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segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Srotapanna, aquele que entrou na corrente
1) O senhor falou em uma palestra sobre “entrar na corrente”, poderia falar um pouco mais sobre isso?
Monge Genshô – Penso que a intenção desta expressão em sânscrito, “Srotapanna”, que literalmente significa “aquele que entrou no rio”, srota significa fluxo e apanna aquele que entrou, seja transmitir a idéia de que você se comprometeu o suficiente com a prática para que ela arraste você.
Normalmente o que acontece com o leigo é que logo que ele inicia a prática fica empolgado, mas esta empolgação acaba e é fácil desistir. Não existe a idéia de obrigação em praticar, não existe a noção de pecado e você não precisa participar dos retiros ou cerimônias, desta forma, as pessoas sentem-se livres para virem à Sangha quando desejarem. Mesmo os monges podem desistir quando assim o desejarem. Isso é perfeitamente possível, pois os votos são dele e não da instituição, e não haverá nenhuma excomunhão ou algo do tipo. Até mesmo um mestre com transmissão do Dharma pode dobrar seu manto e desistir do caminho.
O que acontece é que com o comprometimento, vão se criando vínculos psicológicos que vão firmando você na prática, seus amigos, o hábito de praticar, a comunidade, tudo isso vai criando um elo e fica mais difícil você se afastar, então, dizemos que alguém “entrou na corrente” quando fica muito difícil dele parar. Criou-se uma marca suficientemente forte para que ele continue sempre e, a partir de determinado ponto, o retorno fica difícil.
É como se existisse uma força alheia à sua vontade que o mantém na prática. É claro que para quem decide pelo caminho monástico, isso se torna cada vez mais forte. Acredito que isso seja assim em todo tipo de relacionamento, não é verdade? Não é assim com um namoro, por exemplo? Você conhece uma pessoa, convida para jantar, saem com mais frequência, conhece a família, coloca uma aliança no dedo e finalmente se casam, quanto mais você avança nesse processo, mais difícil de sair. Mesmo assim, não existe nada em lugar algum que diga que você esteja amarrado àquela pessoa, você pode sair do relacionamento quando desejar, mas realmente quanto mais profunda é sua relação, mais difícil de sair.
Aluno - Mas é possível sair da corrente?
Monge Genshô – Sempre dá, não existe nada de definitivo no mundo. Um dia alguém me disse que pensava ser difícil alguém “dar para trás” espiritualmente. Dar para trás na vida é muito fácil. Você pode sair da Sangha, se deparar com um briga no transito, discutir e matar uma pessoa, pronto, vai parar na cadeia e, de tropeço em tropeço sua vida pode ficar muito complicada.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Diferentes mundos
Originalmente, este samadhi é o lugar de prática sagrado, como o oceano de todos os Buddhas. Então, é o maior e mais sagrado de todos os fundamentos transmitidos diretamente pelo Buddha através da prática sagrada universal. Como é um discípulo do Buddha, você deve praticar a meditação sentada tranqüilamente sobre seu assento.
Não se sente sobre a almofada do inferno, dos pretas,(TEXTO) os pretas são os fantasmas famintos (COMENTÁRIO) dos animais ou asuras,(TEXTO) asuras são semideuses (COMENTÁRIO) nem mesmo dos humanos ou deuses. (TEXTO) Aqui é uma repetição tradicional dos reinos como foi ensinado no Budismo originalmente. Há reinos diferentes. Existe o reino dos infernos, o reino do inferno é o reino onde o sentimento predominante é o ódio e a raiva. Neste lugar é o inferno, é o mundo infernal. Se você se sentar na sua almofada cheio de raiva e ódio é a almofada do inferno, se você sentar sobre a almofada da ganância é dos pretas, dos fantasmas famintos que por mais que se dê nunca estão satisfeitos, eles tem corpos imensos como montanhas e gargantas finas como fios de cabelo e por isto estão sempre mortos de fome e sede e na realidade é uma imagem da ganância, das pessoas que precisam ter sempre mais, mais, sem limites e que nunca estão satisfeitas. Na realidade todos nós passamos por estes mundos nas nossas vidas, tem o momento da raiva, o momento da ganância, o mundo dos semideuses é o mundo da inveja, da inveja e da competição, sempre queremos ganhar este é o mundo dos semideuses, uma boa prática para o mundo dos semideuses é torcer por um time de futebol, você pratica a oposição ao outro, o desejo de ganhar e o desejo que o outro perca, é o mundo dos semideuses.
É o mundo também dos executivos, do mundo de negócios, temos que ganhar, não é um mundo de ganância por incrível que pareça, é um mundo de semideuses, o importante é derrotar a concorrência e esta é uma prática que leva ao mundo dos semi-deuses, é um mundo de poder, de armas um mundo de competição. Já que eu estou explicando todos os mundos o mundo dos animais é um mundo da obscuridade, da ignorância, é um mundo onde não há clareza alguma e há seres humanos que agem assim mesmo sem nenhuma clareza, destroem o mundo a sua volta, derrubam as matas, matam os seres vivos, jogam esgoto nos rios, esta é uma mente animal, uma mente ignorante, uma mente que não percebe o efeito do que está fazendo e não se preocupa, nem percebe o sofrimento que está causando nos outros. Existe uma certa inocência nisso porque não percebe nada, é uma mente animal, e existe um mundo humano, o mundo humano é o que mais facilmente permite a iluminação é um mundo aonde existem todas as coisas misturadas, você experimenta todas, mas tem a grande vantagem de ter uma mente que tem a possibilidade de ter clareza, você tem a capacidade de aprender, de ouvir o Dharma e tem a capacidade de compreender, porque tem a capacidade de compreender você pode escapar desses mundos aprisionantes e ainda existe o mundo dos deuses, de grande mérito, prazer e felicidade, mas ainda sujeito a decadência pois nele é difícil ouvir o Dharma, o mundo dos deuses...
P. Foi falado hoje de manhã, tem que descer até o teu inferno, lutar com ele e caminhar, mas às vezes é difícil não sentar magoado ou não sentar com raiva, buscar se acalmar ou que isto se dissipe. Como fazer?
R. Você é um ser humano, você entrou no inferno, tem um problema de raiva, de ódio, alguém que você amava traiu você, agora você tem um grande privilégio porque você tem uma mente humana e tem clareza de compreender, ah, isso é raiva, isso é ódio, isso é mágoa, eu estou sentindo assim então eu vou caminhar aqui dentro deste inferno porque eu vou sair, agora se você mergulha naquele sentimento e não sai dele você está no inferno e não está caminhando mais. Tem uma fábula sobre o inferno que é assim, um castigado do inferno empurrando uma carroça na lama sendo chicoteado por demônios, esta é a imagem, e aí séculos ali, sendo torturado, sempre escravo, sempre sofrendo, fazendo um trabalho terrível, mas um dia um cai na lama, sempre tem gente caindo na lama ali, mas ninguém se importa, simplesmente pisam em cima e continuam, afinal de contas vem o sofrimento e chicote atrás, mas mesmo com chicote um dia cai um e outro olhando aquilo larga tudo e vai puxá-lo da lama porque sente compaixão, neste momento ele sai do inferno. A saída do mundo dos infernos é a compaixão, aquele que sentiu ah, eu sei como ele sente, eu sei o que aconteceu, eu sei como é a tentação, eu sei como é o desejo, eu sei como as pessoas se perturbam, eu sei como os seres humanos erram, eu também sou capaz de errar, que pena, aí quando você sente compaixão então você começa a sair do seu inferno.
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