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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

As Escrituras como Fonte da Desigualdade



Uma visão literal das escrituras religiosas leva a muitas coisas comuns na nossa sociedade. Por exemplo, se está escrito lá que a mulher deve obedecer ao seu marido, então pronto, é assim que deve ser. Dessa forma, todos os maridos que obedecem às suas mulheres, eu inclusive, estão contrariando o texto. Os textos budistas originais também têm esse tipo de tendência e também dizem respeito ao funcionamento social da época.

Quando Buda diz sobre as relações familiares ou econômicas e tudo mais, ele está falando de um mundo de 600 anos antes de Cristo. E por isso, esse é o ponto que chama a atenção, Buda é um revolucionário prodigioso. Porque ele declara naquele tempo que homens e mulheres são iguais na sua possibilidade de alcançar a iluminação e, portanto, são iguais na Ordem. Por isso homens e mulheres devem se vestir com as mesmas roupas, devem raspar a cabeça da mesma maneira e não há distinção alguma, podem ser Mestres, professores, exatamente do mesmo jeito. Já se passaram 2.600 anos e ainda, no geral, nas sociedades não chegamos a este comportamento preconizado por Buda. Mas esse discurso não foi somente para as mulheres, foi também para as castas. Raspar a cabeça é para todos, não interessa se são párias ou brâmanes, todos são a mesma coisa.

Então Buda aboliu as castas dentro do budismo, e isto contraria o procedimento até hoje existente dentro da Índia no hinduísmo, por exemplo, onde ainda há castas congeladas. Esse é um dos motivos do budismo ao longo de mil anos perder a força e acabar saindo da Índia, porque não conseguiu vencer essa ordem vigente, essa ordem das castas. As castas sobreviveram, absorveram o budismo como um hinduísmo modificado nas escolas Vedanta e Advaita Vedanta, que são extremamente parecidas com o budismo, ao ponto de serem chamadas de “cripto-budismo”. Mas isso tudo surgiu 700 depois de Cristo, ou seja, mais de mil anos depois da morte de Buda.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Tripitaka - O Terceiro Cesto e o Fundamentalismo




(CONTINUAÇÃO)



Há ainda um terceiro conjunto de escritos budistas que está neste cânone Tripitaka, chamado Abhidharma, que são  comentários de Mestres sobre os sutras. Isso ficou mais ou menos congelado uns 3 séculos após a morte de Buda. Criou-se um cânone e sobre esse cânone tomou-se a decisão de que nada mais entraria de novo, nenhum comentário a mais, e então pararam de adicionar informações.

Existe uma escola que conserva essa ideia de que só existe o cânone, então só se referem a ele e não consideram nenhum outro texto. É como se tudo o que precisassem estivesse ali.

Qual é a tendência mais natural de uma escola assim? É que o texto torna-se mais importante do que todo o resto. Então os textos são vistos como o repositório da sabedoria, e você sempre se volta para eles para tentar saber qual é a verdade. Não é diferente do que aconteceu com o cristianismo depois do congelamento da bíblia, que significa “os livros”. Tendo os livros todos reunidos no Concílio de Niceia, também congelaram as informações e não entrou mais nada. Havia mais de 40 evangelhos, mas apenas 4 foram escolhidos, e os outros foram descartados como apócrifos. Evangelho de Tomé, por exemplo, evangelhos vários com histórias que foram consideradas exageradas acabaram ficando de fora. Os 4 evangelhos selecionados compõem o que nós conhecemos hoje como a bíblia.

Qual é a atitude das pessoas diante disso? As pessoas abrem a bíblia e consideram aquilo a palavra de Deus, porque está escrita e aquilo é o certo, o que acaba criando conflitos, como aconteceu quando declararam que o sol era o centro do sistema solar e a Terra girava em volta dele. Acontece que no livro de Josué está escrito que Josué pediu a Deus que parasse o sol para que ele pudesse ganhar uma batalha, então surge o argumento de que se o sol parou, o que levou à interpretação de que é ele que gira em torno da Terra. Caso contrário ele teria pedido para a divindade parar a Terra. Hoje nós sabemos que isso causaria uma catástrofe gigantesca com enormes proporções.

Estou contando isso para que nós vejamos que o mesmo tipo de tendência fundamentalista também aconteceu no budismo. Uma vez eu conversei com um professor budista de uma escola que considera muito os textos e ele disse: “a sede da consciência é o coração”, e eu perguntei por que ele estava dizendo isso, e então ele respondeu: “porque no texto tal Buda disse isso dessa forma”. Mas isso é só o Sutra, é o conhecimento daquele tempo. Essa postura dele é uma postura fundamentalista, que diz que se está escrito lá desta forma então está certo.

[Trecho de Palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Olhar Crítico aos Textos Sagrados



Aluno: a própria bíblia em si, algumas partes dela são compostas de fatos históricos, mas ela também tem muita interpretação dos fatos, não?

Monge Genshô: na verdade, a bíblia é constituída de 60 e poucos livros de muitos e diferentes autores. A palavra bíblia vem de "biblos", que em grego quer dizer "os livros". Então, é uma reunião de textos que não estavam juntos antes - eles foram consolidados muito depois, inclusive os evangelhos foram escolhidos entre 40 diferentes, e todos os outros foram declarados apócrifos e aqueles 4 escolhidos no famoso conselho de Niceia.

Bom, evidentemente a bíblia é então um documento histórico interessante e com muitas referências. Algumas serão contraditórias, outras serão enganos. Por exemplo, lemos que há um objeto grande dentro do templo e que a sua circunferência é 3 vezes o seu diâmetro. Na realidade é só uma aproximação, pois nós sabemos que pi é 3,14 de diâmetro, e não 3 vezes. Mas no tempo da escrita do livro não se sabia dessa relação, de modo que ela é colocada errada no texto. Há muitas coisas deste tipo dentro dos textos históricos.



Mas vamos nos referir aos textos budistas, que também não fogem dessa característica. O Sutra de Lótus, que é um dos muitos famosos, originalmente teve menos capítulos. Hoje ele tem 28 capítulos e isso é uma quantidade importante de interpolação de textos, porque cada vez que alguém compilava dizia: "Poxa, mas faltou alguma coisa", e acrescentava. 

Quando o budismo chega na China, os chineses ficam meio horrorizados porque budistas não davam muita atenção para essas coisas de "meu pai", "minha mãe", "minha avó", "antepassados", e os chineses reverenciavam os antepassados, ponto importante no confucionismo. A China daquela época era toda baseada em respeito filial aos pais. O Sutra do Lótus não falava disso, mas hoje tem um capítulo só sobre pais e filhos, que é originário desse momento na China. 

Também os textos budistas necessitam uma certa desconfiança: “isso aqui é um pensamento original de Buda?”, porque pode não ser. Você tem que verificar se ele é coerente no contexto geral, porque pode ser contraditório. Eu já vi um texto atribuído a Bodhidharma que dizia que não seria errado matar opositores. Como um alguém coloca algo tão sectário e odioso dentro de um texto budista?”. Evidentemente que isso foi escrito por alguém que estava dentro de uma briga feia com outro grupo budista e atribuiu a fala a Bodhidharma somente para ter crédito.