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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Minimizar o sofrimento que causamos ao viver


Pergunta – Usando o exemplo que o senhor deu sobre alguém entrar aqui com a intenção de matar alguém ou todos. Eu venho por trás dele e o mato antes, como fica meu carma?

Monge Genshô – São dois eventos diferentes, no primeiro você salvou a vida de todos e no outro você matou alguém. A família dele vai odiar você e há nisso uma retribuição cármica.  Mas por outro lado há o bom carma pelo fato de teres salvado muitas vidas. Essa é uma historia clássica no Zen, a do Boddhisatva que matou um homem para salvar quinhentas vidas. Ele assume o carma ruim para beneficiar quinhentas pessoas.

Pergunta – Ela também poderia atrair um carma pela omissão, não é?

Monge Genshô – Sim. Na verdade é uma situação sem saída. Se faz algo como matar o homem, produz um carma, se não faz nada e as pessoas morrem, produz outro carma. Você deve escolher. Mas não existe a escolha de viver sem problemas. Assim é a vida, você não conseguirá evitar todo o sofrimento. Nos tempos de Buddha os Jainistas, faziam oposição ao budismo e o desejo deles era evitar todo o tipo de sofrimento. Alguns chegam a não usar roupas, pois para isso tem que plantar algodão e com isso matar insetos, logo, eles andam vestidos de vento, não usam roupas. Quando caminhavam varriam o chão à sua frente para não pisar em nenhum ser vivo e coavam a água com o mesmo objetivo, que toda e qualquer forma de vida fosse salva do sofrimento. É impossível evitar todo o sofrimento, veja nosso corpo, por exemplo, ele está constantemente matando vidas microscópicas para que você possa estar bem de saúde. Se você tentar levar sua vida a esse extremo, não poderá continuar vivo, pois viver implica em causar sofrimento. O que podemos fazer é minimizar o sofrimento que causamos pelo simples fato de existirmos.

Pergunta – No meu modo de entender o Zen, é como se ele fosse na veia, direto. Já estive em outras escolas, e lá existem vários tipos de meditação. O senhor poderia explicar melhor essa diferença entre as escolas?

Monge Genshô – Existem diferentes métodos porque existem pessoas diferentes com diferentes necessidades. Para algumas pessoas o Budismo Tibetano é melhor. Isso é tão claro e evidente que quando você entra numa Sangha Tibetana e entra numa Sangha Zen, consegue perceber a diferença pela expressão facial das pessoas, o sistema de treinamento as vai alterando. Isso é para tudo, não só para os Tibetanos ou Zen Budistas, serve para evangélicos, católicos ou protestantes. O Zen é chamado Caminho Direto e não é uma prática destinada à todos. Foi concebida como uma prática monástica e para os poucos que desejavam se retirar para montanhas e treinar com mestres extremamente exigentes. Um grande mestre, Bodhidharma, deixava os pretendentes a alunos esperando no lado de fora de sua caverna, na neve, e não os recebia. Só recebeu Taiso Eka, porque este cortou seu braço. É natural que sejamos poucos.
(Final da palestra, decupada da gravação por Chudô San em 2013)

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Uma transmissão além das escrituras


Pergunta – O Zen é meditação, certo? Ele é um corte, axiológico do próprio budismo. Então porque o Zen ainda é indexado ao budismo, se ele manteve a linha própria dele?  Porque ele tem fundamentações para andar sozinho. O senhor mesmo colocou que os papéis são simplesmente coisas explícitas, escritas, e o tácito, o não escrito, é a base do Zen, então porque o Zen Budismo, não é somente o Zen?

Monge Genshô - Porque o Zen, do ponto de vista do Zen, é budismo. Dogen, fundador da nossa escola no Japão disse: isso é budismo, esses são os ensinamentos de Buda.
O budismo diz que o Zen consiste na transmissão de Buda para Mahakashyapa, porque ele levantou uma flor, numa assembléia sem dizer uma palavra e Mahakashyapa sorriu, e então ele disse: “Mahakashyaka foi o único que entendeu” o verdadeiro ensinamento, a verdadeira transmissão, é uma transmissão além das escrituras.

O Zen tem muitos textos? Tem. Os professores estão sempre falando? Sim, sempre falando, e dando palestras. Eu perguntei para meu mestre, “por que falamos tanto”? E ele disse: “porque isso é tudo que nós temos”. Não temos outra maneira de transmitir, além da palavra, dos livros, mas seu último estágio tem que ser além das palavras. Então o Zen quer dizer: “nós somos o ensinamento, aquele de Buda para Mahakashyapa”.

Surgiram muitas escolas, dos mais variados tipos, elas têm sentido? Tem, porque as pessoas são diferentes. Há pessoas devocionais, há pessoas estudiosas, há pessoas que querem se remeter ao significado das palavras originais, todas essas escolas têm suas virtudes. O Zen também tem suas virtudes ao querer voltar à prática original de Buda - Buda sentou em zazen, então nós vamos sentar em zazen. Se Buda sentou nessa postura, então vamos sentar nessa postura, porque nós vamos imitar Buda. Essa é a essência do Zen. Mas ela serve para todo mundo? Não, não serve para todo mundo. As escolas budistas são necessárias porque as pessoas são diferentes. As outras religiões também são necessárias, porque as pessoas são diferentes. Existem pessoas que precisam trilhar aquele outro caminho, e por isso essa diversidade não é pobreza, é riqueza.

Por que o Zen precisaria seguir o seu caminho? Afinal de contas cada mestre segue o seu, os alunos seguem o mestre que querem! Então  existem múltiplos caminhos.

Pergunta – Ontem na palestra o senhor deu ensinamentos sobre carma, sobre as escolhas, e se o senhor respondeu com a questão da sabedoria. Eu entendo que quanto mais sabedoria você buscar, mais clareza e menos sofrimento. Mas, e o medo?  Pois se estamos aqui, temos a preocupação de mudarmos a nós mesmos,  e às vezes a pessoa pode ficar o perturbada em tentar fazer sempre o melhor,  encontrar escolhas mais corretas, há esse medo do medo?

Monge Genshô - Não há que ser perfeito. Não tente. Seja o que você é, um homem comete erros, um homem se engana, na verdade, nós ao tentarmos seguir algum modelo ficaremos infelizes. Nós temos que fazer a nossa prática de sempre esquecer o passado. O erro do passado é sempre esquecido, agora vou fazer assim, melhor, porque produz menos sofrimento, mais felicidade para mim e para os outros seres.

Eu só estou andando, e a vida se mostra a cada passo. Não tente caminhar e ser perfeito. Não tente ser santo, tente ser só um Bodhisattva, um Bodhisattva tem outra visão do mundo. Nagarjuna foi assassinado, ele era um grande Mestre do século I ou II DC. Os seus discípulos o encontraram esfaqueado, e perguntaram a ele: “quem fez isso”? E ele disse: “eu mesmo”. E os alunos disseram que sabiam que não fora ele que se esfaqueou, que dissesse quem havia feito aquilo, e ele disse: “isso é resultado do meu carma passado, de alguma maneira no meu passado eu criei condições para que isso acontecesse. Então fui eu mesmo que fiz isso, agora, se eu disser que uma pessoa fez isso comigo aqui e agora, um assassino, vocês o odiarão e o perseguirão, e esse ciclo não terá fim”. E morreu sem revelar. Ninguém sabe quem matou Nagarjuna. Ninguém foi perseguido, não houve nenhuma vingança. Essa é a visão do Bodhisattva.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Estudar ou praticar, os dois evidentemente.

             Principiantes praticando meditação, Sanghas de Londrina e Maringá

Pergunta: Suponhamos que a pessoa deseje aprofundar-se na prática. Além de sentar, o que mais pode ser feito? Me lembro de quando comecei a frequentar a Sangha e o Senhor dizia que ao ler muito corria-se o risco de ficar muito teórico, qual é uma boa opção para quem deseje aprofundar-se?

Monge Genshô – O melhor sem dúvidas é trilhar o caminho do meio.

Aluno - Mas para mim não ficou muito claro se devo ou não seguir algumas leituras, ou nenhuma, ou as descobertas vem com a experiência de sentar.

Monge Genshô – Você deve estudar, mas não deve pensar que no zen o estudo é todo o caminho. É um auxiliar muito interessante, pois quanto mais você ouve e entende o Dharma, melhor fica, mas se você estudar demais e se focar muito na teoria e suas múltiplas escolas filosóficas dentro do Budismo, acabará se perdendo em discussões sem sentido com seus colegas sobre as várias opiniões dos mais variados mestres. Esse é um erro, eu prefiro a pessoa que só senta e pratica mas é evidente que o melhor é o equilíbrio entre estudo e prática.

É possível atingir a iluminação sendo um ignorante sobre as teorias Budistas, desde que se sente para praticar. O contrário não ocorre, um erudito que não use uma prática não atingirá a iluminação.

Existem histórias de Mestres inteligentes e cultos que levaram muito tempo para se iluminar, pois eram muito instruídos, era muita coisa dentro da cabeça para pensar. No “Tripitaka”, que são as escrituras básicas do Budismo, o que se chama “Abhidharma”, são comentários muito complexos de Mestres Budistas sobre os Sutras e uma vez comentando com Saikawa Roshi sobre isso, ele me dizia que desgostava o Abhidharma, justamente pelo motivo de que leva as pessoas a discussões muito filosóficas.

Um aluno uma vez disse que deveria haver uma inteligência subjacente no universo, porque tudo é tão complexo. Realmente tudo é muito complexo, parece que a matéria inorgânica tende a se organizar na forma de vida, tanto que existem extremófilos, que são formas de vida que sobrevivem e até mesmo parece que necessitam de condições geoquímicas extremas, normalmente prejudiciais às demais formas de vida. Dos bilhões e bilhões de formas de vida que surgiram na Terra, apenas uma formou uma civilização. Se você afirmar que existe uma inteligência por trás disso terá que aceitar que esta mesma inteligência criou o mosquito da dengue, vírus da AIDS, etc., uma inteligência um tanto estranha.

O surgimento da vida parece aleatório e experimental em que algumas formas sobrevivem e outras não. Qual a utilidade de você saber e raciocinar sobre isso? Nenhuma. Se você pensa muito, não consegue enxergar a simplicidade das coisas. Existe um princípio chamado “Navalha de Ockham”, do filosofo e frade inglês Willian Ockham, que diz basicamente que as explicações mais simples provavelmente são as verdadeiras. No nosso mundo, as pessoas querem sempre explicações mais complexas e complicadas. O que é mais provável na morte de John Lennon? Um fã perturbado pela manhã lhe pediu um autógrafo e a tarde o matou com três tiros, isso é o mais provável, ou seja, esquizofrenia. O menos provável é que ele foi assassinado porque um ser lá em cima no céu estava indignado, pois ele havia dito que os Beatles eram mais importantes que Jesus Cristo ou uma religião qualquer.

Eu posso dizer que a matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distancias, e é por isso que vocês estão sentados nos bancos, porque são atraídos pela massa do centro da Terra. A explicação menos provável é que existam anjos com fios prendendo vocês e os puxando para o centro da Terra habitado por seres incríveis etc. Algumas pessoas procuram o Zen por causa de coisas maravilhosas e espetaculares, no Zen não há nada sobrenatural, é tudo muito simples, nada é especial. O Zen é o local para quem não deseja ilusões.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Budismo, Ioga e cristianismo


P: Haveria no Yogacara alguma coisa semelhante aos oito passos, assim chamados no Ioga de Ashtanga?

Venerável Dhammadipa – Não exatamente, mas a Escola Yogacara tem muitos aspectos similares aos Sutras de Patanjali. Você poderá observar diversas influências mútuas entre eles sendo que possuem um dialogo entre si muito maior do que normalmente é visto e aceito. Não há muitos bons estudos sobre esse assunto, o que é uma pena, pois essa área deveria ser melhor explorada. Essas tradições do Yoga na Índia têm mais inter-relação do que se imagina. Esse sectarismo não foi muito
encorajado na Índia. Se você visitar um lugar chamado Ellora, na Índia, irá observar lugares de iogues hindus Budistas e Jainistas vivendo lado a lado. Há relatos de viajantes chineses que visitaram a Índia e de praticantes Mahayana e Hinayana que viviam juntos nos mesmos monastérios lado a lado com os iogues hindus sem problema algum. Essa visão sectária surgiu muito tempo depois, principalmente após a invasão do Islã. Diferentes tipos de religião tentam se proteger, por isso essa abertura se perdeu.

Seria muito importante para o ocidente não estudar o Budismo de forma a evidenciar uma separação, mas sim uma união. Há uma tendência de cada escola criticar a outra e isso deveria ser evitado favorecendo o diálogo entre cada praticante das diferentes escolas. É muito importante também o diálogo com o Cristianismo que tem grande poder no ocidente. Diversas idéias são muito similares e o Cristianismo poderá se beneficiar muito com o estudo do Budismo. A China se tornou a segunda terra mãe do Budismo e daí se espalhou para Japão, Coréia etc. Um acontecimento que colaborou para tornar o Budismo forte foi seu dialogo com Confucionismo e Taoísmo e o Zen é um produto desse diálogo, que dessa forma, tornou-se acessível aos Taoístas e Confucionistas. O Taoísmo tornou-se muito rico pela influência Budista e, da mesma forma, o Budismo na forma do Zen, cresceu muito sob a influência dessas duas escolas. Esse espírito infelizmente está se perdendo no ocidente.

Como todos sabem, no ocidente as religiões eram muito opressivas, idéias de escolas diferentes não somente não eram aceitas, como eram combatidas até mesmo com violência. O Budismo pode trazer uma atmosfera mais aberta ao diálogo e dessa forma, tornar-se mais influente não só no Brasil, mas em toda a América e Europa. Mas infelizmente quase nada é feito nesse sentido. Claro que há algumas conquistas, mas estamos muito no começo, quem sabe as gerações futuras como disse Genshô Sensei possam ser beneficiadas, mas hoje não sentimos os benefícios desse diálogo entre Budismo e outras correntes, justamente por serem muito raros. Por isso o Budismo ainda é muito pouco conhecido e vocês devem tentar fazer algo nesse sentido no Brasil.

Fiquei impressionado como as pessoas são livres e abertas no Brasil, até mesmo a religião Católica é mais aberta que em outros países. Eu já dirigi e participei de retiros em monastérios católicos aqui no Brasil, realmente as pessoas são muito abertas.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O que nos prende ao samsara


P: Apenas uma curiosidade. Como é a sua vida de praticante, qual seu mestre atual e qual seu método de praticar?

Venerável Dhammadipa – Estudei diferentes métodos de meditação. Em primeiro lugar estudei os métodos tradicionais, Samatha e Vipassana, me tornando sólido nesses métodos para depois ensiná-los. Atualmente eu ensino os quatro Paramithas, compaixão, alegria, amor e equanimidade. De acordo com o Budismo, o Samsara é baseado em sentimentos, assumir os sentimentos assim como o próprio “eu”, são a ligação entre o interior e o exterior. O que Buda realizou sob a árvore Bodhi foi a “Originação Dependente”, e todas as tradições estão de acordo com isso. Mas há diversas explicações nas diferentes tradições sobre o que seja a originação dependente e, como resultado dessas diferentes explicações surgiram diferentes escolas Budistas.

A base para nossa compreensão da originação dependente são os doze elos. O primeiro elo é a ignorância, da ignorância surgem as formações mentais, dessas surgem a consciência, da consciência surge Nama-rupa ou as formas, das formas surgem os seis sentidos, que são as cinco faculdades sensoriais e a faculdade mental, o sexto elo é o contato, do contato vem os sentimentos, sétimo elo, que são sensações e percepções. Na China e no Japão esse elo pode ser entendido como a recepção do objeto, temos que tocá-los para percebê-los, quando recebemos essa informação é que as classificamos em agradável, desagradável ou neutro. Das percepções surge o apego e do apego surgem nascimento, morte e existência. Existência significa carma e as formações mentais também são carma. Dessa diferenciação surge a ignorância e então o ciclo recomeça.

Estamos retornando ao Samsara devido a uma não compreensão desse processo de recepção dos objetos. A ignorância e as formações mentais nos trazem à vida e continuamos na vida nos apegando aos sentimentos. A vida aqui significa a vida baseada no sofrimento. Assumindo que o impermanente é permanente, assumindo que a pena é prazerosa, essa é a base das formações mentais, o carma. As formações são a base para diferenciar Samsara. A consciência do Samsara é caracterizada por esse apego aos sentimentos e percepções, apego ao processo de recepção dos objetos, meu olho, minha cor, minha mente, minha ideia. Essa é nossa algema ao Samsara. Todas as tradições Budistas concordam que a forma de quebrar essa algema está nesse processo de percepção dos objetos. Entender o processo de recepção e percepção dos objetos é muito importante. Minha prática principal é a contemplação disso e entender a diferenciação e a ilusão da mente discriminativa.  O que basicamente ensino, mas não necessariamente pratico, é o ensinamento do Samatha e Vipassana, é como a prática dos quatro ilimitados. É muito importante abrir seu coração.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A quem repassar a lâmpada?




P: Por que o Zen é chamado de método direto ou o caminho direto? 
 
Monge Genshô – Normalmente as escolas Budistas têm caminhos graduais onde o aluno quando chega à escola é incentivado a pegar um terço e repetir um mantra ou estudar sutras, no Budismo Tibetano se chama “Sadhana”, uma tarefa como repetir uma recitação longa, simbólica e instrutiva, e o aluno tem que repetir, por exemplo, 100 mil vezes um mantra. O aluno vai evoluindo de tarefa em tarefa e existe um período preparatório, um período avançado, em algumas escolas existem também iniciações. Também existe o compromisso do aluno que passa pra uma fase acima, de não falar sobre as iniciações para os alunos de fases anteriores, é um método escalonado e secreto.
 O Zen em sua história se expandiu em países já Budistas, normalmente o Mestre ficava  num mosteiro ou eremitério e o aluno tinha que ir até ele. Este aluno muitas vezes já havia percorrido um longo caminho espiritual, já era um praticante severo de outras escolas. No Zen, os mestres tinham pouquíssimos discípulos, fato que se mantém até hoje. Alunos são muitos, discípulos são poucos. O Zen pegava o aluno e partia diretamente para um método quebrador, um nível mais alto sem estágios intermediários. Essa é a tradição, os alunos vêm e não encontram nada de secreto, só esse desconforto de não ter onde se agarrar e os mestres estão a procura de discípulos, alunos a quem possam dar a transmissão, pessoas a quem repassar a lâmpada.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Incorporações culturais no budismo


P: Nesse sentido então, o Zen como conhecemos hoje, tão direto e não tão místico, mais cético, mais pé no chão, assumiu essa forma na China? Pois o Hinduísmo é mais místico, com deidades, é mais esotérico.

Monge Genshô – Sim, é verdade, o Zen sofreu uma grande influência chinesa. Ele chegou à China perto do ano 600 d.C. com Bodhidharma, muito provavelmente vindo de uma das escolas primitivas do Budismo.

Na época do segundo concílio, 300 anos após a morte de Buda, já se contavam dezoito escolas, a maioria desapareceu. Uma escola que ainda permanece descendendo de alguma daquela época é a Escola Theravada, mas que também é uma escola com incorporações de vários tipos. O Zen, não por acaso, se parece bastante com a Escola Theravada, mas se caracteriza por ter um grande numero de incorporações culturais dos vários lugres por onde passou. Da Índia para a China, depois para o Japão e agora para o ocidente. Nós já temos incorporações culturais ocidentais. Isso que fazemos aqui já é uma incorporação. Pessoas sentadas ouvindo palestra do Dharma já é uma incorporação cultural. Batizados Budistas e casamentos Budistas também são incorporações, pois no Budismo original não existiam. Havia festas de casamento no oriente onde os monges eram convidados, mas iam para comer. Já o batizado de crianças é um fenômeno dos últimos cem anos, totalmente ocidental. Como as famílias querem que haja uma cerimonia para o bebê, criou-se uma “cerimônia do nome” que funciona como se fosse um batizado. Não tem a função de limpar os pecados originais, salvar de uma possível condenação ou evitar que a criança seja pagã, mas satisfaz a todos e deixa todos felizes, que é o que o Budismo deve fazer.


P: Quando há essa adaptação para culturas diferentes, não se perde a essência do propósito para se adequar às pessoas? Não seriam as pessoas que deveriam se adequar ao ensinamento?

Monge Genshô – O ensinamento em si permanece. Estamos falando de adaptações cosméticas. Rituais e cerimônias que originalmente no Budismo não existiam. Foram cerimônias que cada escola foi criando com a função de treinamento. Não vamos sentar à mesa e simplesmente comer, vamos fazê-lo de forma ordenada, com certa delicadeza e profundo respeito, etc. As tradições foram criadas ao longo do tempo pelos mestres, que as vão modificando e adaptando. Mas isso não pode ser feito de forma rápida e pedindo opiniões. Se não cada um diz uma coisa que desejaria ver nas cerimônias.

Uma pessoa vem à Sangha pela primeira vez e diz que não gostou da recitação em língua arcaica. Ele não entendeu nada. Para ter condições de fazer esse tipo de crítica ele teria que ser um praticante de muitos anos. Ele ainda não sabe, não descobriu a essência, está criticando uma recitação que é feita a dois mil anos da mesma forma, passando por diferentes línguas. O ritual foi sendo codificado ao longo de séculos, não podemos jogar fora algo que está sendo feito a mil e duzentos anos da mesma forma. É preciso haver respeito. Por isso as adaptações têm que ser feitas com grande cuidado e muito lentamente.

Há que se separar o que é cultural, o que é útil, o que é meio útil, o que é um meio hábil de ensinamento e o que é simplesmente uma forma que pode ser modificada. Por isso essas modificações só podem ser feitas por mestres autorizados. O pior defeito seria a pressa, ou o julgamento instantâneo de opiniões. Muitas coisas já fazemos em português, esse talvez seja o ponto mais fácil para ser mudado. Agora, mudar roupas, reverências, tradições de muitos séculos como o Rakusu, isso não é simples.

Um dia uma pessoa me disse que não gostava da argola do Rakusu. Essa argola é uma lembrança de um antigo adereço com o qual se prendiam os mantos. Por isso ela foi preservada. Saikawa Roshi disse que tem que ter a argola e não discutimos o que o mestre diz. Quando formos mestres, poderemos dar nossa opinião.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Escola gradual e escola abrupta


P. Fala-se muito nos textos na questão de iluminação, mas é o caminho do passo a passo, no momento que começa a sentar e meditar e vai tendo um progresso...
R. Duas abordagens, existe abordagem gradual e abordagem súbita ou abrupta então no Budismo nós temos os dois tratamentos, a escola Soto é mais conhecida pelo seu treinamento gradual, é a nossa, treinamento seguro e calmo, a escola Rinzai é conhecida pelo seu tratamento abrupto, koan, pressão, pressão mesmo, dura, kyosaku é aplicado de frente, senta-se de frente para a sala não para a parede, entrevistas com o professor até cinco vezes ao dia, com grande pressão, gritos etc com a intenção de quebrar o ego, insultos, idiota, imbecil, saia daqui, vá sentar de novo, não me venha aqui sem uma resposta, aí os alunos mais velhos vão até o aluno novo na hora da entrevista com o mestre, mas eu não tenho respostas ainda, eles pegam pelos braços e pelas pernas e jogam para dentro da sala do mestre. Um monge que  treinou num mosteiro Rinzai me disse que o kyosaku era aplicado de uma forma tal que quando ele ia tirar a roupa ela estava grudada com sangue na pele, então é outro processo, esta é conhecida como escola abrupta.  Ele diz assim:  "vocês não podem acreditar o que acontecia na sala de meditação" e esta cena de pegar pelos braços e pernas e jogar aconteceu com ele, depois mestres como Yasutani Roshi vieram para o ocidente e misturaram um pouco o Soto com o Rinzai, estão usando koans, mas com uma prática não tão rígida e na semana passada eu estive com uma amiga que é mestre Rinzai da Escola Son Coreana   que descende de Lin Chi, ele tem a mesma forma de prática, os kinhin são rápidos, senta-se de frente para a sala, eu já fiz retiro com ela, mas existe esta pressão mesmo do koan, o mestre usa bastão, ameaça bater com bastão em você na entrevista e mesmo fizemos uma prática que não existe praticamente no Soto, que é quando o professor vai embora os alunos ficam na sala até a manhã seguinte, zazen sem parar nem dormir, não agüenta mais, faz kinhin, volta para a almofada, sem intervalo, sem refeição, sem nada, até a manhã seguinte, aí na manhã seguinte começa às  quatro horas o sesshin normal de novo, tudo e não teve sono. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O zen e as palavras


Aluno – No vocábulo Zen, existe a palavra Chan, que significa concentração. Existe algum foco especial no budismo a respeito da meditação/concentração, ou é apenas uma coincidência?

Monge Gensho – Não, não é coincidência. O Zen budismo se vê como budismo contemplativo, ele enfatiza, e a diferença entre os budismos, é essa a ênfase. A escola Theravada enfatiza o estudo dos sutras, embora meu mestre fale constantemente para eu ler os sutras do Cannon Pali. O budismo Zen enfatiza a prática da meditação, sempre digo que essa prática no Zen deve ser feita em quantidades industriais, mas a mesma coisa acontece na prática do Theravada, pois existe grande similaridade nessa ênfase. Embora se diga frequentemente no budismo, que as escrituras e os textos são o dedo que aponta para a lua, mas que não são a lua, são mapas para que se possa seguir um caminho. Não são o caminho. São indicações, você tem que trilhar o caminho por seus próprios pés para chegar lá. Não basta ler ou ouvir ensinamentos. Costuma-se dizer no Zen que enquanto nele se falar, ele não estará presente. Quando estávamos calados experimentando a prática da meditação, o Zen estava presente. Agora é só conversa a respeito. A palavra chan vem do sânscrito dhyanna que significa meditação, então, o budismo Zen significa o budismo que enfatiza a prática da meditação. Na verdade, no Zen, embora diga-se frequentemente, como acabei de dizer, que os ensinamentos são apenas o mapa, dificilmente você encontrará tantos textos quanto existem sobre o Zen, e os professores estão sempre escrevendo. Aqui, por exemplo, tem um gravador para documentar a palestra, porque Moryama Roshi aconselhou: “grave as palestras”. Por quê? Porque acabarão virando texto. Na realidade, existe estudo no Zen e Dogen Zen Ji diz que o estudo dos sutras é a base do caminho. Não se chega à outra margem sem saber, e mesmo que Hui Neng seja declarado um patriarca analfabeto, leia seu o texto e você verá quantas citações nele há; ele parece um erudito. Mesmo que ele guardasse de memória por não saber ler, ele ouvia, guardava, sabia citar e raciocinar. Sem esse instrumento não vamos longe. A ênfase do Zen é mais do tipo, “não me diga as palavras de Buda, me diga as suas”. É a verdade que você está praticando, e essa é a verdade do Zen, e não as indicações ou os textos. Como você está vivendo, como está sua mente agora, essa é a verdade. Mas existem três portas de acesso: emoção, estudo e ação. São três portas de acesso para o caminho. As pessoas são diferentes, existem pessoas que naturalmente estão preparadas para o caminho intelectual, outras para o caminho da emoção e outras para o caminho da ação. Cada uma deve praticar com a escola mais adequada para o seu coração, para o seu sentimento, devendo praticar naquele lugar com o qual ela sinta que tem conexão. Por isso, é tão importante escolher o seu mestre e sua escola.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Colegiado Buddhista Brasileiro


Manifestação do CBB no Templo Busshinji, sobre a perseguição a budistas no Myanmar.


P: O que é o colegiado?

R: Por definição um colegiado é apenas a reunião de um grupo de pessoas que se consideram colegas, irmãos em um determinado interesse. O CBB é uma reunião de pessoas, não de instituições, que assim tem um forum onde podem partilhar seus interesses. O CBB não é um orgão executivo dedicado a fazer seminários, retiros ou quaisquer coisas do gênero, estas são atividades dos centros do Dharma ou outras instituições. Pertencem ao CBB os professores que, por interesse em convivência harmônica desejam se filiar e são aceitos por seus pares. Não pertencer aos quadros do CBB não significa demérito mas simplesmente dificuldade associativa com a diversidade de escolas/pessoas.

P: A cartilha do CBB é um documento doutrinário?

R: A cartilha budista publicada pelo colegiado é um esforço de compatibilização entre as definições de várias escolas diferentes, destina-se ao uso da imprensa e não ao estudo sectário.

P: O CBB representa o budismo brasileiro?

R: Representa a associação dos indivíduos que a ele se filiam. Como estes representam
a grande maioria das escolas e lideram ou participam das instituições mais numerosas, tem um peso que lhe permite algumas ações. Portanto não representa o "budismo" mas sim este conjunto de pessoas.

Monge Genshô

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Hinayana, Mahayana (cont)

Observações importantes do Prof Ricardo Sasaki sobre o tema:

" Permita-me alguns comentarios. Como vc percebeu, ambos os termos, hinayana e mahayana, surgiram numa epoca de disputas e tensoes ao norte da India, um periodo, como se pode ver pelos termos usados, predominado pelo orgulho e arrogancia (mana) com escolas acusando outras de inferiores, menores, etc. Hina, literalmente significa vil e mesquinho, e nao simplesmente `menor` como mais tarde mahayanistas tentaram suavisar.

O Theravada por sua vez nunca fez parte da classificacao de Hinayana. Isso eh um erro historico cometido apenas recentemente. Na historia passada, quando da ocasiao do surgimento dos termos hinayana e mahayana, as tais escolas hinayanas se referiam ao sarvastivada e ao sautrantika, principalmente. O Theravada de hoje se desenvolveu no Sri Lanka e distante do local onde tais conflitos surgiram.

Quanto a sua pergunta sobre um termo para o mahayana que nao remetesse a essa dicotomia, isso eh algo dificil pois, ao contrario do que muitos pensam, o Mahayana nao eh uma escola, da forma como theravada, sarvastivada, mahasanghika, etc, o eram, mas sim um movimento filosofico com caracteristicas especificas, caracteristicas essas que as escolas que surgiram posteriormente (como o zen, terra pura, etc) adotaram com maior ou menor grau e quantidade. Em minha opiniao ha tres caracteristicas fundamentais do Mahayana enquanto movimento: a predominancia dos ensinamentos dos mestres em relacao ao ensinamento direto do Buddha, a exclusividade do ideal do Bodhisattva e o uso de escrituras claramente posteriores (pos-canonicas).

1. As escolas que se colocam como dentro do Movimento Mahayana fazem uso, em maior ou menor grau de escrituras posteriores, e o material canonico antigo, seja escrito em pali ou em sanscrito hibrido, faz parte de seu canon apenas parcialmente e a titulo de obras historicas sem relevancia pratica. Tais obras "mahayanas" sao um desenvolvimento de ensinamentos contidos no canon antigo, sao posteriores e acrescentadas ou enfatizadas. Segundo essa caracteristica poderiamos chamar o Mahayana com o nome de Buddhismo Desenvolvido, Expandido ou Pós-canonico.

2. a exclusividade do ideal do Bodhisattva eh uma das marcas do Movimento Mahayana. Nas escolas antigas, pre-Mahayanas, tambem ha um ideal do Bodhisattva em maior ou menor grau, mas ele eh apresentado conjuntamente com outros ideais. Eh a marca do Mahayana dizer que ele eh o unico que deve ser seguido. Segundo essa caracteristica poderiamos chamar o Mahayana de Bodhisattvayana, enfatizando assim sua exclusividade na enfase deste ideal. Esse foi um nome que foi usado historicamente para defini-lo.

3. a preponderancia do ensinamento dos mestres sobre os ensinamentos do canon (ou seja, mais diretamente do Buddha), colocam as escolas mahayanas como um Acharyavada, ou seja, suas escolas surgem ao redor de um mestre e sua obra especificos. Esse termo tambem ja foi usado historicamente.

Para mim eh fundamental que uma pessoa que se dedique a entender historicamente o Buddhismo tenha essas tres caracteristicas em mente quando tenta entender o Movimento Mahayana surgido num periodo de grande complexidade. Espero que sejam uteis para suas indagacoes.

Prof.Ricardo Sasaki

Hinayana, Mahayana


"Pelo que sei através de mais de 50 anos de estudos de budismo, não existe nenhum termo alternativo para designar o Mahayana, a não ser, talvez, a expressão Bodhisattva-yana )Veículo dos Bodhisattvas) e a expressão Ekayana (Veículo Uno) que, entretanto, não são exatamente sinônimos de Mahayana, possuem um sentido ligeiramente diferente.Volto a isso mais adiante.
Quanto a questão do Hinayana/Theravada, a questão é bem mais complexa do que parece à primeira vista. Vejamos:

1.Realmente o termo Hinayana tem um sentido um tanto pejorativo e deve ser evitado.

2.Entretanto, Hinayana não é exatamente sinônimo de Theravada. A expressão Hinayana abrange, além do Theravada, uma série de escolas há muitos séculos desaparecidas, como Sarvastivada, Sautrantika e outras.

3.O que foi chamado de Hinayana é, na verdade, uma síntese de dois caminhos ou Veículos, o Veículo dos Pratyeka-buddhas (os que se iluminam sozinhos) e o Veículo dos Sravakas ou Auditores, isto é, os discípulos que se iluminam ouvindo as palavras do Buda. A esses dois Veículos se contrapõe um Terceiro Veículo, o dos Bodhisattvas, isto é, o caminho daqueles que por sua Sabedoria poderiam ingressar no Nirvana, mas que por sua Compaixão adiam indefinidamente esse ingresso para se dedicarem à salvação de todos os seres viventes. O Caminho dos Bodhisattvas é o alicerce do Mahayana, mas este último, evidentemente, é muito mais do que isso, pois compreende as Escolas filosóficas do Vazio e da Consciência e outros elementos. Já o Ekayana ou Veículo Uno, exposto no Sutra do Lótus da Lei Excelente (Saddharmapundarika, Hokkekyô) é uma síntese que engloba e transcende os três Veículos supracitados.

4.Uma solução para evitar o termo Hinayana seria, talvez, denominar os dois primeiros Veículos de Veículos Menores. Outra solução seria explicitar os nomes desse dois Veículos, sem adjetivá-los: Veículo dos Autoiluminados, Veículo dos Auditores.

5.Insisto ainda em lembrar que é historicamente errado considerar o Theravada uma forma arcaica de Budismo anterior ao Mahayana. Ainda que o Theravada conserve uma série de textos que remontam à fase mais antiga do Budismo, ele foi evoluindo através dos séculos e muitos dos textos hoje englobados no Cânone Pali são posteriores aos textos Mahayana mais antigos.

Como vê, a História do Budismo é bem mais complicada do que possa parecer à primeira vista.

Gasshô,

Shaku Riman"
(e mail do Prof. Ricardo M Gonçalves em resposta a indagação de um praticante)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O esforço


Pergunta: Se eu me esforçar certamente irei conseguir?

Resposta: A resposta para essa questão de que gosto muito é que “com esforço não se
consegue nada, mas sem esforço aí mesmo é que não se vai a lugar algum”. Então isso é um pouco paradoxal, se você se sentar com esforço, “eu estou ambicionando isso, eu quero a iluminação, estou treinamento para obter a iluminação, eu quero, eu quero, eu quero”, você não vai conseguir, porque é uma mente aquisitiva cheia de ambição. Mas se você pensar, bom, então eu não sento, vou continuar andando,estou praticando na minha vida, lendo, sem fazer o esforço de treinar. Por incrível que pareça
eu encontro pessoas que dizem isso. Essas pessoas também não chegarão a lugar algum.

É necessário um esforço, uma determinação. Aí que reside uma diferença entre as escolas zen e as terra pura, caracterizado em dois termos Tariki e Jiriki. Tariki é
confiar no outro poder, o poder de uma graça de fora, de um bodisatva que fez o voto de nos salvar. Jiriki é o próprio poder, eu vou me sentar em meditação e vou treinar duramente para me tornar senhor da minha mente. A tese da escola Terra Pura é que isso é confiar demais em si mesmo e que os homens são incapazes disso. O argumento das escolas Jiriki, como o zen, é que, esse é o caminho de Buda. Buda fez pelo seu próprio esforço e nós estamos seguindo o caminho de Buda.
Então é por esforço, nós somos capazes, se Buda foi capaz, nós somos capazes. Buda
não é uma divindade, Buda é um homem. Então o zen desdiviniza Buda, o traz para o nível humano. Algumas outras escolas elevam Buda à um nível sobre humano. A um ponto tal que Shakyamuni Buda não é quem está nos altares principais, porque evidentemente ele foi um homem, então Budha Amidha tornou-se o centro da prática. Alguém que representa a compaixão universal, o universo inteiro.

Então nós estamos em uma escola do esforço próprio. Por isso o sesshin é duro. O primeiro e segundo passo do caminho do boi, já ensinado, praticamente todos já trilharam, é mais fácil de entende-los. O primeiro é uma inquietação, depois encontrar as pegadas e o terceiro é vislumbrei, eu vi alguma coisa, eu tive alguma pequena experiência.
Não pensem que á grande coisa essa pequena experiência, embora ela seja magnífica ela é pequena perante os passos seguintes como nos textos já postados.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Hierarquias


P: É o seguinte, gostaria de saber como é a hierarquia religiosa no
budismo por exemplo: seria o monge o padre, o lama o bispo e o dalai
lama o papa?

R: O budismo não tem o padre, o sacerdote, o intermediário entre Deus e o homem, resta o monge, o que fez votos de servir e outros mais.
Lama é o mestre no budismo tibetano, no zen o equivalente é o Sensei, o monge com ordenação superior, transmissão e que recebeu certificação de professor.
Dalai Lama é o líder da ordem Gelugpa, uma das escolas tibetanas e também reconhecido pelas outras 3 escolas tibetanas, as outras escolas budistas tem seus líderes, mas não são populares nem aparecem muito como por circunstâncias aconteceu com o Dalai Lama que é um chefe de estado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O mito do Hinayana


Sarnath_Lion - Capital of Ashoka

O mito do Hinayana
por Kåre A. Lie
Nos séculos por volta do nascimento do Cristo, havia um desenvolvimento radical acontecendo no Buddhismo. Uma nova escola surgiu e seus adeptos a chamaram Mahayana [1]. Como essa nova escola se diferenciou das escolas mais antigas pode ser encontrado em qualquer história do Buddhismo. Aqui vamos nos concentrar em um dos resultados desse cisma: o termo Hinayana.

Os adeptos das escolas antigas criticaram os Mahayanistas, especialmente por criarem novos sutras, forjando a palavra do Buddha. Os Mahayanistas, por sua vez, reagiram a essa crítica acusando seus oponentes de não compreenderem completamente os ensinamentos do Buddha e de serem egoístas de mentalidade estreita. O debate esquentou e acusações fluíram de ambos os lados. Então algumas pessoas brilhantes do lado Mahayana do debate criaram o par de palavras Mahayana/Hinayana, e ele pegou. Eles chamaram seus oponentes de Hinayana, e essa palavra funcionou muito bem como um insulto - com uma simplicidade e paralelismo com o Mahayana que qualquer tolo poderia assimilar.

Hinayana, ou, mais corretamente, hiinayaana é um termo altamente depreciativo. Ele não significa simplesmente "o veículo menor" como geralmente é colocado. O segundo elemento de hina-yaana - que é yaana - significa veículo. Mas hiina raramente tem o simples significado de "menor"
ou "pequeno". Se fosse esse o caso, os textos páli (ou sânscrito) teriam usado-o em outras conexões como o oposto de mahaa - grande. Mas não o fizeram. O oposto de mahaa é cuu.la, assim essa é a palavra normal para "pequeno".

O termo Hinayana é o eco de um debate morto há muito tempo - ou ainda um debate onde um lado está morto e o outro está gritando aos ventos.

Quem eram os oponentes que foram rotulados como Hinayana? O Theravada? Provavelmente não. Na época em que o Mahayana surgiu, o Theravada havia "emigrado" principalmente para Sri Lanka, e dificilmente poderia ser contado entre as escolas dominantes nas terras continentais indianas - onde o debate Mahayana/Hinayana aconteceu. A mais influente das antigas escolas naquele tempo era a Sarvastivada, assim eles foram os mais prováveis - mas dificilmente os únicos - alvos das invectivas "Hinayana".

Agora a Sarvastivada e as outras escolas antigas da Índia estão mortas, exceto Theravada, mas o debate e os argumentos encontraram seu lugar nos sutras Mahayana, como, por exemplo, é aparente na propaganda anti-Hinayana do Sutra do Lótus - e continua ecoando nos ensinamentos Mahayana e Vajrayana.

Hoje há confusão, pelos Mahayanistas/Vajrayanistas usarem o termo Hinayana de três maneiras diferentes:

1.. No sentido histórico: escolas pré-Mahayanistas são chamadas Hinayana.
2.. O Theravada moderno é confundido com Hinayana.
3.. O termo Hinayana é usado para uma parte interna do ensinamento Mahayana/Vajrayana.

Vamos dar uma olhada mais de perto nesses três usos:

1. Alguns afirmam que a palavra Hinayana como um termo para as escolas mais antigas é um uso que pertence a um passado distante somente.
Isso não é correto. Pode ser encontrado em vários trabalhos modernos de referência, e em literatura mais especializada ele pode, por exemplo, ser encontrado em Buddhist Philosophy In Theory and Practice, de H.V. Guenther, citando trabalhos tibetanos dos séculos XVIII e XX.

2. Como um exemplo de confusão de Hinayana com Theravada, irei citar Buddha for Beginners, da bibliografia de Jane Hope (Jane Hope estudou com Chogyam Trungpa Rinpoche), impresso em 1995 (eu tenho somente a versão norueguesa disponível, assim espero que a minha tradução para o inglês não seja muito inacurada): "Buddhismo Hinayana. Uma boa introdução ao tradicional Buddhismo Hinayana é What the Buddha Taught, de Walpola Rahula... Com um ponto de vista atual e escrito por dois ocidentais treinados na tradição Theravada, é... Seeking the Heart of Wisdom, por Joseph Goldstein e Jack Kornfield..."

3. Agora sobre uma constante confusão que tem base no Buddhismo tibetano. Alguns dizem que Hinayana e Mahayana há muito são dois termos usados para descrever duas diferentes atitudes espirituais, e citam o sétimo capítulo ("Loving Kindness and Compassion") do clássico tibetano The Jewel Ornament of Liberation, escrito no século X, onde o autor, Jé Gampopa se refere a Hinayana como "menor capacidade" ("theg pa dman pa"). O parágrafo se lê como segue: "'Apego ao bem-estar de mera paz(1)' significa a atitude de menor capacidade(2) onde o desejo de transcender o sofrimento é focado somente em si. Isso obstrui a consideração com os outros e dessa forma há pouco desenvolvimento de altruísmo [...] Quando a bondade e a compaixão se tornam parte do ser, há tanto cuidado pelos outros seres conscientes que ele não poderia almejar a liberação somente para si. [...] Mestre Manjushriikiirti disse: 'Um seguidor do Mahayana não deveria estar sem bondade e compaixão por um momento sequer', e 'Não é a raiva e o ódio mas a bondade e a compaixão que concedem o bem-estar aos outros'."

As notas de rodapé dessa passagem indicam o seguinte: (1) o tibetano zhi.ba significa "paz". É traduzido como "mera paz" nessa seção do livro, já que é usado por Gampopa para denotar a paz relativamente sem compaixão que resulta do desenvolvimento somente da meditação de concentração. (2) Hinayana: "menor capacidade", muitas vezes traduzido como "veículo menor". O termo implica na capacidade de carregar um fardo. Nesse caso o fardo é o próprio ser, já que seu comprometimento é conduzir a si mesmo à liberação, não a todos os seres (como é o caso no Mahayana, a "maior capacidade").

O problema e confusão aqui é que obviamente essa análise não se refere diretamente à palavra hiinayaana em páli/sânscrito, mas à sua tradução tibetana "theg pa dman pa". Esse é um aspecto chave, como será mostrado abaixo.

A palavra Hinayana não é tibetano, não é chinês, inglês ou bantu.
É páli e sânscrito. Dessa maneira a única abordagem sensata para determinar o significado da palavra é estudar como a palavra hiinayaana é usada nos textos páli e sânscrito.

O segundo elemento, -yaana, significa veículo. Não há dissensão sobre isso.

Como é então usada "hiina" nos textos canônicos páli?

Todo buddhista conhece o primeiro sermão do Buddha gravado, o Dhammacakkappavattanasutta falado aos cinco ascetas que se tornaram os primeiro cinco bhikkhus [2]. Nele o Buddha diz: "Esses dois extremos, monges, não são praticados por aquele que transcendeu o mundo. Quais são os dois? Aquele conjugado com as paixões e luxúria, baixo (hiina), grosseiro, vulgar, ignóbil e danoso..."

Sabendo que o estilo do sutta muitas vezes usa cadeias de sinônimos dessa maneira, assim eles fortalecem e definem-se um ao outro, pode-se considerar "grosseiro, vulgar, ignóbil e danoso" como definições auxiliares de "hiina" nesse caso.

Aqui o Buddha claramente denota o caminho a não ser praticado como hiina.

Em outros textos e comentários páli hinna muitas vezes ocorrem na combinação hiina-majjhima-pa.niita, que é: ruim - médio - bom. No contexto de hiina - majjhima - pa.niita (ou algumas vezes somente hiina - pa.niita) a palavra hiina é sempre usada como um termo para qualidades indesejadas, como por exemplo o ódio, avareza e ignorância. Ela obviamente significa "baixo, indesejável, desprezível" - e não "pequeno" ou "menor".

O comentário Mahaniddesa-atthakatha, um dos textos onde a tríade ocorre, define a palavra assim: hiinattike hiinaati laamakaa (na tríade "hiina" é "laamakaa"). Agora laamaka é definida pelo PTS Dictionary dessa
maneira: "insignificante, pobre, inferior, mau, pecaminoso. O sinônimo comum é paapa". E paapa significa "ruim, mau". Assim parece que as definições vão de mal a pior. O comentário então dá exemplos e explica que os desejos que causam renascimento em niraya (inferno, purgatório) são hiina.

Agora para os textos em sânscrito. Em Lalitavistara encontramos uma versão do Dhammacakkappavattanasutta, onde a palavra "hiina" é usada exatamente como na citação acima da versão páli do sutta.

Em Mahayanasutralankara por Asanga, que é um texto Mahayana muito representativo, encontramos algo de interesse para nossa busca. Asanga diz:
"Há três grupos de pessoas: hiina-madhyama-vishishta... (ruins - médios - excelentes)." Essa expressão é paralela ao páli hiina-majjhima-pa.niita e vem mostrar que os Mahayanistas que cunharam o termo "hiinayaana"
consideraram "hiina" como um termo depreciativo, com o mesmo sentido dos textos páli.

Um texto muito interessante é uma edição do Catushparishatsutra onde o texto é apresentado em quatro colunas paralelas: sânscrito, páli (Mahavagga), tibetano e uma tradução alemã da versão chinesa. Aqui, novamente, encontramos o Dhammacakkappavattanasutta. Já observamos em páli e sânscrito. A versão alemã do chinês diz: "Erstens: Gefallen zu finden an und anzunehmen die niedrigen und üblen Sitten der gewöhnliche Personen..." É um tanto impreciso se aqui "niedrigen" (desprezível) ou "üblen" (mau, ruim) que corresponde a "hiina". Mas pelo menos é claro que a conotação fortemente negativa de "hiina" foi mantida na tradução chinesa. Nada mudou dos significados páli e sânscrito.

Na coluna tibetana, percebemos que a palavra "dman-pa" do tibetano toma o lugar correspondente ao sânscrito "hiina", coincidindo com a citação de Jé Gampopa acima. E aqui temos a causa de posteriores confusões e equívocos do termo hiinayaana. Vejamos o que dicionários tibetano-inglês dizem sobre "dman-pa": Sarat Chandra Das' Dictionary diz: "dman-pa: baixo, em referência a quantidade ou qualidade, pequeno". Jäschke's Dictionary é ainda mais esclarecedor: "dman-pa: 1. baixo, e referência a quantidade, pequeno. 2. em referência a qualidade: indiferente, inferior (sânscrito:
hiina)."

Dessa forma parece que a palavra do sânscrito hiina, que sem qualquer dúvida razoável significa "de baixa qualidade", foi traduzida pela palavra dman-pa do tibetano, que tem o duplo significado "baixa qualidade" e "baixa quantidade". E a citação acima de Jé Gampopa parece indicar que muitos tibetanos daí por diante lê somente o segundo dos dois significados, como "menor capacidade", "capacidade mais baixa", assim o significado foi distorcido de "baixa qualidade" para "baixa quantidade".

Assim vemos que a confusão se originou do fato que dman-pa tem dois significados em tibetano. Hinayana - originalmente significando "veículo de qualidade desprezível" - adquiriu o novo significado "veículo de menor capacidade". Mas isso é resultado de um método errado. É obviamente errado projetar o novo significado tibetano de volta à palavra sânscrito/páli e dizer que "esse é o significado de Hinayana, porque é assim que os mestres tibetanos explicam-na." O que os mestres tibetanos explicam é a palavra dman-pa do tibetano, não a palavra hiina do sânscrito.

Assim sendo é claro que não se pode afirmar que Hinayana tem o significado "brando" que a tradição tibetana lhe deu, através da palavra dman-pa do tibetano. Hinayana não é tibetano, é páli/sânscrito, e é ofensiva, o significado depreciativo permanece inalterado por quaisquer tentativas de suavização.

O que, então, é Hinayana? É o Buddhismo Theravada? Não, isso é tanto insultuoso quanto provavelmente é historicamente incorreto. É uma atitude espiritual dentro dos sistemas Mahayana e Vajrayana? Não, esse é o tibetano "theg pa dman pa", a atitude de menor capacidade, e não o sânscrito Hinayana, "o veículo inferior" [3]. Dessa forma, não há Hinayana. Hinayana não é nada além de um mito, ainda que confuso e destrutivo, e Buddhistas sábios deveriam deixar essa palavra repousar nas prateleiras do Museu dos Cismas, aonde ele certamente pertence, e encontrar outras palavras para denotar essas atitudes espirituais que eles desejam definir.

Traduzido e comentado por Flávio Costa.

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[1] Nesse ponto o texto não está muito claro, pois dá a impressão que Mahayana é uma escola, sendo que na verdade é um grupo de escolas, considerado um veículo do Buddhismo.
[2] Bhikkhu é a palavra páli que se refere a monge (masculino).
[3] Infelizmente essa tradução já se convencionou no Buddhismo tibetano, sendo pouco provável que ela deixe de ser empregada.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Heresias no zen


Ora , há que considerar que ninguém pode dizer que está falando em nome da posição mahayana em geral, afinal o mahayana é bastante amplo e abrange muitos escolas. Que o movimento mahayana históricamente parece surgir alguns séculos após o surgimento inicial do budismo é coisa largamente documentada.
Que na Índia nunca chegou a atingir posição predominante também, na época da quase completa erradicação do budismo no sec 13 os visitantes declaram que os mahayana eram minoritários na Índia.
O mahayanismo além de fortemente crítico para com as escolas antigas, as quais depreciativamente chamou de hinayana, também passou a produzir vasta cópia de escrituras que atribuiu ao Buda histórico e que leêm suas escolas, entre as quais a minha, a Soto Zen, cujos mais prestigiados sutras são o Lankavatara, o Surangama e os Prajna Paramitta, algumas escolas passaram a declarar que estes ensinamentos foram dados pelo próprio Buda histórico, apenas ficaram escondidos ou secretos porque não eram para todos os alunos devido a sua capacidade. Assim o mahayanismo adquiria uma legitimidade e uma superioridade declaradas. ( que alguém fique revoltado com esta análise fria será produto apenas de seu desejo de proteger uma crença, e também o de que todos devem partilhar de um ponto de vista único) Outras escolas, para que pudessem produzir novos textos e aprofundamentos aceitavam o que seus grandes mestres escreviam dando a estes o título de sutras (caso de Hui Neng no zen) como se o Dharma continuamente se manifestasse e se ampliasse (bonita proposição) e assim aceitando como legítimos estes sutras claramente séculos posteriores ao Cannon do Terceiro Concílio, e ainda outras escolas declaravam (e o tem como artigo de fé) que textos originais, por séculos escondidos ou ocultos, eram descobertos e revelados por mestres, mas que eram originários do próprio Buda original.
Evidentemente, se usamos uma leitura mística, quaisquer destas alegações pode ser adotada, porém o simples entendimento de que o budismo pode ser uma obra coletiva e de transmissão também simplifica as coisas sem que seja necessário dizer que o mahayana não aceita ser classificado como desenvolvimento, esta é uma interpretação, mas existem outras, e como monge de uma escola mahayana prefiro a postura menos mística e o entendimento de que estamos construindo o budismo a cada momento, por isto surgem escolas novas e mestres que ensinam com métodos adaptados a novas situações, que bom que é assim.
É claro, quando se fala assim, logo surgem acusações de heresia, mas no zen isto é até bem visto, o próprio zen, se tivesse surgido no ocidente, seria uma clara heresia...

(Resposta de Monge Genshô em discussão aberta, em lista budista, em 2005)

domingo, 26 de setembro de 2010

O Dharma são os veículos?


Foto do almoço do zazenkai de sábado passado, mais fotos aqui.
R: Não, o Dharma não são seus veículos (escolas), porem se não fossem estes, o próprio budismo como teria sido preservado e transmitido? E mais ainda, todos que vejo optarem por serem livres do caminho passam o tempo trocando trilhas na encosta da montanha, ou param a relembrar passagens que já viram em um momento e cessam a subida, ou mesmo tentam criar sua própria senda misturando ensinamentos, mas ela é cheia de obstáculos novos, às vezes termina em ravinas e se mostra errada, e param desacorçoados. Por que será assim?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A preciosidade dos veículos


Monges dirigem-se ao Sodô em Yokoji.

O Dharma não são seus veículos (tradições,escolas,linhagens) porem se não fossem estes o próprio budismo como teria sido preservado e transmitido? E mais ainda, todos que vejo optarem por serem livres no caminho passam o tempo trocando trilhas na encosta da montanha, ou param a relembrar passagens que já viram em um momento e cessam a subida, ou mesmo tentam criar sua própria senda mas ela é cheia de obstáculos novos, às vezes termina em ravinas e se mostra errada, e param desacorçoados.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sobre o termo "monge"


Extrato de "aula" dada pelo eminente Rev. Wagner, Monge da ordem Otani do budismo Shin, em discussão aberta em site de relacionamento:

"Caros amigos e irmãos no Dharma,
Embora não esteja participando mais ativamente do fórum, acho que essa discussão em termos de compreensão é bastante válida, mas tenho sempre um pé atrás quando "de fora", digo, fora de uma instituição nós queiramos mudar usos e costumes da mesma. Acredito que movimento tenha que partir "de dentro", ou seja, a partir da compreensão e mesmo necessidade de adaptação dos termos por cada escola.

......
Vamos começar pela questão de se existem ou não "monges" budistas.
Bem, o termo "monge" já foi exaustivamente explicado em tópicos anteriores e por isso não carece repetir o que foi dito. (Monge vem do grego, "monos", e significa "só" uma referência ao isolamento dos primeiros contemplativos. NE) Então, na verdade, nem mesmo os Bhikshus atuais seriam exatamente monges, pois a maioria vive em templos "mosteiros" e levam vida comunitária e não solitária (caso que se aplica a quase todas as ordens "monásticas" cristãs, também).

No Japão há uma distinção entre os Bhikshus e "Sôryô" que seria o "monge" das escolas japonesas. O Sôryô não necessáriamente faz todos os votos do Vinaya e alguns nem mesmo os fazem oficialmente. É uma transmissão da linhagem.

No caso a Ordem Otani-ha do Budismo Shin (Higashi Honganji) à qual eu pertenço, vem trabalhando já a algum tempo, tentando melhorar o vocabulário em português e tentando evitar erros muito graves no uso desses termos, como por exemplo, chamar a cerimônia budista de missa, o "monge" budista de "padre budista" e etc.
Isso tudo tem raízes em dois pontos, um deles é a tradução e mesmo a publicação dos primeiros textos e livros em línguas ocidentais, em inglês é possível se ver até mesmo o termo "freira" budista para uma bhikshuni. Outro ponto desse problema está no fato de que o Budismo foi introduzido no Brasil pela colônia japonesa cuja língua não tem nenhuma relação com as raízes greco-latinas, e assim para se comunicar com os brasileiros, os japoneses, por exemplo, perguntavam aos católicos: "como se chama a cerimônia dominical que vocês frequentam na igreja?" e, ao ouvir a palavra "missa", imediatamente faziam a assimilação..... uma cerimônia religiosa se chama "missa" (o que é um grande engano).
E isso pode ser aplicado a muitos outros termos que foram se consolidando ao longo de décadas e é possível ainda se ouvir isso no dia-a-dia dos fiéis dos templos e até mesmo por parte de alguns religiosos.

No caso do termo "monge" na Escola Jôdo Shinshu, este seria totalmente inadequado, pois a nossa tradição não segue o Vinaya e nem mesmo parte dele, como no caso do Zen, Shingon, Tendai e outras escolas. Então, passamos a usar os termos correspondentes (também adaptados de tradições já existentes no ocidente) às funções, como por exemplo, Diácono (um religioso já iniciado mas não ordenado que realiza algumas cerimônias e serve a um templo ou comunidade), Ministro do Dharma para os ordenados, Missionários para os Ministros do Dharma que já possuem o grau de Mestre da Doutrina (Kyôshi) ou até mesmo Mestre do Dharma (Hôshi) e que recebem a incumbência específica de propagar o Dharma oficialmente em nome da Missão.
O título adotado para todos esses casos é o de "Reverendo", sendo esse um termo neutro que pode ser usado para qualquer religioso seja ele budista, cristão, islâmico, judeu ou outras denominações.
Mas confesso que ainda é complicado, pois quando as pessoas perguntam o que é exatamente um Ministro do Dharma, ou um Missionário da Otani-ha, a resposta mais simples é dizer: "um monge budista do Budismo Shin".

O fato de se utilizar o termo "monge Zen", "monge shingon", "monge nichiren" (acho que os religiosos do Nichiren-shu também usam esse termo, mas isso eu deixo para o nosso irmão Guilherme), e outras, apenas indica que essas pessoas receberam uma ordenação dentro de suas tradições.
Por mais que se proteste em listas do orkut, ou se berre à vontade, somente se os membros e praticantes de uma tradição discutirem e chegarem a um acordo e isso estiver de acordo com os Estatutos da Ordem é que poderá ser mudado.
Sem falar naquilo que eu já disse acima, "usos e costumes".
Se todos chamam o Genshô-san ou a Coen-san de Monge-Monja, ou Mestre ou Osho-san ou sei lá o que, vai depender da Ordem e da Comunidade.
Em minha cidade há uma colônia muito grande de imigrantes ucranianos que se dividem entre ortoxos russos auto-cefálicos (ou seja que não seguem as ordens do governo Russo) e de Católicos Romanos mas de rito oriental, nos dois casos há uma divisão entre monges (que fazem os tres votos: pobreza, castidade e obediência) e padres que apenas fazem o voto de obediência ao bispo, e portanto se casam, compram carros, casas e bens e sustentam suas famílias e filhos... isso aos olhos dos católicos romanos de rito latino é um absurdo, mas ambos são reconhecidos da mesma forma como "padres" pelo próprio direito canônico do Vaticano....
Então, para mim, é assunto interno.
Só vale a pena a discussão a nivel informativo.

gasshô."


rev_wagner@yahoo.com.br

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Há divergências doutrinárias entre os budistas?


Isso é permanente na história do buddhismo, existe uma certa liberdade de pensamento que faz os monges (na foto, monges tibetanos, debatem a doutrina como um exercício de treinamento)e mestres divergirem, e quando essa divergência se aprofunda surgem novas escolas e abordagens, com o tempo a maioria dessas morre por falta de seguidores e restam alguns caminhos principais, formas de pensar que se consolidam e sobrevivem ao teste do debate. Porem é bom considerar que para o zen as idéias e palavras em si são meras sombras e não refletem, nem poderiam, a verdade última.