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quarta-feira, 14 de março de 2018

A Grande Ilusão




Pergunta: Mas a gente também não dá nome às folhas que caem na floresta, ou às ondas do mar.

Monge Genshô: E por que damos nomes aos homens? Nós não somos nós. Não é você. Se eu pergunto: quem é você, qual é a resposta?

Pergunta: Posso dizer que sou eu?

Monge Genshô: Pode, mas ainda será uma ilusão, porque você construiu esse eu, essa noção de um eu separado. Você construiu, atribuiu um nome a si e diz “eu sou eu”. Na verdade, se retirarmos sua memória, você não saberá mais quem é. Porque você depende da memória para sustentar essa ideia. Então você depende do passado para sustentar a sua noção de eu. Na verdade, todos os nossos eus são sem sentido, assim como seria sem sentido darmos nomes às ondas. Se você desse nomes para ondas ou para as folhas, não seria porque a folha chama Joana que você iria chorar quando ela caísse no chão.

Pergunta: Mas a gente precisa se alimentar, trabalhar, etc., como o senhor falou, e tudo isso gera um sentido de que tudo é tão concreto e real.

Monge Genshô: Tudo é tão nítido que você sofre por ele. Por isso a maior ilusão é a nossa crença num eu pessoal. Essa é a sua maior falha. Você acredita em você e por isso você vai morrer. O eu não vai sobreviver a uma morte. Se não sobrevive a uma amnésia, vai sobreviver ao apodrecimento de seu cérebro? Vai sobreviver aos vermes saindo pelos seus olhos?

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Quem tem Olhos, Vê





Os mestres são raros, essa é a realidade. É um grande privilégio encontrar um mestre. Mas, por alguma razão, algumas pessoas são atraídas por essa chama, estão procurando aquela chama e vão encontrá-la. E quando os mestres olham para as pessoas, também reconhecem nos olhos daqueles que estão procurando. E os olhos daqueles que estão procurando são também difíceis de encontrar.

Mas se você desenvolve esta mente que está procurando, você de alguma maneira é direcionado para encontrar e para reconhecer. Há um texto famoso de Dogen cujo título é “Só um Buda reconhece Buda”. Porque aqueles que estão mergulhados na ignorância não veem a sabedoria. Eles acham a sabedoria tola ou careta ou qualquer coisa. Um exemplo dentro da nossa cultura ocidental são os soldados romanos que chicoteavam Cristo, pois eles não viam quem era Cristo. Como você poderia chicotear um Boddhisatva? Você não poderia fazer isso… Mas se você tem uma mente obscurecida, você não enxerga nada. Passa um Buda no meio de nós e é um homem comum. Essa é que é a verdade.

Agora se você tem olhos, você olha e no meio da multidão você vê. Você vê um Buda. Isso acontece mesmo no meio dos monges ou dentro dos mosteiros. Não se engane. A gente não entra dentro de um mosteiro e todo mundo é maravilhoso. Mesmo dentro de um mosteiro é raro encontrar um mestre. É muita sorte quando você encontra um mosteiro que tenha um mestre real. Alguém que valha a pena. Você tem que ter os olhos abertos para ver isso.

[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Enxergando o desperto



Pergunta: Os que acham a resposta, acham respostas semelhantes e quando se encontram, se notam?
Monge Genshô: Sem dúvida. um texto de Dogen que tem o título: “só Buda reconhece Buda”, porque só aquele que experimenta é capaz de identificar quem experimentou também e eles dois podem conversar e instantaneamente dizem: “ah, você sabe do que eu estou falando”. Mas quem não sabe, não adianta, inclusive não pode enxergar. Você desconfia e pensa: “eu acho que aquele sabe alguma coisa”, mas você não tem certeza. É por isso que na nossa tradição você vai até seu Mestre e diz: “eu acho que achei, por favor, me teste” e  o Mestre faz perguntas testes. Às vezes isso pode ser surpreendente.(continua)