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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Ética Budista




Aluno: talvez relevante não seja o que a gente faça com a vida?

Monge Genshô: Relevante é o que você faz com sua vida sim. Eu [ao falar sobre quão efêmera é a vida] estou acentuando um lado para desconstruir esse agarramento. Do outro lado a vida é maravilhosa e você tem que aproveitar cada momento sabendo: "ah, vai terminar!"

Hoje eu vi uma notícia assim: Usain Bolt ganhou 100 metros rasos e à noite comemorou com três suecas. Certo ou errado? Não posso julgar isso nem para ele, e nem para elas. Isso foi um momento deles, e eles quiseram festejar dessa forma. É uma forma fugaz, pois, no outro dia, desapareceu, como todos os prazeres da vida. Nós não fazemos julgamentos deste tipo no budismo: "ah, é culpado". Os julgamentos no budismo são assim: "causou sofrimento ou não causou sofrimento?". Por isso é que nós não julgamos as pessoas por suas preferências ou pelo que fazem, ou por suas escolhas pessoais. Quais são as consequências dessa escolha? Isso é o que vamos ver depois, e é assim que as coisas têm que ser cogitadas.

Não existem mandamentos no budismo, nenhum Deus para nos castigar ou punir em relação ao que fazemos. Tudo é ética construída em cima da pergunta: "você está causando sofrimento aos outros?". Se causar sofrimento é muito ruim. E é aí que percebemos que essa ética é mais aguda que mandamentos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A Relevância da Vida





Aluno: Como é possível se conectar sem se apegar e não se apegar sem que tudo se torne irrelevante?

Monge Genshô: Na verdade todas as coisas são irrelevantes. Diga-me uma coisa verdadeiramente relevante.

Aluno: A vida.

Monge Genshô: A vida é relevante. No entanto, o que a vida é se não, a cada momento, a própria morte? Você a todo o momento está morrendo. Quando você se levanta de manhã e olha no espelho, vê o trabalho da morte, não é? Mais uma ruga, mais um dente que está caindo. É assim, não é? Nós pensamos que somos relevantes, mas não somos. Estou falando a uma plateia de condenados à morte, só que ninguém sabe o tamanho da corda que está pendurada no pescoço - estamos todos caindo de um precipício, e daqui a pouco para um de nós aqui a corda estica. Nós não sabemos qual de nós vai morrer primeiro. 
Eu recebi um convite para o aniversário do meu irmão. Ele vai fazer 70 anos. Isso quer dizer que daqui a pouco eu vou fazer também. Qual é a expectativa média de vida no Brasil? 73 anos. Na média, daqui a três anos eu estarei morto. Nós não sabemos. A vida é relevante? Nada é mais relevante do que se libertar de todo o medo, agonia, porque, do contrário, o que sobra?

 O planeta vai acabar, a vida vai acabar, a nossa raça humana vai acabar. A Terra já sofreu cinco grandes extinções, e uma extinção um dia virá para nós. Quem sabe daqui a 200 anos todos nós já não seremos obsoletos e seremos substituídos por seres mecânicos que nós mesmos tenhamos criado... Seres meio mecânicos e meio inteligentes, com capacidades de raciocínios superiores que digam: olha só como há 200 anos eles eram primitivos!