Mostrando postagens com marcador lucidez. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lucidez. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de março de 2017

Lucidez e Liberdade




Se você tem desejos e apegos nessa vida, e persegue essas coisas, vai perseguindo, perseguindo e gerando carma no processo, porque você quer mais uma coisa, quer mais outra, mais outra e, na medida em que você gera carma em movimento, você acumula energia para, uma vez esse corpo falecendo, manifestar-se novamente. E se essa energia tem os desejos típicos do ser humano, como ela tende a se manifestar? Como outro ser humano, para poder satisfazer esses desejos. Nós estamos aqui porque somos viciados no carma que nós temos. 

Então, o verdadeiro castigo é essa repetição: estamos presos e condenados a repetir indefinidamente enquanto não nos livramos da nossa ignorância e do nosso carma que nos levou a nascer assim, como nós somos agora. 

Portanto, qual é o papel do zazen? Fazemos treinamento mental para quê? Para enxergarmos com lucidez os nossos aprisionamentos e podermos primeiro compreendê-los, e depois descartá-los intencionalmente.

Se nós descartarmos esses impulsos, nosso carma vai enfraquecendo ao ponto que nós não estejamos condenados a repetir este tipo de vida que estamos repetindo agora.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Procurar a origem do sofrimento





Pergunta: Como a compreensão do Dharma pode ajudar as pessoas a lidar com situações complicadas? Como uma mãe que perde um filho ou alguém que se compadece do sofrimento extremo de outros? O desperto sente tudo isso?
Monge Genshô: Ele se comporta compreendendo, mas o que ele procura é a origem, porque a origem do sofrimento está muitas vezes na questão da lucidez. Às vezes dar isto é difícil e até um pouco cruel. Há a história de uma mulher que procura Buda quando seu filho morre, pedindo que o ressuscitasse. Buda pede a ela que traga uma semente de mostarda de uma casa onde não houvesse morrido ninguém e quando essa mulher procura por essa semente ela descobre que o sofrimento é inerente a vida humana, está presente em todas as famílias e que não é possível ter algo que o resto da humanidade não tem. Ao compreender isso ela tem a condição de despertar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Falácias em "pesquisas e estudos"

Fotos de visita, no Japão, de Kyô Hô San (Rachel) a Saikawa Roshi, acompanhada de Shutetsu San.

A foto é de pessoas budistas que procuram a lucidez, o que me fez lembrar do problema, cada vez mais frequente na internet, de pessoas divulgando pesquisas que  "provam" as coisas mais disparatadas. Vamos tomar uma como exemplo, nela se diz que "Uma sessão diária de leitura com duração de 30 minutos. De acordo com um estudo da Universidade de Yale, dos Estados Unidos, é disso que você precisa para viver 23 meses a mais do que quem não tem o hábito de ler livros."  (Publicada em vários órgão de imprensa e viralizada na internet).
Sou um leitor contumaz, leio em média um livro por semana há mais de 50 anos, adoraria que isto fosse verdade, a questão é que este tipo de pesquisa costuma pegar uma correlação estatística sem considerar outros fatores, a pesquisa faz crer que é o ato de ler que aumenta a longevidade média. Ocorre que as pessoas que lêem mais tem em média melhor educação, também tem em média uma renda mais alta, melhor acesso a atendimento médico de qualidade etc... podemos listar vários outros fatores associados em média ao ato de leitura diária.
Ora, concluir daí que a leitura prolonga a vida é isolar um fator real e atribuir a ele um efeito difícil de isolar, uma falha de metodologia estatística. Por esta razão citei um economista brilhante que observou que "os números suficientemente torturados dirão qualquer coisa", coisa de largo uso na propaganda política.
Oro que os budistas tenham o discernimento de nada aceitar sem considerar e pensar, sem examinar, conselho dado 2500 anos atrás por Buda no seu sermão aos Kalamas.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A compreensão intelectual ajuda, mas isso não é tudo


Se nós conseguíssemos tirar o movimento (provocado pelo carma), pronto, voltaríamos a ser o puro céu azul. Então, iluminação é saber isso com clareza, olhar e ver: o eu é um engano. Portanto, toda dor e sofrimento podem desaparecer no mesmo instante. Isso é o que diz o sutra do coração. Quando os bodisatvas vêem isso, então toda dor e sofrimento desaparece. Toda dor e agonia desaparecem com essa percepção, se a percepção for profunda, clara, lúcida. Se for só intelectual é o que está acontecendo aqui na sala agora, eu explico, todo o mundo entendeu, mas continua sofrendo igual porque continua consciente do seu eu, do seu eixo, do seu movimento girando em volta, e assim, como não conseguimos evitar aquele movimento todo, aquele movimento todo sustenta o eu, e aí nós continuamos transitando sofrendo os efeitos daquele movimento, o efeito das paixões. Temos que ir fundo nessa compreensão. O fato de ter uma compreensão intelectual ajuda, eu explico aqui e você pensa 'entendi, é isso mesmo', mas você continua pensando 'eu sou eu, meu movimento continua, e eu continuo sentindo as minhas paixões, desejos e impulsos, etc, porque meu redemoinho continua girando, e levantando poeira e andando sem direção, pra lá e pra cá, não se sabe pra onde ele vai, ele fica procurando satisfazer os seus impulsos'.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Somos o puro céu azul

Todo o sofrimento, toda a ilusão,  é provocado pela ignorância do fato de que nós não temos um eu inerente. Ignorância dessa clareza, dessa lucidez, que nós conseguimos ter em relação ao redemoinho, que é um fenômeno simples. Nós temos lucidez se eu explico que na verdade o eixo é uma aparência provocada pelo movimento do redemoinho, mas ele não existe por si mesmo, ele só existe por causa do redemoinho. Se você retira o redemoinho, não há eixo. Na realidade há de novo atmosfera ou puro céu azul. Então, o que nós somos? Nós somos o puro céu azul, nós somos a atmosfera. Não somos o redemoinho. Os redemoinhos são fenômenos de aparência provocado pelo movimento. Qual é o movimento? O movimento cármico. Porque há carma, há ação, reação, consequências, então levanta-se poeira. Porque levanta-se poeira, há a noção da existência de um eu. De modo que cada um que está sentado aqui é um redemoinho cármico se manifestando nesse universo, seu eu é uma aparência ilusória e todo o sofrimento então, tudo o que o eu sofre, todas as paixões, faltas, desejos, impulsos, frustrações, morte, nascimento, tudo isso não passa de uma ilusão causada por esse movimento do carma.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Perguntas e Respostas - Palestra Pública Goiânia (Parte I)


Aluno: O budismo acredita em fantasmas e espíritos inquietos?

Monge Genshô: duas maneiras de responder isso. Resposta de monge Zen: o budismo não é religião de acreditar e sim de despertar. Pensando um pouquinho mais longe, Kodo Sawaki, Mestre Zen, respondeu uma vez: “se algo ou alguma coisa se manifesta nesse mundo, está tão perdido quanto nós”. Vou dar uma terceira resposta. Um Monge Zen estava numa guerra e os soldados queriam se abrigar em uma casa, mas disseram que o local era mal assombrado e então eles ficaram apavorados. Um monge Zen passava pelo local e eles perguntaram se ele podia fazer algo sobre a situação. O monge disse: “posso sim, vou dormir lá hoje à noite” e então ele dormiu. No outro dia de manhã disse para os soldados: “podem ir, não fantasmas ou espíritos rondando aquela casa” e então os soldados foram. Um dos soldados conhecia um pouco da doutrina budista e foi até o monge perguntar: “mas me diga uma coisa, o Zen não acredita nessa história de fantasma, não é?” e o monge respondeu: “não”. O soldado falou então: “mas o que você fez lá, afinal de contas?” e o Monge disse: “eu expliquei isso para os fantasmas”.

Aluno: Eu sou psicoterapeuta e um dos trabalhos que eu faço é com vítimas de violência sexual. Tenho uma dificuldade imensa em atender essas vítimas e pensar que elas são responsáveis pelo que aconteceu com elas, no sentido delas terem carma para terem sofrido aquilo, assim como o agressor teve carma para causar esse mal.

Monge Genshô: Também é verdade o que você disse. O agressor é assim, mas nós temos que ir pouquinho mais longe e ver que dentro de cada um de nós um agressor. Tem um assassino, um torturador e tem um sujeito capaz de ficar com raiva e recorrer à violência. Você tem filhos?

Aluno: Duas filhas.

Monge Genshô: Alguém sequestra as suas filhas e você conhece tudo que pode estar sendo feito com elas. Você pega um cúmplice, pergunta onde estão suas filhas e ele diz que não vai dizer. Existe a opção de torturá-lo para que ele diga. O que acontece com você? Tortura?

Aluno: Eu acho que sim.

Monge Genshô: Portanto dentro de você um torturador. Quando a gente se envolve emocionalmente, nós percebemos que na realidade somos assim. um poema de um Mestre Zen vietnamita, Thich Nhat Hanh, que diz: “eu sou o estuprador, eu sou a vítima, eu sou o assassino, eu sou o assassinado, eu sou...” e vai narrando tudo isso, porque na realidade nós seres humanos somos todas essas pessoas. Então, na realidade, a vítima também é potencialmente agressora, é por causa disso que ela está neste mundo onde coisas desse tipo acontecem. É tolice você olhar no espelho e dizer: “eu sou inteiramente bom, eu não faria nenhum mal”. Isso não é verdadeiro. Dadas as determinadas condições surge dentro de você aquilo que você nem acreditaria que existe, basta ler as histórias das guerras, basta ler os testemunhos dos soldados que depois que voltam não conseguem nem falar. Só podem falar com os seus pares. um livro famoso chamado “Nada de novo no fronte ocidental”, de Erich Maria Remarque, sobre a Primeira Guerra Mundial. Ele vai para a guerra, mata, leva bombas, vê os amigos sendo explodidos, numa cena alguém entra na caverna anunciando que duas pessoas morreram do lado de fora e que se quiserem enterrar vão ter que raspar das paredes os corpos deles com colheres. Viver tudo isso causou pesadelos no autor que foi escrevendo o livro durante as noites em que acordava sem conseguir mais dormir e então se sentava para escrever. Quando chegou na época da Segunda Guerra Mundial Hitler mandou queimar os livros de Erich Maria Remarque, porque eram pacifistas.

Mas eu queria contar sobre um episódio desse livro, quando ele volta para casa e encontra a família. A mãe dele pergunta: “estão te dando cobertor lá? A comida é boa, meu filho?” e ele dormia na trincheira, na lama, comia sabe-se lá o que. Ele não consegue responder para a mãe, não consegue explicar a situação. Quando ele vai para uma escola, um professor o chama na frente e diz: “aqui está um herói” e pede para ele falar com as crianças, mas ele também não consegue. Então ele quer apenas uma coisa: voltar para as trincheiras, porque lá pelo menos os seus companheiros que também estão matando e morrendo conseguem compreender a situação, então ele pode conversar, mas esse aqui já é um mundo com o qual ele não consegue se comunicar. Então dentro de nós coisas que nós não conseguimos imaginar, só faltam as condições para que essas coisas surjam.

Como Monge eu já fiz várias entrevistas assim, onde as pessoas sentam e contam que foram violentadas ou violentados, porque não acontece só com as mulheres, acontece com os homens e acontecem de mulheres que abusam de meninos, coisa da qual ninguém fala. Você, enquanto Monge, escutando esses relatos pensa: “mas o que posso fazer com relação a isso?” e a receita é: chore junto. Porque pelo menos nós temos que ter companheiros que entendam dos nossos sofrimentos.


(continua...)



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O que é Buda?


Pergunta - O que é Buda?

Monge Genshô – Buda é mente. Essa é uma das respostas possíveis, outras respostas seriam, Buda significa "acordado", não é o nome de uma pessoa, foi um “título” dado a Sidarta Gautama porque ele acordou, despertou, logo, ele é “O Buda”. Tradicionalmente um grande professor, mas um homem não diferente de nós. Por Buda também podemos entender nossa “natureza búdica”. Todos temos a natureza dos seres que sonham, ou seja, temos a possibilidade de despertar. Buda também é um ideal, o ideal de ter uma mente lúcida e clara sem se deixar enganar por nenhuma ilusão. Em absoluto não é uma estátua, as estátuas existem porque as pessoas gostam de estátuas. Buda também não ajuda ninguém, não adianta lhe pedir nada. Se Buda pudesse ajudar e visse o sofrimento dos seres, ele ajudaria.