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sexta-feira, 15 de julho de 2016

A compreensão intelectual ajuda, mas isso não é tudo


Se nós conseguíssemos tirar o movimento (provocado pelo carma), pronto, voltaríamos a ser o puro céu azul. Então, iluminação é saber isso com clareza, olhar e ver: o eu é um engano. Portanto, toda dor e sofrimento podem desaparecer no mesmo instante. Isso é o que diz o sutra do coração. Quando os bodisatvas vêem isso, então toda dor e sofrimento desaparece. Toda dor e agonia desaparecem com essa percepção, se a percepção for profunda, clara, lúcida. Se for só intelectual é o que está acontecendo aqui na sala agora, eu explico, todo o mundo entendeu, mas continua sofrendo igual porque continua consciente do seu eu, do seu eixo, do seu movimento girando em volta, e assim, como não conseguimos evitar aquele movimento todo, aquele movimento todo sustenta o eu, e aí nós continuamos transitando sofrendo os efeitos daquele movimento, o efeito das paixões. Temos que ir fundo nessa compreensão. O fato de ter uma compreensão intelectual ajuda, eu explico aqui e você pensa 'entendi, é isso mesmo', mas você continua pensando 'eu sou eu, meu movimento continua, e eu continuo sentindo as minhas paixões, desejos e impulsos, etc, porque meu redemoinho continua girando, e levantando poeira e andando sem direção, pra lá e pra cá, não se sabe pra onde ele vai, ele fica procurando satisfazer os seus impulsos'.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Entenda com o Coração




Aluno – Eu li sobre Dogen e ele fala que só com o intelecto não se consegue perceber a união de tudo. Qual o significado disso?

Monge Genshô – É que intelectualmente você vai usar apenas sua mente racional. E a sua mente racional usa a ferramenta da linguagem, e a ferramenta da linguagem diz: “eu aqui-você ali, isto-aquilo, direita-esquerda, em cima-embaixo, certo-errado”.

A ferramenta da linguagem é toda dual, e ela é muito útil, nós fizemos e construímos nosso mundo assim, com dualidade, com a ferramenta da linguagem, e como nós vivemos mergulhados nisso e o nosso raciocínio todo funciona nestas bases, como é que você vai usar esse tipo de mente, essa ferramenta, a linguagem para entender a unicidade de todas as coisas? Você não vai entender, você não vai compreender assim. Mesmo que você estude, por exemplo física, e compreenda que todas as coisas são pura energia e que toda a matéria é energia condensada. Se nós entendermos isso, que tudo o que está aí são prótons, elétrons, nêutrons e que não há nada mais do que isso, e todos eles, e partículas ainda menores, mas pura energia, e você dissesse ,“ah, o universo todo é energia, toda a matéria pode ser transformada em energia, a energia pode ser transformada em matéria”, você entende isso em termos de física, mas você sente isso?

Você não sente isso. você continua achando que madeira é madeira, ferro é ferro, ar é ar... você não consegue ver essa energia em tudo, mesmo que seja uma verdade transparente da física, muito bem compreendida. É verdade, mas não pode ser capturada com essa mente comum. Você tem que dar alguns passos a mais para poder admitir isso.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Palestra de Goiânia - Parte III

(continuação de Palestra Pública realizada em Goiânia, 30/11/15)


Eu estava num mosteiro na Califórnia, nos Estados Unidos, eram montanhas e era inverno então nevava sem parar e a temperatura ia a 15º abaixo de zero. Eu estava falando com uma cozinheira holandesa e ela perguntou como era o Brasil. Quando eu contei que aqui fazia sol e não nevava, a reação dela foi exatamente essa: “para mim parece o paraíso”.



As religiões tentaram sempre entregar para as pessoas uma solução para a questão da morte. Os egípcios embalsamavam corpos e construíam pirâmides para enterrar faraós com todas as suas riquezas, os vikings imaginavam um paraíso onde poderiam saquear e lutar sem parar, já os gregos tinham um paraíso que era um ilha onde não se precisava trabalhar, a comida caia das árvores e os homens caminhavam discutindo filosofia, paraíso de gregos... Cada um pensa uma coisa. Então as religiões tentaram entregar uma ilusão que fosse confortável, infelizmente no budismo não é assim. O budismo diz que esse desejo de escapar da morte só ocorre porque você acredita na sua individualidade separada, porque você acredita em seu eu.


Hoje nós sabemos neurologicamente que o cérebro produz essa ilusão de uma individualidade separada. Você vê tudo separado, eu aqui e tudo lá, todos os sentidos informam para você que nós estamos separados, não vemos a nossa interconexão, embora nós saibamos intelectualmente que estamos profundamente ligados. Todos sabem aqui que só respiram porque as plantas produzem oxigênio, portanto você e as plantas são um, é uma simbiose. Toda a vida é conectada, todos os nossos átomos são muito velhos e, na realidade, têm origem em estrelas muito antigas. Todo mundo aqui em termos químico-físicos é velhíssimo. O ferro que está dentro do nosso sangue, que faz o nosso sangue ficar vermelho, só é produzido por supernovas, no caso foram estrelas que já morreram bilhões de anos atrás. Eu perguntaria: “mas carmicamente será que é diferente?”, não é diferente. É que a nossa tempestade cerebral é tão imensa, tão complexa, que produz essa sensação de consciência. Dentro do cérebro há 100 bilhões de neurônios e cada um deles faz perto de 5 mil conexões. Cada dendrito do neurônio faz de 5 a 8 conexões por segundo. O número de conexões dentro do cérebro de um homem é da ordem de 10 seguido de cem de zeros. O número de átomos que existe no universo é igual a 10 seguido de 80 zeros. Nós temos muitíssimo mais possibilidades dentro da nossa consciência do que o número de átomos dentro do imenso universo conhecido, tão imenso que não conseguimos calcular.

Normalmente nós não entendemos grandes números. Esses dias eu estava com um amigo e nós falávamos sobre um bilhão de reais, eu disse que ele não sabia quanto era isso e ele: “eu sei quanto é um bilhão”. Pedi então que ele me dissesse quantas maletas precisaria para juntar um bilhão. Fomos calcular quanto caberia dentro de uma maleta executiva e descobrimos que cabe por volta de 300 mil em notas de cem. Para fazer um milhão precisaríamos de três maletas. Para fazer um bilhão precisaríamos de três mil maletas. Daria um quilômetro de maletas, se colocássemos uma ao lado da outra. Se você roubar 100 bilhões, como já aconteceu num desvio em uma grande estatal brasileira, isso daria 100 quilômetros, o que seria como forrar a estrada daqui até Pirenópolis com maletas cheias de notas de cem. Isso é que é um bilhão. Eu estou fazendo esse raciocínio para dizer que se nós temos dificuldade de calcular de cabeça quanto é um bilhão, vocês têm noção do quanto é 10 seguido de cem de zeros? Ninguém tem. E depois nós nos admiramos por nossas mentes serem tão confusas, mas não tem como ser diferente.

Nós não sabemos como surge mente, cérebro e corpo, mas o Zen diz que mente e corpo estão conectados, portanto você só vai fazer sua mente se acalmar e funcionar de outra forma caso acalme o seu corpo, é por isso que a prática da meditação funciona. Eu disse na nossa demonstração inicial: sentem, fiquem eretos, respirem assim para atingir o sistema parassimpático, se acalmem e fiquem imóveis. No momento que se faz isso a mente tende a frear. Mas alguém aqui da sala conseguiu passar aqueles dois minutos sem pensar em passado ou presente? Conseguiu ficar aqui mesmo? Não é não pensando, é estando aqui. Alguém? Ninguém. Interessante. Ou seja, frear a nossa mente e mudar o seu estado é muito difícil, mas o que diz o budismo? Os diferentes métodos e escolas budistas existem para mudar a mente. Nós temos aqui nossos amigos da sangha tibetana que usam muitos métodos também, mas qual é a intenção final de todos eles? Mudar a mente. Por quê? Porque se eu mudar a mente eu consigo mudar as minhas marcas cármicas e se eu mudar o meu carma eu mudo aquilo que eu falei no princípio, mudo a minha continuidade.

Se eu mudar a maneira como a minha mente funciona, eu mudo toda a vida e o universo inteiro muda junto comigo. O que o budismo diz é que nós somos donos das nossas vidas, não dependemos de nada que vem lá de fora, não precisamos pedir nada para alguém fora de nós e não precisamos acreditar em nada além da experiência. Ou seja, método e treinamento podem mudar o carma e mudando o carma eu mudo a continuidade, portanto mudo não só esta vida como as outras que ainda irão surgir. Aquilo que vai acontecer com vocês não está escrito e é alterável por cada um de vocês. Vocês são donos de seus próprias vidas, portanto do próprio futuro. Nesta definição carma não passa de: ação e consequência. Isso explica como a gente pode sair de um início e ir para um fim diferente. Tudo o que vocês são agora é efeito de atos de vocês no passado, que ocorreram nesta ou em outras vidas. Não era o mesmo eu, mas era a sua continuidade. Vocês são continuidade do passado, portanto são responsáveis por tudo que acontece com vocês agora, então não reclamem.
  


terça-feira, 24 de junho de 2014

Entre bodhisattvas e eremitas


Aluno – O zazen então é para desconstruir o eu? É para ajudar nesse processo?

Monge Genshô - O zazen vai ajudar você a ter lucidez, clareza e estabilidade na sua prática. Se vai fazer com que você veja que seu eu é puramente construído, é outra coisa. Eu estou explicando aqui intelectualmente, e acho que intelectualmente a maioria entendeu. Mas entre entender intelectualmente e sentir, vai uma diferença muito grande. Eu disse: “seu eu é construído”, você só se ofende porque acredita nessa identidade que você construiu. Não é?

Ontem um amigo me deu um cartão, e eu comecei a ler os títulos, e, de título em título, professor, doutor, psicoterapeuta, massoterapeuta, psicanálise, acupuntura, editor, a quantidade de identidades que a gente vai agregando à nossa vida é muito grande, você começa a juntar, juntar e cada vez a identidade fica mais construída.

Se eu começo: ah, eu sou consultor, sou Monge Zen, articulista, conferencista, etc, quanto mais identidades, mais fácil de ser ofendido, porque tem mais alvos para alguém atingir. Então na verdade, muitas identidades é perigoso.

Então o que fazemos? Tentamos diminuir, diminuir, cada vez menos identidades. Se não tivermos mais nenhuma identidade, mais difícil de ser ferido. O zazen vai permitir isso? Não, ele vai criar condições para você ter uma mente que é capaz de atingir outros insights, e esses insights têm que ser emocionais, porque a compreensão intelectual não vai resolver. Você explica, está entendido, mas, vem um insulto e a raiva vem no mesmo instante, porque você só compreendeu com seu intelecto, não compreendeu com seu coração, com suas entranhas.

Pergunta – O Senhor falou dos votos do Bodhisattva e eu fiquei com aquilo e parece-me que no budismo não adianta ter só boas intenções, tem que haver um esforço a mais para transformar essas intenções em prática e, aquela comparação do budista como “santo” que o zen em particular não quer ser santo, queria que o senhor falasse um pouco sobre isso.

Monge Genshô - Isso é bem importante, porque o santo quer um objetivo, ele quer ir para o paraíso, e o santo tem uma negociação, com uma estrutura qualquer de virtude. “Eu vou atingir tais virtudes, e essas virtudes me distinguem dos outros homens”. Isto não é iluminação, isso é santidade. A santidade merece muita reverência sem dúvidas, eu acho que um homem santo merece ser reverenciado, mas ele não está nem aos pés de um Bodhisattva.

Porque o Bodhisattva é ruim como todos, cheio de defeitos e dificuldades, mas ele está se empenhando para ajudar os homens. Ontem nós estávamos fazendo uma imagem a respeito da iluminação, o budismo é como um barco que você toma, e atravessa o rio da ignorância, e sai dessa margem aqui e vai para a outra margem, “Prajna Paramita” a margem da sabedoria, aí quando você chega na outra margem, o que você tem que fazer com o budismo? O budismo só existe para ser abandonado, porque quando você atravessa o rio, não vai sair carregando a canoa nas costas. A lógica é abandonar a canoa. Mas se você é um Bodhisattva, você olha para a margem de cá, onde estão todos os homens sofrendo, mergulhados em ilusões, ignorância e fantasias, e então você vira o barco, e volta, para ajudar as pessoas a atravessarem o rio. Porque seu sentimento é que não pode deixar seus companheiros do lado de cá, perdidos.

No início eu disse: “vocês não podem abandonar seus companheiros, se estão sentados aqui em zazen sofrendo, ninguém pode ir embora”. Não é? Porque isso é a prática dos Bodhisattvas. Se fosse a prática dos eremitas, podíamos subir a montanha e ficar lá sozinhos, isolados, meditando e atingir a iluminação. Porque não importam os homens que estão na outra margem. Essa é a diferença entre um Bodhisattva e um santo eremita.