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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Raspar a Cabeça



Quando um Monge raspa a cabeça, há um significado: você se torna mais feio, torna-se estranho e chama a atenção das pessoas, mas isso faz de você um Monge e só pode sentir como é isso aquele que o faz e repete esse ato, muitas vezes, de forma que você está sempre raspando os fios da ignorância. Tem uma oração para quando raspamos a cabeça, como tem uma oração para cada ato, e ela diz que os fios da ignorância estão sempre brotando, as paixões, suas tolices, tudo está sempre querendo surgir, e, ao raspar, você não se conforma com o que tenta surgir de dentro de você, você raspa porque não permite que essa ignorância surja.

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O Constante Cortar de Ilusões




Há um conto maravilhoso, que recomendo a todos vocês, de Eça de Queiroz, que se chama O Mandarim. Ele recebe a visita de um homem (ele é um amanuense, um funcionariozinho que vive em uma espécie de república, sem dinheiro para casar nem nada) que diz “se você tocar esta campainha morrerá um mandarim na China, e ele é muito muito rico e você vai receber todo o dinheiro dele; a única coisa que você precisa fazer é tocar a campainha.”. 

Então o nosso personagem, que era magrinho, pobre, toca a campainha. Alguns dias depois ele recebe a visita de um funcionário de um banco dizendo que ele recebeu uma fortuna inimaginável. Que ele é herdeiro de um potentado chinês. E depositam no banco para ele aquela fortuna imensa que ele não tem nem como pensar em gastar. Ele começa a fazer coisas, e o conto mostra todas as coisas que o dinheiro dá, as mulheres lindas que ele conquista e o palacete que ele constrói, etc. 

Logo depois, o conto narra  a angústia que ele sente porque não é feliz, porque matou aquele homem lá na China, e a família do falecido com dificuldades. Ele vai até a China tentar consertar o que fez, tentar gastar o dinheiro dele lá, mas vai dando tudo errado. Até que, no fim, ele quer devolver o dinheiro, quer voltar a ser quem era. E encontra na rua o personagem que lhe permitiu tocar a campainha, e o personagem diz que é impossível retroceder. No final do conto ele interroga: o que você (leitor) faria se pudesse tocar uma campainha e receber 20 mega-senas pela morte de um mandarim lá na China? Ele diz que tem certeza que vocês tocariam: “ó meus amigos e irmãos, vocês são como eu”.

Então a renúncia de Buda tem todo o sentido, a renúncia simbólica, cortar o cabelo para cortar todas as ilusões, raspar toda a ignorância que está sempre nascendo. O monge faz isso, toda semana, vai lá e raspa a cabeça. Ele raspa a cabeça mas, no dia seguinte, todas essas ignorâncias e paixões estão brotando de novo.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CORTANDO OS FIOS DA IGNORÂNCIA



O segundo voto é: “As paixões são inexauríveis, eu faço voto de extingui-las todas”. 

As paixões, os ventos que me arrastam de um lado para o outro são inexauríveis, eu reconheço, são inextinguíveis, estão sempre renascendo, mas faço voto de extinguí-las todas. Esse é um dos símbolos de raspar a cabeça dos monges. Os fios da ignorância ou das paixões estão sempre renascendo, então a gente pega a gilete e raspa e eles continuam lá, renascendo, sempre renascendo. Então você rememora isso quando raspa a cabeça, as paixões estão ai renascendo dia a dia. Minha vontade de ser bonito tá sempre renascendo ai eu vou lá e raspo. Isso é o que a gente chama prática, prática simbólica dos Monges. É mais difícil para as Monjas, eu tenho certeza. Não é Jikihô san?
Monja Jikihô: Eu acho que essa é a menor das vaidades.
Monge Genshô: Acho que é mesmo. 

domingo, 1 de agosto de 2010

Cortando os cabelos



Monjas e Monges raspam suas cabeças desde os tempos de Buda como demonstração de seu desapego as opiniões do mundo e a própria vaidade, para uma noviça esse pode ser um momento de grande alegria, como é o caso de Sodô San na sua ordenação monástica em Florianópolis.



Postulantes repetem o voto de arrependimento antes de se comprometer com os 16 votos básicos do zen budismo e serem ordenados monges noviços.

Voto de Arrependimento

De todos os atos negativos alguma vez cometidos por mim,
Devido a meu apego, aversão e ignorância sem início,
Nascidos de meu corpo, boca e mente,
Agora, de todos eu me arrependo.

Um album de fotos aqui