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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O Zen é Paradoxal






O Zen é uma heresia dentro do budismo. Se estivesse em um sistema monoteísta que tem por obrigação ter que aniquilar o diferente, seria diferente, e, portanto, aniquilado. 

"Eu tenho um deus, ele é melhor que todos os outros, tenho que impor sobre os outros. Qualquer rebelião tem que ser esmagada". No budismo, isso não é verdade, pois eu posso começar a ensinar o budismo de maneira diferente, e os outros professores budistas não dizem nada. Essa é a linhagem do Genshô. E o Zen é assim, o Zen é uma linhagem, que, estivesse num sistema monoteísta, teria sido exterminada e todo mundo queimado na fogueira, porque ele muitas vezes ridiculariza, ironiza ou desmente o que a maior parte do testamento do budista toma como certo. Ironiza a si mesmo. Eu, o monge Genshô, estou ensinando aqui. Vocês devem acreditar em mim? NÃO! Vocês devem testar. Se querem argumentar, aceitar, não aceitar, não tem importância. Querem praticar assim? É dessa forma. Não querem, há outros modos, não tem importância.

Então, vamos a uma história de um mestre Zen, a quem um aluno pergunta:

- Mestre, o senhor foi aluno do grande mestre fulano de tal?
 - Sim, fui aluno do grande mestre fulano de tal.
- E o senhor aceita tudo que ele ensinava?
- Não, aceito 50%; os outros 50% eu rejeito.
- Mas como? O senhor rejeita 50% do que o mestre fulano de tal falava?
- Se eu aceitasse 100%, eu não seria digno do meu mestre.

Esse é o Zen: sempre paradoxal.

[N.E.: texto transcrito de Palestra realizada por Monge Meihô Genshô em Brasília, 11/09/2016]

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Heresias no zen


Ora , há que considerar que ninguém pode dizer que está falando em nome da posição mahayana em geral, afinal o mahayana é bastante amplo e abrange muitos escolas. Que o movimento mahayana históricamente parece surgir alguns séculos após o surgimento inicial do budismo é coisa largamente documentada.
Que na Índia nunca chegou a atingir posição predominante também, na época da quase completa erradicação do budismo no sec 13 os visitantes declaram que os mahayana eram minoritários na Índia.
O mahayanismo além de fortemente crítico para com as escolas antigas, as quais depreciativamente chamou de hinayana, também passou a produzir vasta cópia de escrituras que atribuiu ao Buda histórico e que leêm suas escolas, entre as quais a minha, a Soto Zen, cujos mais prestigiados sutras são o Lankavatara, o Surangama e os Prajna Paramitta, algumas escolas passaram a declarar que estes ensinamentos foram dados pelo próprio Buda histórico, apenas ficaram escondidos ou secretos porque não eram para todos os alunos devido a sua capacidade. Assim o mahayanismo adquiria uma legitimidade e uma superioridade declaradas. ( que alguém fique revoltado com esta análise fria será produto apenas de seu desejo de proteger uma crença, e também o de que todos devem partilhar de um ponto de vista único) Outras escolas, para que pudessem produzir novos textos e aprofundamentos aceitavam o que seus grandes mestres escreviam dando a estes o título de sutras (caso de Hui Neng no zen) como se o Dharma continuamente se manifestasse e se ampliasse (bonita proposição) e assim aceitando como legítimos estes sutras claramente séculos posteriores ao Cannon do Terceiro Concílio, e ainda outras escolas declaravam (e o tem como artigo de fé) que textos originais, por séculos escondidos ou ocultos, eram descobertos e revelados por mestres, mas que eram originários do próprio Buda original.
Evidentemente, se usamos uma leitura mística, quaisquer destas alegações pode ser adotada, porém o simples entendimento de que o budismo pode ser uma obra coletiva e de transmissão também simplifica as coisas sem que seja necessário dizer que o mahayana não aceita ser classificado como desenvolvimento, esta é uma interpretação, mas existem outras, e como monge de uma escola mahayana prefiro a postura menos mística e o entendimento de que estamos construindo o budismo a cada momento, por isto surgem escolas novas e mestres que ensinam com métodos adaptados a novas situações, que bom que é assim.
É claro, quando se fala assim, logo surgem acusações de heresia, mas no zen isto é até bem visto, o próprio zen, se tivesse surgido no ocidente, seria uma clara heresia...

(Resposta de Monge Genshô em discussão aberta, em lista budista, em 2005)