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quarta-feira, 25 de julho de 2018

O Individualismo Ocidental



Aluno: Sensei, parece-me que muito da cultura da diferença vem no sentido de ressaltar as diferenças - desde os meninos com relação às cores, aos brinquedos, até nas relações de trabalho, onde eu sou diferente porque eu faço o que meu colega não faz. Parece que tudo é construído no sentido de tipificar as diferenças...

Monge Genshô: veja que isso se opõe à noção de unidade. Você se senta em zazen e a instrução é: "eu e todas as coisas somos uma coisa só". Contudo, não sou só eu e os outros homens, não é "amai o próximo como a si mesmo", mas sim todos os seres: as pedras, as árvores, o planeta e o que você imaginar. Não há nada que não seja parte de você.

Isso está dentro do ensinamento budista, porque todas as coisas são interconectadas e interdependentes. Você não vive separado de nenhuma delas, você não vive sem o ar, você não vive sem as plantas, não vive sem  água, não vive sem os animais. É um grande erro pensar que está separado de tudo.

A visão anterior era uma visão antropomórfica, de um mundo em que o homem não tinha poderes para alterar. Então a mata era inimiga, os leões e as cobras eram inimigos e os outros homens da outra tribo eram inimigos, pois todos disputavam o mesmo espaço. Já que era assim, a visão ficou individualista, e a característica na nossa arte ocidental era ser antropomórfica, voltada para o homem, colocando-o em primeiro lugar. Qual é o quadro mais famoso do ocidente? A Monalisa. E o que é este quadro? É uma mulher, mas tem uma paisagem atrás. Veja: a paisagem é só o fundo. Já os quadros artísticos do oriente têm o homem pequeno, inserido em uma grande paisagem.  

Enquanto a unidade e o compartilhamento são deixados de lado e cedem espaço à diferença e à separação entre o homem e o mundo e entre o homem e seus semelhantes, a tradição pictórica do extremo oriente coloca o homem como parte da natureza, e não como o dominador dela. A natureza não é apenas um detalhe, algo que ele dominou, algo que ele domesticou. Vejo as diferenças dos jardins ingleses ou franceses, em que tudo é ordenado, tudo é feito de uma forma humana: o homem interferiu completamente. Quando vemos um jardim tipicamente zen, ele não é assim, mas tenta parecer que foi espontâneo. Ele é uma miniatura da natureza, e a interferência humana faz força para não parecer que é interferência - até o musgo é colocado embaixo das pedras e nas árvores.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Transcendendo os Objetivos Individuais




Aluno: falando sobre paixão, já é difícil levantar cedo todo dia para tentar ter um salário mais ou menos. A pessoa almeja ganhar mais, é um objetivo pra ela. Ter um objetivo é o que permite que esta pessoa siga batalhando e lutando. É o que permite que ela continue indo em frente.

Você colocou que é preciso haver uma ambição para que nos movamos, porque queremos alguma coisa para nós mesmos. Mas não é obrigatório que a sociedade se mova desta forma. Você pode mover-se sabendo que o bem comum exige isso também. Há pressão social para tanto. 

Nós não enxergamos muito bem isso num país como o nosso, mas o Japão, por exemplo, veio de uma cultura de cultivo do arroz. Todo mundo tem que estar envolvido no cultivo do arroz, precisa de uma multidão de pessoas trabalhando. Então toda a sociedade funciona com uma cobrança de que você não pode ficar parado, você tem que agir para o bem comum. Você vê isso até hoje no Japão: o bem comum é tão importante que todo mundo está olhando para você. Lá você não joga lixo na rua porque todas as pessoas estão olhando mesmo, e não toleram que você faça isso.

Isso foi levado a um ponto tal que no Japão não há serviço público de coleta de lixo na rua, pois isso é um encargo de todas as pessoas. E, quando houve aqui o campeonato de futebol, todos vimos os japoneses limpando o estádio depois do jogo. Logo os brasileiros já começaram a fazer a observação de que o problema do Brasil estaria resolvido: era só cada um levar um japonês.

A partir daí você enxerga que a sociedade não precisa funcionar com estímulos absolutamente individuais, mas ela também pode ter estímulos de cobrança coletivos. Então, voltando ao que você perguntou, você se moveria sim, senão o resto da sociedade viria para chutar a sua cadeira: você não pode ficar sentado aí enquanto nós precisamos plantar para você comer.