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sexta-feira, 16 de março de 2018

Vida Após a Morte




Pergunta: Existe vida após a morte?

Monge Genshô: Por que você quer que exista? Porque você quer que o eu permaneça. Todas as fantasias religiosas dos homens que querem uma consciência sobreviva à morte, ou que exista uma alma ou um espírito, são construções do medo que os homens têm da morte. Por isso essas fantasias existem.

O budismo diz: não é isso, na verdade você não viu sua verdadeira natureza e quer criar uma fantasia que permaneça. Existem mil fantasias diferentes, paraísos, sobrevivências, renascimentos, reencarnações, nada disso se sustenta se você olhar que seu eu não sobrevive a uma doença de Alzheimer.

quarta-feira, 14 de março de 2018

A Grande Ilusão




Pergunta: Mas a gente também não dá nome às folhas que caem na floresta, ou às ondas do mar.

Monge Genshô: E por que damos nomes aos homens? Nós não somos nós. Não é você. Se eu pergunto: quem é você, qual é a resposta?

Pergunta: Posso dizer que sou eu?

Monge Genshô: Pode, mas ainda será uma ilusão, porque você construiu esse eu, essa noção de um eu separado. Você construiu, atribuiu um nome a si e diz “eu sou eu”. Na verdade, se retirarmos sua memória, você não saberá mais quem é. Porque você depende da memória para sustentar essa ideia. Então você depende do passado para sustentar a sua noção de eu. Na verdade, todos os nossos eus são sem sentido, assim como seria sem sentido darmos nomes às ondas. Se você desse nomes para ondas ou para as folhas, não seria porque a folha chama Joana que você iria chorar quando ela caísse no chão.

Pergunta: Mas a gente precisa se alimentar, trabalhar, etc., como o senhor falou, e tudo isso gera um sentido de que tudo é tão concreto e real.

Monge Genshô: Tudo é tão nítido que você sofre por ele. Por isso a maior ilusão é a nossa crença num eu pessoal. Essa é a sua maior falha. Você acredita em você e por isso você vai morrer. O eu não vai sobreviver a uma morte. Se não sobrevive a uma amnésia, vai sobreviver ao apodrecimento de seu cérebro? Vai sobreviver aos vermes saindo pelos seus olhos?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Nem Existir, Nem Não-Existir




Pergunta: Isso que o senhor falou sobre trabalhar no mundo e na sangha me remeteu àquela frase: “estar no mundo sem ser o mundo”. A gente está nele, mas nós não podemos pertencer a esse mundo de ilusão.

Monge Genshô: Ele é um mundo de ilusão aos nossos olhos deludidos, mas para os olhos de Buda é o mundo tal como ele é. Ele é como é. Nós olhamos o mundo de forma distorcida, como se usássemos óculos que distorcem a realidade. Se nós tirarmos os nossos olhos e colocarmos os olhos de Buda, o mundo é real, ele não é ilusório. É a nossa percepção que é ilusória. Isso é bem importante de lembrarmos, porque não é como se o mundo fosse um sonho, ele existe. Mesmo que você desapareça, ele existe.

Existe uma escola chamada Yogachara, que propôs que só existia consciência e que éramos nós que fazíamos surgir o mundo com a nossa consciência. Isso implicaria que desaparecendo você, desapareceria todo o universo. Essa escola, embora sua estética tenha sobrevivido dentro de outras escolas, não sobreviveu de forma pura por causa do radicalismo dessa postura. Compreende? Então o budismo não é niilista, nada existe, nem eternalista, tudo existe para sempre. O budismo é madhyamika: caminho do meio, nem um extremo, nem outro.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]