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terça-feira, 2 de abril de 2013

Sobre traduções de Dogen.

Recebi uma carta com comentários sobre as traduções de Dogen, de meu dileto amigo e budista histórico Prof. Celso Marques (Prof de filosofia da UFRGS), como é uma carta primorosa divido com todos os interessados nos textos do grande mestre Dogen Zenji:


"Meu velho e querido amigo Chalegre-Genshô ! Gasshô !
É um prazer e uma honra atender ao teu pedido. 
 A tradução inglesa do Shôbôgenzô, texto integral em quatro volumes, do mestre Sotô Zen Gudo Nishijima e seu discípulo Chodo Cross. Até 2010 era considerada a melhor tradução inglesa. Nishijima passou a maior parte da sua longa vida estudando Dôgen. É uma tradução valiosa devido à autoridade espiritual do mestre zen e pelo perfeccionismo do Chodo Cross. Além da tradução temos aí o resultado de todo um imenso trabalho exegético e interpretativo com abundantes notas de rodapé que tornam a sua leitura muito rica e significativa. Chodo Cross declarou publicamente, ao mundo inteiro, em comentário na Amazon.com, que estava ainda muito insatisfeito com a tradução. Uma lição de humildade, grandeza e de respeito pela obra de Dôgen. Eu disse que até 2010 esta tradução era considerada a melhor. Saiu uma tradução notável do Shôbôguenzô em 2010 que hoje é obra de referencia obrigatória. Trata-se de um trabalho coletivo produzido pela nata do Sotô Zen nos Estados Unidos. Uma publicação primorosa em dois volumes encadernados dentro de um estojo. Edição da Shambala. Coisa de 280 dólares. As minhas primeiras impressões de leitura foram ótimas e esta tradução é um marco do budismo ocidental.  Estas duas traduções são importantíssimas para os estudiosos e praticantes do Sotô Zen. Outro tradutor e comentador notável de Dôgen é Masao Abe. Junto com Norman Waddell ele publicou The Heart of Dogen's Shobogenzo, uma tradução anotada primorosa de nove capítulos desta obra. Existem cinco traduções inglesas do Shobogenzo. Mas estou sem tempo para fazer comentários sobre elas. Existe uma tradução notável em francês, realizada por Yoko Orimo que já está no sexto volume, publicado em 2012. É uma tradução requintada, extremamente erudita e copiosamente comentada. No entanto eu discordo de algumas comparações do pensamento de Dogen com a dialética de Hegel, detalhe filosófico ínfimo que, absolutamente, não invalida o seu prodigioso trabalho. Existem outras traduções em francês que poderei comentar em outra oportunidade, caso haja interesse. Para finalizar temos em português duas obras insubstituíveis de budistas brasileiros históricos. As traduções parciais de Dogen e de textos clássicos do zen, feitas por Ricardo Mário Gonçalves na antologia Textos Budistas e Zen-budistas (Cultrix), e o livro O Mestre Zen Dôguen, tese de doutorado do meu amigo e companheiro de muitos anos de prática e de convivência, o monge Sotô Eduardo Basto de Albuquerque. Fico emocionado ao evocar estas duas pessoas que foram marcantes na minha formação budista, especialmente o Eduardo por já não estar mais entre nós. Receba um grande abraço. No Dharma, Gasshô, Celso Marques."  

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Uma mente aberta é melhor



Pergunta – Razão e emoção formam uma dualidade?

Monge Gesnhô – Acho que devemos questionar a razão também. Aquilo que chamamos de “razão”, muitas vezes é governado por um sistema de crenças. Nós acreditamos que algo seja pior, ou melhor. Como temos um sistema de crenças, damos a ele razão. Mas podemos estar enganados.

Pergunta – Qual a conduta a seguir?

Monge Genshô – Muitas vezes também me pergunto isso. Seguidamente me questiono sobre o que fazer, sobre qual seria a melhor conduta em certa situação. Quando temos filhos ou netos, é comum nos indagarmos: “e agora, qual seria a melhor maneira de agir, o que dizer?” Muitas vezes não estamos tão certos. Mais tarde, anos depois, o filho nos diz: “tu deverias ter sido mais duro comigo”. E pensávamos estar sendo duros demais. É muito freqüente que um filho adolescente nos acuse de sermos muito severos e que anos mais tarde ele mesmo diga que deveríamos ter sido mais duros. É muito difícil saber o que fazer ou o que dizer. O melhor é cultivarmos uma mente mais livre, descondicionada, que realmente nos permita dizer “não sei.” São muito perigosas as pessoas que têm certezas e que sabem muito nitidamente o que é melhor. Às vezes, existe nas famílias aquela pessoa que tem razão e que quer impor sua vontade sobre a família inteira. Ela se considera sempre certa, tem seu conjunto de crenças, e quer, por força, que todos as aceitem. No fim, isso pode ser muito ruim. Como é que se sabe o que é melhor? Como você pode impor aos outros o que pensa ser o melhor? Você não sabe. Temos muitos exemplos de pessoas que se tornaram grandes em alguma coisa contra o que seus pais tinham se oposto acirradamente. Há pouco tempo, li na autobiografia de Elias Canetti que sua mãe lutou denodadamente para que ele tivesse uma profissão, que estudasse algo que fosse realmente útil, para que não ficasse em fantasias de literatura. Ele então se graduou, fez mestrado e doutorado em química, para obedecer a sua mãe. Elias Canetti foi prêmio Nobel de literatura; nunca foi químico. Mas sua mãe tinha absoluta certeza de que sabia o que era bom para seu filho e morreu em conflito com ele. Como podemos saber o que é realmente bom, o que é certo? Voltando à questão relativa a coração e razão, podemos dizer que o que pensamos ser a razão, pode estar errado. Uma mente aberta seria, portanto, mais conveniente.