Mostrando postagens com marcador escapar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escapar. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O não-eu


(continuação de palestra em Goiânia)
Monge Kômyô:  O não-eu é uma experiência em que as barreiras caem. Quando nós estamos meditando quem atua ainda é o eu. Então à par das dificuldades físicas, temos também nossas dificuldades mentais, é difícil manter a concentração. Uma característica da mente egóica, tem a ver com a necessidade do eu sempre encontrar algo que o excite. Algo que faça com que ele sustente a ideia de que a experiência de convivência de tempo e de espaço está passando em função de algo que chama atenção. Nós ficarmos sentados em silêncio em um ambiente fechado é extremamente maçante para o eu, e aí ele começa a querer fugir e a forma em que o eu foge é o pensamento. A construção da nossa da mente,  é um dialogo interno, nós usamos palavras na cabeça, embora a palavra seja, na verdade, um código de expressão, não seria necessário a palavra na mente. A palavra é uma expressão física, a correta colocação de certos sons que provocam a construção de um conjunto sonoro que nós interpretamos e definimos de uma certa forma por comum acordo, que estamos falando português. Se eu falasse, sei lá, grego, e ninguém aqui falasse grego, vocês só conseguiriam perceber os sons, mas o significado, ficaria todo na nossa mente.
Nós falamos. Isso é um reflexo do condicionamento intenso que a mente egóica, a mente mais superficial tem, em relação ao aspecto concreto da mente. Durante o Zazen, portanto, a tendência da nossa mente é tentar fugir dali, é muito chato aqui, não está acontecendo nada aqui, vou tentar me excitar com outras coisas, vamos imaginar alguma coisa. Na problemática, na questão da experiência contemplativa do zazen, há ensinamentos no Abidharma sobre o “pensamento base” e a ”consequência”, e eles atuam como muita intensidade durante o zazen.  Para entenderem o que é o pensamento “base”,  vamos fingir, que aqui seja cabível. Digamos que você esteja fazendo zazen e de repente , surja na mente o pensamento: “quando eu terminar de fazer o zazen, acho que vou passar na padaria para comprar um pão, porque quando chegar em casa quero fazer um sanduíche”. Esse é o pensamento base. É um tema e a mente condicionada, logo depois que tem um pensamento base, você começa construir pensamentos de consequência, do tipo: “Que padaria que eu vou? Acho melhor ir próximo da minha casa; Ah, mas eu não gosto daquela não; O pão de lá não é bom; Acho que vou tentar naquela outra; Que pão que vou comprar? Acho que vou comprar pão francês, não, vou comprar pão de forma, comprar pão de forma integral, vou aproveitar também e comprar uma geleia. Acho que não tem geleia lá em casa”.
Percebam, vocês acabaram de esquecer completamente de fazer zazen e agora estão indo na padaria comprar pão. É assim que atua o pensamento. Existe um jogo de pensamento base e a mente condicionada já está querendo arrumar um motivo para fugir, ela começa construir uma estória. Pode ser uma recordação do nosso passado. Pode ser alguma coisa que nós estejamos planejando para manhã quando terminar o retiro, ou qualquer outra coisa. Pode ser, até mesmo, uma situação ocorrendo no momento mas que a sua mente pega e usa para elaborar uma cadeia de pensamentos. E aí, nesse momento, o que que acontece? Esquecemos do agora. O eu esquece do agora, ele finge que ele não está mais ali, porque ali é chato! E porque para o eu condicionado é chato estar ali? Porque o sentar em meditação é uma forma de você trabalhar a capacidade de observar a si mesmo, observar os mecanismos do eu e revelar para você mesmo aqueles aspectos do seu próprio eu que não são saudáveis e que estão lhe condicionando a fatos, a experiências, a ações que no fundo causam insatisfação. Ou seja, há todo um trabalho do processo meditativo na experiência meditativa que tende a ameaçar o controle ditatorial do eu.
Subconscientemente, o nosso eu condicionado que tem um padrão de hábito, também ele, reage contra isso, porque no fundo, no fundo, o nosso eu tem medo, porque a compreensão da relatividade da nossa identidade pessoal é experimentada para o eu condicionado, como se fosse uma morte. O eu tem medo de morrer. (continua)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Só o que está dentro de sua cabeça



(continuação de palestra em Brasília, 2014)
Monge Genshô: Há uma historinha de  que uma vez levaram um estrangeiro para um parque da Disney e passaram o dia inteiro, entrando em montanhas russas, filas, sempre aguardando a próxima surpresa, brinquedos que apelam para os seus medos fundamentais, de altura, de medo, fantasias etc. Então perguntaram ao estrangeiro o que ele tinha achado ao final, e ele disse: “que povo triste vocês devem ser”.

Vejam outro exemplo, existem muitas pessoas que assistem novelas e cujas vidas passam a ser as novelas.  Só discutem a novela, tentam interferir, dão palpites, escrevem para a empresa de televisão, a empresa até muda os roteiros em função das opiniões das pessoas que estão assistindo porque, o negócio real da televisão, é o máximo de ibope, porque o vendedor vai à frente do comerciante e diz quantas TV´s estão ligadas naquele determinado horário, e é isso que dá o valor do anúncio. Quanto mais audiência, mais caro. Esse é o verdadeiro interesse.

Então, estávamos falando sobre quais são as armadilhas que as pessoas usam para escapar da vida. Para escapar da realidade, você vai se divertir. Agora vejam bem qual é a técnica desenvolvida no Zen, a tanto tempo atrás, porque a diversão não é nova, antigamente os homens usavam jogar cartas, olhar pela janela e criar fofocas, os jogos de guerra, etc, porém o mecanismo é o mesmo, escapar da realidade da vida para uma vida falsa, que foi construída. E essa vida tem extremo poder, tão grande poder que as pessoas começam a confundir a vida falsa criada com a vida real.

Então o que nós fazemos com o praticante do Zen? Dizemos: Venha cá. Eu não vou dizer o que você vai ver, não vou dizer nada do que é a realidade, mas eu vou sentar você numa almofada de frente para uma parede branca, sozinho. Ninguém para conversar, todos estão em silêncio, nós estamos aqui, você vai ficar quieto e olhar para a parede. Qual é o material que você tem? Só o que está dentro da sua cabeça. (continua)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Divertir-se



Monge Genshô: Essencialmente os homens sofrem de angústia existencial porque eles se deram conta que vão morrer. Esses dias eu dei um exemplo de que nós somos gente que caiu da beira de um precipício. Todo mundo com a corda amarrada no pescoço. A única coisa que a gente não sabe é o comprimento da corda. Em algum momento, ela se esticará. É assim. Nós estamos aqui agora e não sabemos quem de nós vai morrer primeiro.

 Então todos nós procuramos um caminho espiritual e começamos a praticar porque temos essa angústia existencial. 

E como é a prática do zazen? Como ela funciona?

Primeiro a gente senta em zazen com o corpo completamente quieto e isso ajuda muito a fazer a nossa mente se acalmar, porque você não tem estímulos. Veja que nós andamos pela vida bombardeados com uma quantidade de estímulos impressionante. A maioria das pessoas não tem idéia de a quantas mensagens publicitárias nós estamos expostos por dia, mas são milhares.

Nós tentamos escapar da vida usando duas palavras: divertir-se e entreter-se. As pessoas dizem que precisam se divertir e se entreter. Mas veja a estrutura desta palavra, “divertir-se”, é escapar da realidade para uma outra realidade qualquer que nos retire dali. Por exemplo, nós temos a nossa vida e nós vamos ao cinema e entramos na vida de outras pessoas, na vida daqueles personagens, naquela estória, nos comovemos, choramos, damos risadas, mas enquanto estamos ali, todos lá fora sumiram e, se você estiver ali naquela sala escura e mergulhar profundamente naquela estória, a sua vida desapareceu. Você vive momentaneamente uma vida por procuração, é outra vida. E nessa vida por procuração você “di” de dividir, de divergir, “divertir-se”. Ou, se entreteu, saiu também da sua vida para uma vida qualquer que obscureça a sua vida, porque sua vida pessoal não é muito suportável. Então você procura outra.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Livre arbítrio



Pergunta: Como a meditação nos ajuda a atingir o despertar?

Monge Genshô – Te dando lucidez. A meditação ajuda para obter clareza. Quando eu digo isto sobre a floresta e sobre o mar, numa analogia à humanidade, é porque sentado em meditação eu senti isso. Então eu posso falar. Você usa o seu corpo como âncora para estabilizar a sua mente, e à medida que com a sua mente você vai a níveis mais profundos de consciência, passa a compreender coisas que não compreendia antes, não com o seu raciocínio, mas com seu sentimento. Se você for a um nível mais profundo, nenhuma pergunta resta sem resposta. Uma vez eu me reuni com um empresário de palestras, e ele me falou que “perguntas e respostas são sempre perigosas”, porque imagine se alguém faz uma pergunta e o palestrante não sabe responder? Mas, na verdade, para um professor do zen, qualquer pergunta é admissível, e você tem que responder todas.

Pergunta – Tem como o senhor falar um pouco sobre a visão que o senhor tem do livre arbítrio? Nós temos livre arbítrio?

Monge Genshô – Em parte, sim. Mas de maneira muito limitada. O livre arbítrio foi apresentado como uma construção para tornar um criador inocente das consequências (da criação). Se o criador fosse responsável por todas as consequências de tudo o que ele fez, se ele soubesse de tudo, ele seria tão responsável quanto qualquer artífice que faz uma coisa que dá errado. O livre arbítrio me faz lembrar-se de uma frase do João Ubaldo Ribeiro, que morreu estes dias, no livro sobre luxúria: - “Como alguém pode se sentir culpado de sentir algo que foi criado para sentir?”. Então quando nós dizemos livre arbítrio, você tem que se perguntar se você o tem realmente sobre o crescimento de sua barba, por exemplo. Não, não tem. Diante de quem? Da testosterona? Dos hormônios do seu corpo, que podem alterar o seu humor e seus desejos? Você é livre realmente, ou em grande parte sua conduta é ditada pela sua própria condição de ser humano? Então em que medida nós estamos realmente livres nas nossas decisões? Normalmente nós fizemos uma corrente de acontecimentos que nos conduzem numa determinada direção. Às vezes nesta corrente existe um remanso e você tem a oportunidade de nadar para o lado, de mudar o rumo da sua vida. Às vezes você tem grandes momentos de escolhas, uma escolha pequena que pode causar um enorme resultado, como aquele exemplo do efeito borboleta. Mas em grande parte a nossa vida vai transcorrendo numa corrente lógica. Vocês precisam comer, então precisam trabalhar, precisam ter renda, e precisam disso e daquilo. Então, as escolhas que fazemos têm que ser amadurecidas e às vezes levam anos para que possam ser executadas, devido à própria contingência da condição humana. Mudar o carma é complicado, precisa grande esforço. É possível? Sim, é possível. Claro que é possível. Mas vai demandar esforço, tempo... agora dizer que uma pessoa é verdadeiramente livre, é ignorar as condições em volta. Você vai dizer a um rapaz criado numa periferia violenta de uma grande cidade que ele teve livre arbítrio?  Nós temos que pensar no carma. Quais foram as circunstâncias pregressas que resultaram nesta condição? O objetivo de agora em diante, portanto, é saber como conseguir se livrar destes condicionamentos e energias aprisionantes a certas formas de reação.

Pergunta – Mas quando se fala em livre-arbítrio, eu me reporto àquela ideia de que todos os dias nós temos a possibilidade de escolher este ou aquele caminho, de ir para a direita ou esquerda, por exemplo... se não, a impressão que fica é que estamos totalmente presos, sem possibilidade de mudança...

Monge Genshô – Sim, nós temos alguma opção, mas isso não pode ser confundido com liberdade plena. Eu não posso chegar e dizer assim: - “Você é culpada por tudo o que está acontecendo na sua vida, desde o seu nascimento”. Não é verdade! Você já nasceu no Brasil, isso já muda as coisas. Se você tivesse nascido na Noruega seria diferente. Uma coisa é você nascer na Faixa de Gaza, outra coisa é você nascer em Luxemburgo. Então o livre arbítrio ocorre em termos, porque você tem alguma liberdade, mas ela não é tanta assim. E a maioria das pessoas que eu conheço, têm suas vidas condicionadas desde a infância, com coisas que começaram muito remotamente. Com papai, com mamãe, com dado país. Até o fato de você ter nascido mulher, dá para mudar? Olha, até dá, mas é complicado à beça. Então você é completamente livre? Não! Grande parte do que você é já está predeterminado agora. Na verdade este conceito de livre arbítrio não pertence ao budismo. Nós estamos comentando aqui, mas ele veio de outra cultura. Ele vem de um raciocínio medieval para solucionar a questão da responsabilidade do criador na existência do mal. É isto! Mas o budismo não tem criador, portanto esta questão em essência não se coloca.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papéis sofredores


Pergunta: E quando não tem mais jeito de ajudar uma pessoa? Quando o nível de depressão dela é tão grande, que faz até medo ela se suicidar... Os amigos trabalham o tempo inteiro  mas a pessoa não reage...

Monge Genshô – Esta é uma questão muito comum, que sempre é levantada. Por exemplo, uma pessoa perdeu um filho único, e daí toda a família quer ajudar, e fica todo mundo em volta. Então, quem ela é? Ela é a mãe sofredora que perdeu o filho. E se ela abandonar isto, cadê a identidade dela? Ela não sabe, mas precisa ser a mãe sofredora que perdeu um filho para ser importante. Em algum momento alguém precisa chegar e dizer: -“ Chega!”. A vida, o tempo inteiro, se apresenta na frente. Há uma vida e mais outras vidas para viver, você não precisa acabar-se porque perdeu um filho. Minha avó materna perdeu 20 filhos. Ela teve 23 filhos, sobraram três e ela continuou vivendo. Ela era uma avó muito interessante para mim, muito amorosa com o neto. A minha mãe perdeu quatro filhos. E no fim da vida ela dizia “como eu sou feliz, como eu sou feliz”. Sim, muito feliz. Não é necessariamente porque aconteceu algo em sua vida que você está acabado, porque ainda há muita coisa, ainda há muitas vidas para se viver. Agora se você ficar agarrado na fantasia, no papel de sofredor e de vítima, pode ser que este papel seja tudo que sobrou para você, e a atenção dos seus amigos seja preciosa. Imagine, e se abandonar este papel? Será que os amigos vão correr atrás, vão tentar consolar?  Quem sabe vocês estão ajudando tanto esta pessoa, que ela não pode mais escapar deste papel?

Pergunta: Voltando à questão das identidades, como tratar disso com as crianças pequenas?

Monge Genshô – Então, como eu já falei nós precisamos de identidades para transitar no mundo. Então dê a elas identidade. Iluminação é outra coisa que vem depois, mas como ser humano você não vai poder viver sem identidade.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Para escapar só com outra mente



P: O que permanece então do ser humano? A onda volta para o oceano, e o ser humano volta para onde?

Monge Genshô – O que você deseja que permaneça? Olhe sua mão. Você acredita que alguma coisa dela permanecerá?

Aluno - Não.

Monge Genshô – E do seu corpo todo algo irá permanecer?

Aluno - Também não.

Monge Genshô – Também acredito que não. O que você pensa que permanece de uma onda depois que ela quebra na praia?

Aluno - A onda ainda é mar.

Monge Genshô – Ela sempre foi mar, não passou de uma manifestação temporária. Você também é uma manifestação temporária. Você quer permanecer, não é? Por isso está perguntando e por isso os homens inventam religiões. Você não precisa acreditar no que estou dizendo, pode ir lá fora e se agarrar em qualquer crença, existem milhares.

 Qual é boa para você? Nascer de novo? Repetir tudo?

As ondas na realidade se repetem. Se você olhar, é natural que haja continuidade, se há impulsos, há nova manifestação, se há uma nova manifestação é outra vida. É isso mesmo que o Budismo pensa. Se você tem desejos e apegos, estes geram novo nascimento, mas esse novo nascimento não é esse você de hoje, porque você já esqueceu tudo quando nasceu. Você é capaz de lembrar-se de algo de sua vida passada? Mas desde a infância você tem determinados impulsos, personalidade e desejos. Se é verdade que todo efeito tem uma causa, então existe uma causa pregressa para isso, mas não é você.

Uma mangueira nasce e morre, ela produziu frutos com sementes. Se você plantar o que irá nascer? Outra mangueira, isso é natural. Não irá nascer uma figueira ou coqueiro, irá nascer outra mangueira igual, mas não é a mesma mangueira. Eu posso dizer para você como era sua vida passada. Você quer saber? Era igual. Mesmo tipo de pessoa. Se são os mesmos impulsos, mesmos desejos e apegos, nasce um ser igual. Tem memória? Não. Tem um “eu” que permaneceu? Não. Mas então o que permanece de você? Seus atos, seus impulsos, sua mente e seus desejos. É essa onda no universo que permanece. Energia não desaparece, só se transforma. Essa é primeira lei da termodinâmica. Sabemos também que todo efeito tem causa. Sendo assim, tenho uma má notícia para você: não há como escapar desse mundo. Você está preso pelos seus desejos e apegos a esse mundo e condenado a repetições infindáveis a menos que você mude sua mente. Por isso você deve mudar sua mente nessa vida, para poder ter, nessa vida, uma vida mais feliz.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Me entristeci com eles



3) As vezes é fácil intelectualmente perceber que eu não sou a onda, que eu sou oceano. Mas o que acontece quando eu sento e faço zazen, porque às vezes eu esqueço que sou o oceano. Se eu perco uma pessoa querida, ou perco um objeto querido, de novo acontecem reações emocionais e eu sofro. É como se eu tivesse esquecido de ter vindo nesta palestra e ter ouvido isso. Os sofrimentos surgem como se eu não tivesse entrado em contato com esse conhecimento. O que acontece no zazen pra eu me tornar um sábio, de forma que este conhecimento se estabilize e eu não esqueça mais?

Isso vai depender da profundidade da sua experiência. Mas o que você narrou agora, é o que todos sentimos, eu também. Quatro meses atrás morreu um sobrinho meu de 23 anos. Repentinamente. Quando eu ouvi a notícia, o que eu podia fazer? Chorar. Nós somos assim, seres humanos, muito frágeis. E a qualquer momento nós perdemos a lucidez. Eu sei que para ele não foi nada, mas para o pai e a mãe, foi muito trágico. É que estamos mergulhados em emoções. Como vamos negar isso? Não seria natural nos tornarmos como pedras.

Vinha um Mestre caminhando por uma cidadezinha e seus discípulos atrás. Havia um velório e a família chorava. Ele entrou no velório e começou a chorar com os familiares. Uma hora depois ele saiu de lá, rosto inchado, os olhos vermelhos. E os discípulos atormentados na porta disseram: “Mestre, mas o Senhor conhecia este homem? Ele disse: Não. Mas então porque o Senhor entrou e chorou desse jeito? Ele disse: Eu os vi tão tristes, me entristeci com eles”.

Outro Mestre recebeu uma carta, comunicando a morte de um ente querido. Ele sentou numa pedra e começou a chorar desconsoladamente. Um discípulo se indignou e foi até lá e disse: “Mas o que é isso, o Senhor nos ensina que tudo é transitório, que os “eus” são ilusões, que todas essas relações da vida são assim, ilusões em que estamos mergulhados, a própria vida. O Senhor ensinou tudo isso, e agora recebe a notícia da morte de um ente querido e está aí chorando desse jeito? O Mestre parou de chorar, se virou pra ele e disse: - Escute aqui, seu idiota, eu estou chorando porque eu quero! Se virou para o outro lado, abriu a carta e voltou a chorar desconsoladamente”.

Ou seja: você é normal. Aí você senta em zazen, começa a meditar e “VÊ” algumas coisas com maior lucidez. Pode sair à rua e ver uma folha, uma flor, e ver sua verdadeira beleza, por um instante. Nós chamamos esse instante de KENSHO. KEN é enxergar. SHO, sua verdadeira natureza. Experiência mística em estado puro. Pode durar segundos, e muitas pessoas já tiveram. A questão é: Você poderia retê-la, e ver as coisas sempre assim? Você poderia ver a si mesmo não como onda ou redemoinho ou bolha, mas como céu azul, champagne, oceano? Se você conseguisse ver permanentemente, eu diria que você é MUITO iluminado. Se você vir algumas vezes por dia, e tiver uma compreensão das coisas, você atingiu a iluminação, em um grau baixo. Então existem muitos graus de despertar.

Aquele grau de Buda é chamado de “Annutara Samyak Sambodhi”. ILUMINAÇÃO PERFEITA, COMPLETA E UNIVERSAL. Mas tradicionalmente nós dizemos que só Buda conseguiu esse nível, nós tentamos chegar perto, passo a passo. Talvez numas 500 vidas dê pra chegar lá. Um estado de permanente despertar em todos os atos e momentos da vida.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Destino e livre arbítrio



Pergunta: Quanto é destino, quanto livre arbítrio?





Monge Gensho –  De destino nada e de livre arbítrio é muito pouco. Essa história toda demonstra mais ou menos isso. Você está numa corrente de carma, é como se estivesse num rio arrastado pela corrente. Essa corrente é muito forte e você não consegue voltar a subir o rio novamente, não consegue ir para a margem; às vezes, acontece de surgir um remanso e você até poderia se deslocar para a margem e sair do rio. Há, como essas, poucas ocasiões em que isso é possível. Normalmente todos ficam na torrente e vão sendo arrastados por seu próprio carma sem conseguir escapar. Existem momentos em que você pode fazer escolhas que mudam sua vida, digamos que o rio se divida em determinado ponto, e que com um pouco de esforço você pode ir para um dos lados. É comum surgir o pensamento, “ah, se tivesse escolhido o outro caminho...” Aquele momento teria mudado a vida inteira. Mas normalmente você está no fluxo da própria vida e não consegue facilmente sair dele, você fez uma filha há alguns anos, não é? Agora ela teve um filho; você consegue escapar de ser avô? Mesmo que você quisesse, mesmo que tentasse, pensando, “não, não vou prestar atenção, não vou me ligar a esse neto, não colocarei nenhuma paixão nessa relação e irei morar no Butão”, ainda assim, você seria o avô. Você até poderia fazer isso, mas eu aposto que não faria.