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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Zen e os Detalhes




A ação correta é muito treinada na Soto Zen. A teoria no treinamento da Soto Zen é que o cérebro e o corpo estão tão intimamente ligados que você pode atingir um com o outro. Então, uma postura correta influencia sua mente; o fato de como você pega a xícara influencia a sua mente. Depois, quando ao passar a bandeja para colocarmos as xícaras vazias, não é correto colocar a xícara de qualquer jeito, mas sim o mais fundo na bandeja possível para que as próximas pessoas tenham a frente para colocar a xícara. 

A sua ação tem que considerar sempre as repercussões sobre as outras pessoas, nos menores detalhes. Lembro-me a primeira vez em que fui repreendido por deixar um guardanapo numa bandeja. Anos atrás, eu recebi um doce no templo Busshinji. Comi o doce, tomei o chá, dobrei o guardanapo e quando passou a bandeja eu coloquei o guardanapo sujo na bandeja, bem dobrado abaixo da xícara. Em seguida veio um Sensei e me falou:

- “O senhor cometeu um erro gravíssimo! O senhor devolveu o lixo para a cozinha. Seu lixo você coloca na sua manga e leva junto com você e coloca fora. Porque se devolver para a cozinha alguém vai ter o trabalho de pegar seu lixo e botar na lixeira”.

Você tem que sempre pensar no trabalho que está dando aos outros. Por isso, no sesshin, quando nós comemos diz-se: limpe o prato com pão de modo que ele fique o mais limpo possível, porque alguém vai ter que lavar. Se tiver um grão de arroz sobrando no prato, alguém vai ter que colocar no lixo ou vai para o cano, e lá atrapalhará a natureza. Esse tipo de educação vai tão longe que no Japão você não encontra mais um local para jogar lixo na rua e as ruas estão perfeitamente limpas. Então, se você comeu algo e sobrou embalagem, você tem que guardar e levar com você para casa, porque o lixo não é um problema da nação ou do serviço público, mas seu. Bem ao contrário do Brasil, onde quando encontramos lixo na rua a culpa é da prefeitura. No Japão, o lixo é problema seu, e na Alemanha também as pessoas cuidam de seu lixo. Quando varrem a casa, varrem as calçadas e as ruas em frente às suas casas, porque uma rua suja na frente da sua casa é sinal de que você não cuida da sua rua.

Eu não sei quanto tempo vamos levar para ter uma noção como essa, mas a civilização provém disso, ela vem de muitos pequenos detalhes de comportamento. Por isso, no Zen, nós treinamos as pequenas ações.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Treinamento Árduo




Os Mestres não são nem um pouco piedosos. Se você não tiver confiança e coragem para ficar com seu professor você desiste, pois acha que ele não é nem um pouco compassivo com você. Quanto mais ele acreditar em você, mais severo ele será. Enquanto os alunos são novos, eles são muito bem tratados. Quanto mais o aluno progride, mais o professor pede a ele. Este é o processo. Não é muito diferente de quando você resolve estudar música, vai a um professor e pede que ele lhe ensine. Ele cobra muito de você e, quanto melhor é o aluno, mais ele cobra. É natural.

Semana passada eu visitei, com a Semitha Cevallos (Shin On), que é nossa aluna em Joinville e pianista no Bolshoi, o diretor do Bolshoi, senhor Pavel. Na Rússia, ele foi selecionado para o Conservatório de Moscou, onde é difícil de entrar. De lá, foi selecionado para o Bolshoi e hoje é diretor do Bolshoi de Joinville, o único Bolshoi fora da Rússia no mundo.

Ele estava nos falando do padrão de treinamento do aluno no Conservatório de Moscou: são seis horas por dia no instrumento treinando, fora as aulas de harmonia, composição, teoria musical, etc. que ele tem que fazer e, fora o colégio, instrução normal.

Só assim você consegue um alto padrão, somente com alta exigência. No Zen não é diferente. Os mosteiros são tão severos, tão difíceis. No ano passado eu estive por três meses em um mosteiro japonês e perdi 16 Kg. Sodô san, nossa Monja de Brasília, ficou dez meses, e perdeu 25 Kg. Realmente não é fácil, mas é muito melhor do que era no tempo de Dogen, no séc. XIII. Quem quiser ter uma ideia, assista ao filme sobre a vida de Dogen.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O treinamento ideal ocorre além das palavras

(Continuação) Voltando à questão dos rituais: você faz oryoki, mas por que faz isso dessa forma? Por que são três tigelas? Por que abrir a aba primeiro para frente? Quando eu abro para frente eu devo pensar: primeiro os outros, depois eu. Cada pequeno detalhe do ritual está cheio de ensinamentos, mas os ensinamentos devem ser compreendidos idealmente através de insights e não através de explicações. Agora que eu expliquei isso, o insight para vocês está perdido, então eu fiz algo que o Mestre não deve fazer, porque o aluno tem que descobrir sozinho. O treinamento ideal é através do insight, de uma compreensão além das palavras, porque compreensão com as palavras é pequena. É tudo que nós temos, mas é pequena, limitada, não é grande como uma compreensão de um insight. Uma boa comparação com esse momento é uma anedota: você conta uma anedota, a pessoa não entende e então você explica, mas ela não ri. Por quê? Porque não tem insight. Só tem riso se tiver insight. A mente só dá uma descarga de energia quando ela tem um salto de compreensão que é completo e absoluto. (Continua)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

"Não creio em deuses, creio em treinamento"

Uchimura, vindo de um país budista, o Japão,  disse que não acreditava em deus, acreditava em treinamento, imediatamente os comentaristas se declararam chocados, dizendo que ele não deveria dizer isto, que podia acreditar nos dois, mas a verdade é que o atleta japonês tem direito ao seu pensamento e a sua convicção, assim como os teístas pedem que sua crença seja respeitada assim também a descrença de Uchimura merece respeito.

terça-feira, 31 de maio de 2016

O futuro centro de treinamento zen

Atrás do Templo Busshinji na Liberdade, em São Paulo, há agora um terreno destinado a uma construção especial. O projeto do abade, Saikawa Roshi, meu mestre e antecessor, é construir ali um edifício destinado a acolher monges e leigos em treinamento, que possam residir, praticar e trabalhar para a formação e treinamento dos futuros líderes do zen budismo na América do Sul. As contribuições para esta sede de sete andares estão abertas e o total estimado é de 6 milhões de reais.
Monge Genshô


segunda-feira, 18 de abril de 2016

As pessoas não sabem mais o que é felicidade




Monge Genshô:  Este lugar onde estamos aqui é o samsara, e este lugar onde estamos aqui é o nirvana, só depende de quem está olhando, e quem está olhando pode achar maravilhoso  uma mesa com pão e frutas, isso é maravilhoso, mas  se a pessoa tiver a mente errada, mal treinada, ela vai olhar e dizer: “eu queria estar num lugar onde servem caviar, eu queria alguma coisa muito especial, eu quero tomar um vinho de 6 mil a garrafa”, e só assim ele acha que teria alcançado algo, mas todas as pessoas que alcançam este  nível vivem grande insegurança, por que tudo aquilo que você tem pode ser perdido, porque não é interno, está tudo do lado de fora e inevitavelmente vai ser perdido porque um dia, até você que é o possuidor, vai morrer, e a família vai brigar pelo dinheiro que sobra e os filhos vão processar uns aos outros e  coisas assim que eu vejo frequentemente no mundo empresarial.

As pessoas assim perderam a noção do que tem valor na vida. Não sabem mais o que é felicidade.