quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Despertar da Ilusão




Gostaria de contar uma história do Zen Coreano:
 
Um monge sentia-se muito insatisfeito no mosteiro em que ele estava, e não conseguia realizar-se espiritualmente. Então, ele resolve ir à China, onde, pensava ele, encontraria um mestre que o esclarecesse. 

O Monge anda, anda, anda, e depois de dias de viagem, já com fome, sede e tudo mais, adormece embaixo de uma árvore na floresta, no caminho. De noite, ele acorda com grande sede, e, como havia chovido à noite, e meio dormindo ainda, ele acha, ao lado dele, um pote cheio de água deliciosa. Ele pega o pote e bebe a água, sentindo-se reconfortado, maravilhosamente bem, e dorme de novo. 

Quando ele acorda, de manhã, ao lado dele tem um crânio com água empoçada, cheia de vermes do apodrecimento. Foi aquilo que ele bebera. No momento que ele vê isso, vomita. Mas quando isso acontece, ele acorda de suas ilusões e retorna para o seu mosteiro original.


Entenderam a história? A água era maravilhosa e deliciosa. Por quê? Porque ele achava que era; porque ele achou um pote de água quando ele precisava, mas quando ele vê qual água era, ele vomita, ele acorda... Porque tudo estava dentro de sua cabeça, inclusive o que ele estava procurando como o mestre ideal: só existiria lá no país mitológico, além da fronteira.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Distante das Certezas




O budismo, em sua origem, é despido de todas as aparências. Nós as usamos (as aparências), pois, se as retirarmos, o budismo fica muito mais difícil de ser explicado e vivenciado. É preciso rituais, zafu e uma porção de coisas para que se crie um clima que os humanos apreciam. Contudo, em última análise, precisaria? Não, mas precisaria de um ser humano muito especial que não precisasse de templo, ritos, ensinamentos, nem nada, e que conseguisse despertar das ilusões sozinho. 

Quando olhamos para história da humanidade, percebemos que a nossa paixão por mitos é muita intensa, muito forte. Não admira que as pessoas lutem tanto com as questões filosóficas, políticas, etc., porque elas não se baseiam em racionalidade, mas em paixões. As pessoas apaixonam-se por uma ideologia, pelas ideias, e daí descartam qualquer outra, e por isso não são capazes de enxergar as outras coisas. 

Quando alguém quer dizer algo, podemos demolir a ideia através de argumentos. Esse era o processo no tempo de Buda, semelhante ao seu contemporâneo, Sócrates. Se você apresenta uma ideia, vamos debatê-la, vamos ver se ela sobrevive ao confronto dos argumentos. É isso que ele faz, mas não é isso que nós vemos, por exemplo, no nosso país hoje. Por quê? Porque mergulhamos em paixões. Então, agarramo-nos a uma ideologia qualquer, e, depois que você se agarrou na ideologia, todas as outras coisas não são nem consideradas, porque você ama demais sua ideia, ou seja, sua ideia transformou-se em um novo prolongamento do seu eu. 

Por isso foi tão valorizada a conduta do "não sei" no Zen: "quem é você?", "não faço ideia"; "de que você tem certeza?", "nada" - Porque tudo são crenças, nada além do que eu acreditava
Monge Genshô