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sexta-feira, 18 de março de 2016

A força da Linhagem

Monge Genshô: A cerimônia de Zuise que eu fiz agora, início de julho 2015, no Japão, significa ir até os túmulos de dois mestres da Linhagem, Keisan Jôkin Daishô, 57º Patriarca, e Eihei Dogen Daishô, 54º Patriarca, nos templos Eihei-ji e Sôji-ji. Você vai até lá e você só pode ir lá uma vez na vida. Então sobe a escadaria e vai lá estender seu zagu completamente, e faz prostrações para eles. Então, é a partir desse momento que você pode receber o título de Rikishô, professor internacional. Para tanto você tem que ir até lá e fazer isso.

Isso é profundamente simbólico. Então os rituais, os ritos são de um lado coisas que poderiam ser sem sentido, de outro são coisas que falam ao nosso inconsciente porque a linguagem do inconsciente é simbólica, nós sonhamos com símbolos, não com o nosso consciente. Vocês não podem dizer que os seus sonhos não têm significados, os sonhos têm grandes significados se vocês interpretam corretamente. Você sabe, ele significa isso, e através da prática do zazen você pode trazer para o consciente o inconsciente como eu falei recentemente.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A desconstrução do eu

 
Pergunta: A prática diária que se faz no mosteiro, além do trabalho, representa uma vantagem dos japoneses com relação a nós? Ter desde sempre influências budistas, como na arte, por exemplo, faz alguma diferença?
Monge Genshô: Existe uma influência importante nas artes, mas isso não substitui a prática do Zen e também não substitui o conhecimento do ensinamento. Eu diria que nossos alunos aqui no Brasil fazem mais meditação e sabem mais sobre o budismo do que os leigos budistas japoneses. Eles estão acostumados com o folclore do budismo e isso ajuda no comportamento. Eles sabem desde pequenos, por exemplo, como se comportar junto ao professor, junto com senpai e eles têm  orgulho de ter um senpai durão. Aqui no Brasil ninguém suporta um professor durão. Quando começa a dureza, o aluno acha que não é mais amado. No Japão a interpretação é outra, é contrária. Se ele é duro é porque ele está investindo em mim e se importa, se ele para de me corrigir é porque ele desistiu de mim e eu não presto, então é melhor eu ir embora. Esse é o raciocínio. Aqui nós queremos ser amados o tempo todo, é por isso que lá ainda, nos monastérios masculinos pelo menos, existem muitos castigos físicos. Se cometeu um erro, o superior logo vem para corrigir e você tem que ouvir de joelhos, não é em posição de seiza, é ajoelhado, dizendo “hai”, sem olhar no rosto, apenas olhando para baixo. O superior pode sair dali e você continua, só sai da posição quando ele voltar e liberar.

Quando eu fui entrar em Sojiji Soin me colocaram de frente para uma porta. Era início de primavera, estava frio e eu com roupas que não protegem bem, calçando sandália de palha e segurando um zafu embaixo do braço. Veio um Monge e perguntou: “por que você veio para cá? Aqui é um mosteiro japonês tradicional”, e eu disse: “ah, porque eu queria um treinamento duro”. Ele me disse: “se você quer um treinamento duro, vou te dar um treinamento duro então!”, e foi embora. Ele me deixou lá. Fiquei com frio, congelando e não podia fazer nada. Fiquei pensando: “que besteira minha, por que fui dizer isso?”, mas não tinha saída. De qualquer jeito eu ficaria de castigo. E vocês veem que eu contando isso agora parece legal, nós rimos, o que é ruim de passar é bom de contar. O que é bom de passar não tem graça. Então o treinamento monástico tem muito disso no Japão, ele te desconsidera, diz que você não é ninguém e te reduz a nada. Mas tudo com o objetivo de apagar esse ego. Não interessa se vim do Brasil, se tenho quase 70 anos, idade não conta e o que eu fazia aqui não interessa lá. Ali sou pessoa nova, não sei de nada, não usei meu manto, usei manto preto porque lá eu era noviço. Então todo o processo é criado com a intenção de destruir tudo que você pensa que é. Você não é o que você pensa. Você é ninguém. Depois disso você é levado para uma sala de espera que possui apenas nove tatames e trazem as refeições para você. Lá não há banho, só tem um sanitário perto e tudo que você tem é confiscado. Nessa sala você fica sem nada para fazer, só uma pessoa vem falar com você, seu instrutor, cada vez que ele abre a porta você faz gasshô. Ele dá textos e refeições, vai embora e novamente você se despede com gasshô. Você fica ali esperando. Cinco dias. É interessante para descobrir o que sente alguém numa cela sem nada para fazer e sem contato com o exterior.

Pergunta: Ficava fazendo zazen?

Monge Genshô:
Sim, você tem o zafu. Esse processo pretende fazer com que se você for desistir, desista naquele momento. Você tem que estar armado de muita motivação para continuar. É inevitável que chegue um momento em que você diz: “eu estou com vontade de desistir” e então o superior pergunta: “como você vai embora? Eu estou com seu passaporte, seus documentos, vai como e para onde?”.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A vida se mostra a cada passo



Aluno – Pela forma como o senhor expôs 'O pico da montanha' me parece que os objetivos não têm tanta importância, eles são de certa forma um guia, mas a escalada é que conta mais?

Monge Genshô – A vida se mostra a cada passo. Então, à medida que nós vamos indo num caminho, se nós ficarmos presos num objetivo isso vai ser ruim. É bom ter um objetivo, uma meta, porque isso nos cria uma certa direção, isso se faz constantemente nas empresas, cria planos, é frequente para mim. Mas  acontece algo inesperado e aí, o que vamos fazer? Vamos fazer de acordo com o inesperado, não adianta nos lamentarmos muito. Eu gosto muito da história de Thomas Edison quando o laboratório de Menlo Park pegou fogo, ele chamou toda a família para assistir, disse 'venham, venham, vocês nunca vão ver um incêndio como esse' cheio de produtos químicos de laboratório, um tremendo de um incêndio.

E ele naquela alegria, e era o laboratório dele, era a vida dele, tudo o que ele tinha construído até então. E a mulher perguntou 'mas você não está chateado que está pegando fogo em tudo o que você fez até agora?'. E ele falou assim 'mas pense no laboratório que eu vou fazer agora, um novo, vou fazer tudo melhor, os erros que tinham nesse não vai ter mais'. Ele já estava planejando na cabeça dele que iria fazer um muito mais espetacular do que o laboratório anterior. Então essa era a cabeça de Thomas Edison, por isso ele registrou milhares de patentes. Porque ele estava sempre pensando em uma nova solução.  Não estava preso num objetivo anterior ou no que ele tinha anteriormente, mas estava pronto a mudar de idéia. Pegou fogo? Ah, que oportunidade, o que nós vamos fazer agora? Isso diz muito sobre o caminho, o caminho é assim.

Quando você caminha na vida é assim, que bom que há mudança. Quando nós nos agarramos demais a lamentar aquilo que acabou nós não estamos vendo as grandes oportunidades que estão aparecendo. Agora Chudô San vai para o mosteiro de Sojiji Soin dentro de algum tempo, logo que os papeis estiverem prontos. E Jikihô San vai ser ordenada monja noviça e vai para Kasuisai, que é um grande mosteiro que tem um famoso tenzo,  um roshi que é mestre de cozinha, e ela vai ter uma enorme oportunidade. Vai ser difícil, complicado estar num país com uma língua diferente, uma cultura diferente, dentro de um mosteiro, não é fácil. Eu disse a ela que, se chorar, chore na cama, mas haver solidão, muito trabalho, pouco sono, exigência, uma cultura que não é tão carinhosa como a cultura brasileira, onde se exige muito das pessoas. Isso é uma tremenda oportunidade, então tem que ir com espírito livre, seja o que for, simplesmente a gente tem que pensar 'eu vou aguentar, eu vou aprender, eu vou continuar'.

Depois  que acostuma, começa a ficar cada vez mais fácil,  no fim vai ser um lugar de onde se terá saudades. Então é uma enorme aventura, uma grande oportunidade ganhar uma bolsa da Sotoshu  pra ficar internado num local, a instituição vai cuidar de você, tem cama, comida, lugar para lavar roupa, e grande treinamento. Quando voltarem serão monges de outro nível e ajudarão imensamente nossa comunidade. À medida que essas coisas vão acontecendo torna-se possível, por exemplo, que eu possa morrer e saber que a comunidade continua. E isso é maravilhoso. Então trilhar o caminho assim, quem suporia que isso poderia acontecer? Quando Jikihô San chegou a primeira vez na Sangha, sentou à mesa, eu perguntei a ela 'quem é você, o que você faz?' e ela respondeu 'eu sou quituteira', eu me lembro até hoje, ela disse 'eu sou quituteira, eu faço quitutes'. Agora ela vai ser uma chefe de cozinha com treinamento num dos lugares mais difíceis de ter acesso no mundo. Não é fantástico isso? Quem poderia supor? Se tivesse um objetivo outro não seria assim. Sem objetivo de repente as portas se abrem, basta se esforçar, treinar continuamente. É isso, então. O caminho se mostra a cada passo. E se você não tiver restrições na sua mente ele é absolutamente inesperado. (continua)

terça-feira, 6 de março de 2012

Viagem de Seigen San


Seigen San, meu irmão no Dharma, irá ao Japão em abril e permanecerá durante um ano no mosteiro de Sojiji Soin em Ishikawa. Para ajudar em suas despesas criou um site com suas magníficas fotos, aqueles que se interessarem podem visita-las aqui:
http://mitih.com.br/galeria

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Genshu San em Florianópolis



Genshu San veio do Japão, aos 28 anos internou-se em um mosteiro zen budista, havia trabalhado como operário em fábrica de automóveis, e estudara artes plásticas, não saiu do mosteiro de Sojiji Soin durante sete anos e meio, quando mudou-se para Antaiji um lugar de prática zen focado em meditação intensiva, após quase dois anos veio para o Brasil e após quatro meses no Templo Busshinji em SP foi enviado a passar um mês com o grupo de Florianópolis, ajudando a aperfeiçoar as cerimônias e ensinando detalhes. Na foto Genshu San exibe sua maestria no taiko acompanhando recitações de sutras durante o treinamento especial realizado sábado passado.