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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Raspar a Cabeça



Quando um Monge raspa a cabeça, há um significado: você se torna mais feio, torna-se estranho e chama a atenção das pessoas, mas isso faz de você um Monge e só pode sentir como é isso aquele que o faz e repete esse ato, muitas vezes, de forma que você está sempre raspando os fios da ignorância. Tem uma oração para quando raspamos a cabeça, como tem uma oração para cada ato, e ela diz que os fios da ignorância estão sempre brotando, as paixões, suas tolices, tudo está sempre querendo surgir, e, ao raspar, você não se conforma com o que tenta surgir de dentro de você, você raspa porque não permite que essa ignorância surja.

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Cessando o Ciclo de Renascimento




A causa fundamental do descontrole que gera o ciclo de novas manifestações cármicas é o primeiro elo, a ignorância: a mente que se agarra à existência inerente. Sob o jugo da ignorância cometemos ações virtuosas e não virtuosas, as causas de nossos renascimentos em condições melhores ou piores. Tais ações denominam-se composição, constituem o segundo elo, e cada ação de composição imprime uma marca na nossa mente, samskara. A consciência que recebe essa marca é o terceiro elo, chamado vijnana. Essas causas projetantes vão criando os efeitos projetados às causas próximas e os efeitos estabelecidos dos dois últimos elos, que são os efeitos correspondentes às causas anteriores.

Se olhamos esses doze elos nessa sequência, compreendemos o processo de novas manifestações cármicas e porque surgem os seus sofrimentos. Os sofrimentos surgem basicamente da ignorância - força motora que desencadeia todo esse processo de repetição. 

A cessação completa da ignorância seria a extinção desse acorrentamento a uma repetição sem fim. Assim, os métodos budistas são investir um esforço para desenvolver a sabedoria, meditando sobre a vacuidade e desenvolvendo uma mente compassiva, que compreende a interdependência de todas as coisas, para que esses elos enfraqueçam e, por fim, cessem.

Então, ao atingir a extinção da ignorância, superamos o renascimento cíclico e interrompemos o continuum de sofrimento. A cessação desse continuum é a libertação ou o nirvana, o estado além da dor. Atingindo a libertação, não seremos mais projetados em novas manifestações cármicas controlados por delusões. Poderemos experimentar novas manifestações cármicas incontaminadas.


[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 15 de março de 2017

A Ignorância gera Sofrimento




O circuito que culmina no sofrimento é alimentado primordialmente pelo fato de que, em regra, ignora-se como as coisas funcionam. Peguemos qualquer parte do caminho óctuplo, dos preceitos: meio de vida correto. Se você tiver um meio de vida incorreto e, por exemplo, viver roubando, terá medo de ser pego, experimentará a insegurança, vai cavar vinganças da sociedade ou dos indivíduos prejudicados por você, e isso vai causar sofrimento. É a questão do meio de vida correto, não é?

Concluímos, então e por exemplo, que o administrador público que desvia dinheiro para o próprio bolso, do ponto de vista budista, trilha um caminho de grandes sofrimentos futuros. A ética do budismo, portanto, é construída assim. 

Frequentemente, quando explicamos que não tem um deus, não tem uma alma, o sujeito diz assim: "então eu posso fazer qualquer coisa porque não tem consequência, não é?". Mas não é verdade, porque as consequências são os resultados do próprio carma. Mas por que alguém agiria assim? Por que alguém age errado? Em primeiro lugar porque há a ignorância. Ele não compreende como o carma funciona e isso origina o segundo passo.

 Porque existe ignorância, existe comportamento cármico que gera movimento, que gera o surgimento das próprias manifestações. Em última análise, se eu extinguisse todo o movimento cármico, não haveria geração de novas identidades. Então, no fundo, o que o budismo está dizendo é que estar aqui é uma espécie de castigo: porque você gerou carma no passado, carma de desejo, de apego, etc., por ignorar como as coisas funcionam direito, você acumulou carma que gera a manifestação que você é.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Somos o puro céu azul

Todo o sofrimento, toda a ilusão,  é provocado pela ignorância do fato de que nós não temos um eu inerente. Ignorância dessa clareza, dessa lucidez, que nós conseguimos ter em relação ao redemoinho, que é um fenômeno simples. Nós temos lucidez se eu explico que na verdade o eixo é uma aparência provocada pelo movimento do redemoinho, mas ele não existe por si mesmo, ele só existe por causa do redemoinho. Se você retira o redemoinho, não há eixo. Na realidade há de novo atmosfera ou puro céu azul. Então, o que nós somos? Nós somos o puro céu azul, nós somos a atmosfera. Não somos o redemoinho. Os redemoinhos são fenômenos de aparência provocado pelo movimento. Qual é o movimento? O movimento cármico. Porque há carma, há ação, reação, consequências, então levanta-se poeira. Porque levanta-se poeira, há a noção da existência de um eu. De modo que cada um que está sentado aqui é um redemoinho cármico se manifestando nesse universo, seu eu é uma aparência ilusória e todo o sofrimento então, tudo o que o eu sofre, todas as paixões, faltas, desejos, impulsos, frustrações, morte, nascimento, tudo isso não passa de uma ilusão causada por esse movimento do carma.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A mente que se engana


Pergunta – O senhor falou da mente que se engana, como eu sei que estou enganado?

Monge Genshô -  O que você pensa sobre isso, como você sabe que sua mente está enganada? Como você sabe que está separada das outras pessoas? Você olha para todas essas pessoas e as vê separadas de você. Mas você não vive sem elas. Não vive sem nada que existe, sem sol, sem chuva, árvores, pássaros, na realidade você é tudo isso misturado. Se você pensar sobre o que é esse guardanapo de papel em sua mão, do que ele é formado? Chuva, sol, árvore, carbono, tudo igual a você. Você é tudo isso junto, no entanto você olha para tudo isso e diz: “Eu estou separado”. Isso em si só já é uma grande ilusão. Por acreditar nessa ilusão é que você nasce e morre. Chamamos isso de ignorância. Por sermos ignorantes nascemos e morremos e acreditamos estar separados. 

 Os homens criam muitas histórias para acreditar, todas são ilusórias. As crenças são ilusões, quando você chega no budismo ele não lhe oferece nada em que crer ou algo do tipo, “acredite no que o professor está dizendo”. O budismo é experiencial. Teste e experimente, se funciona para você é bom se não funciona, desista. Se você não gosta do professor porque ele é muito desagradável dizendo coisas desoladoras, pode ir embora. O budismo não faz força para atrair pessoas, mais ainda, costuma dizer coisas para as pessoas irem embora. O Zen Budismo é para despertar, não para acreditar. Uma pergunta que sempre surge é: “Em quê o Budismo acredita?”, a resposta, não sei, isso é problema seu que acha que é preciso alguma crença.

Sempre conto essa historinha ilustrativa, se vem alguém na Sangha dizendo que acredita em homenzinhos verdes de uma galáxia distante, não há problema algum nisso, podem sentar e meditar. Agora, se os homenzinhos falarem com você então o caso é grave e é melhor procurar tratamento. O Zen tem sempre muitas histórias. Conta-se uma história de um monge que sentado em meditação dizia estar vendo os discípulos de Buda em seu redor cantando mantras. O mestre então mandou que os outros monges lhe dessem um banho de água gelada e dessa forma resolveu o problema.