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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
A conduta do discípulo
É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.
Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, (visitar a comunidade budista) você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu mestre tem para ensinar. É outra coisa.
Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que aceitar, silente, não resistente e obediente. Não dá para o mestre ficar lutando com o aluno para convencê-lo de alguma coisa.
Alguém já estudou música? Oh, tem um bocado de músicos! Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando eu era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Frederico Richter, ele disse que em um trecho de um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que a que o professor está ensinando...
Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não há condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a quarenta anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram quarenta anos treinando? Eles não discutem mais. "Por que tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. Professor disse que é assim, limpe o prato com o pão e coma o pão.
Quando a gente come com oryoki, a gente lava o oryoki com água quente no final, passando de uma tigela para outra e depois, bebe. "Mas vou beber a água que lavei a tigela?" Só beba, não pergunte nada. Depois você vai descobrir, vai olhar e dizer: "eu comi e de tudo que comi, não sobrou nada, não foi nada para o lixo, nada foi poluir a natureza". Se todo mundo comesse assim, como seria? Seria completamente diferente. Isto são as questões da prática, da relação com o mestre e da questão da prática que é a iluminação. Quando vocês ouvirem "a prática é a iluminação", está certo, mas não confundam: a prática não é a iluminação. (Final da palestra de Monge Genshô, abre para perguntas)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
O terceiro preceito
3. Eu decido não utilizar mal a minha sexualidade, e sim ser cuidadoso e responsável.
Nós reconhecemos que a sexualidade faz parte da nossa prática tanto quanto qualquer outro aspecto das nossas vidas diárias. Reconhecer e honrar a nossa sexualidade é uma forma de criar um ambiente onde relacionamentos conscientes e compassivos podem ser cultivados. Deve ser tomado um cuidado especial quando pessoas entram em uma relação sexual. Existem formas de relacionamento que podem levar a grande dano e confusão.
O Terceiro Treinamento da Plena Consciência diz: Atento ao sofrimento causado pela má conduta sexual, eu me comprometo a cultivar a responsabilidade, e aprender modos de proteger a segurança e integridade de indivíduos, casais, famílias e da sociedade. Eu estou empenhado a não me envolver em relações sexuais sem amor e sem um compromisso duradouro. Para preservar a felicidade de mim mesmo e de outros, estou determinado a respeitar meus compromissos e os compromissos alheios. Farei tudo em meu poder para proteger as crianças do abuso sexual, e para impedir que casais e famílias sejam separados devido à má conduta sexual.
De: http://monjaisshin.wordpress.com
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O caminho é infindável
Pergunta – Me sinto muitas vezes perdida, porque, aquilo lá fora não me diz mais nada e ao mesmo tempo aqui não cheguei em nada ainda...estou entre nada e coisa nenhuma...
Monge Genshô – Por isso o quarto voto do Bodhisatva, O Caminho de Buda é infindável, faço voto de percorre-lo até o fim. Mesmo que a gente tenha uma pequena experiência de despertar e comece a vislumbrar coisas, mesmo assim, você tem uma experiência e pensa que é pequena, embora ela tenha distanciado você das outras pessoas e elas pensem que você é louco e não podem mais entendê-lo. Você percebe que existe muito mais a fazer e passa para um estágio um pouco melhor, e quando olha pra frente parece infindável mesmo. Genshu Osho, (Osho é o título dos monges plenamente formados não o nome de alguém) não é de uma família de monges, ele é de uma família comum, trabalhou como operário, mas sentia-se inquieto e foi para um mosteiro.
Não ser de uma família de monges no Japão significa uma dificuldade, da maneira como o Zen se estruturou no Japão, em que templos acabam sendo hereditários e confortáveis cartórios para se viver, os monges de vocação são diferentes e essa é a condição dele. Ele foi para um mosteiro e ficou dez anos sem sair, dez anos vivendo como nós estamos vivendo no sesshin, praticando cerimônias, sem família e sem ver o fim, sem nunca ver o fim. Sempre na esperança de chegar um pouco mais longe. Uma vez por mês sesshin. E todos os dias no encerramento das atividades o verso “não desperdice sua vida”. Porque todos os dias passam e você não obteve o despertar. Todos os dias de novo, por dez anos. Então, é claro, o rosto muda.
Ele ficou na minha casa e o que posso dizer dele? Um homem comum, só que em sua conduta não há falhas. Eu disse à ele que poderia ver televisão se quisesse, ele me respondeu que faz 15 anos que não vê televisão, então vai para o quarto e lê, ou senta num zafu e pratica zazen. Depois de dez anos ele ainda precisa praticar. Ele pediu para ficar em casa um dia e o que ele fez? Lavou a roupa, estendeu, limpou a casa. Se você disser, “sim, ele recebeu a transmissão, agora é Osho, isso significa que ele tem alguma realização espiritual, mas qual é esse intelecto, essa inteligência, essa compreensão, essa sabedoria?” A única coisa que posso dizer é que ele limpou a casa.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Vegetarianismo e mosteiros zen
Pergunta – Uma coisa em que eu penso muito é sobre o consumo da carne. Não é mais somente uma coisa de propaganda. Antes eu pensava que era um hábito de família. Mas se formos observar a pirâmide alimentar dos nutricionistas, a base é carne e derivados de animais. Se for ao médico, ele lhe dirá para comer carne. Meu pai, por exemplo, ficou anos sem comer carne, então teve um problema de saúde, e o médico o assustou tanto, que ele voltou a comer carne. Existe algo além da mídia, é algo da ciência mesmo.
Monge Genshô – O que existe é um sistema de crenças, e ele irá variar. Por exemplo, nós sabemos que nos mosteiros Zen budistas, desde o tempo da China - ou seja, há mil e quatrocentos anos - se desenvolveu uma cozinha vegetariana, porque não se podia matar nos mosteiros e na China a mendicância era proibida. O resultado final dessa cultura é que no Japão, por exemplo, o consumo de carne de mamíferos é uma coisa recente, tem apenas cento e poucos anos. Antes disso, comer carne era uma coisa absurda. Comiam bastante peixe, mas jamais carne de caça ou de bois e porcos. O resultado disso foi a longevidade; a tradição nos mosteiros Zen é de longevidade com lucidez, e dificilmente você vê alguém gordo, pois ali comem muitos vegetais e grãos. Mas um monge pode aceitar carne se lhe é oferecida, não pode aceitar que alguém se proponha a matar um animal com o fim de alimenta-lo, esta proibição vem desde o Vinaya (código de regras monásticas) mais antigo.
Aluno - Acho que já está na hora do meio científico começar a divulgar isso...
Monge Genshô – Eu acredito que já haja algumas correntes que fazem esse trabalho.
Aluno - Parece que todo o modelo de consumo leva para a carne, não existe um financiamento de pesquisa contra o consumo de carne.
Monge Genshô – Porque nas faculdades é ensinado assim, há um lobby industrial forte, mas existem outras correntes que questionam isso, já temos literatura a esse respeito. O máximo que posso oferecer é meu exemplo pessoal: não como carne há mais de sessenta anos, meu pai era vegetariano, fui criado numa casa onde até o cachorro era vegetariano, pois naquela época não se dava ração e ele comia o resto da nossa comida. E lembro que quando viajávamos e deixávamos o cachorro com minha avó, quando voltávamos, ele estava gordo. O cachorro pode viver sem carne, mas é essencialmente carnívoro. Sua arcada dentária é completamente diferente da nossa, por exemplo, que é semelhante à dos macacos frugívoros. Não temos dentadura típica de um animal carnívoro; nossa mandíbula é diferente também com movimentos laterais. Mas o budismo não está focado nessa questão, não é necessário ser vegetariano ou vegano se você é budista.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Uma mente aberta é melhor
Pergunta – Razão e emoção formam uma dualidade?
Monge Gesnhô – Acho que devemos questionar a razão também. Aquilo que chamamos de “razão”, muitas vezes é governado por um sistema de crenças. Nós acreditamos que algo seja pior, ou melhor. Como temos um sistema de crenças, damos a ele razão. Mas podemos estar enganados.
Pergunta – Qual a conduta a seguir?
Monge Genshô – Muitas vezes também me pergunto isso. Seguidamente me questiono sobre o que fazer, sobre qual seria a melhor conduta em certa situação. Quando temos filhos ou netos, é comum nos indagarmos: “e agora, qual seria a melhor maneira de agir, o que dizer?” Muitas vezes não estamos tão certos. Mais tarde, anos depois, o filho nos diz: “tu deverias ter sido mais duro comigo”. E pensávamos estar sendo duros demais. É muito freqüente que um filho adolescente nos acuse de sermos muito severos e que anos mais tarde ele mesmo diga que deveríamos ter sido mais duros. É muito difícil saber o que fazer ou o que dizer. O melhor é cultivarmos uma mente mais livre, descondicionada, que realmente nos permita dizer “não sei.” São muito perigosas as pessoas que têm certezas e que sabem muito nitidamente o que é melhor. Às vezes, existe nas famílias aquela pessoa que tem razão e que quer impor sua vontade sobre a família inteira. Ela se considera sempre certa, tem seu conjunto de crenças, e quer, por força, que todos as aceitem. No fim, isso pode ser muito ruim. Como é que se sabe o que é melhor? Como você pode impor aos outros o que pensa ser o melhor? Você não sabe. Temos muitos exemplos de pessoas que se tornaram grandes em alguma coisa contra o que seus pais tinham se oposto acirradamente. Há pouco tempo, li na autobiografia de Elias Canetti que sua mãe lutou denodadamente para que ele tivesse uma profissão, que estudasse algo que fosse realmente útil, para que não ficasse em fantasias de literatura. Ele então se graduou, fez mestrado e doutorado em química, para obedecer a sua mãe. Elias Canetti foi prêmio Nobel de literatura; nunca foi químico. Mas sua mãe tinha absoluta certeza de que sabia o que era bom para seu filho e morreu em conflito com ele. Como podemos saber o que é realmente bom, o que é certo? Voltando à questão relativa a coração e razão, podemos dizer que o que pensamos ser a razão, pode estar errado. Uma mente aberta seria, portanto, mais conveniente.
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quinta-feira, 15 de julho de 2010
O zen é sem regras?
Monges retornam implementos à cozinha após a refeição. Yokoji, angô, 2010.
1) O zen é uma escola budista. Baseia-se nas escrituras do Triptaka e não pode ignora-las. Destas escrituras consta o Vinaya, as REGRAS para os monges, as quais são bem severas, dizer que o zen não estabelece preceitos de conduta é ignorar toda a base das escrituras originais.
2) Para a inclusão na comunidade dos praticantes zen é padrão assumir-se os primeiros cinco preceitos: Não matar, Não roubar, Não enganar, Ter conduta sexual que não cause sofrimento aos outros, Não usar substâncias que alterem a consciência.
Será que poderíamos dizer do zen que ele se omite quanto a isto??
Um trecho do grande Mestre Zen Dainen Katagiri:
"No buddhismo Zen há um ritual para se entrar no caminho de Buddha.
Consiste em expressar o arrependimento informal, em buscar refúgio no tesouro triplo e em jurar praticar os três preceitos coletivos puros e os dez preceitos proibitivos. Esse ritual baseia-se na idéia de arrependimento, que significa, no buddhismo, total abertura de coração. se nos abrirmos completamente, consciente ou
inconscientemente, estamos prontos para ouvir a voz silenciosa do universo." [...]
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