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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A Vida tem a Consistência de um Sonho




Um grande calígrafo e pintor japonês, que era monge de outra escola, nasceu em 1718, morreu em 1804. Chamava-se Jiun Sonja Onkô. Ele tem uma caligrafia muito famosa, e, nessa caligrafia, o que está escrito é “nada aí”. É o que você deve ser quando você se senta em zazen. Nada aí. Não tem que ter nada sentado ali, nada pensando: “quando vai terminar?”. Seria melhor você sentar-se no sesshin e pensar: “é para sempre, vou ficar aqui para sempre. Toda a minha vida passada eu esqueci, tudo”. Se você esquecer tudo e estiver só aqui já é uma grande libertação. Domingo, quando acabar o sesshin, você volta para aquela vida.

Uma vez eu tive uma percepção bem interessante no fim de um sesshin de 7 dias. Eu voltei para casa, minha esposa me buscou no aeroporto e dentro do carro eu percebi: essa é a esposa dessa vida, essa cidade é a cidade que eu vivo agora nessa vida, tudo é agora e aqui, mas há pouco não era. Poderia ser outra vida, outra esposa, outra cidade, poderia ser qualquer outra coisa. Tudo isso aqui tem a consistência de um sonho. A vida tem a consistência de um sonho. A diferença verdadeira entre o sonho e a nossa vida aqui é que esse sonho, que é a vida, é muito nítido. A sua vida lá fora era um sonho, mas o sesshin em si, essa vida, essa palestra, estar aqui nessa sala também é um sonho. Na realidade, o que há é que esse sonho é muito nítido. E como é muito nítido, ele é uma coisa que chamamos realidade, mas nem sua vida, nem o sesshin, nem nada, tem mais consistência do que um sonho.

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Não Acreditem em Mim"





A condição para despertar do sonho é estar dormindo. Portanto, todos têm natureza búdica, pois todos têm condição de acordar, já que estão dormindo. Mesmo a pior das pessoas, o pior dos criminosos, ele está dormindo um sonho, ele acredita piamente no sonho. Nós estamos vivendo isso: uma pessoa que acredita que se ele se explodir e matar um monte de pessoas ele vai para o paraíso. Então ele vai lá, se enrola em dinamite e se explode em meio à multidão, causando imenso sofrimento. Mas ele acha: “serei premiado por isso”. Para nós é evidente que é ilusão, mas para ele não é. Para ele é algo tão forte que é suficiente para que ele se mate.
A capacidade de a humanidade se iludir é muito grande, imensa. Buda levou tão a sério a ideia de destruir as ilusões que ele disse: “não acreditem em mim. Experimentem e testem”. É a mesma coisa que eu, como descendente da linhagem de Buda, tenho que dizer: “não acreditem em mim. Eu sou um homem, uma pessoa como vocês”. 

A instituição, as vestes de monge, tudo isso aumenta a minha capacidade de influir e ensinar, mas essas coisas não me dão uma autoridade. O Budismo nega uma condição de argumento de autoridade. Não digam “o Monge Genshô disse isso, então é verdade”. Cada um tem que acordar por si mesmo. O Zen Budismo são métodos para acordar. Não é a verdade. Não temos a verdade para vender, nem cadeiras no céu, nada disso. Gostaria muito, iria facilitar a vida da comunidade, mas não tem. Não podemos prometer isso. Um harém para cada homem, um Brad Pitt para cada mulher.