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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Quem tem Olhos, Vê





Os mestres são raros, essa é a realidade. É um grande privilégio encontrar um mestre. Mas, por alguma razão, algumas pessoas são atraídas por essa chama, estão procurando aquela chama e vão encontrá-la. E quando os mestres olham para as pessoas, também reconhecem nos olhos daqueles que estão procurando. E os olhos daqueles que estão procurando são também difíceis de encontrar.

Mas se você desenvolve esta mente que está procurando, você de alguma maneira é direcionado para encontrar e para reconhecer. Há um texto famoso de Dogen cujo título é “Só um Buda reconhece Buda”. Porque aqueles que estão mergulhados na ignorância não veem a sabedoria. Eles acham a sabedoria tola ou careta ou qualquer coisa. Um exemplo dentro da nossa cultura ocidental são os soldados romanos que chicoteavam Cristo, pois eles não viam quem era Cristo. Como você poderia chicotear um Boddhisatva? Você não poderia fazer isso… Mas se você tem uma mente obscurecida, você não enxerga nada. Passa um Buda no meio de nós e é um homem comum. Essa é que é a verdade.

Agora se você tem olhos, você olha e no meio da multidão você vê. Você vê um Buda. Isso acontece mesmo no meio dos monges ou dentro dos mosteiros. Não se engane. A gente não entra dentro de um mosteiro e todo mundo é maravilhoso. Mesmo dentro de um mosteiro é raro encontrar um mestre. É muita sorte quando você encontra um mosteiro que tenha um mestre real. Alguém que valha a pena. Você tem que ter os olhos abertos para ver isso.

[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O Zen e o Não-Proselitismo




O Zen não é uma proposta consoladora para a humanidade - o Zen tem uma abordagem destruidora. Portanto, começamos sempre a abordagem do Zen dizendo que tudo isso que sempre acreditamos é delusão.

Frequentemente, as pessoas, ao serem confrontadas com isso, sentem-se tão perturbadas que não voltam nunca mais. É isso mesmo que os professores do Zen querem. Os mestres do Zen ficam bem felizes quando formam meia dúzia de discípulos. Muitos mestres deixaram somente um ou dois discípulos. Houve mesmo grandes mestres no passado, cujas linhagens se extinguiram porque eles não conseguiram transmitir seu Dharma para ninguém, de modo que a linhagem morreu.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Toda identidade é falsa

Ainda sobre esta parte do Vajracchedika Sutra, então "pode um discípulo que entrou na correnteza da vida santa dizer para si mesmo que obteve o fruto daqueles que entram na correnteza?". Subhuti responde: “não, honrado pelo mundo, porque entrar na correnteza da vida santa é somente um nome, não há nenhuma entrada na correnteza. O discípulo que não presta nenhuma consideração à forma, ao som, odor, paladar, toque ou qualquer outra qualidade, é na verdade aquele que entra na correnteza”. O Sutra está voltando ao seu tema fundamental: toda atribuição de qualidade ou característica é falsa, porque ela cria o nome e dá uma identidade àquele ser. Só que essa identidade é toda construída.  (continua)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Relação Mestre-discípulo

Aluno: Eu tenho curiosidade de saber como se dá a dinâmica entre o professor e o aluno do Zen?
Monge Genshô:
No primeiro estágio não tem essa relação de professor e aluno, quando fazemos dokusan é um amigo que se senta na minha frente e que compartilha experiências. Tornar-se aluno é quando você adota a seguinte postura: “ele é meu professor e eu estou aqui para aprender, se ele disse algo que não concordo vou pensar que eu estou errado até eu entender, mesmo que levem anos”. Formalmente, no nosso caso aqui, é quando você faz o rakusu, assim como a Rachel. Já que ela é minha aluna, ela me escreve como tal, me trata como senhor e a atitude é diferente. O professor também cuida do aluno como se fosse um filho.

Tem um outro nível mais alto que é quando você recebe a transmissão do seu Mestre e então você é reconhecido pelo seu Mestre como uma pessoa que tem a mente dele. A cerimônia dura sete dias e tem uma ocasião em que ele diz exatamente isso: “você tem a minha mente” e isso vem desde Buda. Alguns Mestres tiveram só um discípulo, ou seja, transmitiram para apenas uma pessoa, assim como há Mestres que não transmitiram para nenhum aluno e nesse caso a linhagem desaparece. Saikawa Roshi é Monge há mais de 40 anos e transmitiu para seis Monges. Mas mesmo que você seja Monge e tenha se graduado para receber a transmissão, você só a receberá se o Mestre decidir passar essa herança para você, como se transferisse o Dharma.

Quando eu estava no Japão, Saikawa Roshi me instruiu os lugares que eu deveria ir, como eu deveria fazer as cerimônias e depois me disse que eu deveria fazer uma doação de 50 mil ienes em cada templo. Eu disse: “não tenho esse dinheiro, não me preveni para isso” e no dia seguinte recebi pelo correio um envelope com 150 mil ienes e mais instruções. É assim que o Mestre age. Você recebe tanta coisa que fica difícil retribuir. Você é o continuador da obra dele, dessa forma é como se vocês aqui fossem os netos de Saikawa Roshi.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A conduta do discípulo


É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, (visitar a comunidade budista) você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que aceitar, silente, não resistente e obediente. Não dá para o mestre ficar lutando com o aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Oh, tem um bocado de músicos! Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando eu era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Frederico Richter, ele disse que em um trecho de um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que a que o professor  está ensinando...

Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não há condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a quarenta anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram quarenta anos treinando? Eles não discutem mais. "Por que tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. Professor disse que é assim, limpe o prato com o pão e coma o pão.

Quando a gente come com oryoki, a gente lava o oryoki com  água quente no final, passando de uma tigela para outra e depois, bebe. "Mas vou beber a água que lavei a tigela?" Só beba, não pergunte nada. Depois você vai descobrir, vai olhar e dizer: "eu comi e de tudo que comi, não sobrou nada, não foi nada para o lixo, nada foi poluir a natureza". Se todo mundo comesse assim, como seria? Seria completamente diferente. Isto são as questões da prática, da relação com o mestre e da questão da prática que é a iluminação. Quando vocês ouvirem "a prática é a iluminação", está certo, mas não confundam: a prática não é a iluminação. (Final da palestra de Monge Genshô, abre para perguntas)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Aluno não é discípulo





Retornando, nós temos um engano a respeito de "a prática é a iluminação". Isso é uma maneira de ensinar para desarmar aquele objetivo egóico. Mas na verdade, a prática é um meio e não é a iluminação, pois você pode ser muito bom praticante formalmente e não ter iluminação nenhuma. Às vezes a gente vê monges e ou praticantes e você pensa, "ah, ele tem tal graduação, chegou a tal ponto, está treinando há vinte anos". Aí ele grita com raiva ou ri das pessoas quando erram, ou qualquer coisa assim. Lhe falta uma qualidade compassiva. Na verdade, faltou algo. Porque a iluminação não é assim. Nós deveríamos procurar quem possa nos guiar no caminho do despertar. Então mestres de iluminação são raros. Nós temos que procurar denodadamente.

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de pensar em  desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, Tendô Nyojo, e ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com ele por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. O problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia isto e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres de outrora". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Nós temos que olhar com cuidado. Há um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido.  Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Por quê ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não há uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganado, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".

quinta-feira, 13 de março de 2014

Escute aqui seu idiota!





5)  O senhor começou sua palestra falando sobre aproveitar sua vida, seja feliz pelo momento e fiquei pensando, não tem como não sofrer, até o mestre iluminado se a mãe dele morrer ele irá chorar. Então seria assim, eu aproveito minha vida, não significa deixar de viver para não sofrer, então vou aproveitar o máximo minha vida, vou amar, mas eu sei que o sofrimento vem junto. Na verdade amar e sofrer seriam duas coisas iguais?

Monge Genshô – Sim, é verdade, estão dentro uma da outra. E aproveite sua vida já que você tem uma vida. Quando tiver sofrimento, sofra. Morre sua mãe, o que você faz? Chora, não há mais nada para ser feito.

Aluno - Mas se compreender, não chora. Compreende e não chora.  Porque teremos a compreensão de que a vida é assim, cresce, adoece e morre.  É da natureza.

Monge Genshô - Não é assim, compreende e chora assim mesmo. Nós poderíamos dizer – “Ah, meu filho morreu, é como uma folha que caiu” – mas isso não é realista. Na verdade você sofre e sofre mesmo, entregue-se ao sofrimento e sofra de verdade, porque faz parte da vida.

Aluno - Me veio à mente a imagem do filme de Dogen, que quando ele morre todos os monges caem em pranto. Naquele momento eles choram compulsivamente,  sofrem e muitos já estariam até iluminados, já teriam uma compreensão, já sabiam que ele iria morrer e mesmo assim sofreram.


Monge Genshô -  A melhor história para isso, talvez, seja a do mestre que recebe uma carta com o comunicado de uma morte na família. Ele senta-se numa pedra e começa a chorar. Um discípulo vai até ele e faz esse discurso – “Mas como o Senhor nos ensinou sobre apego e agora o recebe uma carta sobre a morte de alguém da família e está aí chorando”? -  o Mestre dobra a carta olha para ele diz – “Escute aqui seu idiota! Estou chorando porque quero” – vira-se para o outro lado e volta a chorar.  Esse é o Zen.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Durante vinte anos peguei seus chinelos



Não resistente aparece frequentemente nos mosteiros porque a palavra mais freqüente é HAI, que significa, sim. A palavra que mais se ouve, porque a todo o momento que um veterano ou um mestre diz algo você responde “HAI”. E você diz sim para mil coisas, sempre sem protestar, sem apresentar uma nova consideração ou uma opinião. Uma ordem é dada, “Faça isso!”, não existe espaço para, “Mas por quê eu de novo, por quê não Fulano?” isso é freqüente em muitas situações da vida, mas no mosteiro você aprende a dizer somente HAI e simplesmente realizar sua tarefa sem pensar, por exemplo, “amanhã é esperada, segundo a previsão, muita neve, precisamos que alguém acorde as três horas da manhã para tirar a neve do caminho para podermos chegar à sala de meditação, os monges fulano, fulano e fulano farão isso”. Qualquer um poderia ter vontade de se dizer resfriado, ou que é velho, ou que já fez ontem ou ainda que é fraco, mil desculpas poderiam ser dadas, mas nada disso pode ser feito, você simplesmente levanta as três horas e vai tirar a neve do caminho, outro dia outros farão a tarefa e pode ser que neve de novo justamente quando você estiver na equipe de caminhos, isso significa que de novo você fará a mesma coisa.

O sentido disso é aceitação, nós temos que aceitar a vida como ela se apresenta, sem tentar mudar as coisas que não podemos mudar, devemos simplesmente aceitar. Então, a relação mestre/discípulo é uma relação muito diferente da relação professor/aluno. Quando o mestre está presente nós nos comportamos com infinito respeito. Lembro-me e uma pergunta feita à Moriyama Roshi, sobre sua relação com seu professor de mais de vinte anos, “Como foi isso?”, foi a pergunta. “Durante vinte anos eu peguei seus chinelos!”. Quando o mestre sai da sala, o aluno principal, o JISHA, pega seu chinelo e coloca na frente da porta, para que quando ele saia seja mais fácil de calçá-los. Não há gentileza que você não faça e isso faz parte da prática espiritual, você ouve todas as coisas com completa aceitação e também você tem a postura respeitosa, na presença do mestre sempre deve estar em SASHU, jamais estar sentado se ele estiver de pé e não deve ensinar nada para alguém na presença do mestre, você só ensinará algo se ele pedir.

Também não tomamos intimidades com o mestre, principalmente não beijamos ou abraçamos, principalmente mestres de outras culturas onde isso não é bem visto. Os mestres brasileiros não se sentem assim, mas Saikawa Roshi veio do Japão e lá não há esse tipo de costume e é constrangedor ser abraçado ou beijado, por favor não façam isso. (No Brasil, em momentos mais informais, abraçar é aceitável, mas você tem que ter discernimento, no final de eventos pode ser)

Para nós é um extremo privilégio recebê-lo. Apesar de falar tudo isso vocês olharão para Saikawa Roshi e o verão sempre muito gentil, sorridente e a pessoa mais doce do mundo, mesmo assim sigam essas regras por favor. Os que farão RAKUSU, farão votos e ele lhes dará então, um nome no DHARMA. Esse nome é um guia e fazer os votos e portar o RAKUSUé na realidade se tornar um praticante do Zen oficialmente, é portar o manto de Buda e tem que ser portado com grande respeito e isso tem que ser sentido internamente.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Aluno não é discípulo

                   Mestre raspa os últimos fios de cabelo em cerimônia de ordenação de monge

A relação professor/aluno é uma relação de certa maneira simples. É a relação que temos nesse momento. Admitimos que haja um professor dando uma aula e nós o ouvimos. Não significa uma escolha profunda, mas uma situação momentânea que acontece nas escolas, nas universidades e em “n” situações.

Podemos ouvir o professor com bastante reserva e não somos obrigados a aceitar nada. Uma relação mestre/discípulo, não é uma relação professor/aluno, ela é, no Zen, uma relação em que escolhemos alguém para ser nosso mestre na vida e essa escolha deve demorar, não deve ser apressada.

Normalmente os alunos visitam vários lugares, ouvem diferentes pessoas até encontrar um local onde se sentem conectados, se sentem bem, sentem que aquele lugar fala ao seu coração, que aquele professor específicamente está falando ao seu coração. Depois de um tempo bastante variável, pode ser que se estabeleça uma relação mestre/discípulo e nessa relação não existe uma atitude crítica e sim uma aceitação ampla daquilo que esta sendo ensinado, com um mínimo de resistência.

Três características definem o discípulo, silente, obediente e não resistente. Significa, eu ouço e fecho minha boca, sou silencioso, mesmo que eu não concorde, fecho minha boca na esperança de que mais tarde eu entenda aquele ensinamento, agora não entendo, mas não protesto, fico silente. Obediente, o mestre diz, “Faça isso!”, eu vou e faço, não importa se parece coerente ou não. As vezes os mestres pedem coisas que parecem sem sentido, por exemplo, “limpe essa sala”, e você olha e a sala está imaculadamente limpa, mas você vai lá limpar. Significa que não protesto nem penso se tem sentido ou não fazer aquela prática que o mestre está me pedindo.

 Em algumas escolas o mestre pode dizer ao seu discípulo, ”faça cem mil prostrações” isso significa que terei que fazer no mínimo cem prostrações por dia durante três anos para poder acumular as cem mil prostrações. O discípulo não contesta isso, ele simplesmente assume a tarefa. Existem histórias de mestres do passado mandando o discípulo construir uma torre e depois de pronta, desmontá-la, e depois construa a torre novamente. Numa célebre história isso acontece oito vezes.

Isso não é exclusivo do budismo, nos monastérios cristãos também existem esses tipos de práticas. Está chovendo e o Abade ordena aos monges que vão regar o jardim. É preciso ter plena consciência do que é obediência não resistente para pegar o regador e ir na chuva regar o jardim. Evidentemente todos podem se dar conta que tem que haver absoluta confiança na relação mestre/discípulo para se fazer esse tipo de prática, porque ela, dentro de si mesma, tem riscos.

Normalmente no Zen as instruções são de práticas gerais, ou seja, todos os dias levantamos num horário determinado, como acontece num sesshin, vinte minutos depois sentados para fazer zazen. São instruções de prática ritual, “faça assim!”, não há um espaço para questionamentos do tipo, “Por quê quando o professor passa atrás eu faço gasshô?”. Você tem que descobrir sozinho.

Uma vez eu estava no mosteiro e passou o mestre atrás e por acaso naquele instante eu pensava em outra coisa, como minha mente viajou, ele passou, eu ouvi o ruído dos chinelos, mas não fiz gasshô. Ele simplesmente tocou no meu ombro e continuou adiante. No mesmo instante, percebi, ele sabe que embora aqui sentado imóvel de frente para a parede, estou distraído. Ele tocou no meu ombro para me dizer, “Volte para cá!”.

Então, a forma do Zen nos dá muitas informações. Nós podemos ficar atrás dos alunos e saber, por exemplo, ele está entrando na sala, e entra com o pé direito, posso saber facilmente através desse pequeno ato, “Ele não está atento!” e isso se repetirá em todos os momentos, na maneira de comer, na maneira de sentar, na maneira de andar, cada pequeno gesto, como está o mudra, podemos saber muito apenas observando o aluno. Na relação mestre/discípulo, a obediência ocupa um lugar central, porque exige o abandono do pensamento centrado em si mesmo, seu ego.

(Os posts são trechos de palestras de Monge Genshô decupadas da gravação por Chudô San e revisadas por Rachel San)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A Fama



Os professores budistas sempre tocam nessa questão de fama. Não é só agarrar coisas, ter coisas, mas o desejo de ser preeminente, de ser ouvido, de ser respeitado. “O mundo corre atrás de fama e honra, roupas bonitas e conforto. Mas você corre e permanece insatisfeito até a morte.” Como diz o poema de Kodo Sawaki, porque essas coisas são transitórias e mudam. Para os professores do dharma é um aprendizado quando você tem um discípulo que o adora, ele vem e lhe diz “você é maravilhoso, tudo que você diz é perfeito!” é preciso tomar muito cuidado, pois é exatamente essa pessoa que quando pensar que você cometeu um erro ou quando ela imaginar que que você não lhe deu a atenção devida a suas opiniões de como deve ser conduzida a comunidade, irá transformar toda a admiração em desprezo, em ódio, em palavras ruins.

É muito interessante observar, que assim como os objetos, a fama, a honra e a admiração, são coisas que sobem e descem. Deve ser muito duro para as pessoas que tornam-se repentinamente muito famosas, muito poderosas, ganhando títulos, saindo na imprensa, ganham campeonatos de repente começar a perder sua fama, as mesmas pessoas que corriam atrás desaparecem. Ouvi uma declaração do Maradona que achei muito interessante. Ele estava internado numa clinica de tratamento de pessoas drogadas, perturbadas. Ele que havia sido um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Ele disse que era muito perturbador, porque na clinica onde ele estava tinha muita gente louca, um se dizia Napoleão, outra se dizia Cleópatra, e ele dizia que era Maradona e ninguém acreditava!

"Portanto vocês deveriam se livrar rapidamente da cobiça, tanto por esse motivo, quanto pelo motivo de que essa liberdade dará origem a varias virtudes. Alem disso, as pessoas com poucos desejos estão livres da lisonja e da extraviação e também não são escravizados pelos seus próprios sentidos. Satisfeitos com pouco eles não possuem preocupações e medos, estando assim sempre calmos. Aqueles que têm poucos desejos têm o nirvana. Segundo; satisfação, satisfação significa estar contente com o que quer que se tenha. Buda disse: “Praticantes, se vocês desejam de libertar do sofrimento, deveriam observar a satisfação. Estar satisfeito é ter um estado mental pacifico e feliz. Uma pessoa satisfeita é feliz mesmo tendo que dormir no chão, enquanto que o insatisfeito é infeliz mesmo vivendo em um palácio. A primeira é rica mesmo que seja pobre, a segunda é pobre ainda que seja rica. A pessoa satisfeita sente compaixão pela insatisfeita pois esta é continuamente levada pelos cinco desejos. "