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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O caminho da transformação


 (continuação)
Monge Kômyô: O treinamento também propõe que, à medida que nós conseguirmos, através da prática, reconhecer, clarificar melhor as nossas energias de hábito, esse composto que nós chamamos “eu”, nós partimos para compreender a nós mesmos. Compreender as raízes de nossos hábitos. Saber perceber em nós mesmos as energias de hábito que são saudáveis e saber detectar as energias de hábito que não são saudáveis. E sobre os aspectos não saudáveis, nós fazemos uma investigação para encontrar a origem daquilo. E aí caímos no terceiro passo: transformação. Somente iremos conseguir transformar a nós mesmos a partir do momento em que tivermos uma visão bem clara dos fundamentos dos nossos comportamentos, das nossas ideias, das nossas opiniões, das nossas atitudes, da caracterização e do estabelecimento das energias não saudáveis.
Graças a essa clareza, essa energia de consciência que permite essa clareza, nós vamos começar um processo de transformação. A própria experiência de perceber com clareza as raízes dos hábitos em nossa mente já promove naturalmente um mecanismo de transformação. As raízes dos hábitos não saudáveis em nosso comportamento se estabelecem e até se aprofundam porque nós não temos consciência desse fundamento. Eu sou ciumento e o meu ciúme eu sei que acontece porque minha namorada passeia  e os homens ficam olhando.  Eu estou usando aqui uma referência masculina, mas o ciúme se estabelece de várias formas. Mas de fato não é isso. Não é a namorada, ou como ela se veste, ou circunstâncias externas que realmente fazem surgir as energias não saudáveis. São aspectos profundamente arraigados em nossa natureza que dão margem à possibilidade de, através de um estímulo externo, essa semente,  surgir na superfície da consciência e se estabelecer. O trabalho investigativo da contemplação é saber reconhecer isso. Não é tentar mudar de namorada, ou reprimir a pessoa com quem você se relaciona, ou bater nas pessoas de quem você tem ciúme. Nenhuma ação externa vai realmente levar à transformação e ao quarto passo que é a cura - ao fim do domínio dessa energia não saudável na nossa mente.
Eu acho que dá para perceber por todos, não é uma tarefa de um dia. Ela exige um empenho e um compromisso de uma vida inteira. Eu comentei que eu pratico, procuro praticar há muitos anos, muitas décadas. E ainda, sim... tive grandes experiências. A minha experiência é a minha experiência. Outros monges, outros praticantes terão experiências próprias, com características próprias. Eu falo aqui para vocês sobre a minha experiência. E grande parte das minhas aprendizagens na vida não foram devido aos meus acertos, mas ao contrário, foram devido aos meus erros. Numa palestra lá em Niterói, com  Genshô Sensei, um rapaz perguntou para ele como poderia fazer para praticar. Ele falava: “A minha vida é muito difícil. Eu tenho muitos problemas, muitas dificuldades. Eu me sinto assim com grande dificuldade de estabelecer a prática.” E  Genshô Sensei, do jeito dele, olhou para o rapaz e falou: “Olha, eu faço votos que você continue sofrendo muito, sofra até mais.” Quem ouve assim pensa: “Nossa, essa história de Zen é muito deprimente. Querer que uma pessoa sofra.” É preciso compreender bem o ensinamento. Ao contrário do que se pensa, o budismo, os ensinamentos de Buda, são extremamente positivos e vivos. O que o Buda procurou demonstrar é: não finja que você não sofre. Todos nós sofremos, passamos por dificuldades. O elemento é: aprenda através da sua experiência. Não tente encontrar algum mecanismo para disfarçar os seus erros, a sua relatividade. Aceite. Observe. Não se recrimine. O budismo não é uma questão de culpa. Apenas de responsabilidade. Há um aspecto no budismo que se chama honestidade interior. Se nós cometemos um erro, ao invés de ficar dizendo: “não, não, não fui eu não. Foi aquilo ali, ou aquilo lá, ou aquele outro que, por acaso levou a isso e eu fiz...” Não arranje um bode expiatório. Observe o erro. Respire. Procure compreender a sua parcela de responsabilidade no erro, nas relações humanas, nas relações com a família, relações afetivas. Nós temos situações em que é exigido de nós um empenho mais intenso. E às vezes a pessoa de quem a gente gosta nos magoa. (continua)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O trabalho árduo do descondicionamento



Monge Kômyô é um noviço no zen, porém vem de uma longa trajetória no zen vietnamita (Thien) e nas artes plásticas e nas típicas do zen como o origami, a ikebana, o sumyê e a caligrafia. Ele haver-se colocado como meu aluno diz muito mais sobre suas qualidades do que das de seu orientador.
Estou  postando suas palestras gentilmente decupadas pelos alunos dos grupos de estudo do zen para proveito de todos, não são palestras oficiais do Dharma mas os praticantes entenderão a qualidade de sua partilha sobre a prática do zen.

Goiânia 2014
Monge Kômyô: Eu gostaria, nessa conversa primeira do dia, retomar um pouco alguns comentários sobre a prática.   O esforço, a experiência que nós temos num sesshin é um treinamento para todos, eu inclusive. O treinamento fundamental é conseguir estabelecer a mente de forma consciente, clara. Isso não é muito fácil. E não é fácil apenas pelos aspectos externos da vida. É essencialmente exigente, devido à natureza da mente condicionada, nossa mente.

Ontem eu comentei que todos nós carregamos uma bagagem. No contexto da psicologia budista, do Abhidharma, todos nós estabelecemos nas nossas vidas, a partir do padrão de nossas vidas, vasana. Vasana é energia de hábito. Cada um de nós possui um agrupamento de energias de hábito que caracteriza quem nós somos. Num retiro, mesmo que nós nos esforcemos para que ele seja organizado, adequado para que todos pratiquem, no retiro continua atuando um fenômeno, uma lei fundamental, que é a impermanência. Nunca há ambiente perfeito. Nesse momento nós temos um exemplo: temos aqui um som lindo, mas temos uma musiquinha também em algum lugar aí. Às vezes pensamos “Poxa, que chato essa música. Queria ficar aqui ouvindo as cigarras. Mas o treinamento está em aprender a estabelecer a mente, para poder aprender a lidar com todas as coisas sem conflito. A mente condicionada, essa mente que se caracteriza por muitas energias de hábito, é uma mente que, essencialmente... como se diz no Zen,  é como um macaco louco dentro de uma casa. Nossa mente, nossa cabeça é a casa. E aqui dentro há um macaco louco. Quando nós tentamos estabelecer um regime de auto-observação mais intenso, o macaco louco não gosta. A tradição Zen lida com os paradoxos.

A experiência zen,  em geral se manifesta para dar uma rasteira na gente. Por que isso? É alguma perversidade? Não. O objetivo no Zen é tentar desestabilizar a falsa idéia que o nosso eu tem de que está no controle e que tudo tem que se adaptar às nossas expectativas. O trabalho contemplativo é um trabalho árduo de descondicionamento. Portanto, num retiro, o primeiro convite que eu faço a todos é: simplesmente observem a si mesmos. Diante dos desafios, das situações, do próprio movimento durante o sentar e fazer zazen, observem a si mesmos. Não tentem controlar, até porque vocês não vão conseguir. Observem. Esse é o primeiro passo. O primeiro passo é reconhecer a si mesmo. O silêncio, a introspecção, ela ajuda a estabelecer esse meio, para que possamos reconhecer melhor quem nós somos. Sem culpa, sem recriminação, sem crítica, só reconhecer. Já aí temos um grande desafio.
(continua)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Felicidade


Matthieu Ricard ( Monge budista Vajrayana, França, 1946 ~):
Muitas receitas para a felicidade insistem que, por natureza, somos uma mistura de luz e sombra, portanto devemos aprender a aceitar os nossos erros e as nossas qualidades positivas. Elas afirmam que podemos resolver a maior parte dos nossos conflitos interiores e viver cada dia com confiança e bem-estar se desistirmos de lutar contra as nossas próprias limitações. O nosso melhor caminho seria liberar a própria natureza, já que tentar contê-la só agravaria os problemas. [...] Mas todas essas receitas não seriam apenas uma maneira de embalar os nossos hábitos num pacote bonito?
Pode até ser que “expressar-se naturalmente”, dar liberdade aos próprios impulsos “naturais”, traga alívio momentâneo para as tensões interiores, mas continuaremos presos à armadilha do círculo sem fim dos nossos hábitos. Uma atitude como essa não resolve nenhum problema sério, já que ao sermos ordinariamente nós mesmos, permanecemos ordinários. Como escreveu o filósofo francês Alain: “Não é preciso ser feiticeiro para rogar uma praga sobre si mesmo, basta dizer: ‘Sou assim e não posso fazer nada’”.
Somos muito parecidos com aqueles pássaros que passaram tanto tempo na gaiola que mesmo quando têm a possibilidade de voar para a liberdade voltam a ela. Estamos tão acostumados com nossos erros que mal podemos imaginar como seria a vida sem eles. A perspectiva de mudança nos dá vertigens.
E isso não é falta de energia. Como dissemos, fazemos esforços consideráveis em um sem-número de direções, empreendendo incontáveis projetos. [...] Mas se nos ocorre pensar: “Eu deveria tentar desenvolver o altruísmo, a paciência, a humildade”, hesitamos, e dizemos a nós mesmos que essas qualidades virão naturalmente a longo prazo, ou que não são grande coisa e que, até agora, passamos perfeitamente bem sem elas.
Quem, sem esforços metódicos e determinados, pode interpretar Mozart? Certamente isso não é possível se ficamos martelando o teclado com dois dedos. A felicidade é um modo de ser, é uma habilidade, mas para desenvolvê-la é necessário aprendizado. Como diz o provérbio persa: “A paciência transforma a folha de amora em seda”.
“Felicidade”, cap. 3
Cortesia de Aluízio Laranjeira