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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Porquê do Zen ser Severo




Quando o Zen chegou na China, no ano 600 d.C., ele já se impôs como uma prática com viés elitista do ponto de vista espiritual. Basta olhar o comportamento dos mestres Zen: eles não tentam fazer uma religião para o povo. Eles estão num país que já é budista, que tem budistas para todos os lados. A China já era budista havia 500 anos: o próprio imperador era budista quando Bodhidharma chegou lá.

O que os mestres Zen daquela época tentaram criar foi um núcleo para pessoas que procuravam a iluminação, de modo que eles selecionavam os discípulos com grande severidade. Bodhidharma passou nove anos sem aceitar nenhum discípulo, e só aceita Taiso Eka quando este corta o braço para mostrar sua sinceridade. E as atitudes de Bodhidharma sempre são assim, muito “não consoladoras”.

Taiso Eka ficou na frente da caverna por três dias sem comer, sem beber, com neve cobrindo seus pés, até que, desesperado, corta o braço (provavelmente ele deu um talho o braço para mostrar sua sinceridade, tradição, jurar pelo seu sangue, mas ele é representado miticamente com o braço cortado). Bodhidharma, ao ver o sangue de Eka, vai até ele e pergunta: “muito bem, o que você quer?”. E Taiso Eka diz: “mestre, minha alma não tem paz, pacifica minha alma!”. Bodhidharma responde: “mostre-me tua alma e eu a pacificarei”. Taiso Eka embatuca. Bodhidharma diz: “pronto, já pacifiquei tua alma”.

É, na verdade, um diálogo de demolição: demoliu ilusões de Taiso Eka, que se iluminou naquele exato momento, tornando-se desperto. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Ambos estão em nossa linhagem direta.

Então, o Zen vai para as montanhas, tem mosteiro, os mestres admitem alunos, como Bodhidharma admitiu Taiso Eka: com grande severidade. Nossa atitude hoje é um pouco descendente disso: quer vir para o sesshin? Quer ouvir palestra? Muito bem, tem que se sentar de frente para a parede, tem que sofrer. Sofreu, doeu, não desistiu, ficou aqui, então tudo bem: você merece respostas. Se vier e disser assim: “quero fazer perguntas”, só curiosidade intelectual, não vai levar a nada. No fundo, é o esforço que vai fazer levar.

[N.E.: transcrição de palestra realizada por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Treinamento Árduo




Os Mestres não são nem um pouco piedosos. Se você não tiver confiança e coragem para ficar com seu professor você desiste, pois acha que ele não é nem um pouco compassivo com você. Quanto mais ele acreditar em você, mais severo ele será. Enquanto os alunos são novos, eles são muito bem tratados. Quanto mais o aluno progride, mais o professor pede a ele. Este é o processo. Não é muito diferente de quando você resolve estudar música, vai a um professor e pede que ele lhe ensine. Ele cobra muito de você e, quanto melhor é o aluno, mais ele cobra. É natural.

Semana passada eu visitei, com a Semitha Cevallos (Shin On), que é nossa aluna em Joinville e pianista no Bolshoi, o diretor do Bolshoi, senhor Pavel. Na Rússia, ele foi selecionado para o Conservatório de Moscou, onde é difícil de entrar. De lá, foi selecionado para o Bolshoi e hoje é diretor do Bolshoi de Joinville, o único Bolshoi fora da Rússia no mundo.

Ele estava nos falando do padrão de treinamento do aluno no Conservatório de Moscou: são seis horas por dia no instrumento treinando, fora as aulas de harmonia, composição, teoria musical, etc. que ele tem que fazer e, fora o colégio, instrução normal.

Só assim você consegue um alto padrão, somente com alta exigência. No Zen não é diferente. Os mosteiros são tão severos, tão difíceis. No ano passado eu estive por três meses em um mosteiro japonês e perdi 16 Kg. Sodô san, nossa Monja de Brasília, ficou dez meses, e perdeu 25 Kg. Realmente não é fácil, mas é muito melhor do que era no tempo de Dogen, no séc. XIII. Quem quiser ter uma ideia, assista ao filme sobre a vida de Dogen.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Uma mente aberta é melhor



Pergunta – Razão e emoção formam uma dualidade?

Monge Gesnhô – Acho que devemos questionar a razão também. Aquilo que chamamos de “razão”, muitas vezes é governado por um sistema de crenças. Nós acreditamos que algo seja pior, ou melhor. Como temos um sistema de crenças, damos a ele razão. Mas podemos estar enganados.

Pergunta – Qual a conduta a seguir?

Monge Genshô – Muitas vezes também me pergunto isso. Seguidamente me questiono sobre o que fazer, sobre qual seria a melhor conduta em certa situação. Quando temos filhos ou netos, é comum nos indagarmos: “e agora, qual seria a melhor maneira de agir, o que dizer?” Muitas vezes não estamos tão certos. Mais tarde, anos depois, o filho nos diz: “tu deverias ter sido mais duro comigo”. E pensávamos estar sendo duros demais. É muito freqüente que um filho adolescente nos acuse de sermos muito severos e que anos mais tarde ele mesmo diga que deveríamos ter sido mais duros. É muito difícil saber o que fazer ou o que dizer. O melhor é cultivarmos uma mente mais livre, descondicionada, que realmente nos permita dizer “não sei.” São muito perigosas as pessoas que têm certezas e que sabem muito nitidamente o que é melhor. Às vezes, existe nas famílias aquela pessoa que tem razão e que quer impor sua vontade sobre a família inteira. Ela se considera sempre certa, tem seu conjunto de crenças, e quer, por força, que todos as aceitem. No fim, isso pode ser muito ruim. Como é que se sabe o que é melhor? Como você pode impor aos outros o que pensa ser o melhor? Você não sabe. Temos muitos exemplos de pessoas que se tornaram grandes em alguma coisa contra o que seus pais tinham se oposto acirradamente. Há pouco tempo, li na autobiografia de Elias Canetti que sua mãe lutou denodadamente para que ele tivesse uma profissão, que estudasse algo que fosse realmente útil, para que não ficasse em fantasias de literatura. Ele então se graduou, fez mestrado e doutorado em química, para obedecer a sua mãe. Elias Canetti foi prêmio Nobel de literatura; nunca foi químico. Mas sua mãe tinha absoluta certeza de que sabia o que era bom para seu filho e morreu em conflito com ele. Como podemos saber o que é realmente bom, o que é certo? Voltando à questão relativa a coração e razão, podemos dizer que o que pensamos ser a razão, pode estar errado. Uma mente aberta seria, portanto, mais conveniente.