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sexta-feira, 4 de julho de 2014
Palavras com poder
Pergunta – A questão do Sutra do Coração da Sabedoria, gostaria de saber se ele é uma oração e se for uma oração, o Budismo Zen concorda então que as palavras podem ser mágicas ou podem causar transformações nas pessoas como os mantras ou são apenas rituais de lembrança?
Monge Genshô - Várias pressuposições na pergunta. O sutra é uma oração? Não, o sutra não é uma oração, o sutra é um ensinamento que você repete para se conscientizar dele. É isso que o sutra é. O Sutra do Coração é um resumo de uma idéia que perpassa os sutras da coleção “Prajna Paramita”, que são cerca de 600. Então é o sutra do coração do Prajna Paramita, o sutra do ensinamento que é o cerne, a essência, dos sutras da coleção Prajna Paramita. É o “Sutra do Coração da Sabedoria”, e não o sutra do coração apenas.
Orações funcionam? Funcionam sim. Na verdade, se você tiver fé, acreditar profundamente numa coisa e repeti-la com fé, ela vai funcionar. Poderia ser coca cola. Se eu acreditar que funciona, coca cola, coca cola, coca cola. Quando ninguém mais souber o que é coca cola, coca cola é um mantra e funciona. Na realidade somos nós que fazemos essas transformações. As palavras têm poder? Sim as palavras têm poder. Por que é que as pessoas dizem palavrões? Porque acham que os palavrões têm poder, que eles vão funcionar. Eu disse ontem à noite, que há anos, bastante anos, eu não digo palavrões. Nenhum palavrão. E alguém perguntou: e se o Senhor levanta à noite, bate com o dedinho no pé da cama, o que é que o senhor diz? Eu digo “burro, como tu és burro”, porque se tem alguém que eu deva insultar, sou eu mesmo. Então eu uso essa estratégia. Porque acredito que os palavrões são mantras ao contrário, levam nossa mente a más associações.
Tem um texto que eu escrevi uma vez, sobre uma idosa amiga minha, ela era espírita, e dizia sempre: “paz, luz e amor para você”. E isso era o que ela repetia para todo mundo, todo o tempo, e ela se transformou numa pessoa muito especial. O nome dela parecia com o que ela se transformou, com a imagem que eu tenho dela, “Celeste”. O que eu vejo? Que ela repetiu aquilo tantas vezes, que aquilo se incorporou nela. Há pessoas que pensam que se elas falarem palavrões elas são interessantes. Então elas dizem coisas abjetas, baixas, sujas. Achando que estão fazendo algo bom, que estão sendo interessantes ou enfáticas. Não, elas não estão sendo enfáticas. O que elas estão fazendo é trazer o que há de mais baixo para cá, para junto delas, as idéias, os pensamentos associados aos palavrões.
Originalmente o palavrão era um mero som, mas ele foi transformado através da repetição e da intenção, naquilo. As palavras como paz, luz, amor, também foram transformadas pelas pessoas, pela sua prática, pela sua repetição. Vocês têm escolha de qual é o mundo que vocês trazem para junto de vocês. Essa amiga acreditava que os espíritos de luz vinham para junto dela. Então se nós pegarmos essa imagem, nós dizemos que os espíritos de escuridão, a maldade, os criminosos, eles vão para junto dos que falam coisas insultuosas, porque onde é que eles falam a pior linguagem? Não é nos lugares onde estão os criminosos? Por que é que nós vamos usar a linguagem dos criminosos?
Então, orações têm poder, mantras também, palavrões idem, boas palavras também. E, é algo de mágico? Não, não é mágico. Nós é que transformamos essas ações em mágica. Eu dei uma prática para vocês, não foi? Falem com aquelas pessoas que ninguém olha, agradeçam. Esse agradecimento de vocês é como uma oração, e muda vocês e aquela pessoa e o mundo, então, não tem mágica nenhuma, mas é profundamente mágico.
terça-feira, 11 de março de 2014
O tempo de viver é só o tempo de viver
2) Nesse caso entra a filosofia, o pensamento, a mente e o “eu”. Então como fica a questão de como quebrar o “eu” e ao mesmo pensar filosoficamente, sendo que a filosofia tem o “eu” dentro?
Monge Genshô - Primeiro há raciocínios, é o que chamamos de “ensinamento provisório”. Primeiro raciocinamos. Basta observar para ver que você nem precisa morrer para perder seu “eu”, basta ficar doente, perder a memória, por exemplo, e não saber mais quem é, como tantas vezes já foi explicado. Mas depois, é a solução final de Buda, que não é uma solução baseada no raciocínio, mas em uma experiência mística. Ele senta para meditar e enxerga. Então, na prática, o que o budismo diz é que aquilo que Buda fez - sentar-se para meditar e perceber com clareza a verdade e dizer para o seu “eu” - “você não me enganará mais” - essa experiência é acessível por todos, todos têm a condição de Buda, todos somos Budas, só precisamos fazer a mesma coisa, sentar, meditar e acordar. Quando acordarem, subitamente grande felicidade e todos os problemas da vida parecerão bobagem, podem se evaporar como fumaça. Inclusive o grande problema da morte.
Para aquele que enxergou a unidade, a morte não existe. Posso falar isso para vocês: o medo da morte desaparece como mágica. Não tem mais importância. Por isso aquela história de um general que invade uma cidade, chega à um templo Budista, encontra um mestre e fica indignado porque o mestre não tem medo e com sua espada suja de sangue lhe diz – “Você não vê que posso lhe matar em um instante”? – e o mestre lhe diz – “E você não vê que eu posso morrer em um instante”? Existem tantas histórias de mestres budistas que simplesmente morrem – “Eu chamei vocês aqui hoje porque irei morrer” – então senta em zazen e morre.
Esse mestre tibetano que morreu no Brasil, Chagdud Rinpoche a quem visitei várias vêzes, fez suas coisas de forma interessante também. Ele estava doente, isso foi há alguns anos, há uns dez anos. Ele chamou os alunos e disse: “Eu vou dar um curso sobre como morrer”. Foram então umas duzentas pessoas fazer o curso com ele. O curso estava marcado para terminar às 18:00 hs, mas ele continuou ensinando e falando sem parar até as 22:00 hs, então levantou-se e disse – “Bem, agora eu vou embora”. Foi para seu quarto, sentou em zazen e morreu. O corpo dele continuou sentado em zazen e os tibetanos acham que não se pode mexer em um mestre que morreu assim enquanto o corpo não cair. E quando veio a Secretaria da Saúde, eles tiveram que convencer os médicos que apesar dele estar morto, o corpo não poderia ser tocado, era um sinal de respeito. Os médicos compreenderam e ficaram todos esperando. Após seis dias o corpo empalideceu e caiu. Foi então retirado para cremação.
No Zen as histórias são a vezes anedóticas Vocês viram o filme sobre o Zen onde acontece a morte de Eihei Dogen. Tem uma história muito interessante sobre um mestre que era muito brincalhão, chamou seus discípulos e perguntou-lhes – “Vocês já viram alguém morrer deitado”? – e todos responderam que sim, e – “Já viram alguém morrer sentado”? – E a resposta foi a mesma, e – “Mas e de cabeça para baixo”? – e os monges responderam que nunca haviam visto alguém morrer nesta posição. Então ele fez uma postura de ioga de cabeça para baixo e morreu. E o corpo dele não caía, então como os discípulos não queriam mexer no corpo mandaram chamar uma irmã dele. Quando ela entrou disse – “Você a vida inteira fazendo palhaçada e agora ainda morre de cabeça para baixo, saia logo dessa posição” – só então ele caiu e puderam enterrá-lo.
Essas histórias têm algo de mítico evidentemente, mas elas têm uma intenção ao serem contadas. É que nós levamos tudo muito a sério, e parece na realidade, que no Zen nunca se levou muito a sério essa questão. Como dizia Dogen – “O tempo de viver é só o tempo de viver, o tempo de morrer é só o tempo de morrer”.
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