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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Asuras, trindade, deuses e mentes


Pergunta – Como o senhor poderia expressar esta condição de grande mérito humano?

Monge Genshô – Acho melhor usar o termo Asura. Em um contexto humano seria um executivo poderoso, no sentido do Asura estar sempre batalhando, sendo muito competitivo e poderoso, mas não poderoso como os deuses que são seres que não precisam se esforçar. Neste contexto poderíamos considerar aquele que nasce em uma condição de riqueza, sem nenhuma perspectiva de sofrimento material. Mas este estará sujeito ao karma e irá morrer. Os semi deuses invejam os deuses, mas estes invejam os homens, pois eles gostariam de ter uma vida simples, livre, sem tantas obrigações, etc…Esta forma de entender esta cosmogonia é muito útil didaticamente.

Pergunta – Com relação ao conceito da Trindade, qual seria sua origem e significado?

Monge Genshô – Os números parecem possuir determinadas características, porém esta idéia não é bem absoluta. O número três, sete e outros sempre foram considerados mágicos e esotéricos: o número três ligado ao triângulo, por exemplo. Veja, contudo, que no judaísmo, por exemplo, o Deus judaico (Jeová), como o Deus islâmico (Alá), é único, sem Trindade. A idéia da Trindade surge mais tarde no cristianismo, quando o Cristo Jesus é elevado à condição de Deus e cria-se sua representação com o Espírito Santo. Isto não existia no Judaísmo, mas trata-se de uma criação posterior do Cristianismo, possivelmente influenciada pelos mistérios de Mitra (Mitraísmo3) e pela cultura grega e esta por sua vez por trindades mais antigas.
Também vale observar a influência do budismo no pensamento grego e judaico. O imperador indiano Ashoka, que morreu em 232 a.C., enviou missionários budistas ao ocidente, que chegaram à Grécia, Oriente Médio e Egito. Então o pensamento budista espalhou-se com essa iniciativa de missionários do imperador. Logo, vamos ver traços do pensamento budista em alguns filósofos gregos, como Plotino; Epicuro; Diógenes, Laércio. O estoicismo foi influenciado pelo pensamento budista também, no sentido da postura de ataraxia do sábio4. Estas são coisas que o ensino eurocêntrico das nossas Universidades geralmente não contemplava, o que está começando a mudar.

Pergunta – Qual a raiz da questão das divindades?

Monge Genshô – Os homens sempre tenderam a atribuir aos Deuses aquilo que não conseguiam entender. Quando tínhamos um vulcão, colocava-se um Deus dentro do vulcão, como uma chaminé do Inferno ou porta para o reino de Hades. Nossos índios aqui tinham um Deus do Trovão, etc… O que acontece é que, a medida que o conhecimento humano aumenta, os deuses recuam. Quando você não entendia como funcionava o trovão, então tinha o deus do trovão. Agora quando compreende-se o que é o fenômeno do raio, então o deus desapareceu.

Pergunta – Esta personificação dos fenômenos desconhecidos não seria uma característica da natureza humana?

Monge Genshô – Os homens geralmente buscam soluções mágicas, pois são mais fáceis. Se você realmente quiser entender como funciona sua mente é algo difícil, comparado à ideia de um pensamento maligno colocada por um demônio dentro da sua cabeça. Quando então vem algo bom você atribui a um anjo ou a uma presença divina. Isto é tornar mágica a realidade, mas o budismo diz, não, é você que alimenta sua mente. Como fazemos? Nós treinamos a mente, sem nenhuma influência externa. A influência real é você. Claro que é influenciado pelas coisas que ouve, pelas pessoas que procura, pelos programas de TV que assiste, por aquilo que lê, etc… Vemos que o praticante budista, a medida que toma consciência de como as coisas funcionam, ele tende a ficar seletivo. “Ver isso não é bom para mim…” Na minha prática pessoal este tipo de coisa tornou-se cada vez mais flagrante. Estudar a história humana nós faz perceber como nossa mente funciona, e facilita o trabalho do professor. Quando alguém declara “o mundo está terrível” ou “hoje estamos vivendo uma época cada vez pior”, na realidade possui pouco conhecimento da história. No passado o comportamento da humanidade foi muito cruel. O mundo de hoje, que nos parece terrível, na realidade nunca foi tão bom, por incrível que pareça.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Diferentes mundos


Originalmente, este samadhi é o lugar de prática sagrado, como o oceano de todos os Buddhas. Então, é o maior e mais sagrado de todos os fundamentos transmitidos diretamente pelo Buddha através da prática sagrada universal. Como é um discípulo do Buddha, você deve praticar a meditação sentada tranqüilamente sobre seu assento.
Não se sente sobre a almofada do inferno, dos pretas,(TEXTO) os pretas são os fantasmas famintos (COMENTÁRIO) dos animais ou asuras,(TEXTO) asuras são semideuses (COMENTÁRIO) nem mesmo dos humanos ou deuses. (TEXTO) Aqui é uma repetição tradicional dos reinos como foi ensinado no Budismo originalmente. Há reinos diferentes. Existe o reino dos infernos, o reino do inferno é o reino onde o sentimento predominante é o ódio e a raiva. Neste lugar é o inferno, é o mundo infernal. Se você se sentar na sua almofada cheio de raiva e ódio é a almofada do inferno, se você sentar sobre a almofada da ganância é dos pretas, dos fantasmas famintos que por mais que se dê nunca estão satisfeitos, eles tem corpos imensos como montanhas e gargantas finas como fios de cabelo e por isto estão sempre mortos de fome e sede e na realidade é uma imagem da ganância, das pessoas que precisam ter sempre mais, mais, sem limites e que nunca estão satisfeitas. Na realidade todos nós passamos por estes mundos nas nossas vidas, tem o momento da raiva, o momento da ganância, o mundo dos semideuses é o mundo da inveja, da inveja e da competição, sempre queremos ganhar este é o mundo dos semideuses, uma boa prática para o mundo dos semideuses é torcer por um time de futebol, você pratica a oposição ao outro, o desejo de ganhar e o desejo que o outro perca, é o mundo dos semideuses.

É o mundo também dos executivos, do mundo de negócios, temos que ganhar, não é um mundo de ganância por incrível que pareça, é um mundo de semideuses, o importante é derrotar a concorrência e esta é uma prática que leva ao mundo dos semi-deuses, é um mundo de poder, de armas   um mundo de competição. Já que eu estou explicando todos os mundos o mundo dos animais é um mundo da obscuridade, da ignorância, é um mundo onde não há clareza alguma e há seres humanos que agem assim mesmo sem nenhuma clareza, destroem o mundo a sua volta, derrubam as matas, matam os seres vivos, jogam esgoto nos rios, esta é uma mente animal, uma mente ignorante, uma mente que não percebe o efeito do que está fazendo e não se preocupa, nem percebe o sofrimento que está causando nos outros. Existe uma certa inocência nisso porque não percebe nada, é uma mente animal, e existe um mundo humano, o mundo humano é o que mais facilmente permite a iluminação é um mundo aonde existem todas as coisas misturadas, você experimenta todas, mas tem a grande vantagem de ter uma mente que tem a possibilidade de ter clareza, você tem a capacidade de aprender, de ouvir o Dharma e tem a capacidade de compreender, porque tem a capacidade de compreender você pode escapar desses mundos aprisionantes e ainda existe o mundo dos deuses, de grande mérito, prazer e felicidade, mas ainda sujeito a decadência pois nele é difícil ouvir o Dharma, o mundo dos deuses...

P. Foi falado hoje de manhã, tem que descer até o teu inferno, lutar com ele e caminhar, mas às vezes é difícil não sentar magoado ou não sentar com raiva,  buscar se acalmar ou que isto se dissipe. Como fazer?
R. Você é um ser humano, você entrou no inferno, tem um problema de raiva, de ódio, alguém que você amava traiu você, agora você tem um grande privilégio porque você tem uma mente humana e tem clareza de compreender, ah, isso é raiva, isso é ódio, isso é mágoa, eu estou sentindo assim então eu vou caminhar aqui dentro deste inferno porque eu vou sair, agora se você mergulha naquele sentimento e não sai dele você está no inferno e não está caminhando mais. Tem uma fábula sobre o inferno que é assim, um castigado do inferno empurrando uma carroça na lama sendo chicoteado por demônios, esta é a imagem, e aí séculos ali, sendo torturado, sempre escravo, sempre sofrendo, fazendo um trabalho terrível, mas um dia um cai na lama, sempre tem gente caindo na lama ali, mas ninguém se importa, simplesmente pisam em cima e continuam, afinal de contas vem o sofrimento e chicote atrás, mas mesmo com chicote um dia cai um e outro olhando aquilo larga tudo e vai puxá-lo da lama porque sente compaixão, neste momento ele sai do inferno. A saída do mundo dos infernos é a compaixão, aquele que sentiu ah, eu sei como ele sente, eu sei o que aconteceu, eu sei como é a tentação, eu sei como é o desejo, eu sei como as pessoas se perturbam, eu sei como os seres humanos erram, eu também sou capaz de errar,  que pena, aí quando você sente compaixão então você começa a sair do seu inferno.