? Se eu tiver um papel que diz o que vai acontecer e eu não possa mudar, então não adianta eu fazer nada, está tudo escrito, tanto faz olhar para os lados ao atravessar a rua, se meu destino for ser atropelado serei, se não for não serei... Esse é um fatalismo inaceitável. Eu posso mudar minha vida a qualquer instante, se eu quiser. Pode custar muito esforço, mas eu posso. Então  tudo é possível. Aceitar que alguém tenha um papel que lhe foi atribuído e que não possa escapar dele, é acreditar em destino e ser fatalista. Isso é abrir mão da liberdade do homem. Nós temos, mesmo que limitada, uma certa liberdade. Quem impede qualquer um de vocês de levantar e sair agora? Quem impede ao monge Jushin de pegar seu rakusu entregar e dizer - “Eu não sou mais monge”? Ninguém.

As prisões são criadas por aquilo em que você acredita. Você crê numa determinada idéia, fica prisioneiro dela. Mas você pode mudar de idéia e não estará mais prisioneiro. Nós acreditamos na infelicidade.  Você pode falar para uma pessoa que está deprimida, que é infeliz: “Você é infeliz mesmo, de verdade”? Eu tinha uma amiga que estava ficando cega, tinha um tumor na hipófise que estava comprimindo o nervo ótico. Ela é uma artista plástica, dependente dos olhos. Ela contou que chegou em casa, fechou os olhos e andou pela casa para sentir como seria ser cego. E achou aquilo terrível. Então numa operação, conseguiram tirar o tumor e o risco de cegueira desapareceu. Nesse momento a pessoa sente o que? Imensa felicidade, porque teve a perspectiva do que seria ficar cega, para uma pessoa para quem a visão era muito importante.

Então as pessoas muitas vezes são infelizes porque não percebem o quanto são felizes. O Michel pensou que tinha um câncer, mas, recebeu a notícia que era benigno. Depois da operação ficou esperando dez dias pelo resultado. Quando saiu o resultado ele escreveu - “Esse é o dia mais feliz da minha vida”. Certamente essa felicidade já se esvaiu,  foi absorvida. Não existe mais a ameaça da morte. Então em vez de morrer em alguns poucos anos, tinha de repente a perspectiva de viver mais uns quarenta anos.