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sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Um ser iluminado pela música
Imperdível este curta premiado no Oscar de 2014, uma pessoa com uma visão iluminada da vida apesar das tragédias que viveu.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Caminhe como a Água
Aluno – Estou lendo um filósofo que fala
sobre a secularização. Nos dias de hoje, numa sociedade tão secularizada,
distante, profana, ele propõe algo como uma sociedade pós-secular, onde os dois
mundos poderiam e deveriam conversar, e eu percebo o Zen no ocidente com uma
apresentação um tanto quanto secular no discurso, que possa ser talvez
palatável para o ocidente e ao mesmo tempo com seus rituais e tradições. O que
o senhor acha dessa dualidade?
Monge Genshô – Eu acho que a ideia é
interessante, acho que o budismo tem essa enorme capacidade de adaptação. Essa
imagem da água, que a gente diz no Zen, “seja como a água”, ela está muito
certa para o Zen. Eu acho mesmo, quando olho para a minha atuação no mundo como
profissional e como monge simultaneamente, que ela expressa isso, que esse é o
meu problema. Então, você tem que saber transitar nos dois mundos e acho que há
uma grande perda nessa secularização no mundo ocidental e no mundo oriental.
Nós não devemos idealizar o mundo
oriental, pois o mundo oriental se rendeu ao ocidente culturalmente e daí adota
técnicas, formas, costumes, e a prática espiritual está sendo de certa forma esquecida,
jogada fora. Isso aconteceu fortemente no ocidente com algumas igrejas que
resolveram se secularizar, aí começaram a jogar fora seus rituais, a jogar fora
a maneira como os religiosos deviam se vestir, etc. No início se pensava que
isso ia aproximar e trazer o povo para dentro da instituição religiosa, mas não
foi isso que aconteceu. E essa tentativa de secularização do caminho espiritual
trouxe um enfraquecimento do caminho espiritual. Então nós não podemos ceder à
secularização .
Na hora de ser monges nós temos que ser
monges verdadeiramente, nós temos que praticar verdadeiramente, nós temos que
ir a fundo verdadeiramente, e não começar a ceder. Isso o ocidente também tem
visto no Zen. Isso é frequente.
Você vai na Europa hoje e as monjas não
querem raspar o cabelo, as monjas querem se maquiar, os monges querem mudar as
roupas, ou querem se desligar da instituição. No discurso de “serem livres”
começa a se perder a própria essência do Zen. É como se o Zen fosse diluído,
como se fosse colocado mais água e fosse diluindo, enfraquecendo, e aí, de
repente, você não tem mais aquilo que era o original.
A mesma coisa vem acontecendo no
oriente, a mesma tendência de transformar a religião num mero negócio ou na
venda de rituais, e isso não é uma coisa que tem acontecido só com o
cristianismo ou com o budismo. Tem acontecido com tudo. Não existe caminho espiritual
fácil ou diluído. Essa diluição é uma coisa que me dá uma sensação de pena,
porque vamos perdendo a essência. Em todos os lugares isso tem acontecido. É
uma tendência mundial em todas as religiões, em todos os caminhos espirituais,
e a força, a mágica da ciência e da técnica vai fazendo parecer que o caminho
espiritual é algo descartável.
E ao mesmo tempo nós vemos um grande
mundo que parece perdido, infeliz, e daí começa a procurar a solução da
felicidade na própria técnica, na própria química , por isso nós temos as pílulas da felicidade, as pílulas
contra depressão, etc. Então eu vejo um mundo que se perde. Para nós é um grande
desafio aprendermos um caminho espiritual sério e trazê-lo para o mundo como
ele é, sem abdicar da tecnologia, sem abdicar de nada, da abundância que a
tecnologia trouxe, e sem abdicar disso conseguirmos manter viva a chama do
caminho espiritual.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Bodhisattvas e a outra margem
Pergunta – Um monge é um bodhisattva?
Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge. O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e quarenta anos, os monges zen passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.
Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.
Pergunta – E o bodhisattva, é?
Monge Genshô – O bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.
Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?
Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.
Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?
Monge Genshô – Um bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Viver no mundo sem ser do mundo
Pergunta – Como é que a gente faz para viver num mundo e conviver com pessoas com as quais sabemos que não nos identificamos mais? Sei que isso é o ego que julga e separa tudo. Mas eu olho para essas pessoas e para a vida do passado e sei que não pertenço mais a isso mas, ao mesmo tempo, não possuo um esclarecimento não intelectual. Como fazer para viver exatamente no meio, entre a vida que não reconhecemos mais como nossa e aquilo que imaginamos ser nosso objetivo, uma clareza de espírito?
Monge Genshô – As identidades que temos ao longo da vida são criadas pela mente. Nós sustentamos situações que vamos criando, vamos codificando e criando. Mesmo quando falamos sobre o Zen em nossa vida, também sustentamos identidades. Criamos nomes, forma, amigos, roupas e começamos a ter um modo de vida. O que temos que perceber é que todas as circunstâncias são criadas nas nossas mentes, mesmo a de ser monge. Roupas, formas, identidades, nome e até a convicção das pessoas que os cercam, todo esse conjunto de coisas sustenta algo que, como todas as outras coisas da vida, é ilusório.
Todas as nossas identidades e relacionamentos são construídos. O que temos que pensar é: “construímos o que queremos ou fazemos apenas algo que nos é condicionado”. Muitas pessoas vêm me falar que estão num relacionamento e numa vida que não desejam. No entanto, foram elas que construíram todas as circunstâncias que sustentam suas vidas. Quando você troca para outra circunstância, essa também é uma construção. Deveríamos olhar lucidamente para nossa liberdade, que é capaz de manifestar tudo. Temos uma mente liberta que é capaz de manifestar qualquer coisa.
É você quem escolhe a condição que deseja manifestar, por exemplo, uma pessoa que deseja ser monge, que faz seus votos e que agora recebe a oportunidade de treinar no Japão, foi ela quem procurou essa vida. Isso pode ser fantástico, maravilhoso, pois quando ela estiver morrendo poderá olhar para trás e dizer que construiu uma vida ideal. Qual a vida que nos permite olhar para trás e dizer que não importam as formas ou pessoas, eu construí e sustentei a vida que eu realmente desejei? Essa liberdade fundamental é que é o nosso grande ganho. Quando estamos presos à uma forma, identidade ou profissão, não temos essa liberdade. Somos como água e podemos manifestar qualquer forma, mas todas as manifestações de nossa vida são de certa forma legítimas, pois são possíveis, mesmo as piores.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Descartando até o próprio nome
3) Eu gostaria de entender uma coisa, quando o Senhor falou em aversões, eu gostaria de me sentir parte dessa natureza, mas por mais que eu trabalhe essas coisas em mim ainda não me sinto no chão, me sinto muito aérea. Gostaria de me sentir presente em algum lugar.
Monge Genshô – Você precisa praticar meditação para aprender a ficar presente, aqui agora, nesse lugar. Mas acredito que seja necessário sentir que tem raízes, porque somos seres móveis, mutantes e também transitamos por todos os lugares e isso nos dá muitas possibilidades e, se você fosse uma árvore e estivesse presa sem jamais poder sair, talvez você dissesse “eu queria ser livre, queria ser um pássaro e poder voar, mas eu com essas raízes que me prendem, não posso”. Nós seres humanos somos muito complicados, nunca estamos muito satisfeitos. Frequentemente tenho conversado sobre isso, porque o mundo tem variado e estávamos falando da Grécia.
No Brasil temos 22% das pessoas que estão trabalhando para o Estado, todos querem ser funcionários públicos. Porque se tem segurança, nunca se será demitido. E falávamos que a Grécia entrou na zona do Euro e o povo sentiu-se mais rico, o governo com mais condições financeiras resolveu atender os desejos das pessoas. No fim gerou-se até um 16º salário e perto de 50% da população estava em empregos públicos, só que o governo não tinha condições de arcar com tanta despesa, foi pegando dinheiro emprestado e no final descobriu-se que a Grécia não tem como pagar os empréstimos feitos. A lição que vem disso é que não se pode fazer as coisas infinitamente, não existe a possibilidade dos gastos infinitos, da estabilidade para todos. Vivemos em um mundo instável e buscamos cada vez mais estabilidade. Mas essa não é história da humanidade. A história da humanidade é tremenda incerteza.
Até o início do século XIX fome generalizada para países inteiros era coisa comum, só paramos de ter fome em todos os lugares quando foi possível levar navios com alimentos de um lado para o outro no mundo. A história da humanidade é de incerteza, guerras e mudança. É interessante que existam países em que acontece uma certa estabilidade, como é o caso da Suíça de hoje, e isso já ocorre desde a segunda guerra mundial. Mas quando conversamos com jovens, eles dizem que o Brasil é maravilhoso, pois existem muitas possibilidades, muita aventura e muitas coisas podem acontecer. Na Suíça, eles dizem que sabem que irão fazer tal curso, trabalhar em determinada empresa. Tudo já é previsto, muito estável, e a sensação que as pessoas têm é de imensa monotonia. E nós que estamos na parte instável do mundo, onde as coisas sobem e descem, queremos estabilidade. Mas temos conhecimento de jovens que saem desses lugares estáveis para morar no Brasil e América Central em busca de aventura, de mudanças.
Uma vez conversando com um senhor alemão ele me dizia da maravilha, da sorte que eu tinha de morar num lugar onde as possibilidades eram infinitas, uma vez que na Alemanha tudo já estava feito. É interessante que as pessoas tenham esse tipo de sentimento morando em um lugar desses. O que interessa para nós do ponto de vista budista é que o ser humano nunca está satisfeito, quando tem estabilidade quer aventura, quando tem muita aventura anseia pela estabilidade. Uma pessoa me disse que quer estabilidade, disse à ela que vou levá-la à um país chamado Andorra, que possui cinco cidades. Então ela fez uma pesquisa na internet e descobriu que o país tem menos de cinquenta mil habitantes, é um principado. Vive do turismo e tem um único imposto, 15% de tudo que for comercializado. Não existe declaração de imposto de renda, não possui exército, nada acontece, há muito que o país vive nessa calmaria. Quando estive em Andorra o que as pessoas diziam era que o lugar era monótono, “nasci na casa dos meus tataravós e morrerei nessa mesma casa, aqui é muito chato”. Todos sabem da vida de todos, pois cada cidade tem no máximo dez mil habitantes. Mais ou menos 17% da população é de imigrantes portugueses e angolanos, que fugidos da guerra civil de seu país vão em busca de paz. Para esses imigrantes, Andorra é o paraíso.
4) Tenho um dúvida sobre a disciplina do Zen. Onde se encaixaria a disciplina nesse universo que o Senhor mesmo falou de aventura e mudanças? Entraria como uma espécie de balança?
Monge Genshô – Em um mosteiro a monotonia é imensa. Tudo tem hora para começar e terminar. Vai raspar a cabeça no quarto e nono dias, não existem domingos e feriados, um dia para lavar a roupa, outro dia para cerimônias, é tudo sempre igual, sempre as mesmas coisas. O máximo que pode acontecer é trocar de função. Não existem notícias de fora do mosteiro, sem rádio ou televisão, sem telefones. Você mergulha na mais absoluta paz. Por isso quando o monge sai do mosteiro, pensa que o mundo está uma loucura. Como você viveu em um universo onde tudo é compartilhado, não existe nada de seu, você não precisa de nada, não precisa de bens, não há a absoluta necessidade de adquirir nada.
Comentário – Mas dessa forma sempre tem alguém por trás pensando e organizando e, de certa forma, financiando tudo isso. Os seres fora do mosteiro trabalham para sustentar esse estilo de vida.
Monge Genshô – Sim, isso é verdade. E essa sempre foi a tradição da humanidade, os religiosos sempre foram sustentados. A sociedade produz um excedente e isso propicia o sustento dos monges. Embora os monges em mosteiros trabalhem, isso não é suficiente para produzir renda para ter um conforto a mais. Os monges dormiam na sala de meditação, suas refeições eram feitas ali também, ninguém possuía quarto particular. Ele só tinha um lugar onde meditar, dormir e fazer suas refeições, isso tudo no mesmo lugar, hoje em dia já há mais conforto, mas era assim mesmo. Só levantava dali para trabalhar ou fazer cerimônias. A lição quando o monge volta para o mundo, é perceber que os problemas que angustiam e preocupam a humanidade são problemas fabricados, problemas criados por nós mesmos. Acreditando num determinado mito, por exemplo, você tem um nome e precisa defender esse nome. Em um mosteiro você descarta seu nome de família e ganha um novo nome.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
O Vazio é a forma
Hoje à noite recitaremos o Sutra do Coração em português. Ele é o “Sutra do Coração da Sabedoria”. O que ele diz é que a forma - nós somos forma - é o vazio. O vazio se manifesta como forma. Não existe uma entidade que chamamos “o vazio” não existe uma entidade além da forma, o grande ser é vazio de um si mesmo. O vazio é a qualidade de todas as coisas serem vazias de um “eu”. Lemos “vazios de um eu”, tudo em volta são formas, tudo é vazio de um “eu”, tudo é uno. Não existe em cima ou embaixo, direita ou esquerda, surgimento ou cessação, tudo é simultaneamente vazio e forma, porque o vazio só se manifesta como forma e as formas, somos o próprio vazio. Não existe propriamente uma intenção, um plano ou uma história; simplesmente todo tempo está contido em um único ponto, passado e futuro estão contidos em um presente e esse presente é a única coisa que podemos realmente agarrar a cada instante que se esvai. Se você conseguir mergulhar no presente plenamente, você é dono de passado e futuro e, se esquecer de si mesmo pode abarcar o universo inteiro. Como diz o Sutra, aquele que atinge isso, a perfeita e completa iluminação, livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento. Esse é o texto que recitamos, toda dor e sofrimento desaparecem se você esquecer a ilusão do “eu”, mergulhar no presente e abarcar todo o vazio com todas as suas manifestações.
Entendendo, nada está separado, você e todas as coisas são uma única coisa. Os pássaros lá fora são você. Os sons são você. As árvores são você. O riacho é você. Você não é você. Você é tudo isso, só está perdido nesse instante pensando que você é você, abrindo os olhos e vendo tudo separado. Mas esse fenômeno que vivemos ao abrirmos os olhos e vermos tudo, que é como se fôssemos um pequeno olho, um pequeno senso do universo que permite ter uma grande experiência. Essa grande, maravilhosa e complexa experiência que nós como seres humanos temos, é linda, não pode ser desperdiçada, uma fantástica oportunidade que permite ouvir, cheirar, olhar e provar. Essa experiência maravilhosa é o dom da vida. Mas ela é um instrumento para um passo maior. Nós podemos atingir uma consciência maior e, ao atingi-la, não seremos mais pequenas ondas na superfície do universo, mas nos perceberemos como o próprio mar. Nós mergulhamos no mar das paixões, mar das angústias, sensações, amores, todas as paixões. Porque o Bodhisattva mergulha no mar das paixões, ele pode colher as pérolas do fundo. É através dos caminhos equivocados que o Bodhisattva encontra as jóias da vida. Não se perturbem porque mergulharam no mar das paixões, essa é a grande oportunidade para encontrar as pérolas.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
É o carma que manifesta identidades
Quando você morre, você tem uma mente, com marcas. É isto que renasce. É isso que vai se manifestar no universo. Por quê? Porque as energias do universo, toda a energia do universo, ela não cessa. Ela não desaparece. È a 1ª lei da termodinâmica. Lei da conservação da energia. Esta continua, ela só se transforma. A energia daquilo que você fez, continua. As marcas que você tem, os impulsos da sua mente, continuam. E essa coerência, esse quantum de energia, essa onda cármica que em ultima análise nós somos, com suas marcas, energias de hábito etc, e que no conjunto diz-se “carma”, simplificando, pra não dizer tudo isso, esse conjunto todo vai se manifestar em um “ser”.
Quando um ser qualquer nasce, ele é herdeiro de uma onda cármica. Quando ele é herdeiro de uma onda cármica, que já vai nascer naquela família, naquela situação, naquela família, naquele país, porque tem carma para isso, está atraído por aquela manifestação, por aquela genética, ambiente etc, a pessoa nasce num lugar para onde seu carma naturalmente vai. Você está aqui numa aula sobre o Dharma porque tem carma para isso, se sentiu atraída por isso. Outros estão fazendo outra coisa. Quem sabe há um churrasco? Com bastante caipirinha etc? E assim por diante. As pessoas estão procurando aquilo porque se sentem atraídas. Elas vão atrás disso, tem carma para tanto.
Assim é também quando você nasce. Você é atraído para um determinado ambiente porque você morreu com a mente afinada com aquele meio. Aí você nasce lá. Por isso não é a genética que veio antes. É o carma. É por isso que com semelhante genética, irmãos são diferentes.
Então o carma vindo, manifesta um ser. E este ser começa a pensar, dar-se conta, os pais dão um nome. Aí eles dizem que seu nome é esse. Um dia, na infância, você pula de “nenê quer isso” para “”fulana” quer. E a medida que chega este momento, você vai criando uma noção cada vez mais sólida de um EU. Você estrutura seu ego e suas preferências, etc, vai tomando escolhas, mas essas escolhas vêm marcadas por uma coisa anterior, de preferências que você tem, de marcas cármicas que você tem e que você não sabe de onde são. Por quê essa pessoa gosta disso? Por quê que ela pensa assim? Ela tem uma herança cármica. Então é o CARMA que renasce, que manifesta um ser. Durante algum tempo na primeira infância vemos lembranças fugazes que de alguma forma vieram impressas com o carma de vidas anteriores.
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segunda-feira, 6 de maio de 2013
Como um leão prestes a saltar
Pergunta – Aquele momento de torpor, que as vezes acontece, são momentos muito prazerosos...
Monge Genshô – O torpor é um indicativo que você relaxou. Estar cansado com um pouco de sono é bom para o zazen. O problema é que esse relaxamento só pode ir até certo ponto, não pode cair no torpor verdadeiro, ou seja, um pouco daquele sentimento de “estou relaxado e calmo, em paz”. Para que isso aconteça é necessário que não estejam surgindo pensamentos cheios de estímulos, raiva, ambição e desejos, nada disso. Esse é um bom indicativo, mas é como um fio de navalha, se você for um pouco além, esse torpor sonolento lhe tira a atenção e o alerta. É necessário manter o espírito como um leão prestes a saltar, ou seja, muito atento, mesmo que você tenha um sentimento de relaxamento, mantenha sua atenção bem clara no momento presente, tentando manter-se nele.
Pergunta – Se a maioria absoluta dos seres vivem nesse estado de inconsciência, e o estado de consciência, o despertar é tão bom, quem é o responsável por esse estado de ilusão? No filme Matrix, que tinha uma base filosófica grande, haviam as máquinas que eram responsáveis por esse estado, pela ilusão, existia um motivo por trás disso. Entendo a questão do ego, do eu, não entendo quem me boicota, quem não quer que eu desperte e por que, se é o ego, com qual intenção ele me mantém nesse estado de ilusão?
Monge Genshô – Ele é um surgimento natural, na verdade nós somos uma coisa magnífica. De um lado é plena ilusão, de outro é a grande consciência se manifestando, o grande ser se manifestando. De um lado você é onda individual, mas porque é onda e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, percepção, formação mental, você é como se fosse o olho do universo, você vê e isso é maravilhoso, porque a vida é maravilhosa e você é um fenômeno do universo, fantástico, lindo.
Infelizmente esse fenômeno, por ver as coisas, ouvir e perceber, sente-se separado de todo o resto. É como se olho estivesse separado de você e visse, não tivesse o resto do corpo para conduzi-lo e o olho então pensasse, “eu vejo” e perdesse todo o resto, pois nítidamente ele enxerga e pensa, “eu sou”. Mas esse olho, não consegue ver a si mesmo, o ouvido não ouve a si mesmo, sua mente não vê a si mesma. Você inteiro é como se fosse uma partícula que se pensasse só, isso é uma grande solidão, uma solidão imensa que nós temos porque sentindo, pensando e vendo, somos só nós, estamos profundamente presos a essa noção e assim perdemos todo o resto.
Os sutra dizem, “a verdade do não nascimento”, nós não podemos deixar de pensar que nascemos, nós sentimos, “eu nasci, eu sou, eu penso, não quero morrer” e assim nos perdemos, porque somos muito mais que isso, nós somos o grande ser e perdemos o grande ser, perdemos tudo na ilusão de um pequeno ser, um pequeno ínfimo ser que se pensa e que percebe, “ele se pensa sozinho”, o grande despertar é perder-se de si mesmo pra mergulhar no grande ser, ser o grande Ser e não uma pequena partícula pensando em si mesma, é difícil de explicar, mas se em algum momento você sentir, mesmo que em um pequeno instante, que você é o grande ser, naquele relâmpago não há nascimento e não há morte, essa fugaz existência que vocês têm, perdidos em prazeres tolos dessa vida, em dores desde pequeno ser, estas pernas e joelhos que doem por ficar tanto tempo parados, esse é o nosso engano, como despertar? Primeiro é necessário abandonar nossa maior ilusão que é nossa mente, uma mente que não para, se essa mente ao menos pudesse parar um instante de conceber, poder sentir como é parte do grande ser, se nós abandonarmos a noção individual, o grande ser pode ter espaço, perceber isso é libertar-se de tudo, é despertar, não é algo extraordinário, fantástico, é tudo como sempre, só que completamente diferente.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
O construtor da jaula
Pergunta - Estou vivendo um certo conflito. Normalmente eu consigo meditar. E através de minha técnica consigo alcançar um estado que me traz serenidade, que me coloca num estado de melhor consciência do que se passa comigo ou ao meu redor, os fenômenos começam a se esclarecer. O choque desse processo zen com minha técnica, tem impedido que eu consiga alcançar o que alcanço normalmente. E segundo o que foi colocado, isso é feito de propósito, a fome, o cansaço, as dores do sentar imóvel. Sei que isso tem um objetivo, embora ainda não tenha entendido qual, vim para cá com objetivo de melhorar minha meditação e não estou conseguindo. Talvez isso seja um aprendizado mais profundo do que eu possa compreender.
Monge Genshô – Quem está tentando conseguir algo?
Aluno – Aquele que busca alguma coisa.
Monge Genshô – Quem é este que busca alguma coisa?
Aluno – É esse que tem o sentido da existência.
Monge Genshô – Quem é esse que tem o sentido da existência?
Aluno – É o ser.
Monge Genshô – Quem é esse ser?
Aluno – É esse processo de busca através da introspecção.
Monge Genshô – Quem está sendo introspectivo?
Aluno – Esse ser que tem a vontade da libertação pois se sente preso.
Monge Genshô – E quem o prendeu?
Aluno – Eu mesmo. Através de meus pensamentos, da minha mente me tornei um escravo...onde se forma esse ego...
Monge Genshô – Se foi você quem se prendeu, onde está esse “se libertar”? Quem construiu a gaiola e quem faz com que a gaiola exista?
Aluno (Guimarães)– Exatamente esse estado de ilusão e ignorância que me faz viver esse sonho.
Monge Genshô – Se você percebe que seu eu construiu a prisão, se você simplesmente abandona-lo, desistir dele, o que significa desistir de procurar, desistir de se libertar, desistir de alcançar algo, desistir de ganhar alguma coisa, você estará no caminho. O problema é que você sentou para conseguir melhorar a sua meditação. Meditação de quem? De Guimarães. Você tem que esquecer Guimarães, se você conseguir esquecer e sentar sem nenhum objetivo, no momento que você desistir, e talvez esse sesshin não seja suficiente pois você fica sofrendo dores e cansaço. Normalmente não se explica as coisas, esperamos que a dor e o cansaço vençam você de tal forma que você desanime e desista. Essa é uma experiência real. Quando você desistir e só não sair da sala pois não pode abandonar seus colegas, quando estiver derrotado estará perto de se livrar do construtor de sua jaula, e o nome dele é Guimarães, livre-se dele.
Decupada da gravação por Chudô San, palestra em Sesshin na Reserva Passarin.
terça-feira, 26 de março de 2013
A não mente
(texto)”Qual pode ser, pois, essa mente comum em que se abrem as flores da primavera? Estes dados característicos das quatro estações são apresentados por Wu Neng como a paisagem interior da mente comum. O mesmo que o tremular da flâmula era para Hui Neng o tremular da mente. Está claro em primeira instância que a mente de que aqui se trata é de um ser humano num estado de iluminação, a mente iluminada. A mente comum de Nang Huang não é, nesse sentido, uma mente realmente comum, ao contrário, longe de constituir a consciência empírica da substância ego normalmente designada com essa palavra, o que se entende por mente é A Mente, chamada tecnicamente não-mente, que se realiza em um estado espiritual anterior a distinção sujeito-objeto ou que transcende a essa distinção.”
(comentário, M. Genshô) Não mente é aquela que não conspurca os objetos e seres todos no universo com suas opiniões. A não mente aceita sem nenhuma interpretação. Completa equanimidade.
Aluno – Uma mente anterior ao pensamento?
Monge Genshô – Não é isso que ocorre, uma mente anterior ao pensamento. Normalmente o que ocorre é no sentido exatamente oposto. Primeiro você pensa, depois compreende que o pensamento objetivo que atribui às coisas qualidades, está errado. E depois todos os objetos deixam de ter as qualidades que seu pensamento atribuía, depois que você faz tudo isso é que você pode chegar a uma não-mente, que passou por esse processo. Porque a mente que não pensa inicialmente, não passou por esse processo, ela não se ilumina pois é obscura. Igual aquela história de que falamos antes. Quando eu conheci o zen as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Aí eu comecei a praticar e as montanhas não eram montanhas e os rios não eram rios. Porque antes eram montanhas e rios a que eu dava minhas interpretações. Quando abandonei tudo isso então voltei a ver que as montanhas são só montanhas e os rios são só rios. Mas eram montanhas que eram montanhas por si mesmas, independente de minha interpretação. Eu estava vendo a verdadeira montanha e não a que minha mente pensante via. Como exemplo que dei do inimigo que vem na rua, a pessoa de quem não gostamos. Dou à ele uma porção de atributos da minha mente, não gosto dele e por isso ele é, então, uma montanha agora. Preciso desconstruí-lo e ver que ele não é uma montanha, não, nem um ser separado. Depois que eu vir que ele não é um ser separado, então eu posso de novo voltar a ver um ser que está ali e que é uma manifestação, mas aí à ele não atribuo nada. Ele é por si mesmo e assim sendo por si mesmo é eu mesmo e portanto dedico à ele completo amor, compaixão etc.
quinta-feira, 7 de março de 2013
O mundo total do ser
Vamos Analisar um texto de Toshihiro Izutsu, que é um mestre da Escola Rinzai. (texto)”Se analisarmos a experiência Zen, quer dizer, a realização pessoal do estado de iluminação, em termos de relação entre exterior e interior, nos deparamos com duas realidades teóricas. O interior se converte em exterior ou, a exteriorização do mundo interior e exterior se converte em interior ou, interiorização do mundo exterior. Trazemos o exterior para dentro de nós ou projetamos a nós no mundo exterior. No primeiro caso que se refere a expressão tão corrente, de que o homem se converte no objeto, se realiza rapidamente a experiência do próprio eu, perdendo sua identidade existencial e fundindo-se inteiramente no objeto exterior com o qual se identifica. O ser humano se converte em flor, o homem se converte em bambu. Essa experiência não se fundamenta, no entanto, como uma experiência autênticamente Zen, senão, quando o ser humano chega a perceber em sua própria consciência espiritual que essa flor, ou esse bambu, com os quais se identificou, contem o mundo total do ser.”
(comentário)Por exemplo, nós estamos aqui e agora e temos essas tijoletas da sala e percebermos que nós somos parte desse piso não é muito fácil, que nós somos parte disso, que ele é manifestação da vacuidade e nós também somos manifestação da vacuidade, mas é a verdade dos fenômenos, de que os fenômenos são manifestação na vacuidade. Nos somos em essência, feitos da mesma substância que as tijoletas desta sala. E se olharmos em termos físicos ou químicos, acharemos grandes semelhanças, somos feitos das mesmas substancias químicas, mas é muito mais que isso, pois as substâncias químicas são, elas mesmas, manifestações na vacuidade. E isso é o nosso eu que tanto prezamos, que tanto apreciamos e queremos que seja permanente, em torno do qual, quando estamos sentados, giram as nossas fantasias de vaidades, de orgulho, as nossas mágoas, ambições, todas são operações mentais que geram a existência desse eu, nada sólido, tudo fantasia. E estamos aqui sentados, observando a nossa mente, percebendo nosso corpo, percebendo que realmente é fantasia. Nós temos a experiência de que é uma fantasia nossa. Nesse estado o eu se estende até os últimos limites do universo, quer dizer, já não é um eu com uma identidade independente, já não é um sujeito frente à um mundo objetivo. Então, se alguém consegue identificar todas as coisas em volta como o mundo total do ser e de que ele faz parte disso, o seu eu não é mais uma identidade independente e abarca o universo inteiro. Então não é mais uma pessoinha olhando o universo, mas sim todo o universo, todo o mundo fenomênico e é, em essência, a própria vacuidade. Se usássemos a terminologia de Deus, diríamos que o homem tornou-se a própria divindade ou morreu para si mesmo e assim, morrendo para si mesmo, pode conhecer a Deus.
( Não usamos a palavra deus no zen porque está contaminada da idéia de pessoalidade, de algo separado, por isso "mundo total do ser")
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
O bem e o mal, o que é ser bom ou ser mau?
Os preceitos budistas, que são tomados no jukai, (cerimônia dos votos em que os praticantes recebem o rakussu), parecem cheios de nãos e tem a marca da virtude, característica do primeiro passo do caminho espiritual. Uma parte deles, que resume tudo, diz, “fazer o bem, evitar o mal e seguir o caminho de Buda”.
Vamos explorar essas três pequenas frases. O que seria o bem? Onde está o bem? O que seria o mal? E onde está o mal? Se nós penetrarmos profundamente nessa questão ficaremos confusos, porque aquilo que a uns parece o bem a outros parece o mal, e algumas pessoas crêem que ao fazer o mal, estariam praticando o bem. Crêem por exemplo que, um extermínio poderia ser bom, ou crêem que se fizerem determinada coisa ela irá gerar um bem automático, e muitas vezes quando pensam que estão fazendo o bem podem criar uma tragédia. Afinal o que é ser bom, o que é ser mau?
Na antiga União Soviética havia um grande lago. Esse lago, ao qual chegavam alguns rios importantes, chamava-se Mar de Aral. Mar com peixes, pesqueiros e cidades à beira, tão grande que tinha o nome de mar. Um projeto governamental resolveu irrigar terras com os rios que chegavam ao mar de Aral. O mar tornou-se salgado através de milhões de anos, porque a água que ali chegava tinha pequena quantidade de sal, mas com a evaporação o sal ia se concentrando, dessa forma transformou-se num mar como qualquer dos mares. Os projetos de irrigação foram criados para produção de grande quantidade de algodão e outras plantas, foi bem sucedido e começou-se logo a colher. Mas o Mar de Aral não recebia mais a água dos rios e começou a encolher, descer. As cidades a beira do Mar de Aral, que tinham barcos pesqueiros, perderam seus portos e a medida que o Mar recuava através dos anos, foi deixando atrás de si uma terra coberta de sal. O sol secou o sal, tempestades de vento começaram a espalha-lo nas plantações e um enorme desastre ecológico aconteceu na região em volta do Mar do Aral, porque algumas pessoas pensaram que fariam o bem. Hoje, foram desbloqueadas as barreiras para que parte dos rios voltem ao Mar de Aral, dessa forma, uma parte voltou a ter água. Está se tentando reverter o que se fez no passado.
Nosso país todo é um exemplo disso também, da mata Atlântica sobre talvez sete por cento. Com o objetivo de uso da madeira, criar plantações e pastos, a mata foi aos poucos sendo devastada. E todo o tempo parecia que isso era o bem. Podemos listar infinitas histórias parecidas nas nossas próprias vidas. Então quando o preceito diz, “Faça o bem”, devemos perguntar, “Exatamente o que é o bem?”. O bem seria não produzir sofrimento a longo prazo e estimando todas as conseqüências? Temos que compreender que é muito difícil definir o que é o bem. O mal também tem muitos aspectos. Há uma história budista que diz; - um jacaré come um pato numa lagoa, onde está o bem e onde está o mal? Para o pato uma tragédia, para o jacaré foi uma refeição, decida você onde está o bem e onde está o mal.
(continua)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Budismo, reeencarnação e renascimento
Muitas pessoas confundem o budismo com uma doutrina que crê em reencarnação, mas isso não é verdade, porque não existe reencarnação no budismo, não da maneira como se entende reencarnação. Pois não existe nenhuma alma para reencarnar, nenhum espírito, nenhum eu. Há continuidade, mas não de um eu. Somente nosso karma ou nossos impulsos podem permanecer, como movimento que são. E como são movimento, tentarão se manifestar novamente e gerarão um novo ser muito semelhante a nós, com os mesmo desejos e tudo mais, que também olhará para si mesmo e dirá “eu sou”. Este ser até, na infância, pode ter recordações fugazes da existência anterior, mas a perde rapidamente com a idade, chamamos isto, no budismo, de renascimento, em tudo é semelhante ao conceito de reencarnação exceto pelo fato de não haver um eu pessoal que subsiste.
(Para os que perguntam sobre a tradição dos tulkus no budismo tibetano, o reconhecimento de renascimentos, ela não conflita com este conceito desde que está claro que não se trata de continuidade de um eu, mas sim de continuidade cármica, se houvesse sobrevivência de um eu não se trataria de budismo, pois Buda negou esta possibilidade)
E porque continua esse ser iludido criando novas identidades vidas após vidas, sem parar, esse ser não passa de um ser cíclico, repetindo sempre os mesmo atos, as mesmas insatisfações, os mesmos desejos e as mesmas tristezas. Como podemos escapar desse ciclo? Somente se mudarmos nossos olhos, os olhos que vêem o mundo. Porque temos olhos de eu, olhamos o mundo como um mundo que age e interage conosco, quando essa interação também é ilusória. Todas as ações e reações das pessoas, todas as coisas que nós temos, todas, são projeções do nosso eu. Nós projetamos nosso eu sobre todas as coisas e as interpretamos de acordo com nosso eu, e este eu é nosso engano.
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Se eu fosse para um mosteiro...
Pergunta - E onde entra o que chamamos de intuição?
Monge Genshô – A intuição é, na realidade, um conjunto de coisas. Sentimentos, percepções do passado, um conjunto nebuloso dentro de sua mente que lhe dá uma sensação a respeito de algo. Se fossemos tabular as questões intuitivas, você veria que seus resultados são aleatórios. Algumas vezes dá certo, outras, dá errado. É mais de acordo com a lei das probabilidades mesmo. Aquilo que consideramos intuição também não é confiável. Estou dizendo que o coração não é confiável, a razão não é confiável, a intuição não é confiável, que é melhor deixar o fluxo da vida correr, observando e agindo como você puder. Mas é muito importante não tentar impor aos outros nossas crenças ou convicções, sentimentos, ou razões. Você não sabe.
Pergunta – Então, escolhemos uma vida, vivemos uma vida?
Monge Genshô – Na realidade, vivemos uma vida arrastados por condições cármicas, é o carma que nos conduz. Isso me faz lembrar o momento em que eu quis ser monge. Naquela época estava trabalhando como consultor e viajando demais – fazia mais de duzentas viagens de avião por ano. Sentia-me muito cansado e com dores nas costas. Um dia, parei no Rio de Janeiro e conversando com um monge Zen, reclamei da dor nas costas. Como ele fez acupuntura, me perguntou sobre o que eu andava fazendo, então respondi que fazia duzentas viagens de avião por ano. “Mas, afinal, o que você quer?” Foi a pergunta que ele me fez e que é, na verdade, um grande questionamento. Algum tempo depois, procurei Igarashi Roshi e disse-lhe que eu queria ser monge. Eu pensei que sendo monge estaria escapando da minha vida de empresário e consultor, consequentemente, das viagens. Ele então me perguntou, “por que?”, ao que respondi “minha vida é tumultuada e acredito que o melhor caminho para mim seja o de ser monge”. Então ele me disse, “você está muito enganado, não vai solucionar nada. Eu sou monge e viajo de um lado para o outro, quero construir um mosteiro em um lugar, ajudar uma pessoa em outro, tenho que pegar avião, tenho que viajar, reunir dinheiro para fazer as coisas. Meus problemas são iguais aos seus”. Voltei para Porto Alegre e um amigo que trabalhava junto comigo conseguiu uma sala e me pediu que o ensinasse a fazer meditação. Depois de dois anos já tínhamos uma sede: fechamos uns boxes no estacionamento e fizemos um zendo. No terceiro ano Igarashi Roshi me ligou perguntando o que eu estava fazendo e disse que iria me visitar para me ordenar monge. O resultado é que além de continuar a fazer tudo o que eu já fazia, ainda tive que assumir mais o compromisso com uma Sangha. Então eu penso que isso é carma mesmo, não tem jeito. Isso é freqüente, você julga que vai escapar da vida e pensa “ah, se eu saísse daqui e fosse para um monastério me livraria de todos os problemas da vida!” Não é assim, você conseguiria treinar determinadas coisas, mas sua vida continua com você. Eu tenho essa convicção: meu caminho é ter família, ser monge, trabalhar. Muito provavelmente morrerei assim.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
A mente compassiva
Pergunta – (...) O que é a compaixão?
Monge Genshô – A compaixão depende do esquecimento de nosso próprio ego. As pessoas têm um eu que, normalmente, nas mais primitivas pessoas, termina na sua pele. Tais pessoas cospem e jogam lixo no chão porque não enxergam que o mundo vai além de sua pele. Há pessoas cujo “eu” termina na superfície da tinta de seu automóvel, então jogam latas pelas janelas do carro, porque fora do automóvel já não é mais seu mundo. Podemos ver de que tamanho é o mundo de alguém. Se o mundo vai até a pele, até o carro, aos limites de sua casa. Nunca me esqueço do dia em que vi uma mulher na Alemanha varrendo a rua na frente de sua casa, porque há pessoas que varrem além de sua casa. Neste caso, esse “eu” estava mais ampliado. Outros pensam que o mundo tem fronteiras, às vezes é sua raça, seu time de futebol ou a fronteira de seu país e os que estão além dessas fronteiras podem ser considerados inimigos. Outros, ainda, pensam assim em relação a sua religião.
Tudo depende de como é seu ego. A compaixão surge à medida que você amplia os limites de si mesmo, se estendendo para chegar a abranger todo o universo. Se abranger todos os seres humanos, todos os animais, todos seres vegetais, será difícil quebrar uma pedra, porque não matar, como preceito, inclui não quebrar uma pedra quando não há necessidade, não destruir nada. Porque o mundo mental é mais amplo, a compaixão se expande. O crescimento da compaixão então compreende esquecer-se de si mesmo, o que significa morrer para si mesmo. Assim fazendo, podemos, então, abarcar tudo, e ao acontecer isso, existe a libertação, porque quando nós manifestamos a ignorância de nos acreditarmos separados de tudo - e os venenos da mente como o apego, a aversão, a raiva, enfim, todos eles dependem de eu acreditar em mim mesmo como ser separado – não temos compaixão.
Esta é a ignorância fundamental, a de acreditar que somos um “eu” separado. Porque acreditamos que somos um ser separado de todos os outros, não temos compaixão. Quando morremos para nós mesmos, nasce um ser muito mais amplo e esse ser é naturalmente compassivo, porque a dor do outro dói nele. Na realidade, essa idéia – e isso nos mostra abrangência do Dharma – ela existe nos escritos de Paulo nos evangelhos, “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. Isso significa morte do “eu”. Também encontramos o Dharma nos poemas de São João da Cruz, “Morro porque não morro”. Ou seja, morro porque não consigo morrer para mim, e por isso eu não consigo conhecer Deus. Em termos budistas, porque não consigo morrer para mim mesmo, não me ilumino. É a mesma coisa, em outras palavras.
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segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Para sermos felizes
Pergunta: – (...) E se a pessoa não se controla e provoca um turbilhão porque não soube ficar suficientemente quieta no momento para poder ver o que havia de bom na situação. Ela gera um carma ruim, isso é provocado pelo ego. O que fazer quando esse tipo de situação ocorre?
Monge Genshô: - Você sempre pode parar, respirar, pedir desculpas. Você pode se dar conta e pode dizer, “Estou muito nervoso, estou falando coisas que não deveria, desculpe-me”. Você sempre pode parar, sempre pode dar-se conta. Se você praticar zazen tempo suficiente, quando acontecer alguma coisa que possa criar uma situação desarmoniosa, você pode olhar para ela e ver como ela realmente é, e você já se acostuma a ela. Por isso eu digo que as coisas materiais são até fáceis, se você se acostumar a pensar: “Ah, quebrou um copo, e daí, é só um copo”. O que a gente faz quando se quebra um copo? Junta os cacos. É completamente errado repreender uma criança apenas porque derrubou algo da mesa e quebrou. Os adultos fazem a mesma coisa e ninguém grita com eles. O que é certo? Ensinar. Se a criança quebra algo, ensinamos a ela como juntar os cacos: pegamos a pazinha e vamos juntar os cacos quebrados. Mas você não vai ficar brabo? As coisas quebram. Se você ficar chateado porque as coisas quebram, você irá perder de vista a vida. Não vale a pena. Não vale a pena nenhum desespero por coisas materiais.
É claro que a gente pode se preocupar, pois às vezes chega-se a um ponto em que as coisas ficam críticas. Por exemplo, se não pagarmos a conta da luz, a eletricidade será cortada. Thomas Edison tinha um grande laboratório com, mais ou menos, dez mil patentes. Um dia o laboratório pegou fogo. Então, ele acordou toda a família e a levou para verem o laboratório arder em chamas. Então sua mulher perguntou-lhe: “Mas por que você está assim, se seu laboratório está pegando fogo?”. E ele respondeu, “Vocês nunca verão uma fogueira como essa!” Como ele já estava imaginando um novo e melhor laboratório, evitando os mesmos erros do primeiro, ele transformou aquilo em alegria. As coisas podem ser vistas de formas diferentes. Claro, com coisas materiais é bem mais fácil.
Aluno: – Pode ser visto como um incentivo, por exemplo, no laboratório velho era difícil para ele progredir. Estava atrapalhando.
Monge Genshô: – Isso. Mas se ele dissesse: “Como eu gosto dessas coisas, elas não podem ser perdidas”, então ele sofreria. Mas já temos sofrimentos legítimos muito grandes na vida. Às vezes surgem pessoas com câncer - isso é sofrimento de verdade, porque dinheiro não resolve – ou com outros problemas que o dinheiro não resolve. Uma boa maneira de ver as coisas é se perguntando se o dinheiro resolve. Se a resposta for afirmativa, então não é problema de verdade. Problema de verdade é quando a gente diz “não, dinheiro não resolve”. Então a pessoa chora e o que resta ao monge é chorar junto, porque, nesse caso, é sofrimento de verdade e não tem uma solução fácil, porque precisaria esquecer a própria vida para superar aquilo e somos pessoas frágeis.
Então, devemos deixar o sofrimento para essas coisas realmente importantes, realmente definitivas. Hoje uma atriz se jogou de um edifício em são Paulo. Em janeiro o noivo dela havia se suicidado assim, e ela não conseguiu superar esse acontecimento e fez a mesma coisa. Mesmo que se reconheça o sofrimento e a dificuldade disso, tal solução não é correta, porque mesmo o sofrimento afetivo passa. O tempo passa e o sofrimento passa junto.
Aluno: – Pode ser visto como um incentivo, por exemplo, no laboratório velho era difícil para ele progredir. Estava atrapalhando.
Monge Genshô: – Isso. Mas se ele dissesse: “Como eu gosto dessas coisas, elas não podem ser perdidas”, então ele sofreria. Mas já temos sofrimentos legítimos muito grandes na vida. Às vezes surgem pessoas com câncer - isso é sofrimento de verdade, porque dinheiro não resolve – ou com outros problemas que o dinheiro não resolve. Uma boa maneira de ver as coisas é se perguntando se o dinheiro resolve. Se a resposta for afirmativa, então não é problema de verdade. Problema de verdade é quando a gente diz “não, dinheiro não resolve”. Então a pessoa chora e o que resta ao monge é chorar junto, porque, nesse caso, é sofrimento de verdade e não tem uma solução fácil, porque precisaria esquecer a própria vida para superar aquilo e somos pessoas frágeis.
Então, devemos deixar o sofrimento para essas coisas realmente importantes, realmente definitivas. Hoje uma atriz se jogou de um edifício em são Paulo. Em janeiro o noivo dela havia se suicidado assim, e ela não conseguiu superar esse acontecimento e fez a mesma coisa. Mesmo que se reconheça o sofrimento e a dificuldade disso, tal solução não é correta, porque mesmo o sofrimento afetivo passa. O tempo passa e o sofrimento passa junto.
Minha mãe perdeu vinte irmãos, o pai e a mãe dela, dois maridos e quatro filhos. Ela enterrou todos eles. Ela acreditava na vida, pois morreu com noventa e sete anos. Mesmo depois de morrerem os quatro filhos, ela tentou de novo e teve quatro filhos que sobreviveram. E ela se lembrava destes; tinha memória do passado, mas a felicidade da sobrevivência era suficiente para mantê-la feliz. Ela sempre dizia: “sou muito feliz!”. É uma questão de como você vê as coisas. Se a atriz tivesse deixado passar um pouco mais o tempo, talvez tivesse encontrado um novo amor, talvez tivesse reconstruído sua vida. Não existe uma justificativa para a desistência. O que aconteceu é memória, mas ela não nos serve. Por isso, quando sentamos em zazen temos que jogar fora a memória. Para ficarmos felizes não podemos carregar memórias negativas.
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Tudo como sempre
Pergunta – Se a maioria absoluta dos seres vivem nesse estado de inconsciência, e o estado de consciência, o despertar é tão bom, quem é o responsável por esse estado de ilusão? No filme Matrix, que tinha uma base filosófica grande, haviam as máquinas que eram responsáveis por esse estado, pela ilusão, existia um motivo por trás disso. Entendo a questão do ego, do eu, não entendo quem me boicota, quem não quer que eu desperte e por que, se é o ego, com qual intenção ele me mantem nesse estado de ilusão?
Monge Gensho – Ele é um surgimento natural, na verdade nós somos uma coisa magnífica. De um lado é plena ilusão, de outro é a grande consciência se manifestando, o grande ser se manifestando. De um lado você é onda individual, mas porque é onda e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, percepção, formação mental, você é como se fosse o olho do universo, você vê e isso é maravilhoso, porque a vida é maravilhosa e você é um fenômeno do universo, fantástico, lindo. Infelizmente esse fenômeno, por ver as coisas, ouvir e perceber, sente-se separado de todo o resto, é só por isso. É como se olho estivesse separado de você e visse, não tivesse o resto do corpo para conduzi-lo e o olho então pensasse, “eu vejo” e perdesse todo o
resto, pois nítidamente ele enxerga e pensa, “eu sou”. Mas esse olho, não consegue ver a si mesmo, o ouvido não ouve a si mesmo, sua mente não vê a si mesma. Você inteiro é como se fosse uma partícula que se pensasse só, isso é uma grande solidão, uma solidão imensa que nós temos, e pensamos que porque estamos sentindo, pensando e vendo, somos só nós, estamos profundamente presos a essa noção e assim perdemos todo o resto.
Os sutras dizem, “a verdade do não nascimento”, nós não podemos deixar de pensar que nascemos, nós sentimos, “eu nasci, eu sou, eu penso, não quero morrer” e assim nos perdemos, porque somos muito mais que isso, nós somos o grande ser e perdemos o grande ser, perdemos tudo na ilusão de um pequeno ser, um pequeno ínfimo ser que se pensa e que se percebe sozinho, esse é o grande drama, o grande despertar é perder-se de si mesmo para mergulhar no grande ser, ser o grande Ser e não uma pequena partícula pensando em si mesma, é difícil de explicar, mas se em algum momento você sentir, mesmo que em um pequeno instante, que você é o grande ser, naquele instante não há nascimento e não há morte, essa fugaz existência que vocês têm, perdidos em prazeres tolos dessa vida, em dores deste pequeno ser, estas pernas e joelhos que doem por ficar tanto tempo parados, esse é o nosso engano, como despertar? Primeiro é necessário abandonar nossa maior ilusão que é nossa mente, uma mente que não para, se essa mente ao menos pudesse parar um instante de conceber, poder sentir tudo, como é parte do grande ser, se nós abandonamos a noção individual, o grande ser pode tomar conta de nós, perceber isso é libertar-se de tudo, é despertar, não é algo extraordinário, fantástico, é tudo como sempre, só que completamente diferente.
(trecho de resposta em palestra de retiro, decupada da gravação por Ápio San)
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Reencarnação e budismo
A definição da “Realidade Suprema” é uma noção que geralmente tende a separar o Cristianismo do Buddhismo. A questão é menos de contradições intransponíveis que de compreensão mais profunda dos termos envolvidos. Outra das dificuldades entre cristãos e buddhistas tem sido o conceito de reencarnação.
Infelizmente, isto que parece separar estas duas grandes religiões, não passa de um grande erro, pois, ao contrário do que muitos pensam, o Buddhismo não tem uma doutrina reencarnacionista, pelo menos não quando interpretado corretamente. A reencarnação no Buddhismo, quando é mencionada por alguns, é apenas uma crença popular e exterior, apropriada para aqueles que só conseguem fazer o bem se creditando em um proveito próprio. “Eu faço isto para receber os frutos amanhã ou em outra vida”. É uma crença popular, sustentada seja por orientais que desconhecem qualquer coisa mais profunda de sua tradição, seja por ocidentais iniciantes. É semelhante àqueles cristãos que acreditam que Deus é, realmente, um homem velho e barbudo sentado em um trono de madeira pousado nas nuvens. A idéia ocidental da reencarnação, ou seja, a de que uma alma ou “espírito” imutável ocupa diferentes corpos humanos indefinidamente, nem mesmo existe no Buddhismo (lembremos seu ensinamento fundamental sobre o não-eu), sendo fruto das concepções espíritas surgidas no fim do século XIX. O que o Buddhismo de fato ensina é o renascimento, algo por completo diferente da reencarnação tal como é concebida no Ocidente. No processo de passagem do Buddhismo para o Ocidente entretanto os tradutores e intérpretes ocidentais começaram a fazer uso de suas próprias concepções influenciadas pelo espiritismo para interpretar doutrinas buddhistas, o que teve como resultado um engano que permanece até hoje na mente de alguns que estudam o Buddhismo superficialmente e isto principalmente no Brasil. Como diz o monge Khantipålo: “Uma sucessão de vidas com uma alma encarnando em uma série de corpos é freqüentemente chamada de reencarnação. No Buddhismo, o ensinamento referente a este tema é fundamentalmente diferente... Não há re-encarnação no Buddhismo pois não há entidade espiritual imutável; em termos últimos, nenhuma alma pode ser encontrada que possa se reencarnar. O Buddhismo não constrói a dicotomia entre um corpo perecível de um lado e uma alma eterna de outro” (Buddhism Explained. Bangkok: Mahamakut Rajavidyalaya Press, 1986). Renascimento significa no contexto buddhista a transmissão ou influência das ações intencionais nos seus frutos. Toda ação intencional, para o bem ou para o mal, gera conseqüências. Diz-se, assim, que a ação “renasce” nos seus frutos, ou seja, há uma interdependência entre ações e reações.
O que o Buddhismo ensina é que a vida é una e uma só, tomando formas diferentes, mas estreitamente dependentes e ligadas entre si. É uma só vida que anima tudo. Daí “vida” ser na Bíblia traduzida muitas vezes do latim anima que significa “alma”. Esta única vida ou “alma” assume várias formas, todas elas impermanentes e transitórias, como tudo o que é criado. Estas formas nascem, morrem, renascem, tornam a nascer e assim por diante. Uma semente também nasce, se desenvolve, se transforma em árvore, que por sua vez morre, mas gera muitas sementes. De certa forma, podemos falar que aquela árvore “renasce” na semente.Entretanto, nem a árvore e sua semente são a mesma, nem são radicalmente diferentes. Se falamos que são iguais, então, caímos no reencarnacionismo. É o mesmo que dizer que a árvore se “reencarnou” na semente! Que ela é o mesmo “ser” em um outro “corpo”. Um completo absurdo! Mas falar que são completamente diferentes entre si é cair no que podemos chamar de ceticismo, agnosticismo ou casuísmo: a concepção que vê tudo como isolado e independente. É a concepção de que uma vez que se morre é o fim e pronto! Ou ainda significa falar que tudo acontece por acaso sem nenhuma ligação anterior. O Buddhismo poderia falar, pelo contrário, que a “ressurreição” ocorre quando estas “porções de vida” compreendem que não são isoladas do todo, mas são expressões de uma única vida. É a Libertação da Ilusão, a Iluminação, o encontro com o Absoluto. Isto tem a ver com responsabilidade universal por todas as coisas. O que fazemos aqui se reflete pelos dez cantos do universo. O pecado (ignorância) de um, mancha todo o resto, como uma gota de tinta jogada em uma bacia de água. Mas também a Iluminação de um salva todo o universo, como uma lâmpada que, quando acesa, ilumina todo o quarto escuro. Desta forma, o Buddhismo terá uma preocupação especial para com o sofrimento. Quando os primeiros ocidentais e cristãos chegaram à Ásia, ficaram surpresos de ver, dentro de templos buddhistas, pinturas e quadros com uma figura masculina e outra feminina se abraçando. Tomaram isto como profanação e idolatria do sexo. Pena que não se lembraram de perguntar aos orientais e aos seus monges o que isto significava. Estas duas figuras se abraçando simbolizam a Sabedoria e o Método.
A Sabedoria é a primeira resposta do Buddhismo para o sofrimento nos dias de hoje. É necessário que o homem cultive um maior entendimento de quem é ele, o que é o Real, o que é o mundo em torno. O nível de compreensão que temos de tudo isto é muito superficial. Somente agora, por exemplo, é que o homem moderno, em escala global, está percebendo que tudo está interligado, e isto devido à tremenda crise ecológica em que vivemos. É necessário aprofundarmos nosso entendimento da realidade e isto inevitavelmente colaborará para a diminuição do sofrimento. A segunda resposta vem através do Método. Isto significa possuir formas efetivas de ação. Ter técnicas e ensinamentos que nos levem a compreender o sofrimento e a dor do mundo e atuar convenientemente para extirpar suas causas. No Buddhismo o método mais supremo é a Compaixão. Somente ela poderá fazer com que quebremos a barreira de nossos egoísmos, e num movimento para frente, possamos ir de encontro às necessidades do próximo, com os corações abertos. É porque tudo está interligado que nossa responsabilidade aumenta. Desfrutamos as ações sábias e as ações que rebaixam a espécie humana. De certo modo, tais ações “renascem” em nós, pois sofremos todas as suas conseqüências.
COMPREENDENDO MELHOR O ENSINAMENTO DO BUDDHA
(RICARDO SASAKI, © 1995
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terça-feira, 6 de setembro de 2011
A alternativa
Melhorar o ser humano, até o mais impensável limite, e não confiar em sistemas ou soluções ideológicas é, a milênios, a proposta do budismo
"O homem descobriu sua própria imagem ao inventar o espelho. Hoje, começamos a enxergar nosso ser interior, nossa imagem enquanto ser capaz de solucionar questões políticas fundamentais por meio da consciência individual. O coletivo estaria dentro de nós e temos de usar “novos espelhos” para enxergá-lo.
Misturando nanotecnologia e biociência, Peres indicou que não pensa mais no Estado como resultado da associação de indivíduos. E, sim, como condição de existência de cada ser humano. O vínculo entre Estado e indivíduo, para o intelectual, tem hoje caráter de interioridade. Algo como o ser público que existe dentro do privado.
Mesmo porque, segundo o presidente – que fez questão de esclarecer não ser economista –, até a cibernética, atualmente, tem o poder de paralisar uma nação. “Não há proteção contra isso.” Só este fato muda totalmente a maneira de se lidar com a realidade. “Melhorar o ser humano em si é a única alternativa.”
Sonia Racy sobre entrevista de Shimon Peres.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Sutra do Diamante
"O Tathagata os verá e os reconhecerá com seu olho-Búddhico porque nestes Bodhisattvas não haverá obstruções, nem percepção de um eu individual, nenhuma percepção de um ser separado, nenhuma percepção de uma alma, nem de uma pessoa."
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