Mostrando postagens com marcador ensinamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ensinamento. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Níveis de Ensinamento



O Sutra do Coração está falando acerca do ensinamento absoluto: quando não há o outro, não há caminho para a extinção do sofrimento, nada disso existe. Todo ensinamento dual foi apenas um método para se chegar a um outro nível. Primeiro damos preceitos e dizemos que vocês devem cumpri-los, devem fazer os oryokis, devem escutar, mas esse é apenas um método, é como se você estivesse lidando com uma criança no Dharma, que sabe muito pouco. Então não adianta você ficar tentando teorizar, da mesma forma que não adianta sentar alguém em frente a um piano e dizer que tal tecla é uma sequência de 440 vibrações por segundo e começar a dar explicações de física para um aluno que tem 4 anos de idade. O que você faz é pedir para que ele aperte uma tecla e diz: “isso é La”, etc.

Num segundo nível de ensinamento, nós damos preceitos que dizem coisas como: não mate, não cause sofrimento a outras pessoas, não julgue, etc. Uma vez eu tive uma discussão, muitos anos atrás, com um professor budista que disse que não se pode mentir em caso algum e eu disse que essa declaração podia causar uma tragédia.

Se aparece um assassino aqui querendo matar a Kyo Hô, ela está escondida e ele pergunta “onde está Kyo Hô?”, nós não vamos dizer, vamos dizer uma mentira para salvá-la. Então a visão de que só pode se dizer a verdade o tempo todo é uma visão estreita do ensinamento, é uma visão fundamentalista, e também existem fundamentalistas no budismo, pessoas que discutem traduções à risca, por exemplo, desde o sânscrito.

terça-feira, 10 de março de 2015

As duas asas



Aluno: o ensinamento pode ser um gatilho para um insight?

Monge Genshô: Com certeza. São as duas asas. Você não voa com uma asa só. Alguns  ficam lendo livros e ficam fascinados intelectualmente com a profundidade filosófica do budismo e do Zen. Há muito livro escrito. Mas a linguagem é falha para comunicar. Estou falando aqui, em que medida estão todos me entendendo mesmo, de verdade? Todos, obrigatoriamente, estão me entendendo parcialmente pois estão me lendo dentro de seu próprio background cultural. Estão lendo a partir de sua própria experiência etc, sempre com pequenas diferenças em relação aquilo que quero dizer. Se eu digo “árvore”, qual é a sua árvore?

Aluno: Mangueira.
Aluna: Ipê.
Aluna Pinheiro.
Aluna: Jacarandá.

Monge Genshô: estão vendo? Eu digo “árvore”, mas cada pessoa vê uma. Então há uma dificuldade com a linguagem. Você tem um símbolo que intermedia a compreensão e que é decodificado por cada receptor. Então você vai tentando ensinar, mas, você está usando símbolos e as decodificações vão alterando a interpretação, de modo que o ensinamento não é perfeito. A prática tem uma virtude de não ser intermediada pela linguagem. Assim como expliquei nos casos dos rituais, você pode ter um insight direto, intuitivo a partir de um ritual. Essa compreensão é mais profunda e melhor do que a explicada.

Por isso às vezes as pessoas pedem uma explicação de uma coisa como essa e eu digo que não vou dar explicação. Vai ouvindo, se daqui a cinco anos você entender, esse entendimento é melhor do que eu explicar. Estava falando desse assunto uma vez com o Roshi e ele disse: "E por que então usamos a linguagem? Porque é tudo que nós temos".  Sento aqui para dar uma palestra, o que posso usar? A linguagem. Por isso os mestres escrevem livros, fazem palestras, por isso eles ensinam, só por isso.

Agora, quando alguém só quer o ensinamento e não quer sentar, praticar, tem uma ação  inútil. É como alguém que diz que quer aprender a nadar e fica lendo manuais de natação. Todo mundo sabe que isso é absurdo. "Ah, li vinte manuais de natação, sei tudo sobre natação.", "Sabe? Vou te jogar na piscina", "não, não, piscina não, porque tenho medo de água". É igual no Zen.

(Palestra decupada por Pedro San e revisada por Kyô Hô San)

segunda-feira, 9 de março de 2015

A necessidade do ensinamento


Aluno: Ela toma medicação, mas não a controla a depressão como gostaria.

Monge Genshô: Florianópolis tem um médico amigo meu, que é direto da Clínica do Sono, e que é praticante do Zen. E ele é um neurologista famoso internacionalmente. Esses dias mandei um paciente para ele com um problema e depois o paciente me disse: "O Dr. Luciano me atendeu e a consulta durou três horas". A gente tem que ver isso. Na realidade, não dá para sentar uma pessoa na frente de um médico, consulta pelo INSS, senta na frente do psiquiatra e diz "estou muito deprimido, triste". Pronto, dá um remédio para a pessoa e manda embora. Problemas sérios não podem ser tratados assim.

Pergunta: Queria que o senhor comentasse um pouco sobre a questão da prática e do estudo do ensinamento. O senhor já comentou sobre os olhos que não enxergam e a gente vê sempre o senhor reforçando a prática. Mas, se o zazen vai preparar a mente, precisamos do ensinamento, do racional, da sabedoria do mestre para plantar essa semente?

Monge Genshô: Na verdade, você sabe a resposta, não é? Porque se não existisse necessidade de ensinamento, nós não estaríamos aqui fazendo palestra.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Eu pavimento meu caminho


Buda não veio dos céus trazer uma mensagem para nós. Não é isso. O que ele disse que veio ensinar é o Dharma. E o que é o Dharma? O Dharma é a lei, a sabedoria, a compreensão de como funcionam as coisas. Ora, se eu compreendo, então eu tenho que entender qual é a relação entre o meu ato e a sua consequência. Por isso nós estamos falando numa lei de causa e efeito, e não em pecado, regras ou mandamentos. Não é isto. Nós estamos falando: se eu ajo de determinada forma, essa ação vai produzir uma consequência posterior. Essa consequência vai modificar o futuro, ela vai criar um movimento no universo.

E o que é esse movimento que nós criamos no universo com os nossos atos? Vamos chamar aqui, para nossa melhor compreensão, de onda, onda cármica. Não quer dizer que seja uma onda, mas tem certas características que podemos identificar como  ondas. Ou seja, ela começa com uma ação e se propaga, e vai continuando e vai produzindo efeitos à medida que anda, isso é o que uma onda faz. Então, a nossa ação produz uma consequência, produz uma onda e esta onda vai provocando consequências contínuas desde que as condições sejam propícias para tanto.

E quando cessam as consequências de uma onda? Ela não cessa. As consequências de uma onda permanecem até que a energia se esgote. E isso então nos dá uma outra perspectiva, que é a perspectiva budista, que é diferente da perspectiva de que “se eu cometer um pecado, este pecado vai causar consequências ou castigos para mim e eu tenho alguém que perdoa e me salva das consequências desse pecado”. O budismo não tem um mecanismo como este, um mecanismo salvador das consequências. O que o budismo diz é: a lógica diz: há efeitos naquilo que nós fazemos. Esses efeitos continuam. Você só pode mudar os efeitos, com novas ações, você não vai poder mudar os efeitos com o perdão. Ninguém vai chegar e perdoar você e dizer: “agora está livre”.

Você chega a um amigo e diz um monte de insultos a ele. Ele fica com raiva de você. Você vai até uma outra pessoa e diz: “pequei. Cometi um pecado contra meu amigo, o insultei e ele está com raiva de mim, o senhor me perdoa, por eu tê-lo insultado?” E essa terceira pessoa diz: “Eu te perdôo”. Do ponto de vista budista isso é uma coisa não funcional. A maneira d´eu diminuir os efeitos da minha ação de insulto, é eu ir lá até aquela pessoa e pedir desculpas,  dizer: “eu não quis dizer aquilo daquela forma, eu estava perturbado, irritado, eu estou arrependido, eu quero que VOCÊ me perdoe”. Este perdão do ponto de vista budista é funcional mas não é perfeito, porque ele perdoa você mas, fica um resquício lá. Se você fizer de novo a pessoa dirá: “De novo? Você é a mesma pessoa, não aprendeu nada?” É isso que vai acontecer.

De modo que a ótica budista não é uma ótica com mecânica de interferências externas. Ela todo tempo olha pra dentro de você e vê: Como eu faço? O quê eu faço? Quais são as consequências do que eu faço? E como eu conserto as consequências do que eu fiz? Como eu faço coisas melhores para compensar as coisas ruins que eu fiz no passado? Eu só posso pavimentar o caminho onde eu ando, através das minhas ações, eu não vou pavimentar o caminho que eu ando através de interferências externas.
(Início de palestra pública em Goiânia, será publicada em partes)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Três formas de prática


Vou conversar com vocês sobre três formas de prática, que na verdade são três caminhos ou veículos. Veículo diz-se “Yana” e o primeiro veículo é “SRAVAKAYANA”, que é o caminho daquele que aprende através da compreensão dos ensinamentos, sendo que três ensinamentos básicos precisam ser muito bem entendidos para que consigamos uma libertação do sofrimento.

O primeiro é “Anitya”, ou seja, a impermanência. A primeira compreensão então é a compreensão profunda da impermanência. Se colocarmos nossa felicidade na permanência das coisas, certamente iremos sofrer. Quem aposta na beleza da juventude sofre, pois todos ficaremos velhos.

O segundo ensinamento que precisamos compreender é “Anatta”, de que nada tem um “eu” inerente. Todos os “eus” são construídos. Lembro-me de meu tempo de juventude quando tínhamos um fusca e lhe demos o nome de Pitanguinha. Lembro-me até hoje do dia em que o vendi e fiquei muito triste, mas na realidade ele nada mais era do que ferro, lata, motor, borracha e óleo. O carro havia ganhado um “eu”, era o Pitanguinha. O “eu” do carro é tão falso e construído como nosso próprio “eu”. Nós somos constituídos de pele, unha, ossos, carne, água e células, mas pensamos que temos um “eu” próprio. “Anata” é o ensinamento que não existe nenhum “eu” verdadeiro em coisa alguma, todos são construídos e entender isso, essa noção de separação de todas as coisas, que é uma construção mental, é um trabalho que exige lucidez e clareza.

O terceiro ensinamento para os Sravakas, aqueles que seguem o caminho de Sravakayana, é “Dukkha”, segundo o que toda a vida é insatisfatória, ou seja, nunca estaremos satisfeitos. Tudo que existe no mundo e que ambicionamos, logo depois de conquistado parece não ser mais o mesmo. As pessoas que desejam muito um filho, casam-se, têm o filho e este torna-se então a fonte da insegurança, sofrimento, ansiedade e até mesmo fonte de pesadelos em razão do medo de sequestros, doenças e morte. Esses sofrimentos são muito reais e de nada adianta explicar para  as pessoas que são sofrimentos construídos. Mesmo as coisas mais belas da vida estão sujeitas à “Dukkha”, não significa sofrimento, mas sim que a vida é cheia de sobes e desces, felicidade e infelicidade, riqueza e pobreza, saúde e doença.

Estava lendo sobre a vida de Bobby Fischer que em 1972 foi campeão mundial de xadrez. Desde os seis anos de idade era apaixonado por xadrez e em 1972 teve a oportunidade de desafiar o campeão mundial, Boris Spassky, um Russo que vinha de anos de vitórias, e o venceu. Depois desse ano ele não conseguiu jogar outros campeonatos, pois chegara onde jamais imaginara chegar, era campeão do mundo. O que aconteceu foi que logo após ter sua grande conquista, seu maior objeto de desejo, isso se dissolveu em suas mãos e tornou-se fonte de sofrimento. Viver num mundo fugaz de impermanência, pisando num chão que constantemente se modifica é um grande desafio, mas os Sravakas, compreendendo perfeitamente essas coisas, atingem a iluminação. Se tornam aqueles que através do ensinamento conseguem atingir a libertação, livrando-se de toda dor e sofrimento. 

O segundo Yana que eu quero comentar é “PRATYEKABUDHAYANA”. O “PRATYEKABUDHA” é alguém que não conhece um Mestre mas sozinho através da prática e da virtude, alcança sabedoria e iluminação. Ele não consegue ensinar pois não tem o conhecimento do Dharma, mas possui um esclarecimento interno. Vocês poderão encontrar esse tipo de pessoa, às vezes ignorantes dos conhecimentos formais do mundo, que mesmo sem mestre conquistaram sabedoria, eles não podem ensinar, mas através do seu exemplo e gestos, influenciam o mundo. Esses são os “Pratyekabudhas”.

O terceiro Yana é o “BODHISATTVAYANA”, que é aquele que segue o caminho de desenvolver uma grande compaixão e dedica sua vida a ensinar e ajudar as outras pessoas a escapar do sofrimento. Esse, o Bodhisattva, faz os votos que recitamos no final do zazen. O caminho de Buda é o caminho do Bodhisattva e sua atuação foi tão intensa que sobrevive até nossos tempos, ou seja, dois mil e seiscentos anos depois, estamos nós aqui falando de seus ensinamentos. Esse é o veículo ideal do Mahayana.

terça-feira, 11 de março de 2014

O tempo de viver é só o tempo de viver


2)  Nesse caso entra a filosofia, o pensamento, a mente e o “eu”. Então como fica a questão de como quebrar o “eu” e ao mesmo pensar filosoficamente, sendo que a filosofia tem o “eu” dentro?

Monge Genshô - Primeiro há raciocínios, é o que chamamos de “ensinamento provisório”. Primeiro raciocinamos. Basta observar para ver que você nem precisa morrer para perder seu “eu”, basta ficar doente, perder a memória, por exemplo, e não saber mais quem é, como tantas vezes já foi explicado. Mas depois, é a solução final de Buda, que não é uma solução baseada no raciocínio, mas em uma experiência mística. Ele senta para meditar e enxerga. Então, na prática, o que o budismo diz é que aquilo que Buda fez - sentar-se para meditar e perceber com clareza a verdade e dizer para o seu “eu” - “você não me enganará mais” - essa experiência é acessível por todos, todos têm a condição de Buda, todos somos Budas, só precisamos fazer a mesma coisa, sentar, meditar e acordar. Quando acordarem, subitamente grande felicidade e todos os problemas da vida parecerão bobagem, podem se evaporar como fumaça. Inclusive o grande problema da morte.

Para aquele que enxergou a unidade, a morte não existe. Posso falar isso para vocês: o medo da morte desaparece como mágica. Não tem mais importância. Por isso aquela história de um general que invade uma cidade, chega à um templo Budista, encontra um mestre e fica indignado porque o mestre não tem medo e com sua espada suja de sangue lhe diz – “Você não vê que posso lhe matar em um instante”? – e o mestre lhe diz – “E você não vê que eu posso morrer em um instante”? Existem tantas histórias de mestres budistas que simplesmente morrem – “Eu chamei vocês aqui hoje porque irei morrer” – então senta em zazen e morre.

Esse mestre tibetano que morreu no Brasil, Chagdud Rinpoche a quem visitei várias vêzes, fez suas coisas de forma interessante também. Ele estava doente, isso foi há alguns anos, há uns dez anos. Ele chamou os alunos e disse: “Eu vou dar um curso sobre como morrer”. Foram então umas duzentas pessoas fazer o curso com ele. O curso estava marcado para terminar às 18:00 hs, mas ele continuou ensinando e falando sem parar até as 22:00 hs, então levantou-se e disse – “Bem, agora eu vou embora”. Foi para seu quarto, sentou em zazen e morreu. O corpo dele continuou sentado em zazen e os tibetanos acham que não se pode mexer em um mestre que morreu assim enquanto o corpo não cair. E quando veio a Secretaria da Saúde, eles tiveram que convencer os médicos que apesar dele estar morto, o corpo não poderia ser tocado, era um sinal de respeito. Os médicos compreenderam e ficaram todos esperando. Após seis dias o corpo empalideceu e caiu. Foi então retirado para cremação.

No Zen as histórias são a vezes anedóticas Vocês viram o filme sobre o Zen onde acontece a morte de Eihei Dogen. Tem uma história muito interessante sobre um mestre que era muito brincalhão, chamou seus discípulos e perguntou-lhes – “Vocês já viram alguém morrer deitado”? – e todos responderam que sim, e – “Já viram alguém morrer sentado”? – E a resposta foi a mesma, e – “Mas e de cabeça para baixo”? – e os monges responderam que nunca haviam visto alguém morrer nesta posição. Então ele fez uma postura de ioga de cabeça para baixo e morreu. E o corpo dele não caía, então como os discípulos não queriam mexer no corpo mandaram chamar uma irmã dele. Quando ela entrou disse – “Você a vida inteira fazendo palhaçada e agora ainda morre de cabeça para baixo, saia logo dessa posição” – só então ele caiu e puderam enterrá-lo.

Essas histórias têm algo de mítico evidentemente, mas elas têm uma intenção ao serem contadas. É que nós levamos tudo muito a sério, e parece na realidade, que no Zen nunca se levou muito a sério essa questão. Como dizia Dogen – “O tempo de viver é só o tempo de viver, o tempo de morrer é só o tempo de morrer”.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Só fale do Dharma onde há respeito


Pergunta – Como é esta questão de não ser avarento com o Dharma?

Monge Genshô – O ensinamento é precioso, é uma sabedoria. Quando você tiver a oportunidade de oferecer uma palavra do Dharma você deve fazê-lo. Se você se nega pensando que não irá adiantar de nada, isso é ser avarento com o Dharma, não ajudar os outros com a sabedoria que obteve. Por outro lado temos que ser cuidadosos, pois também não é aconselhável falar do Dharma em locais ou com pessoas que você sabe que não irão respeitar o ensinamento. E com relação aos bens materiais, desde que você não vá prejudicar a você ou sua família, deve sempre ajudar aqueles que mais necessitam.

Pergunta – Quais são os Três Preceitos Puros?

Monge Genshô – Fazer o bem, evitar o mal e conferir abundantes benefícios a todas as criaturas vivas. Em razão desse foco é que alguns budistas se tornam vegetarianos, porque não desejam colaborar com o sofrimento de criaturas vivas. Os preceitos são orientações e todos se incluem. Se você quiser resumi-los poderá fazer como Jesus Cristo disse: “Amai-vos uns aos outros”. A diferença é que o cristianismo está focado nos outros homens e o budismo em todas as criaturas. A frase de Jesus no budismo ficaria “Amai todas as criaturas como se fosse você mesmo”.

Pergunta – Tem uma parte que fala em não se deixar levar pela raiva, como se faz isso?

Monge Genshô – Normalmente não embarcando no sentimento e na agressão do outro, mas existem momentos em que uma justa ira é necessária, por exemplo, alguém entra aqui e começa a insultar a todos nós. Nesse momento eu irei levantar a voz e ser severo e tentar lhe mostrar sua inconveniência.  Mas não devo me deixar levar por um sentimento de raiva contra a pessoa em si, porque o ato dela é errado, mas a pessoa está sendo arrastada por uma ilusão, eu que não estou entendendo tudo que existe por trás do que está acontecendo com ela. Em geral não sabemos o que se passa com o outro e temos raiva.

Temos um exemplo bom no momento atual do país. Estamos vendo várias manifestações, às vezes com um milhão de pessoas nas ruas, porém, no meio destes há várias pessoas com sentimentos agressivos e de vandalismo. Essas pessoas é como se tivessem vindo do mundo animal, talvez sua primeira vida humana, cheia de ignorância e não compreende que estão fazendo mal a si mesmos e essa obscuridade é tão grande que é como se fosse uma criança inocente.

Mas nossa primeira reação ao ver aqueles atos é de repúdio e raiva. O mesmo pensamento temos contra as pessoas que cometem crimes hediondos contra crianças, é muito difícil não sentirmos raiva nesses momentos. Temos que entender que são criaturas do mundo dos infernos sem qualquer tipo de compaixão. Se fôssemos capazes de entender, teríamos compaixão por essas pessoas, pois o carma resultante desse tipo de crime é muito ruim o que resultará em grande sofrimento, senão nesta vida, nas próximas. Quando vemos crianças sofrerem com doenças terríveis e dolorosas nos perguntamos o porquê disso, a resposta é: carma. Há grande carma para que isso aconteça, mas aquele ser se sente inocente e existem as consequências de atos passados que se você não consertar nessa vida, sofrerá na próxima.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O zen ocidental



Ainda hoje no extremo oriente existe uma distinção entre Monges e leigos. Na China, o Chan não é como o Zen que conhecemos, eles têm, por exemplo, práticas devocionais para os leigos que recitam orações para Buda e o zazen é somente para os monges. No Japão surgiu uma prática leiga e até existiram professores respeitados do Zen que eram leigos. A grande mudança aconteceu no ocidente e Shunryu Suzuki disse que no ocidente os Monges são um pouco leigos e os leigos são um pouco Monges, como é o meu caso,  Monge Zen e tenho uma profissão fora da Sangha.

No Japão, normalmente, os leigos não fazem sesshin. Aqui no ocidente os leigos recebem orientação teórica sobre a doutrina Budista em um nível que mesmo os Monges no oriente não recebem. Os que estudam o Zen são os que vão para a universidade. Aqui os leigos escutam o que os Mestres diziam para os Monges, porque antigamente os leigos eram poupados dos terríveis ensinamentos do Zen que sacodem e derrubam as estruturas nas quais as pessoas se agarram. Essa é a característica que está tomando o Zen ocidental. Nós que vivemos dessa forma não percebemos o quão excepcional é esse Zen. Por esse motivo eu vejo todos como praticantes admiráveis, mas os patriarcas dedicavam sua vida ao Dharma de forma integral.

O ensinamento era passado de um a um, essa era a transmissão e a forma de dizer que o aluno tinha a mente do Mestre. Com o ato de entregar o manto e a tigela, o Mestre reconhecia a compreensão do aluno como igual à sua. “Hui Neng”, que foi um grande Mestre chinês, deu a transmissão para cinco discípulos e somos descendentes de um desses alunos, “Seigen Gyoshi”. Quando andamos para trás nos apoiamos em nomes de grandes Mestres fundadores que dedicaram sua vida inteira ao ensino do Dharma e conseguiram passar a transmissão para algum aluno. Quando um Mestre não consegue passar a transmissão, sua linhagem morre.

Dos alunos de “Hui Neng” somente duas linhagens sobreviveram. Isso mostra como de certa maneira o Dharma é frágil. Um exemplo bem claro disso é a linhagem feminina que foi totalmente extinta, obrigando as mulheres Monjas de hoje a tomarem refúgio em linhagens masculinas. Não existe uma linhagem feminina que se possa recuar até Prajna Pati, a primeira Monja histórica, que era tia de Buda. Se eu não conseguir dar a transmissão para nenhum aluno, minha linhagem morrerá.

Quando recitamos os nomes de Shakyamuni até Saikawa Roshi, estamos dizendo que reverenciamos esse difícil trabalho de transmitir o Dharma. O Budismo poderá desaparecer quando não houver transmissão, a transmissão for falsa ou baseada na forma e em rituais. Um antigo Sutra fala disso, dos três estágios do Dharma. No primeiro a iluminação, a forma e o ensinamento estão presentes. No segundo, com o passar dos séculos o ensinamento, a forma e os rituais estão presentes, mas a iluminação não, a experiência mística desapareceu. No terceiro estágio ainda existem os Monges e a instituição, que ainda sabem os rituais, mas o ensinamento e a iluminação estão perdidos e nessa fase de decadência chamada “Mappô”, o Dharma morre.

Dizemos no Zen que isso é didático e que a iluminação é possível agora, pois temos todos os elementos e o Dharma está vivo. O único sentido de praticarmos é o de procurarmos esse despertar dos sonhos. Se despertarmos dos sonhos das ilusões, todas as raízes do sofrimento são cortadas. Se virmos os aspectos ilusórios da vida, a raiz do medo de morrer desparece, pois eu vejo que o meu “eu” é uma construção ilusória. Essa é a essência do Dharma.