Mostrando postagens com marcador mestre e discípulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mestre e discípulo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A Lâmpada


Na transmissão, o Mestre ritualmente entrega ao Monge a lâmpada. Então é a história da transmissão da luz ou da transmissão da lâmpada. O Monge passa a ficar encarregado de prosseguir com aquela lâmpada, tentando levar a luz às outras pessoas, clareando o caminho. Então, ser discípulo requer uma atitude diferente da do aluno, porque as três qualidades do discípulo são: obediente, silente e não resistente. O discípulo tem que entregar seu caminho para o Mestre. Ele escolhe o Mestre e segue o caminho, mesmo que não entenda. Se o Mestre disser: "suba aquela montanha e me traga uma pedra lá do topo", ele vai lá e traz a pedra. O Mestre pega a pedra e joga dentro do rio, sem dizer nada. O discípulo não pode achar isso idiota, não pode contestar, ele tem que procurar saber o porquê disso, o que o Mestre está tentando dizer, o que ele está ensinando. Então, discípulo não questiona nada. 
Na tradição tibetana há um ditado que diz: “examine seu professor durante oito anos antes de aceitá-lo como Mestre”. Você só deve aceitar ser discípulo do seu Mestre depois de olhá-lo muito bem durante tempo suficiente para você ter a coragem de entregar seus destinos às instruções dele.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

"Eu o Vi Sem Ver"




A história do budismo é uma história de renascimentos doutrinários. Porque é difícil, mesmo dentro do budismo e dentro da prática dos monges nós encontrarmos bons mestres. É difícil.

Quando Bodhidharma, no ano 600 d.C., chega à China, ele encontra um budismo que já não é aquilo que nós estamos falando aqui. O diálogo dele com o imperador Wu mostra isso claramente. O imperador se considerava budista, um grande budista, um patrocinador do budismo. Ele manda vir aquele mestre que veio da Índia e a primeira pergunta que o imperador Wu faz é: “eu construí muitos templos e mosteiros para o budismo. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?”. Ele queria trono. Então Bodhidharma, que era um mestre zen, responde “Mérito nenhum, majestade”. O imperador faz outra pergunta: “Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?” E Bodhidharma responde: “vazio ilimitado”. Na realidade ele está dizendo Anatta, nenhuma coisa tem um eu inerente; todas as coisas são vazias de uma identidade própria; todas estão interconectadas; todas são interdependentes. Não existe isso de “eu sou separado”, essa ilusão que nós sentimos de separação. Nós somos o Tudo. 

E Bodhidharma responde isso para o imperador, que não entende essa resposta. “Vazio ilimitado é a grande verdade. E não há nada que possa ser chamado de sagrado”, Bodhidharma responde. E o imperador não entende, se irrita e pergunta: “então quem é que eu tenho na minha frente?”, e Bodhidharma responde: “não faço a menor ideia”, vira as costas e vai embora. 

Depois disso o imperador escreve um poema, manda procurá-lo, mas não o encontra mais - “Eu o vi sem ver”. Bodhidharma não aceita nenhum aluno durante 9 anos. As pessoas vão procurá-lo e ele não aceita ninguém. Ele só aceita Taiso Eka, que tem a coragem de cortar o braço para pedir para ser aluno. Nós vamos fazer essa tradição aqui [risos].

[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Diferença entre Aluno e Discípulo




Aluno é uma posição: você está aqui ouvindo uma aula, então você é aluno. Você se dispôs a ouvir, mas dentro de você existe crítica, existe reação e tudo o mais. Ser um discípulo é diferente, porque você tem que passar um bom tempo observando seu professor para ser capaz de aceitá-lo, integralmente, e dizer assim: “eu vou aceitar”, e se eu não entender alguma coisa, simplesmente vou colocar em reserva, porque para o discípulo o mestre diz: “essa parede, ( que é de alvenaria), isto aqui é madeira”, e o discípulo diz: “Hai, sim senhor, é madeira” - e de agora em diante é madeira, alvenaria é madeira. Eu vou pensar sobre o assunto dois anos, três anos, cinco anos, dez anos, para entender o que ele quis me dizer. 

Então o discípulo tem que ter três atitudes: obediente, não resistente e silente. Então ele cala a boca, ele não dá instruções para outras pessoas quando o mestre está presente. Por exemplo, ele evita parecer que sabe, ele não fica dando suas opiniões: “eu acho isso”, “eu penso aquilo” e etc. e tal, “o senhor está errado naquilo outro” - o discípulo não faz isso. Ele fica silente, e não é que a sua opinião não esteja possivelmente certa, é que isso é expressão de vaidade, ego, orgulho... ter orgulho da sua própria opinião. Tem até um nome próprio em sânscrito para esse defeito: chama-se ditti - o desejo de impor sua opinião. 

O discípulo é obediente, pois o mestre diz: “você vai praticar assim”. Ele não entende, mas vai lá e faz. Se o aluno diz: “eu não gosto de prostrações, acho absurdo a gente ficar fazendo prostrações”, o mestre lhe fala: "bem, agora eu vou lhe dar uma prática: você tem que ir todos os dias fazer 30 prostrações na frente da estátua de Buda", e vai embora. E o aluno, todos os dias, obedientemente, vai lá e faz 30 prostrações na frente da estátua de Buda, até ele perder toda a resistência às prostrações, e descobrir que elas eram remédio para o seu orgulho, que ele não fazia isso porque tinha dificuldade, ou porque estava olhando a estátua de Buda como se fosse Buda,  o que não é.

Ser não resistente é quando você diz uma coisa para o discípulo, e ele não faz nenhuma expressão facial, ele não diz “mas”, ele não argumenta nada, ele simplesmente faz. Essas são as qualidades do discípulo: silente, obediente, não resistente.


Por isso eu sempre digo que alunos eu tenho muitos, mas discípulos são muito raros. É natural. É natural que seja assim. Uma vez eu estava com uma dificuldade financeira quando Saikawa Roshi ligou de São Paulo e disse: “você tem que vir aqui ficar uma semana no templo Busshinji”. Eu falei para minha esposa: “olha, ele me chamou”, e ela disse: “mas nós não temos dinheiro para passagem”. “Bem… nem que eu vá à pé, de carona... eu tenho que ir porque ele me chamou”. É claro que apareceu uma solução qualquer lá, eu consegui ir sem precisar ficar na estrada pedindo carona para os caminhoneiros. É assim que tem que se comportar o discípulo.

[N.E.: trecho de transcrição da palestra realizada por Meihô Genshô Oshô, em novembro de 2016.]