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sexta-feira, 29 de julho de 2016

A proposta do zen é agir no mundo

 
 Eu não escapei da vida sendo monge, até tenho que trabalhar dobrado. No zen você só fica no mosteiro enquanto está em treinamento. O objetivo de ficar lá é sair de lá, porque a ação útil é no mundo, normalmente não é dentro do mosteiro.
Ficar num mosteiro para sempre não tem sentido no zen. Tem sentido nas ordens religiosas em que se acredita que ficando lá e orando você está mudando o mundo. Em certo aspecto é até verdadeiro, mas não é a proposta do zen. A proposta do zen é agir no mundo. O mosteiro também não está fora do mundo, pois se você está no mosteiro e trabalha como cozinheiro você é útil, mas se você pensa que vai para um mosteiro zen e vai ficar lá comendo, meditando e levando uma vida maravilhosa para sempre, você vai descobrir que não é.
 Na realidade não é diferente de um presídio, só com outro clima. Se você está lá parado, esperando, sem fazer nada, esperando a morte, todo dia levanta, varre o chão, come, vai ao banheiro, o que você é? O zen diz que você é uma máquina de fazer estrume.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Os frutos do carma



Aluno: Precisamos praticar até o carma perder força?

Monge Genshô: Até o carma se extinguir. Mas como você continua agindo, você cria carma novo. Como você tem um padrão de hábito de manifestar, de fazer coisas, você sempre renova seu carma. Se fizer mais coisas, mais forte carma. Se fizer coisas ruins, mau carma. Se fizer coisas boas, bom carma. Depende do que você cultiva, se o bem ou o mal. Para agir sem gerar carma precisamos nos desfazer de um eu ao qual ele possa aderir, agir sem intenção egóica.

Aluno: Mas não deixa de ser carma?

Monge Genshô:  Carma é carma. Pode ser bom ou ruim. Mas o que a gente tem que entender é que nós não somos eus carregando uma mochila de carma nas costas. Nós somos produto do carma, e quem maneja e faz o carma continuamente somos nós, com as nossas ações. Quando vocês vêm aqui para ouvir essa palestra, vocês estão produzindo carma. Esse carma vai produzir vipaka, frutos. Amanhã vocês vão pensar nessa palestra - ah, eu aprendi isso ontem ou pelo menos aprendi o ponto de vista do budismo a respeito disso. Então vai haver um efeito da ação de terem vindo aqui e isto é vipaka, fruto da ação. Normalmente quando as pessoas dizem assim - ah, isso é o meu carma, por isso está acontecendo isso e isso - se referem a carma vipaka. É fruto de um carma. Mas na nossa linguagem acabamos usando carma para esse conceito. Então está mais ou menos estabelecido que quando alguém diz assim - esse é o meu carma – na verdade fala do efeito de uma ação anterior que está se manifestando agora. Se estivesse falando em sânscrito deveria dizer, “esse é o meu carma vipaka, fruto da minha ação anterior”. Olhe a diferença de consciência em dizer – “que carma horrível, pois está acontecendo isso etc”. Ou a pessoa dizer assim – “Que fruto das minhas ações estou sofrendo agora? Fiz coisas no passado para isso”. Atirei pedra na cruz tem mais sentido que encarar como um destino inelutável.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Controle sempre vai falhar um dia


5) E o controle,  como não ter controle, como não ter o desejo de controlar as situações na vida, tanto profissional quanto emocional? Lembro de ouvir que a base do samsara é o controle, mas então como sentar e tentar ter o controle de nossa mente?

Monge Genshô – Bom, na verdade é um erro sentar e tentar controlar a mente, o que você deveria fazer é apenas sentar sem qualquer objetivo. O controle sempre falha, quer um exemplo? Quando você diz que não vai mais ficar com raiva, logo em seguida surge uma situação que o leva ao seu limite e você estoura em raiva. O controle não funciona muito bem, embora as pessoas digam que se controlam. O caminho do budismo consiste em eliminar as sementes que fazem surgir o sentimento, no caso da raiva, eliminar todos os motivos da raiva, de modo que quando alguém o insultar, você vê nele uma pessoa perturbada, ele tem os sentimentos negativos, mas não é culpa dele, pois ele está sendo arrastado por um turbilhão de sentimentos. Da mesma forma que você olha para uma criança mimada, você deveria olhar para um adulto enraivecido. Desta maneira, o sentimento de raiva não surge em você não porque você o controla, mas sim porque ele não tem base para se manifestar, não tem terreno onde a semente brotar. Não se trata de controlar, mas sim de mudar seu carma.

Aluno - E num momento desses de extremo conflito com outra pessoa...

Monge Genshô – É bom que você pense em não agir. Existem três níveis: 1) agir com o corpo, que é quando você dá um soco. Se você sente toda a raiva, pelo menos não dê o soco. 2) não fale, não diga nada. 3) o mais complicado, onde tudo seria sido resolvido - não pense, não sinta. Como isso pode ocorrer? Treinamento. Cada vez que os sentimentos surgirem você deve tratar deles desta forma. No trânsito se alguém lhe insulta, você deve ficar calado, nem pense em nada para responder.

Aluno - Mas algumas pessoas ficam ainda mais loucas se não reagimos.

Monge Genshô – Apenas incline a cabeça e peça desculpas. Se alguém lhe insulta, você segue em silêncio e, se algumas quadras depois você esqueceu todo o ocorrido, será ótimo. Eu notei que a prática estava começando a surtir efeito quando mais de  30 anos atrás meu carro foi arrombado. Quando vi, fechei a porta e fui andando para a empresa que trabalhava e ficava a algumas quadras de casa. Quando cheguei à empresa, lembrei que deveria mandar o carro para a oficina, já havia esquecido o ocorrido. Você pode começar a exercitar isso em pequenas coisas, como copos ou pratos quebrados, apenas varra os cacos, não ponha emoções nisto.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Que assim seja



Somente depois de desistirmos de ter um eu próprio é que podemos estar libertos. Como usamos olhos de eu para olhar as coisas, é necessário tirar esses olhos e colocar os olhos de Buda para olhar o mundo como ele é. Esse mundo que é visível com os olhos de Buda é o nirvana, é este mesmo, não é outro lugar, é aqui. Então toda a infelicidade e insatisfação que temos no mundo e em tudo que fazemos, só tem um lugar de origem, nossa mente. É essa mente que gera tudo isso. E nós temos a capacidade, a habilidade de, mudando nossas qualidades mentais, mudar esse mundo inteiro completamente.

Por isso que dizemos no zen, “quando um homem se ilumina o universo inteiro se ilumina”, o universo dele, aquele que ele olha, não existe mais nada que não seja iluminado naquele universo, porque ele pode ver as coisas como realmente são e não as coisas como nós acalentamos. Então a pura felicidade já está presente e disponível, aqui e agora, nesse momento, nas próprias coisas que fazemos. Nos nossos trabalhos, nas nossas viagens, nos relacionamentos a pura felicidade já está aqui. Só não a percebemos porque temos um mente que não aceita com tranqüilidade absoluta.

Eu estava lendo um ensinamento de um famoso mestre chinês que morreu com 101 anos e ele recomendou à uma mulher apenas uma coisa, que dissesse para tudo que acontecesse, que assim seja. E ela então começou dizer “assim seja” para todas as coisas. Para a morte do marido, para a morte do filho, para cada coisa que aconteceu. E ao dizer “assim seja” aceitando tudo plenamente, sem nenhuma reação, sem nenhum sentimento de oposição, com perfeita equanimidade mental, ela atingiu a iluminação, atingiu a completa libertação. A libertação estava disponível, só era necessário mudar sua mente para uma mente de pura aceitação, que podia aceitar todas as coisas tais quais elas se apresentam. Aceitar as coisas tal como se apresentem é uma maneira de transformar o samsara em nirvana. Isso não significa, em absoluto, não agir no mundo, significa sim, agir no mundo, por que não? Agimos no mundo da maneira correta apenas, vendo o mundo como ele é e tentando agir no mundo tranquilamente, da melhor maneira. Vivenciando o mundo e reagindo ao mundo com a mente mais tranqüila possível, com a melhor aceitação possível, só então nós treinamos a nossa mente. Esse treinamento começa na meditação, por isso na meditação sentamos e podemos fazer muitas coisas. Simplesmente sentar e ouvir os sons do mundo, e aceitar os sons do mundo tais como eles se apresentam, sem nenhuma reação de bom, ruim, certo, errado, gosto, não gosto, aceitar completamente tudo que acontece enquanto estamos sentados respirando.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Senhor de sua mente



Por isso Buda disse que o caminho budista é ser senhor de sua mente. Somente sendo senhores de nossas mentes seremos capazes de evitar sofrimento aos outros e a nós mesmos. Através do descontrole de nossa mente é que começamos a sofrer, porque temos sentimentos que nos perturbam e esses sentimentos é que têm que ser transformados. Mas não basta policiá-los, pois o simples ato de controlar pode falhar, e então, fracassamos. O que temos que mudar é o sentimento real, visto que, ao proceder assim, palavras e gestos serão automaticamente alterados. Mas isso tudo é extremamente difícil, então, para tentar transformar nossa mente através de um esvaziamento dos condicionamentos de que ela está plena, fazemos zazen.

Zazen (meditação zen budista) é a técnica cuja prática permite que nossa mente se transforme. Mas, na trajetória de nossa vida diária, a cada pequeno ato de pensamentos, gestos ou palavras, nós podemos nos questionar: “por que eu falei assim?”, ou, “por que eu disse isso?”, “por que agi dessa forma?”, “por que pensei assim?”, “de onde vem esse sentimento?”, “o que ele é?” Isto é a prática budista. Quando dizemos que somos praticantes, deveríamos dizer que somos praticantes para nos tornarmos senhores de nossas mentes, para não deixar que a mente corra livre e desembestadamente, sentimento após sentimento.   Não devemos seguir os sentimentos tais como eles surgem, porque eles não são bons conselheiros. Os sentimentos são paixões e as paixões nos conduzem de forma desordenada. Na realidade, ser senhor de sua mente significa ser senhor de seu coração.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Como agir de forma compassiva?


P: Tenho a sensação de que ao enxergarmos que o sofrimento de uma
pessoa é ilusório, a única atitude sensata seria tentar libertá-la desta
ilusão, mas para uma mente que se acostumou com suas próprias
prisões, isso parece ser mais ofensivo que o próprio sofrimento.
É como se tentar derrubar a parede da cela fosse pior do que estar
aprisionado.

Como AGIR de forma compassiva?

R:É simples e não é. Há que agir de acordo com a circunstância, no caso de ser possível somente diminuir o sofrimento agir assim, no caso de ser possível ampliar a consciência fazer isto, no caso de ser possível anular a distância entre sujeito e objeto levando a identidade do relativo e do absoluto ensinar isto, porém neste último ponto estamos falando de um estágio iluminado.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Alienação


P: Onde termina a impermanência e o desapego e começa a alienação e o comodismo?

R: O Desapego significa não colocar um Eu em nada, perceber a unicidade e interdependência de tudo, não colocar o seu eu, meu, minha, nas coisas e pessoas. Assim nada tem a ver com alienação e sim com senso de posse, com o erro da ampliação do seu eu.

P: Ter uma postura compassiva seria equivalente a ter uma postura passiva onde apenas seguimos o que nós é mandando?

R: De maneira alguma, compaixão é ação compassiva, ser a mudança que se quer no mundo e não ficar parado deixando acontecer. Buda não ficou sentado embaixo da árvore Boddhi, levantou-se e agiu no mundo durante 40 anos, tentou evitar guerras, criticou pessoas, falou extensamente, ensinou, agiu, e seus alunos idem. Não foram cordeiros foram pastores. Ele mostrou o caminho com seu exemplo.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Aja, não reaja

Não reaja a nada, apenas permaneça agindo em seu caminho. Corte a sua dependência das reações alheias. Para ser você mesmo o Buda, troque seus olhos, seus ouvidos e sua língua pela língua de Buda e encare tudo com absoluta compreensão pelas limitações dos outros e sem deixar que elas ditem suas ações.