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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A desconstrução do eu

 
Pergunta: A prática diária que se faz no mosteiro, além do trabalho, representa uma vantagem dos japoneses com relação a nós? Ter desde sempre influências budistas, como na arte, por exemplo, faz alguma diferença?
Monge Genshô: Existe uma influência importante nas artes, mas isso não substitui a prática do Zen e também não substitui o conhecimento do ensinamento. Eu diria que nossos alunos aqui no Brasil fazem mais meditação e sabem mais sobre o budismo do que os leigos budistas japoneses. Eles estão acostumados com o folclore do budismo e isso ajuda no comportamento. Eles sabem desde pequenos, por exemplo, como se comportar junto ao professor, junto com senpai e eles têm  orgulho de ter um senpai durão. Aqui no Brasil ninguém suporta um professor durão. Quando começa a dureza, o aluno acha que não é mais amado. No Japão a interpretação é outra, é contrária. Se ele é duro é porque ele está investindo em mim e se importa, se ele para de me corrigir é porque ele desistiu de mim e eu não presto, então é melhor eu ir embora. Esse é o raciocínio. Aqui nós queremos ser amados o tempo todo, é por isso que lá ainda, nos monastérios masculinos pelo menos, existem muitos castigos físicos. Se cometeu um erro, o superior logo vem para corrigir e você tem que ouvir de joelhos, não é em posição de seiza, é ajoelhado, dizendo “hai”, sem olhar no rosto, apenas olhando para baixo. O superior pode sair dali e você continua, só sai da posição quando ele voltar e liberar.

Quando eu fui entrar em Sojiji Soin me colocaram de frente para uma porta. Era início de primavera, estava frio e eu com roupas que não protegem bem, calçando sandália de palha e segurando um zafu embaixo do braço. Veio um Monge e perguntou: “por que você veio para cá? Aqui é um mosteiro japonês tradicional”, e eu disse: “ah, porque eu queria um treinamento duro”. Ele me disse: “se você quer um treinamento duro, vou te dar um treinamento duro então!”, e foi embora. Ele me deixou lá. Fiquei com frio, congelando e não podia fazer nada. Fiquei pensando: “que besteira minha, por que fui dizer isso?”, mas não tinha saída. De qualquer jeito eu ficaria de castigo. E vocês veem que eu contando isso agora parece legal, nós rimos, o que é ruim de passar é bom de contar. O que é bom de passar não tem graça. Então o treinamento monástico tem muito disso no Japão, ele te desconsidera, diz que você não é ninguém e te reduz a nada. Mas tudo com o objetivo de apagar esse ego. Não interessa se vim do Brasil, se tenho quase 70 anos, idade não conta e o que eu fazia aqui não interessa lá. Ali sou pessoa nova, não sei de nada, não usei meu manto, usei manto preto porque lá eu era noviço. Então todo o processo é criado com a intenção de destruir tudo que você pensa que é. Você não é o que você pensa. Você é ninguém. Depois disso você é levado para uma sala de espera que possui apenas nove tatames e trazem as refeições para você. Lá não há banho, só tem um sanitário perto e tudo que você tem é confiscado. Nessa sala você fica sem nada para fazer, só uma pessoa vem falar com você, seu instrutor, cada vez que ele abre a porta você faz gasshô. Ele dá textos e refeições, vai embora e novamente você se despede com gasshô. Você fica ali esperando. Cinco dias. É interessante para descobrir o que sente alguém numa cela sem nada para fazer e sem contato com o exterior.

Pergunta: Ficava fazendo zazen?

Monge Genshô:
Sim, você tem o zafu. Esse processo pretende fazer com que se você for desistir, desista naquele momento. Você tem que estar armado de muita motivação para continuar. É inevitável que chegue um momento em que você diz: “eu estou com vontade de desistir” e então o superior pergunta: “como você vai embora? Eu estou com seu passaporte, seus documentos, vai como e para onde?”.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Zuise - Isshin Sensei



Texto de Isshin Sensei em seu blog

Qual o significado de Zuise?

Nyoi - cetro de oficiante, Sojiji
No caso de já ter completado o seu treinamento em mosteiro oficial, ao receber a Transmissão de Darma, o monge, agora na graduação de Rikishô, pode marcar as datas para se apresentar nos dois templos-sede da escola (Eiheiji e Sôjiji) para a realização de uma série de formalidades chamada Zuise (瑞世). Os caracteres chineses desta palavra atualmente significam “auspicioso” (zui) e “o mundo” (se), mas aparentemente esta palavra significava, antigamente, “receber promoção” ou “tomar um passo na carreira”.

Estas formalidades representam a oportunidade do monge recém-formado prestar homenagem e gratidão aos fundadores da nossa escola, Mestre Dogen (fundador do templo-mosteiro Eiheiji) e Mestre Keizan (fundador do templo-mosteiro Sôjiji).

Passa a possuir, agora, a graduação monástica de Oshô (和尚). O ato de oficiar cerimônias de recitação de sutras no papel de “abade por uma noite”, como parte das formalidades de Zuise em cada um dos dois templos-sede, Eiheiji (fundado pelo Mestre Dogen) e Sôjiji (fundado pelo Mestre Keizan), também demonstra simbolicamente que o novo Oshô recebeu a autorização necessária para se tornar abade (Jûshoku 住職, Monge Titular) de um templo oficialmente reconhecido.

Recebe, ao mesmo tempo, autorização oficial como Professor de Darma (Sensei), com o seu nível de graduação como professor dependendo do seu tempo de prática em mosteiro de treinamento oficialmente reconhecido. Está habilitado a transmitir os preceitos para leigos (Zaike Tokudo ou Jukai) e ordenar novos monges (Shukke Tokudo), bem como realizar todas as outras funções de um sacerdote, como oficiar casamentos, batizados, benções em geral, enterros, e outras cerimônias religiosas.

Na chegada ao templo-sede, na data marcada, é recebido por um atendente e convidado a usar chinelos vermelhos especiais de abade. Depois de tomar chá, recebe ensinamento sobre os procedimentos específicos do templo, uma vez que há detalhes na forma de oficiar cerimônias que são diferentes de um templo para outro. Terminado este ensaio, que pode levar três horas, recebe um jantar finíssimo, toma banho de o-furô (banheira japonesa) e dorme.

Levanta cedo no dia seguinte, às 03:30 hs e faz o início do zazen no “gaitan” (lado de fora do zendô) próximo à entrada do abade. Mas logo é chamado para o início das formalidades de Zuise.

Vai primeiro prestar homenagem ao fundador e primeiros abades do templo. Para isto, entra, talvez pela única vez na vida, numa área reservada, fechada, que fica atrás do altar da Sala dos Fundadores. Oferece incenso e faz uma série de prostrações.

Em seguida, vai para a sala de recepção do abade do templo-sede (Zenji), onde se encontra com um grupo de seis ou oito monges formados que tomarão parte do “ryôban”(as duas fileiras de monges na área cerimonial principal) para as cerimônias a seguir. Depois de fazer prostrações, ouve a leitura do certificado de Zuise e o recebe das mãos do Abade do templo-sede ou seu representante. Assim que o Abade saia da sala, recebe o chá honorário – primeiro é servida água doce com umeboshi (ameixa em conserva). Em seguida é servido um doce – mas em lugar de comer o doce agora, coloca-se o certificado que acabou de receber em cima do doce e o devolve. Imagino (mas não sei ao certo) que talvez este doce, com o certificado, vai para o altar durante as recitações de sutras que fazem parte das formalidades de Zuise. Termina esta etapa das formalidades com chá verde.


Hossu - cetro de oficiante, Eiheiji
Nesta hora, o atendente traz o “nyoi” (払子, no Sojiji) ou o “hossu” (払子, no Eiheiji), cetros cerimoniais de oficiante. Acompanhado pelo grupo de monges do “ryôban”, vai agora oficiar duas cerimônias de recitação de sutras. A primeira (Zuise Shukutô) é a recitação do Maka Hannya Haramitta Shingyô (Sutra do Coração da Grande Sabedoria) na Sala de Buda e a segunda (Zuise Jôgu) é a recitação do Daihishin Darani (Mantra da Grande Mente de Compaixão) na Sala dos Fundadores.

Não há palavras para descrever a emoção deste momento – oficiando a cerimônia num templo-sede da escola, ouvindo o som da recitação pelas vozes dos aproximadamente 200 monges-em-treinamento e professores do templo-sede. E a plena atenção, mesmo com lágrimas de emoção nos olhos, no esforço de lembrar os “timings” das prostrações e ofertas de incenso e para acertar os detalhes dos movimentos, tais como aproximar-se ao altar e, ao afastar-se do altar lembrar-se de virar em direção horário (no Eiheiji) ou em sentido anti-horário (Sojiji). E o cuidado com a maneira de segurar o “nyoi” (Sojiji) ou de segurar e movimentar o “hossu” (Eiheiji) (os “cetros” de oficiante).

Terminadas as duas cerimônias, o novo “Oshô” retorna à sala de recepção. Depois de devolver o “nyoi” ou “hossu” ao atendente, recebe os parabéns dos monges que tomaram parte como “ryôban” – e os responde agradecendo a colaboração de todos nas cerimônias. Todos se reverenciem mutuamente com prostrações.

Depois de um momento para a fotografia oficial (se esta foi encomendada), há um encontro com o “Kannin” (Administrador Chefe) do mosteiro (ou seu representante) para um chá e pequeno bate-papo.

Por fim, recebe um café de manhã “espectacular” – com uma quantidade de comida impossível de se comer… .

Termina as formalidades com uma pequena cerimonial de agradecimento e despedida do atendente (zuian) e assistente do atendente (zuiji) que o cuidaram durante todo este processo. Acabaram-se as formalidades – são oito horas da manhã, mais ou menos. Foi um dia muito cheio… .