Mostrando postagens com marcador ocidente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ocidente. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Tolerância





Aluno: talvez para a mente ocidental seja mais fácil  reconhecer as diferenças.

Monge Genshô: não  existe essa coisa de mente ocidental e mente oriental. No oriente é muito frequente esse pensamento tribal e racista. Portanto, é mais provável que estejamos diante de uma característica humana. 

Civilização vem do termo "civis", de cidade. Significa que você deveria aprender a ser tolerante. Isso já aconteceu no passado, em muitas sociedades. A exemplo, o Irã já foi famoso por ter uma civilização onde cristãos, muçulmanos, zoroastrianos e budistas podiam conviver em conjunto e sem oposição.

A ênfase na diferença ou na exclusão do outro sempre começa com algum radicalista, mas os grandes momentos de convivência das religiões e pensamentos diferentes são momentos fecundos para a cultura, como aconteceu na Espanha islâmica, que foi um período brilhante, ou como aconteceu no Irã, há 500 anos.

Mas infelizmente nós vimos surgir radicalismos excludentes, o pensamento de que se deve excluir a religião do outro, a raça do outro. Nós vemos isso ressurgir fortemente no século XX. Para Buda foi o contrário: ele tentou eliminar os conceitos de diferenças entre as castas e entre os gêneros, admitindo como monges pessoas de todas as castas, inclusive dos párias hindus, que eram os intocáveis (eles não podiam ser tocados, pois aquele que o fizesse tornava-se impuro). Buda ordenou as mulheres monjas e Mestras, coisa que se nós olharmos nas grandes religiões mundiais é único - só o budismo tem essa característica de considerar teoricamente as mulheres e os homens iguais. E eu digo teoricamente porque na prática não foi assim, pois foi contaminada por fenômenos culturais de discriminação. De qualquer forma, os textos e exemplos dos Mestres não endossam isso.


quarta-feira, 25 de julho de 2018

O Individualismo Ocidental



Aluno: Sensei, parece-me que muito da cultura da diferença vem no sentido de ressaltar as diferenças - desde os meninos com relação às cores, aos brinquedos, até nas relações de trabalho, onde eu sou diferente porque eu faço o que meu colega não faz. Parece que tudo é construído no sentido de tipificar as diferenças...

Monge Genshô: veja que isso se opõe à noção de unidade. Você se senta em zazen e a instrução é: "eu e todas as coisas somos uma coisa só". Contudo, não sou só eu e os outros homens, não é "amai o próximo como a si mesmo", mas sim todos os seres: as pedras, as árvores, o planeta e o que você imaginar. Não há nada que não seja parte de você.

Isso está dentro do ensinamento budista, porque todas as coisas são interconectadas e interdependentes. Você não vive separado de nenhuma delas, você não vive sem o ar, você não vive sem as plantas, não vive sem  água, não vive sem os animais. É um grande erro pensar que está separado de tudo.

A visão anterior era uma visão antropomórfica, de um mundo em que o homem não tinha poderes para alterar. Então a mata era inimiga, os leões e as cobras eram inimigos e os outros homens da outra tribo eram inimigos, pois todos disputavam o mesmo espaço. Já que era assim, a visão ficou individualista, e a característica na nossa arte ocidental era ser antropomórfica, voltada para o homem, colocando-o em primeiro lugar. Qual é o quadro mais famoso do ocidente? A Monalisa. E o que é este quadro? É uma mulher, mas tem uma paisagem atrás. Veja: a paisagem é só o fundo. Já os quadros artísticos do oriente têm o homem pequeno, inserido em uma grande paisagem.  

Enquanto a unidade e o compartilhamento são deixados de lado e cedem espaço à diferença e à separação entre o homem e o mundo e entre o homem e seus semelhantes, a tradição pictórica do extremo oriente coloca o homem como parte da natureza, e não como o dominador dela. A natureza não é apenas um detalhe, algo que ele dominou, algo que ele domesticou. Vejo as diferenças dos jardins ingleses ou franceses, em que tudo é ordenado, tudo é feito de uma forma humana: o homem interferiu completamente. Quando vemos um jardim tipicamente zen, ele não é assim, mas tenta parecer que foi espontâneo. Ele é uma miniatura da natureza, e a interferência humana faz força para não parecer que é interferência - até o musgo é colocado embaixo das pedras e nas árvores.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Um mundo abundante mas perdido



Aluno – Estou lendo um filósofo que fala sobre a secularização. Nos dias de hoje, numa sociedade tão secularizada, distante, profana, ele propõe uma sociedade pós-secular, onde os dois mundos poderiam e deveriam conversar, e eu percebo o zen no ocidente com uma apresentação um tanto quanto secular no discurso. O que o senhor acha disso?

Monge Genshô – Eu acho que a ideia é interessante, acho que o budismo tem essa enorme capacidade de adaptação. Essa imagem da água, que a gente diz no zen 'seja como a água' ela está muito certa. Quando olho a minha atuação no mundo como profissional e como monge simultaneamente, ela expressa isso, que é o meu problema.

 Então, você tem que saber transitar nos dois mundos e acho que há uma grande perda dessa secularização no mundo ocidental e no mundo oriental. Nós não devemos idealizar o mundo oriental, pois o mundo oriental se rendeu ao ocidente culturalmente e daí adota técnicas, formas, costumes, e a prática espiritual está sendo esquecida, jogada fora. Isso aconteceu fortemente no ocidente com algumas igrejas que resolveram se secularizar, começaram a jogar fora seus rituais, a maneira como os religiosos deviam se vestir... No início se pensava que isso ia aproximar e trazer o povo para dentro da instituição religiosa, mas não foi o que aconteceu.

E essa tentativa de secularização do caminho espiritual trouxe um enfraquecimento. Então nós não podemos ceder à secularização do caminho espiritual. Na hora de ser monges nós temos que ser monges verdadeiramente, temos que praticar verdadeiramente, temos que ir a fundo verdadeiramente, e não começar a ceder. Isso o ocidente também tem visto no zen. Você vai na Europa hoje e as monjas não querem raspar o cabelo, querem se maquiar, os monges querem mudar as roupas, ou querem se desligar da instituição... No discurso de serem livres começa a se perder a própria essência do zen. É como se o zen fosse diluído, como se fosse  enfraquecendo,  de repente você não tem mais aquilo que era o original.

A mesma coisa vem acontecendo no oriente, a mesma tendência de transformar a religião num mero negócio ou na venda de rituais, e isso não é uma coisa que tem acontecido só com o cristianismo ou com o budismo. Tem acontecido com tudo. Não existe caminho espiritual fácil ou diluído. Essa diluição é uma coisa que me dá uma sensação de pena, porque vamos perdendo a essência. Em todos os lugares isso tem acontecido. É uma tendência mundial em todas as religiões, em todos os caminhos espirituais, e a força, a mágica da ciência e da técnica vai fazendo parecer que o caminho espiritual é algo descartável.

 Nós vemos um mundo que parece perdido, infeliz, e daí começa a procurar a solução da felicidade na própria técnica, na própria química    , por isso nós temos as pílulas da felicidade, as pílulas contra depressão, etc... Então eu vejo um mundo que se perde. Para nós é um grande desafio aprendermos um caminho espiritual sério e trazê-lo para o mundo como ele é,  sem abdicar de nada, da abundância que a tecnologia trouxe, sem abdicar também da seriedade para conseguirmos manter viva a chama do caminho espiritual.

O que aconteceu desde a invenção e utilização das máquinas, na metade do século XIX, é que nós começamos a viver numa sociedade incrivelmente mais abundante, nós não tínhamos essa abundância antes, era frequente as pessoas passarem fome, não havia como transportar coisas de um lugar para o outro com facilidade, nós tivemos fome na China e na Irlanda, com grande mortalidade, porque não havia comida. Esse tipo de coisa só tem acontecido, no mundo moderno, em países bem longe da tecnologia, ou com regimes muito fechados ao comércio internacional. Mas no mundo integrado pelos transportes e pelo comércio exterior nunca mais houve isso. É difícil encontrar um agrupamento grande, hoje, no mundo ocidental, a quem faltem coisas essenciais. Isso fica restrito a faixas menos favorecidas, mas as nações em si tem, e o mundo tem recursos suficientes para alimentar o mundo todo, ele desperdiça ou joga fora, ou uns consomem muito mais do que precisariam, e outros menos. Então existe a injustiça da distribuição, mas na realidade existe uma abundância que a Terra nunca viu antes. No passado 90% da população tinha que trabalhar no campo para produzir alimento. Quando eu nasci 70% da população do Brasil trabalhava no campo. Hoje é o contrário, 30% da população trabalha no campo. Nos EUA, menos de 2% da população hoje produz todos os alimentos. Então nós vivemos em uma sociedade muito mais abundante, nós temos luz elétrica a menos de 100 anos, nós temos água encanada, coisa que não era disponível antes. Então nós vivemos numa sociedade mais rica mas essa sociedade abundante se perdeu.

Nós não sabemos ser felizes com tudo o que nós temos. Essa é uma longa conversa, para examinarmos os múltiplos aspectos de tudo isso. Eu conheço pessoas com abundância, que tem casa e todas as facilidades, e dizem 'eu estou deprimido, a vida não tem sentido'. Se estivesse ainda trabalhando, buscando comida no campo e plantando, e tendo que se esforçar, talvez não se sentisse assim, a vida teria um sentido de busca, mas ele não tem mais, então ele não sabe como viver, como ser feliz, tendo chegado ao paraíso da abundância, aquilo que os antigos achavam que seria o mundo perfeito, sempre alimento disponível, sempre conforto... Então essa é a grande perda.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Budismo popular e budismo monástico



P: Não sei quanto ao Zen, mas em outras formas de budismo, por exemplo, se fala em demônios, inclusive com uma série de práticas para afastá-los, então existe algum ente de fora que está sendo considerado.

Monge Genshô – Isso funciona da seguinte forma: Existe um Budismo popular e um Budismo mais elevado. No Budismo Tibetano esse estágio mais elevado chama-se “Dzogchen” que é como o Zen, mas, o Zen, é o “caminho direto” tende a desprezar o lado popular, ao menos em sua teoria. O Zen dá respostas diretas descartando tudo que veio antes porque foi criado para monastérios e sua forma popular só surgiu mais tarde como uma espécie de concessão.

Como o Budismo Tibetano foi criado, com grande generosidade,  para atender às necessidades de toda uma nação, precisava criar recursos para atender aos analfabetos e ignorantes. O modo mais fácil de lidar com ignorantes é dar a eles um rosário e instruí-lo a dar voltas em torno do templo recitando mantras com o intuito de atrair boas energias, entidades benéficas e afastar os demônios. Como o povo tibetano tinha uma tradição xamânica com entidades e demônios, essa era a melhor solução. Isso é uma constante na história do Budismo - em vez de se jogar contra a cultura local, ele a adota e tenta transformá-la.

Vou dar um exemplo bem fácil de entender. Chega uma pessoa aqui na Sangha e diz que fará uma viagem de avião e está com muito medo de morrer. Como Monge , eu lhe daria um amuleto, “Jizo Bosatsu”, protetor dos viajantes e diria que a viagem dele estava protegida e nada aconteceria. Ele se agarraria ao amuleto confiante, feliz e tranquilo. Nesse caso, eu teria feito o bem que poderia ter sido feito para aquela mente. Estaria usando o mesmo que as formas de budismo que você cita fazem.

Mas, se chegasse um Monge, que se pressupõe estar num nível mais alto de compreensão, com o mesmo problema de medo, minha resposta seria outra, eu perguntaria – “de onde vem o medo”? “Isso vem da minha mente, estou criando esse medo” - poderia ser uma resposta, e então eu diria - “Mas por que você esta criando isso, de onde surge o medo? Você não está praticando sua meditação corretamente, vá sentar-se e livre-se da sua imaginação, de suas expectativas de futuro e viva o presente e assim você poderá fazer a viagem sem hesitar”. São duas maneiras completamente diferentes de tratar o mesmo problema.

O Budismo tem esses aspectos, mas o Zen foi criado como treinamento monástico e surgiu na China no século VII como um treinamento muito lúcido e claro, destinado a Monges. Já havia o Budismo há pelo menos quinhentos anos na China quando o Zen chegou. Isso que estamos presenciando aqui, leigos ouvindo ensinamentos dados a Monges, é uma invenção ocidental. Esses ensinamentos são muitas vezes desconfortáveis, muitas pessoas não querem ouvir isso. Outro dia li uma carta onde uma pessoa se dizia desconfortável e arrasado sem ter onde se agarrar pelo fato de ter ouvido meus ensinamentos. É assim mesmo, eu sou um professor do Zen e não um professor de Budismo devocional para falar sobre deuses, demônios e espíritos. Se for para alguém se agarrar em uma divindade protetora, porque irá sair do Cristianismo devocional? Se a crença desta pessoa funciona para ela, não há porque procurar por algo diferente e de outra cultura. Não vejo motivo para uma pessoa largar sua tradição devocional e ir atrás de outra. Se o que ela acredita está bom para ela, deve ficar com suas crenças. O único motivo para você ir atrás do Zen é se você não se sente confortável com crenças. Se você precisa de uma crença para se agarrar seu lugar não é aqui.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Incorporações culturais no budismo


P: Nesse sentido então, o Zen como conhecemos hoje, tão direto e não tão místico, mais cético, mais pé no chão, assumiu essa forma na China? Pois o Hinduísmo é mais místico, com deidades, é mais esotérico.

Monge Genshô – Sim, é verdade, o Zen sofreu uma grande influência chinesa. Ele chegou à China perto do ano 600 d.C. com Bodhidharma, muito provavelmente vindo de uma das escolas primitivas do Budismo.

Na época do segundo concílio, 300 anos após a morte de Buda, já se contavam dezoito escolas, a maioria desapareceu. Uma escola que ainda permanece descendendo de alguma daquela época é a Escola Theravada, mas que também é uma escola com incorporações de vários tipos. O Zen, não por acaso, se parece bastante com a Escola Theravada, mas se caracteriza por ter um grande numero de incorporações culturais dos vários lugres por onde passou. Da Índia para a China, depois para o Japão e agora para o ocidente. Nós já temos incorporações culturais ocidentais. Isso que fazemos aqui já é uma incorporação. Pessoas sentadas ouvindo palestra do Dharma já é uma incorporação cultural. Batizados Budistas e casamentos Budistas também são incorporações, pois no Budismo original não existiam. Havia festas de casamento no oriente onde os monges eram convidados, mas iam para comer. Já o batizado de crianças é um fenômeno dos últimos cem anos, totalmente ocidental. Como as famílias querem que haja uma cerimonia para o bebê, criou-se uma “cerimônia do nome” que funciona como se fosse um batizado. Não tem a função de limpar os pecados originais, salvar de uma possível condenação ou evitar que a criança seja pagã, mas satisfaz a todos e deixa todos felizes, que é o que o Budismo deve fazer.


P: Quando há essa adaptação para culturas diferentes, não se perde a essência do propósito para se adequar às pessoas? Não seriam as pessoas que deveriam se adequar ao ensinamento?

Monge Genshô – O ensinamento em si permanece. Estamos falando de adaptações cosméticas. Rituais e cerimônias que originalmente no Budismo não existiam. Foram cerimônias que cada escola foi criando com a função de treinamento. Não vamos sentar à mesa e simplesmente comer, vamos fazê-lo de forma ordenada, com certa delicadeza e profundo respeito, etc. As tradições foram criadas ao longo do tempo pelos mestres, que as vão modificando e adaptando. Mas isso não pode ser feito de forma rápida e pedindo opiniões. Se não cada um diz uma coisa que desejaria ver nas cerimônias.

Uma pessoa vem à Sangha pela primeira vez e diz que não gostou da recitação em língua arcaica. Ele não entendeu nada. Para ter condições de fazer esse tipo de crítica ele teria que ser um praticante de muitos anos. Ele ainda não sabe, não descobriu a essência, está criticando uma recitação que é feita a dois mil anos da mesma forma, passando por diferentes línguas. O ritual foi sendo codificado ao longo de séculos, não podemos jogar fora algo que está sendo feito a mil e duzentos anos da mesma forma. É preciso haver respeito. Por isso as adaptações têm que ser feitas com grande cuidado e muito lentamente.

Há que se separar o que é cultural, o que é útil, o que é meio útil, o que é um meio hábil de ensinamento e o que é simplesmente uma forma que pode ser modificada. Por isso essas modificações só podem ser feitas por mestres autorizados. O pior defeito seria a pressa, ou o julgamento instantâneo de opiniões. Muitas coisas já fazemos em português, esse talvez seja o ponto mais fácil para ser mudado. Agora, mudar roupas, reverências, tradições de muitos séculos como o Rakusu, isso não é simples.

Um dia uma pessoa me disse que não gostava da argola do Rakusu. Essa argola é uma lembrança de um antigo adereço com o qual se prendiam os mantos. Por isso ela foi preservada. Saikawa Roshi disse que tem que ter a argola e não discutimos o que o mestre diz. Quando formos mestres, poderemos dar nossa opinião.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

E a filosofia?


(continuação)
Pergunta – O mesmo ocorre com relação à filosofia?
Monge Gensho - No caso da filosofia acho que é mais grave ainda. A filosofia tem uma longa aventura investigativa, ela ajudou muito o homem a pensar. Eduardo Conze, que é escritor famoso sobre o budismo, diz que “o budismo é um pragmatismo dialético que usa métodos psicológicos, usa métodos filosóficos de raciocínio”. Muitas vezes, os discursos de Buda fundamentam-se em perguntas, respostas e raciocínios, sendo, em geral, muito claros. Não se trata de nenhuma crença. Recordo-me também de uma frase corrente no meio zen que diz que “filosofia é como um macaco descascando uma cebola”. Ele procura na cebola um caroço que não existe. E quando a gente descasca uma cebola o que acontece? Lacrimejamos.
 Então, além de descascar uma cebola, procurando um caroço que não existe, a gente ainda chora. Parece que depois de 2600 anos, ou mais, de filosofia, ela ainda não chegou ao seu final. Wittgenstein, talvez o mais brilhante filósofo do século XX, chegou à conclusão de que com palavras, com o instrumento da linguagem, nós não podemos chegar a descobrir a verdade. Ora, essa é uma afirmação muito velha no budismo, que diz que quando nós estamos falando do zen ele não está aqui. Eu estou falando do zen, ele não está aqui. Aqui só estão palavras. Por que os professores falam? Porque é a única coisa que nós temos. 
No oriente há uma atitude que não funciona muito bem no ocidente. Todos vêm, sentam em zazen, tomam chá em silêncio, e “- boa noite”. Mas, no ocidente, não. Eu sou um monge zen ocidental; aqui, todos querem explicações. As explicações são grandes problemas, e basta uma palavra ou uma frase errada para desviamos um aluno para sempre. Então, é muito perigoso falar sobre o zen, é responsabilidade demais. Por isso, é difícil de obter uma autorização para falar ou para ensinar; mesmo entre os monges é assim, os noviços não podem falar, os monges aprendizes não podem falar. O certo é  só aqueles que receberam a transmissão poderem falar. Durante muito tempo, eu falei sem ter a transmissão. Perguntando para meu mestre o que deveria fazer, ele respondeu: “Você tem que atender as necessidades das pessoas, se não houver ninguém, o que vamos fazer?” Mas esse é um grande problema, porque cegos não devem guiar cegos.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A expressão na vida diária



Algumas pessoas  se afastam por entender que a prática do Zen não era o que elas esperavam. Elas esperavam o que leram nos livros, coisas complicadas, koans, não dualidades, pensamentos muito complexos sobre o Zen. Não estão errados estes pensares, mas eles não são o verdadeiro Zen porque o verdadeiro Zen se expressa em pequenos detalhes e não se expressa através do conhecimento verbal, do raciocínio. Ele se expressa em outras coisas. Para nós vermos um bom praticante do Zen nós não o ouvimos, nós sentamos com ele, olhamos as suas costas. E ao olhar as costas do praticante nós sabemos: é um praticante sério. Não importa o que ele disser. Importa como ele pratica, como ele anda, como ele coloca os seus chinelos, como ele faz a oferenda de incenso, como ele faz cada coisa porque é na expressão da vida diária que nós vemos a verdade.
Não adianta fazer belos discursos sobre o Zen e depois ter um ataque de raíva. Esse não é o Zen. Não é o Zen falar bonito e depois ter atitudes quaísquer de cobiça, de orgulho, de inveja, aquelas que nós citamos nos preceitos. A verdade vai aparecer na expressão da forma. A verdade aparece na fala e nas ações que expressam a mente. Por isto treinamos a mente. Treinando a mente deveremos mudar as nossas ações, as nossas formas, mas viemos no zendô e treinamos a forma para ver quanto estamos atentos. Uma mente atenta, não é uma mente distraída, viajando, perdida. Mas  quando estamos fazendo coisas no zendô, com todas as regras, aí nós erramos. Quando nós erramos, nós rimos, porque todos erramos. Mas quando nós erramos e rimos é para nos dar conta de que é esse o nosso verdadeiro estado. O nosso estado se expressa aí e depois a gente senta e pratica com a nossa mente das duas formas, observando a mente no zazen e mantendo a forma de Buda no zazen. Então são esses dois caminhos bem juntos. Se você tirar a forma do Zen não é mais o Zen, é outra coisa.
Não vale a pena praticar se você não compreende isso. É melhor então procurar uma prática em que você não sente este conflito. Mas eu fico pensando quantos desses enganos provêm de falhas minhas como professor. De explicar claramente o que é isso porque na tradição do oriente não se explica. Então simplesmente se faz e se espera que as pessoas consigam compreender sozinhas. Mas no ocidente como chegou a tão pouco tempo o Zen, acho que o professor tem que explicar.