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segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Budismo, Ioga e cristianismo
P: Haveria no Yogacara alguma coisa semelhante aos oito passos, assim chamados no Ioga de Ashtanga?
Venerável Dhammadipa – Não exatamente, mas a Escola Yogacara tem muitos aspectos similares aos Sutras de Patanjali. Você poderá observar diversas influências mútuas entre eles sendo que possuem um dialogo entre si muito maior do que normalmente é visto e aceito. Não há muitos bons estudos sobre esse assunto, o que é uma pena, pois essa área deveria ser melhor explorada. Essas tradições do Yoga na Índia têm mais inter-relação do que se imagina. Esse sectarismo não foi muito
encorajado na Índia. Se você visitar um lugar chamado Ellora, na Índia, irá observar lugares de iogues hindus Budistas e Jainistas vivendo lado a lado. Há relatos de viajantes chineses que visitaram a Índia e de praticantes Mahayana e Hinayana que viviam juntos nos mesmos monastérios lado a lado com os iogues hindus sem problema algum. Essa visão sectária surgiu muito tempo depois, principalmente após a invasão do Islã. Diferentes tipos de religião tentam se proteger, por isso essa abertura se perdeu.
Seria muito importante para o ocidente não estudar o Budismo de forma a evidenciar uma separação, mas sim uma união. Há uma tendência de cada escola criticar a outra e isso deveria ser evitado favorecendo o diálogo entre cada praticante das diferentes escolas. É muito importante também o diálogo com o Cristianismo que tem grande poder no ocidente. Diversas idéias são muito similares e o Cristianismo poderá se beneficiar muito com o estudo do Budismo. A China se tornou a segunda terra mãe do Budismo e daí se espalhou para Japão, Coréia etc. Um acontecimento que colaborou para tornar o Budismo forte foi seu dialogo com Confucionismo e Taoísmo e o Zen é um produto desse diálogo, que dessa forma, tornou-se acessível aos Taoístas e Confucionistas. O Taoísmo tornou-se muito rico pela influência Budista e, da mesma forma, o Budismo na forma do Zen, cresceu muito sob a influência dessas duas escolas. Esse espírito infelizmente está se perdendo no ocidente.
Como todos sabem, no ocidente as religiões eram muito opressivas, idéias de escolas diferentes não somente não eram aceitas, como eram combatidas até mesmo com violência. O Budismo pode trazer uma atmosfera mais aberta ao diálogo e dessa forma, tornar-se mais influente não só no Brasil, mas em toda a América e Europa. Mas infelizmente quase nada é feito nesse sentido. Claro que há algumas conquistas, mas estamos muito no começo, quem sabe as gerações futuras como disse Genshô Sensei possam ser beneficiadas, mas hoje não sentimos os benefícios desse diálogo entre Budismo e outras correntes, justamente por serem muito raros. Por isso o Budismo ainda é muito pouco conhecido e vocês devem tentar fazer algo nesse sentido no Brasil.
Fiquei impressionado como as pessoas são livres e abertas no Brasil, até mesmo a religião Católica é mais aberta que em outros países. Eu já dirigi e participei de retiros em monastérios católicos aqui no Brasil, realmente as pessoas são muito abertas.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Longas orelhas
Em Páli, Trikaya significa “OS TRÊS CORPOS”, nesse caso os três corpos de Buda.
Buda deriva do verbo “Bud”, despertar. Buda não é nome de uma pessoa, mas sim a qualidade de ser desperto. Por isso dizemos que todas as pessoas têm a capacidade de serem Buda ou, que somos Budas em potencial, pois temos um Buda escondido dentro de nós. Se acordarmos das ilusões, nos tornamos automaticamente Budas. Portanto, somos Budas em potencial, mas não de fato, porque enquanto formos sonâmbulos andando na vida, somos pessoas de sonhos, seres do Samsara, o mundo da perambulação.
Então temos três corpos de Buda. O primeiro é o “Dharmakaya”, o “CORPO DA VERDADE”. Para entendermos a figuração disso, o corpo da verdade é imanente por todo o universo. É como se imaginássemos o céu azul. Podem aparecer nuvens e tempestades, chuvas etc., mas quando tudo passa, lá está o imutável céu, ele não desaparece. Ele está sempre presente, embora possa estar totalmente obscurecido. O corpo da verdade de Buda é o Dharmakaya, portanto. Todos somos manifestações no Dharmakaya.
O segundo kaya é o “Sambhogakaya”, o “CORPO DA FALA DE BUDA”, o corpo do esclarecimento, da luz que ele traz. Imaginemos um lugar completamente escuro, uma noite escura onde nada se vê. Quando acendemos uma luz, ela instantaneamente revela todas as coisas, lhes dá cor e todas as coisas começam a ser visíveis a partir desse instante em que levamos o Sambhogakaya até esse local. É o corpo do ensinamento de Buda.
O terceiro é o “Nirmanakaya”, o “CORPO DA MANIFESTAÇÃO”, o corpo físico com o qual Buda se manifesta no mundo. Como ele possui um corpo físico e esse lhe é útil para iluminar todos os seres, para se deslocar, comer, aparecer e ensinar, esse corpo é então o corpo da manifestação física.
Na verdade, Buda é os três corpos. Quando falamos no Buda transcendente, não no homem, estamos falando nos três. O Buda é sempre o Dharmakaya, Sambhogakaya e é sempre o Nirmanakaya, e se manifesta cada vez que se torna necessário para salvar os seres do sofrimento.
Esse tipo de ensinamento tornou-se bastante popular à medida que o Mahayana e suas visões transcendentes de Buda se tornaram mais importantes, porque eles retiravam de Buda o aspecto humano. Mas o Zen não tem tanto essa característica, é como se estivesse escondido. Recebemos esse influência do Mahayana, assim como outras influências de adaptação, por exemplo, quando o budismo apareceu na China, a atitude de Buda de deixar a família, o filho e a esposa e ir ensinar, pareceu muito chocante aos chineses. Havia um questionamento sobre os antepassados e os valores familiares, que eram preciosos em razão da tradição Confucionista na China. Foram criados, em razão disso, inclusive um dos capítulos do Sutra do Lótus, que é dedicado a enfatizar os antepassados e a devoção filial, para que o Budismo fosse palatável para a cultura chinesa. Isso foi uma adaptação.
Os rituais de retorno e homenagem aos antepassados entraram no Zen nessa época e dessa forma foram para o Japão. Por isso não tem tanto sentido trazermos o peso de toda essa tradição para o ocidente, onde isso não foi tão importante. Nossas adaptações tendem a ser diferentes das que o Budismo sofreu na China. Estes conceitos pertencem à tentativa de transformar o Buda/Mestre/ homem em um ser transcendente. Por essa mesma razão aparecem nas estatuas de Buda longas orelhas, um sinal no meio da testa e uma saliência no topo da cabeça, são sinais de perfeição que pertencem à uma tradição Hindu de 32 sinais de perfeição. Na tentativa de fazer o Budismo palatável aos Hindus, os mestres do inicio do Budismo deixaram que a crença popular incorporasse determinadas características à figura de Buda. A estatuária de Buda surgiu somente três séculos após sua morte. Um dia destes uma pessoa escreveu na internet que Buda usava alargador de orelhas. Isso é uma não compreensão de todos esses fenômenos históricos. Buda é representado com grandes orelhas porque essa é uma das virtudes da compaixão, ser capaz de ouvir os lamentos do mundo. Temos que separar com cuidado o que é o ensinamento de Buda das incorporações culturais que lhe foram imputadas através dos tempos para torná-lo mais palatável às diferentes culturais as quais ele foi passando.
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Dogen e sua crítica
P: Dogen Zenji criticou o taoísmo por não considerar a Lei da Casualidade e também alguns mestres que tratavam o buddhismo, confucionismo e taoísmo como " três caminhos complementares".
No entanto, noto que a própria cultura desses países assimilaram esses três ensinamentos como compatíveis entre si.
Também vejo em alguns textos de mestres atuais da escola Soto Zen muitas citações ao Confúcio e Lao Tzu.
Realmente existe uma incompatibilidade entre esses caminhos, ou a crítica do Mestre Dogen é relacionada à uma suposta deturpação da época?
R: A crítica continua válida, que haja grande tolerância e procura dos pontos em comum é prática no zen.Que tenha havido absorção de aspectos, e mesmo algum sincretismo é natural, fenômeno que sempre ocorre dentro das culturas.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Ihai

O Ihai é uma pequena tabuleta onde se coloca o nome de um falecido, serve como lembrança memorial e é colocado em lugares especiais nos templos onde ficam reunidos. Na verdade perpetua uma tradição de reverência aos antepassados que tem origens confucionistas, não budistas, sucede que o budismo ao entrar na China adotou estas tradições no seu processo sincrético tradicional de não lutar contra os costumes locais. O Ihai foi adotado no Japão e permanece mesmo nas famílias japonesas que imigrando para o ocidente adotaram o cristianismo. Se o budismo brasileiro, vai prosseguir neste aspecto reverencial para com os antepassados, ou não, é uma questão que o tempo irá demonstrar.
sábado, 29 de novembro de 2008
O que é o Culto aos Antepassados no buddhismo?
"Nas famílias japonesas o "Culto aos Antepassados" e as "Celebrações de Homenagem Póstuma" se tornaram quase uma obrigação que é mantida de geração para geração e poucos conhecem o seu verdadeiro significado e sua verdadeira origem. Fazem desse culto um fardo pesado a ser carregado pelos descendentes que nem sempre se sentem satisfeitos com isso e acabam por mantê-lo apenas devido a um medo supersticioso de que se não realizarem os cultos de maneira correta e nas datas corretas os "espíritos" dos antepassados não se sentirão satisfeitos e poderão voltar como "espíritos perturbadores", causando doenças, acidentes e inúmeros problemas familiares.
Esse ponto de vista nada tem a ver com o Budismo. Parte dessa crença nasceu na China, na tradição do Confucionismo, que utilizava o Culto dos Antepassados como uma forma de manter a agregação e a estabilidade social. Outra parte muito forte desse medo foi herdado do antigo Shintoísmo (religião autóctone japonesa), onde a morte é vista como algo impuro e o "espírito" dos mortos têm que ser cultuados e purificados até chegarem à condição de "espíritos celestiais" ou até mesmo de "deuses" (Kami), do contrário, se tornarão espíritos errantes e perturbadores. Segundo o Budismo, esta não é uma maneira correta de pensar.
De acordo com o Budismo, a atitude correta em relação ao falecido é vê-lo, humildemente, como um mestre que nos ensina sobre o caráter transitório e finito de nossas vidas. Isso é chamado no Budismo de "impermanência". Além do mais, é graças aos nossos antepassados que nós estamos vivendo atualmente. Nós herdamos através de nossos pais essa vida que chegou até nós através de uma linhagem incalculável de pessoas que existiram antes de nós. Para o futuro também, através de nossos filhos, netos, bisnetos e etc., essa mesma vida será transmitida, como se fosse a semente de uma árvore, que gera uma nova árvore, que dará novos frutos e estes por sua vez novas sementes que gerarão novas árvores, assim infinitamente, enquanto houver condições da vida se manifestar."
Trecho de texto do Rev. Wagner Bronzeri
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