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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Os frutos do carma



Aluno: Precisamos praticar até o carma perder força?

Monge Genshô: Até o carma se extinguir. Mas como você continua agindo, você cria carma novo. Como você tem um padrão de hábito de manifestar, de fazer coisas, você sempre renova seu carma. Se fizer mais coisas, mais forte carma. Se fizer coisas ruins, mau carma. Se fizer coisas boas, bom carma. Depende do que você cultiva, se o bem ou o mal. Para agir sem gerar carma precisamos nos desfazer de um eu ao qual ele possa aderir, agir sem intenção egóica.

Aluno: Mas não deixa de ser carma?

Monge Genshô:  Carma é carma. Pode ser bom ou ruim. Mas o que a gente tem que entender é que nós não somos eus carregando uma mochila de carma nas costas. Nós somos produto do carma, e quem maneja e faz o carma continuamente somos nós, com as nossas ações. Quando vocês vêm aqui para ouvir essa palestra, vocês estão produzindo carma. Esse carma vai produzir vipaka, frutos. Amanhã vocês vão pensar nessa palestra - ah, eu aprendi isso ontem ou pelo menos aprendi o ponto de vista do budismo a respeito disso. Então vai haver um efeito da ação de terem vindo aqui e isto é vipaka, fruto da ação. Normalmente quando as pessoas dizem assim - ah, isso é o meu carma, por isso está acontecendo isso e isso - se referem a carma vipaka. É fruto de um carma. Mas na nossa linguagem acabamos usando carma para esse conceito. Então está mais ou menos estabelecido que quando alguém diz assim - esse é o meu carma – na verdade fala do efeito de uma ação anterior que está se manifestando agora. Se estivesse falando em sânscrito deveria dizer, “esse é o meu carma vipaka, fruto da minha ação anterior”. Olhe a diferença de consciência em dizer – “que carma horrível, pois está acontecendo isso etc”. Ou a pessoa dizer assim – “Que fruto das minhas ações estou sofrendo agora? Fiz coisas no passado para isso”. Atirei pedra na cruz tem mais sentido que encarar como um destino inelutável.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O não-eu


(continuação de palestra em Goiânia)
Monge Kômyô:  O não-eu é uma experiência em que as barreiras caem. Quando nós estamos meditando quem atua ainda é o eu. Então à par das dificuldades físicas, temos também nossas dificuldades mentais, é difícil manter a concentração. Uma característica da mente egóica, tem a ver com a necessidade do eu sempre encontrar algo que o excite. Algo que faça com que ele sustente a ideia de que a experiência de convivência de tempo e de espaço está passando em função de algo que chama atenção. Nós ficarmos sentados em silêncio em um ambiente fechado é extremamente maçante para o eu, e aí ele começa a querer fugir e a forma em que o eu foge é o pensamento. A construção da nossa da mente,  é um dialogo interno, nós usamos palavras na cabeça, embora a palavra seja, na verdade, um código de expressão, não seria necessário a palavra na mente. A palavra é uma expressão física, a correta colocação de certos sons que provocam a construção de um conjunto sonoro que nós interpretamos e definimos de uma certa forma por comum acordo, que estamos falando português. Se eu falasse, sei lá, grego, e ninguém aqui falasse grego, vocês só conseguiriam perceber os sons, mas o significado, ficaria todo na nossa mente.
Nós falamos. Isso é um reflexo do condicionamento intenso que a mente egóica, a mente mais superficial tem, em relação ao aspecto concreto da mente. Durante o Zazen, portanto, a tendência da nossa mente é tentar fugir dali, é muito chato aqui, não está acontecendo nada aqui, vou tentar me excitar com outras coisas, vamos imaginar alguma coisa. Na problemática, na questão da experiência contemplativa do zazen, há ensinamentos no Abidharma sobre o “pensamento base” e a ”consequência”, e eles atuam como muita intensidade durante o zazen.  Para entenderem o que é o pensamento “base”,  vamos fingir, que aqui seja cabível. Digamos que você esteja fazendo zazen e de repente , surja na mente o pensamento: “quando eu terminar de fazer o zazen, acho que vou passar na padaria para comprar um pão, porque quando chegar em casa quero fazer um sanduíche”. Esse é o pensamento base. É um tema e a mente condicionada, logo depois que tem um pensamento base, você começa construir pensamentos de consequência, do tipo: “Que padaria que eu vou? Acho melhor ir próximo da minha casa; Ah, mas eu não gosto daquela não; O pão de lá não é bom; Acho que vou tentar naquela outra; Que pão que vou comprar? Acho que vou comprar pão francês, não, vou comprar pão de forma, comprar pão de forma integral, vou aproveitar também e comprar uma geleia. Acho que não tem geleia lá em casa”.
Percebam, vocês acabaram de esquecer completamente de fazer zazen e agora estão indo na padaria comprar pão. É assim que atua o pensamento. Existe um jogo de pensamento base e a mente condicionada já está querendo arrumar um motivo para fugir, ela começa construir uma estória. Pode ser uma recordação do nosso passado. Pode ser alguma coisa que nós estejamos planejando para manhã quando terminar o retiro, ou qualquer outra coisa. Pode ser, até mesmo, uma situação ocorrendo no momento mas que a sua mente pega e usa para elaborar uma cadeia de pensamentos. E aí, nesse momento, o que que acontece? Esquecemos do agora. O eu esquece do agora, ele finge que ele não está mais ali, porque ali é chato! E porque para o eu condicionado é chato estar ali? Porque o sentar em meditação é uma forma de você trabalhar a capacidade de observar a si mesmo, observar os mecanismos do eu e revelar para você mesmo aqueles aspectos do seu próprio eu que não são saudáveis e que estão lhe condicionando a fatos, a experiências, a ações que no fundo causam insatisfação. Ou seja, há todo um trabalho do processo meditativo na experiência meditativa que tende a ameaçar o controle ditatorial do eu.
Subconscientemente, o nosso eu condicionado que tem um padrão de hábito, também ele, reage contra isso, porque no fundo, no fundo, o nosso eu tem medo, porque a compreensão da relatividade da nossa identidade pessoal é experimentada para o eu condicionado, como se fosse uma morte. O eu tem medo de morrer. (continua)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A ação não egóica


P: Enquanto houver um eu observador , mesmo que não julgador, ainda assim haverá um eu. Essa ausência total do eu implica em "nada fazer"? Ou, posso "fazer" sem a presença do eu?

R: Sim, a ação deveria ser “sem um eu” ou seja desinteressada, sem ambição de obter nada e assim por diante, sentamos em zazen “sem objetivo” já tentando treinar isso.
Não se trata de nada fazer, que seria quietismo, inação, e podemos ver como os mestres são realizadores. A ação não egóica tem a virtude de não gerar karma, desde que é desprovida de intenção aquisitiva, livre como um ato da natureza.