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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Mudando os impulsos



Há uma história de uma prostituta a quem ladrões levaram um manto que roubaram de um Monge. Levaram o manto para o cabaré e deram para que a prostituta vestisse e fizesse um striptease. Ela fez a dança e por causa disso, numa outra manifestação, ela renasceu com o impulso de se tornar Monja e assim o fez, tal é o poder do manto. Isso é bem uma história budista, toda ao contrário do que pensamos que vai acontecer. Então marcas cármicas mudam sua onda e levam você a ter impulsos diferentes.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A ideia de finitude do eu nos angustia



A voz de Budha não é extraordinária, ela está aqui todo o tempo. Mesmo nós estando aqui, vivos, a perdemos. Somos tocados pelos ventos das paixões, pelo nosso funcionamento, pelos nossos medos, ansiedades, desejos, por tudo. Nós somos impulsionados por tudo isso, é natural que seja assim. Ao mesmo tempo que essa mente potente é nossa grande oportunidade, ela também é nossa grande perdição. Temos uma grande capacidade de perceber, raciocinar, que não é a mesma de um animal, é mais sofisticada. O animal pode esquecer e viver do seu desejo imediato, e isso dá a ele uma vida plena naquele momento e retira o medo da morte, por exemplo, porque ele não a considera. Mas nós sabemos que vamos morrer e nosso eu desespera-se com essa ideia, ele se angustia. (continua)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A arte de descartar os impulsos

O redemoinho também procura satisfazer o seu impulso, ele vai onde há diferenças de temperatura que o alimentem. E nós fazemos isso. Nós andamos pela vida procurando satisfazer os nossos impulsos. Paixões surgem e se esgotam, surgem e se esgotam, surgem e se esgotam.... e você não para de procurar. Isso é o Sansara, o mundo de perambulação. Eu ando para lá e para cá tentando satisfazer o meu impulso, que nem o redemoinho. Quando cessam as diferenças de temperatura o redemoinho morre, não é mais alimentado, desaparece.
O processo é assim, primeiro você compreende intelectualmente. Aí faz zazen, e surge um impulso e você descarta, surge outro impulso e você descarta... surge um pensamento prazeroso, e você mergulha naquele prazer, e fica lá no zazen se comprazendo com aquela história prazerosa, e não sai. Ou mergulha num mundo de torpor e sonolência, e essa sonolência também não permite clareza, você não sai. Ou uma chama qualquer, como uma raiva, excita, e você não sai, porque você continua alimentando o redemoinho.
Então cada vez que o impulso vem, você descarta e volta para o momento presente, que é calma, não está acontecendo nada, a parede está parada na sua frente, o incenso está queimando bem devagar, os colegas estão imóveis, ninguém empurra você, ninguém diz nada, ninguém elogia, ninguém critica, nada, então calma, calma, calma. (continua)

quarta-feira, 30 de março de 2016

O problema não é o desejo, mas o apego

Aluno: Como lidar com as paixões e impulsos cotidianos?

Monge Genshô
- As paixões? As paixões se extinguem  se você sentar em zazen e olhar sua paixão, vai ver também que ela é vazia, toda paixão é vazia, ela é apenas um fenômeno temporário. Alguém me perguntou sobre comer, é errado ter desejo de comer? Não, não, ótimo fazer minha refeição, estar com desejo de comer, não tem problema nenhum, o problema não é isso, o problema é o apego. Se não tiver comida vou ficar desesperado. Ah, eu posso fazer jejum, é bom comer, mas eu posso também fazer jejum, então não estou preso, o problema é a sua prisão. 

É como o amor com outra pessoa, amar é algo maravilhoso, mas quando você quer possuir, ser dono, é ciumento, todas essa coisas vão ser fonte de sofrimento, porque não é o amor o problema, o problema é o apego. Nós temos pássaros aqui voando, podemos olhar e achamos maravilhoso, é ótimo isso, você ter esse amor pelos pássaros, vê-los bonitos, mas tem gente que não pode ver o pássaro, ele quer possuir, então ele vai lá e faz uma armadilha, prende o pássaro numa gaiola, fecha a gaiola e diz é meu. Não é loucura, isso? É completa loucura, mas os homens têm muito desses problemas, tem muitas pessoas que querem colocar outras pessoas na gaiola para possuir. Você tem que ter minha posição política, se você pensar outra coisa, você é meu inimigo, eu só estou satisfeito se os outros estiverem dentro de gaiolas, pensem como eu penso, façam como eu faço, etc. (continua)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Como desligar os impulsos negativos?


Aluno: A necessidade de mudança só se tornou consciente em mim há pouco tempo, quando algo acontece e eu percebo que poderia estar reagindo de uma forma diferente. Mas mesmo percebendo isso, ainda existe um primeiro impulso negativo que não é consciente. Como eu faço para desligar esses impulsos negativos?
Monge Genshô:
Todos esses impulsos reforçam os sentimentos que surgiram, sejam eles bons ou ruins. Eu fico irritado, então manifesto a minha irritação e nesse momento ela se reforça. Uma vez eu estava sentado num banco de avião muitos anos atrás e nunca gostei de gente que bate na minha poltrona. Eu estava sentado e um homem começou a batucar na mesinha que era ligada à minha poltrona. Na época eu não era Monge Zen e sim praticante de karatê, então me levantei disse: “você sabe que está batendo na minha cadeira e que quando bate na minha cadeira bate em mim?”, o homem me pediu desculpas e bateu logo em seguida. Foi sem querer, eu entendi. Ele estava tão condicionado que não percebeu e logo depois parou. Agora recentemente eu me sentei novamente numa poltrona de avião e a pessoa de trás colocou os joelhos nas costas da minha cadeira e eu pensei “como posso tratar essa situação?”, então me lembrei que meu genro tem uma cadeira que faz massagem, fechei os olhos e pensei que na realidade eu tinha um massagista gratuito na poltrona de trás, me acomodei bem e deixei. Ele foi massageando e eu usufruí. Então qual a diferença? A diferença é todinha no mecanismo da sua cabeça que é capaz de transformar aquilo que era ruim em bom.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

QUEM REENCARNA?


Aluno – Então existe reencarnação?

Monge Genshô – De quem? Se não existe um eu como é que existe reencarnação? Se memórias não permanecem, como é que existe? Reencarnação de que? O quê reencarnaria?

Reencarnação é uma palavra que não serve para o budismo, porque ela carrega dentro de si o significado de que um eu repete ou carrega algo para uma nova vida, ganha uma nova carne. Se nós dizemos que não há almas, espíritos ou coisas que o valham e que as memórias locais cessam com a falência de um sistema nervoso central, então o que há para renascer? Só há uma coisa que resta: os impulsos, aquilo que nós chamamos de carma, o movimento do universo. Este movimento pode produzir identidades em novos seres. Então é o carma que produz manifestações, não são as manifestações que carregam o carma.

Essa noção é do espiritismo, há um espírito que carrega uma mochila de carma e vai ganhando corpos novos, e daí vem o conceito de missão, de resgatar, de ir em determinada direção, uma evolução, um progresso permanente. Mas o budismo não tem sequer essa ideia de progresso permanente porque tanto você pode andar para frente como para trás. É fácil você destruir sua vida. Se você quiser você nasce em determinadas condições, mas se você começa a fumar crack vai acabar deitado numa sarjeta se transformando em quase um animal. Pode acontecer isso. Então, você pode andar para trás. E também os universos são cíclicos. Para o budismo, tudo é cíclico. Nada é permanente. Nada vai durar para sempre, nem a humanidade, nem essa terra, nem o planeta, nem o sistema solar, nem este universo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Aspectos da retribuição cármica


Pergunta –  O carma é uma ação, quando eu morro só a ação meus impulsos e desejos é que sobrevivem, certo? O que não consigo ver é uma pessoa como Hitler renascer uma criança desnutrida e passando necessidades de todos os tipos, só consigo imaginá-lo renascendo perto do poder e da política, pois esses são seus impulsos e desejos.

Monge Genshô – Pode ser realmente isso, mas inevitavelmente as ações dele provocarão grandes resultados cármicos e isso levará muito tempo para resolver.  As sementes do carma têm tempo para amadurecer. Às vezes uma pessoa comete um mau ato e aos nossos olhos parece viver muito feliz apesar disso. Existem três tipos de retribuição cármica: a imediata, que vem junto com a ação, isso acontece muitas vezes nas relações humanas, eu grito com alguém e sua resposta é imediata - outro grito ou mesmo uma agressão física. Também existe a retribuição nessa vida, não é imediata, mas virá nesta vida. No exemplo de Hitler, ele sofria com horríveis dores de estômago a ponto de seu médico proibi-lo de comer comidas pesadas e carnes. Ele sentava-se para comer um prato de saladas e reclamava que todas as pessoas comiam carne e ele era obrigado a comer salada. Esse é um tipo de retribuição nesta vida, doenças, angústias e dores. Você pode imaginar ainda as próximas manifestações de uma pessoa com esse tipo de mente. Mas qual a retribuição em outras vidas, não podemos precisar, não há como saber o quanto de bom e de mau havia, qual era sua mente. Uma coisa é dar ordens para matar, outra é executar diretamente essas ordens.

É muito difícil julgar outras pessoas, na realidade é impossível, pois você não está dentro da mente da pessoa e não sabe o que está acontecendo. Mas ao olhar a vida que Hitler tinha, ou mesmo outros renascimentos numa roda de poder, não me parece que seja uma vida feliz. Existem outros aspectos das ações carmicas. Um deles é a intenção. Qual a intenção do ato? Você pode ter um mau resultado, mas a intenção ter sido boa. Quem era o objeto do ato? É diferente você matar um mosquito e matar um ser humano e, mesmo entre seres humanos, há diferenças. Há diferença entre matar um criminoso e um médico que salva vidas.  Qual o resultado? Se você tenta realizar um mau ato e não consegue é uma coisa, mas se você obtém sucesso os resultados serão piores.

Pergunta – Em algumas destas ações poderia haver um componente coletivo?  Usando ainda Hitler, quando ele discursava influenciava muitas pessoas...

Monge Genshô – Nesse sentido podemos fazer muitos raciocínios, por exemplo, quem viveu na Alemanha nesse período é porque tinha carma para isso. Você nasce no Brasil e reclama do país, mas se nascemos aqui é porque nos sentimos atraídos pelos aspectos do país e de seu povo. Mas mesmo dentro de um país com essas características acontecem reuniões do tipo da nossa. Nunca vi aqui dentro alguém gritar com outra pessoa, xingamentos, palavrões etc., as pessoas que aqui se encontram não buscam esse tipo de atitude. Mesmo tendo carma para nascer no Brasil, também possuem um carma diferente por sentirem-se atraídos pela sangha budista.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os ventos após a morte


5) No ultimo zazenkai em Joinville falávamos sobre as dores do zazen e do retiro em si e o senhor falou que sem um corpo seria muito difícil praticar. Poderia explicar isso melhor?

Monge Genshô – Quando você está sonhando, sua mente vai para todos os lugares. Você não consegue ficar aqui nesse momento, pois não tem a âncora que é um corpo. Na morte nossa consciência perde o ”eu” e é arrastada pelo carma.

6) Mas ainda existe a consciência após a morte.

Monge Genshô –  Existem apenas nossos impulsos, desejos e apegos. É nossa natureza que deseja se manifestar e para isso ela transita de um lado para outro procurando se manifestar por aquilo que se sente atraída. Não há nada que a segure, não existe uma âncora. Nosso corpo é nossa âncora, o levamos para o zafu, olhamos para a parede e dizemos que não levantaremos, mas nossa mente pode levantar e sair a vagar, nosso corpo não. Quando você não tiver um corpo será arrastada pelos seus desejos e apegos até encontrar onde se manifestar e será onde estes desejos e apegos se sentem atraídos.

Por isso estamos aqui, nos sentimos atraídos para estarmos aqui. Não existe efeito sem causa, raciocinem, por quê estamos aqui? Por quê nossas personalidades se manifestaram neste corpo, nesse país, nesse mundo, nessas condições? Por quê me sinto atraído por esse local e por esta maneira de viver? É lógico, não é? Estamos aqui por nos sentirmos atraídos para esse tipo de lugar, nossa personalidade, desejos e impulsos vieram de algum lugar. Da mesma forma que somos responsáveis por todo nosso futuro, assim é com nossa vida aqui na Terra. É incrível que tenhamos nos sentido atraídos pelo sesshin. Tem que haver uma marca dentro de nós para nos induzir a procurar esse tipo de lugar. É um lugar muito puro onde tudo que é falado é voltado para o bem e para o desenvolvimento da consciência. Toda nossa vida é assim, procuramos pessoas com os mesmos gostos que nós. Quando não tivermos mais esses corpos algo irá querer se manifestar e, de acordo com a mente que construímos, iremos definir a continuação. Por isso é tão importante a construção de nossa mente e é isso que fazemos no sesshin, tentamos construir todo nosso futuro, que é a construção da própria felicidade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A nossa chance é o caminho


Por favor, sentem-se em zazen, não se levem muito a sério, tentem se livrar de vocês mesmos, essa é a nossa chance. Sesshin é uma grande oportunidade de ter uma experiência mais profunda. Por isso fazemos um zazen atrás do outro. Não desperdicem o zazen. Essa aventura de despertar é a aventura principal. Só ela pode nos livrar dessa prisão de eternos retornos, de manifestações humanas sempre começando. Não estou preparado para ser um Buda e não estarei provavelmente, de forma que sei que vou voltar. Tento ser um bom pai para meu filho  e digo assim: “quando eu for renascer quero renascer como teu filho, então preste atenção, me trate bem”, porque fico imaginando, a gente vive e morre e depois sem memória nenhuma do que aconteceu no passado, só guardando nossos impulsos, e meus impulsos não são lá essas coisas, tenho maus impulsos, então, de repente, só carregando isso, me ver de novo como um bebê, tomando mamadeira sem nenhum guia, só meus impulsos. Então temos que trabalhar nossos impulsos, nossa maneira de ser, nosso caráter, porque nós só conservamos isso. O carma só leva impulsos, não leva o “eu”.

De forma que, pela tradição, nos manifestamos de novo carregando impulsos, por isso cada pessoa que nasce é diferente, pois carrega suas marcas cármicas, só temos elas e mais nada. Não dá para dizer, “eu sei que isso não dá certo e vou tentar evitar”. A gente tem os mesmos impulsos. E aqueles que têm egos, apegos e desejos, por causa disso, sofrem. Nós sofremos, nós desejamos coisas. Desejamos segurança, filhos, amores, uma boa família e quando as coisas não funcionam como desejaríamos, nós sofremos. Essa é a raiz do sofrimento, aquilo que desejamos e esperamos. Se não tivéssemos nenhum desejo ou esperança não existiria nenhuma expectativa para ser frustrada.  Nós sofremos por expectativas frustradas.

4) E quem gosta de sofrer? Entendo que a gente goste de sofrer por isso estamos aqui, pelos impulsos de sofrimento e de coisas boas, não só coisas ruins, existem as coisas boas também...

Monge Genshô -  Eu penso que a resposta esteja dentro da pergunta - nós gostamos de sofrer - por isso estamos aqui. Vêm coisas boas e ruins juntas, nós queremos amores, mas nos metemos neles e sabemos que eles terminam. Junto com a aquisição do amor vem o sofrimento da perda. Qualquer coisa que nós guardemos. Eu sempre gostei muito de livros, mas os livros velhos que tenho estão se desfazendo. As folhas vão ficando amarelas, existe uma acidez no papel que o vai destruindo. Para conservar seria necessário um ambiente climatizado, uma bibliotecária cuidando. Esses dias vi um livro com uma dedicatória escrita por meu pai, há cinqüenta e tantos anos, quando eu tinha dez anos, se desfazendo e a escrita vai se desfazendo junto com o papel, e me vem a sensação de que as coisas que a gente dá valor se desfazem. Junto com o presente, vem a deterioração do presente.

Então, junto com todo o prazer, junto com todas as coisas boas, vem as perdas e o sofrimento. Estão inextricavelmente ligados. A vida não é só sofrimento. A vida é alegria, prazer e sofrimento. Uma bela garrafa de bebida e amigos dando risada, no outro dia, ressaca, dor de cabeça, vem tudo junto, não tem como escapar. A gente não consegue separar uma coisa da outra. Um filho nasce, você o ama, um dia ele vai embora e você fica sozinho. Um dia ele casa com uma nora que você não gosta e a nora não quer que ele venha na sua casa. Com o filho vem junto a nora. Está tudo conectado. Junto com a saúde vem a doença. Tem um corpo forte, um atleta. Noutro dia velhice, juntas que não funcionam, artrite, decadência física.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Reinos superiores e inferiores



Pergunta – Em um retiro anterior o senhor mencionou os seis reinos. Eu gostaria que o Senhor falasse um pouco sobre os reinos iluminados e se esses reinos são uma condição para se chegar ao Kenshô ou são o próprio Kenshô?

Monge Genshô – O fato de existirem planos superiores não importa para nós, não precisamos acreditar nisso. Se atingirmos a iluminação, a cosmologia Budista diz que existem outras formas de manifestação e outros mundos superiores a este. Outras escolas citam trinta e dois mundos, desde o mundo dos infernos até o mundo dos Budas, seres completamente iluminados. Nessa cosmologia são criados estágios cada vez mais elevados, o estágio que nos encontramos seria um estágio de manifestação ainda na forma e haveriam estágios de pura consciência sem forma.

Provavelmente existem mundos de manifestações mais sutis e mais felizes que o mundo onde estamos agora. O estágio de um Buda é onde a manifestação cessa. Para o Budismo, voltar para cá é uma forma de prisão. Somos prisioneiros de impulsos e desejos e por isso retornamos para cá. Mas mesmo nessa manifestação podemos experimentar mundos distintos, por exemplo, esse mundo do Dharma, do sesshin, é um mundo diferente do mundo lá fora. Esse mundo é tão distinto e melhor que se fazemos um sesshin longo, não temos mais o desejo de votar para o mundo lá fora. É essencial que compreendamos que nossa manifestação é uma forma de prisão condicionada pelo nosso carma, nossos impulsos. Existem mundos inferiores e superiores, como eles são não nos importa, o que importa para nós é a prática de agora.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O tempo de viver e o tempo de morrer


Pergunta - O budismo não deixa de ser também uma das religiões que buscam uma resposta para a morte, porque se alguma forma que seja, mesmo que sem as bengalas, ele busca uma resposta. O que seria não buscar resposta nenhuma?

Monge Genshô - Quando Buda sai na sua busca, ele sai na mesma angústia de todos. Por que nascemos, envelhecemos, adoecemos e morremos? Porque me sinto angustiado com isso? Ele quer a solução desse problema. Só que em vez de colocar a solução numa crença ele põe tudo em termos de raciocínio e treinamento. Então o budismo é treinamento da mente, libertação do homem e recusa as soluções fáceis, as crenças. E toda essa questão do eu é puramente lógica.

Pergunta - Nesse caso entra a filosofia e o pensamento e entra a mente e o eu. Então fica a questão de como quebrar o eu e ao mesmo tempo pensar filosoficamente, sendo que a filosofia tem o eu dentro...

Monge Genshô - Primeiro há raciocínios, é ensinamento provisório que se chama. Primeiro raciocinamos. Basta observar para ver que você nem precisa morrer para perder seu eu, basta ficar doente, perder a memória, por exemplo, e não saber mais quem é, como tantas vezes já foi explicado. A solução final de Buda não é baseada no raciocínio, mas em uma experiência mística. Então ele senta para meditar e enxerga. Na prática o que o budismo diz é que aquilo que Buda fez, sentar-se para meditar e perceber com clareza a verdade e dizer para o eu “você não me enganará mais”, essa experiência é acessível por todos, só precisam fazer a mesma coisa, sentar, meditar e acordar. Quando acordam, então subitamente, grande felicidade e todos os problemas da vida parecem bobagem, podem se evaporar como fumaça. Inclusive o grande problema, a morte. Para aquele que enxergou, a morte não existe. O medo da morte desaparece por mágica. Não tem mais importância. Por isso aquela história de um general que invade uma cidade, chega à um templo budista, encontra um mestre e fica indignado porque o mestre não tem medo e com sua espada suja de sangue lhe diz – Você não vê que posso lhe matar em um instante? – e o mestre lhe diz – E você não vê que eu posso morrer em um instante?

 Existem tantas histórias de mestres budistas que simplesmente morrem com simplicidade – Eu chamei vocês aqui hoje porque irei morrer – então senta em zazen e morre. Esse mestre tibetano que morreu no RGS, Chagdud Rinpoche, fez de forma interessante também. Ele estava doente, isso foi há alguns anos. Ele chamou os alunos e disse - Eu vou dar um curso sobre como morrer – foram então umas duzentas pessoas ter o curso com ele. O curso estava marcado para terminar as 18:00h, mas ele continuou ensinando e falando sem parar até as 22:00h, então levantou-se e disse – Bem, agora eu vou embora. Foi para seu quarto, sentou em zazen e morreu. O corpo dele continuou sentado em zazen e os tibetanos acham que não se pode mexer em um mestre que morreu assim enquanto o corpo não cair. E quando veio a secretaria da saúde brasileira eles tiveram que convencer os médicos que apesar de ele estar morto, o corpo não poderia ser tocado, era um sinal de respeito. Os médicos compreenderam e ficaram esperando. Após seis dias o corpo empalideceu e caiu. Foi então retirado para cremação.

 Há uma história Ch’an muito interessante sobre um mestre que era muito brincalhão, chamou seus discípulos e perguntou-lhes – Vocês já viram alguém morrer deitado? – e todos responderam que sim, e – Já viram alguém morrer sentado? – E a resposta foi a mesma, - Mas e de cabeça para baixo? – e os monges responderam que nunca haviam visto alguém morrer nesta posição. Então ele fez uma postura de ioga de cabeça para baixo e morreu. E o corpo dele não caia, então como os discípulos não queriam mexer no corpo mandaram chamar uma irmã dele. Quando ela entrou no quarto disse – Você a vida inteira fazendo palhaçada e agora ainda morre de cabeça para baixo, saia logo dessa posição! – só então ele caiu e puderam enterrá-lo. Essas histórias tem algo de mítico evidentemente, mas elas tem uma intenção ao serem contadas. É que nós levamos tudo muito a sério, e parece na realidade, que no zen, nunca se levou muito a sério essa questão. Como dizia Dogen – O tempo de viver é só o tempo de viver, o tempo de morrer é só o tempo de morrer.

Por favor, sentem-se em zazen, não se levem muito a sério, tentem se livrar de vocês mesmos, é nossa chance. Sesshin é uma grande oportunidade de ter uma experiência mais profunda. Por isso fazemos um zazen atrás do outro. Não desperdicem o zazen. Essa aventura de despertar é a aventura principal. Só ela pode nos livrar dessa prisão de eternos retornos, de manifestações humanas. Sempre começando. As vezes fico imaginando, não estou preparado para ser um Buda e penso que não estarei, de forma que sei que vou voltar. Fico imaginando, a gente vive e morre, depois, sem memória nenhuma do que aconteceu no passado, só guardando nossos impulsos, e meus impulsos não são lá essas coisas, tenho maus impulsos, então de repente, só carregando isso, me ver de novo como um bebê, tomando mamadeira sem nenhum guia, só meus impulsos. Então temos que trabalhar nossos impulsos, nossa maneira de ser, nosso caráter, porque nós só conservamos isso. O carma só leva impulsos, não leva o eu. De forma que pela tradição nos manifestamos de novo carregando impulsos, por isso cada pessoa que nasce é diferente, pois carrega seus impulsos, só temos eles e mais nada. Não dá para dizer, eu sei que isso não dá certo e vou tentar evitar. A gente tem os mesmo impulsos. E aqueles que tem egos, apegos, desejos, por causa disso, sofrem. Nós sofremos, nós desejamos coisas. Desejamos segurança, filhos, amores, uma boa família e quando as coisas não funcionam como desejaríamos, nós sofremos. Essa é a raiz do sofrimento, aquilo que desejamos e esperamos. Se não tivéssemos nenhum desejo ou esperança não existiria nenhuma expectativa para ser frustrada. Nós sofremos por expectativas frustradas.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Era você mas não era você



Pergunta – O que seria esse tempo perdido, o que significa?

Monge Genshô – Significa que você tem uma vida curta para toda sabedoria que deveria tentar alcançar. Não é como fazer um curso e receber um diploma. Você irá precisar de muitas vidas e tem o agravante de que a cada vida você esquece a passada, inicia do zero, só carrega seus impulsos, tendências, paixões e apegos. Você é responsável pelas coisas pelas quais se sente atraído, pois construiu uma mente assim. Todos aqui já fizeram grandes coisas em vidas passadas, senão não se sentiriam atraídos para sentarem-se para meditar e para ouvir palestra do Dharma, criaram mérito para isso.

Pergunta – Quando o senhor fala em carma isso significa que é de outras vidas ou pode haver um carma desta mesma vida?

Monge Genshô – Sim, de outras vidas, mas não era você. Porém nesta vida você também está gerando carma continuamente.

Pergunta – Eram meus avós, meus ancestrais?

Monge Genshô – Não. Era uma vida passada sua, mas não era você. Esse seu “eu” é construção do agora, desta vida. Você é como falei antes, uma herdeira de carma, mas não de seus ancestrais e sim de você mesma, só que não era você mesma. Confuso? O “eu” é que é uma ilusão, não o carma.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Tivemos escolha ?


P: Eu sei que cada um é responsável, mas e as pessoas que aparentemente não tiveram escolha?

Monge Genshô – Na realidade a pessoa aparentemente não teve escolha porque construiu carma, então fica preso naquela circunstância. Existe uma história Budista de um homem que está no inferno. Um sofrimento terrível. Ele passa todo tempo juntamente com outras pessoas, empurrando um carro pesado enfiado na lama. Sofrimento e dor contínuos. Ele só consegue pensar nisso, dor e sofrimento. Um dia alguém do lado dele cai na lama e ele, cedendo à um impulso, que dentro de seu egoísmo não lhe é natural para resolver sua dor, vê o outro, larga o que está fazendo e sem se importar com as chicotadas ele se inclina e ajuda seu companheiro a se levantar. Nesse momento ele sai do inferno. A única maneira de escapar de onde estamos metidos é mudar nossa mente. Mudando a mente, muda tudo. Parece que a pessoa não teve escolha, mas teve no passado, não acontece nada conosco que não mereçamos. Nada. Tudo que acontece, merecemos de alguma forma, no mínimo, por termos nascido neste mundo, por termos escolhido esse mundo, essas casualidades, guerras, terremotos, ódio, egoísmo.

Mas porque escolhemos esse mundo? Porque nos sentimos atraídos por ele. É a mesma coisa que acontece com as pessoas na cidade. A pessoa chega em uma cidade e pode fazer o que quiser, várias coisas. Ela chega à essa cidade desconhecida, pode se sentir atraído a entrar numa igreja, museu, parque, mas também pode perguntar “onde tem um boteco que eu possa beber?” As escolhas são dele. Ele vai para o lugar onde se sente atraído. Nosso carma se sente atraído para se manifestar num mundo em particular, numa família em particular, um país em particular, onde existam as condições parecidas com aquilo que nos atrai, que sempre nos atraiu, com corpo e impulsos daquilo que já nos atraiu. Estamos presos aos nossos impulsos e não conseguimos escapar. Então a vida que vivemos é construída por nós mesmos e quando dizemos, “não teve escolha”, sim, teve, talvez não agora, agora parece uma grande injustiça, mas existe uma causa passada, porque não existe efeito sem causa. Quando algo cai no chão podemos dizer que nada criou a condição para que ela caísse? Todos os efeitos têm causa, mesmo os que parecem injustos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Budismo, reeencarnação e renascimento



Muitas pessoas confundem o budismo com uma doutrina que crê em reencarnação, mas isso não é verdade, porque não existe reencarnação no budismo, não da maneira como se entende reencarnação. Pois não existe nenhuma alma para reencarnar, nenhum espírito, nenhum eu. Há continuidade, mas não de um eu. Somente nosso karma ou nossos impulsos podem permanecer, como movimento que são. E como são movimento, tentarão se manifestar novamente e gerarão um novo ser muito semelhante a nós, com os mesmo desejos e tudo mais, que também olhará para si mesmo e dirá “eu sou”. Este ser até, na infância, pode ter recordações fugazes da existência anterior, mas a perde rapidamente com a idade, chamamos isto, no budismo, de renascimento, em tudo é semelhante ao conceito de reencarnação exceto pelo fato de não haver um eu pessoal que subsiste.

 (Para os que perguntam sobre a tradição dos tulkus no budismo tibetano, o reconhecimento de renascimentos, ela não conflita com este conceito desde que está claro que não se trata de continuidade de um eu, mas sim de continuidade cármica, se houvesse sobrevivência de um eu não se trataria de budismo, pois Buda negou esta possibilidade)

 E porque continua esse ser iludido criando novas identidades vidas após vidas, sem parar, esse ser não passa de um ser cíclico, repetindo sempre os mesmo atos, as mesmas insatisfações, os mesmos desejos e as mesmas tristezas. Como podemos escapar desse ciclo? Somente se mudarmos nossos olhos, os olhos que vêem o mundo. Porque temos olhos de eu, olhamos o mundo como um mundo que age e interage conosco, quando essa interação também é ilusória. Todas as ações e reações das pessoas, todas as coisas que nós temos, todas, são projeções do nosso eu. Nós projetamos nosso eu sobre todas as coisas e as interpretamos de acordo com nosso eu, e este eu é nosso engano.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Como se liberar dos ciclos da existência?



Pergunta – De onde vêm os agregados que compõem a nossa existência? E qual a diferença entre a percepção e a consciência?

Monge Genshô – Está merecendo uma resposta Zen. Os agregados surgem da sua mente. 

Vou explicar um pouquinho mais:
Os agregados só estão se manifestando sob a forma do corpo  porque sua mente guarda impulsos de desejos e apegos tais que, obrigatoriamente, se manifestam no mundo. Então os agregados surgem do carma, da energia cármica, que faz com que haja uma manifestação. Esta manifestação que surge, em última análise, da ignorância. Mas não se preocupe, em absoluto, porque  tudo que é composto, tudo que é agregado, está sujeito à desagregação e decomposição. Você irá morrer e se decomporá, portanto, não precisa se preocupar.

Pergunta – Mas e quando surge novamente outra existência, quando os agregados se dissolvem...

Monge Genshô – Se os impulsos continuarem farão, obrigatoriamente, surgir uma nova manifestação.

Pergunta - E o que faz os impulsos não continuarem?

Monge Genshô - Muito boa pergunta. Como fazer para os impulsos não continuarem? Se você conseguir fazer com que sua mente esgote seu carma e você se vir livre de todos os desejos, de todos os apegos, de todas as paixões, se você conseguir extinguir isso através da iluminação, não haverá energia para uma nova manifestação cármica. Somente então, você estará realmente livre dos ciclos de nascimento e morte. Estará liberada. Será um Buda.

Palestra em BH, na sede do Nalanda, decupada da gravação por Chudô San.
(Fim)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Vazio e a forma


O vazio, é um conceito muito difícil de ser agarrado. Essa palavra é muito raramente encontrada no canon e atribui-se a Nagarjuna, no primeiro século depois de Cristo, a primeira explanação extensa sobre o tema da vacuidade. Esse vazio também não pode ser descrito e a ele também não podem ser dados atributos, mas dele surgem todos os fenômenos e manifestações dos seres, de todos nós. Tais fenômenos ocorrem na superfície da vacuidade, e eles são a própria vacuidade.

 Nós somos o vazio, a vacuidade se manifestando. A única maneira possível para que a vacuidade surja é através das manifestações fenomênicas dos seres, do universo, de todas as coisas. Mas essas manifestações em si, do ponto de vista do budismo Zen, não passam de manifestações cármicas e, nesse sentido, vazias (de um eu inerente) , pois são interdependentes, impermanentes e não existem por si mesmas. Só existem porque elas precisam se manifestar por força dos impulsos cármicos que as geram. 

Como as ondas são geradas na superfície do mar pelos ventos, assim também nós somos gerados na superfície da vacuidade ( a analogia falha no ponto de que a vacuidade não é um ente por si mesma) pelos ventos de nossos próprios impulsos. É por isso que estamos todos sentados nessa sala, e nada mais somos do que seres de apegos e desejos.

(continua)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Presos a repetição







Pergunta – Sobre a necessidade de dissolver o eu para que não retornarmos, mesmo persistindo alguma ignorância, seria possível não voltar?


Monge Gensho – Porque você, ao ter essa noção de um eu e ao manter a coesão de todas as coisas que estão agregadas a um eu (seus desejos e impulsos), por causa disso, por causa de seu apego ao seu eu, você não consegue evitar querer manifestá-lo, e o instrumento de nascer, ter um corpo e viver, é muito atraente. Já que você gosta das coisas da vida - comer, fazer amor, ter filhos, possuir coisas -, naturalmente você se encaminha para um nascimento. Por estar muito apegado a essas coisas, você não consegue evitar tudo isso.

Assim, é muito difícil sair daqui. As pessoas que pensam que podem sair daqui através da morte, por exemplo, aquelas que pensam que a vida é muito difícil e sofrida e se suicidam, tudo o que elas conseguem é repetir outra vida exatamente igual e ainda com um impulso suicida. Não existe nenhuma saída fácil. Uma vez li um livro, (Shantaram) sobre um homem, que metido num grande problema de sofrimento, na Índia, vai para uma casa onde lhe injetam drogas na veia. Ele vive, então, mergulhado num sonho, anestesiado pelas drogas, porém, isso não é solução, pois ele continua nesse mundo e dele não consegue sair. Mesmo que pareça, durante o momento em que está drogado, que ele saiu dos problemas, está sempre retornando. De certa maneira, é como se estivéssemos prisioneiros dessa repetição. Aliás, examinem suas vidas, vejam se não cometeram os mesmos erros, repetidas vezes, também.