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segunda-feira, 4 de abril de 2016

O jejum no Zen Budismo



Aluna: Existe a prática do jejum no Zen?
Monge Genshô:
Há mestres que recomendam o jejum para os monges como prática para curar as doenças, mas como nós praticamos todos juntos não é permitido você fazer jejum no sesshin. Existe um mestre no Japão, num local onde esteve meu mestre, onde eles fazem jejum de 10 dias, e eu vi Saiwaka Roshi fazer esse tipo de jejum,  tem certos riscos você passar 10 dias só bebendo água, você precisa estar bem para fazer isso, e o problema não é tanto o jejum, os dias de jejum, é a saída, voltar a comer, como retornar a essa vida, isso tem que ser cuidadoso, etc. Mas jejuns de 1 a 3 dias não são complicados. Porem não faça jejum de mais de 1 dia sem beber água. Uma técnica fácil é fazer de uma janta até a outra janta, são 24h. Você jantou de noite, e não comeu todo o dia e janta no dia seguinte, o efeito geralmente é maior sensibilidade, você fica mais emotivo, mais sensível. O cérebro é muito plástico, à medida que você cultiva determinados sentimentos, eles se reforçam. Isso funciona para o bem e para o mal. Você pensa constantemente em raiva, você se torna cada vez mais raivoso. Se você expressa, mais ainda. Se você age, mais ainda. Mas isso também vale para compaixão, amorosidade, como todas as emoções positivas.

Mas se você quer que seu cérebro mude, você tem que cultivar e prolongar as coisas positivas. Ontem, eu falei,  cuidado com o que você vê. Você está alimentando a mente, e acaba colocando para fora o que você “ingeriu” de informação. Então você tem que tomar cuidado com o que faz, e pode nutrir a mente através do cultivo das emoções positivas, das coisas boas.

Às vezes, as pessoas dizem: “o budismo parece que cultiva a indiferença, falta de desejo, então a pessoa vai ficar uma pessoa insensível”. Nada disso! Tudo que eu conheço dos mestres Zen é o contrário como vocês já devem ter percebido, às vezes até atrapalha, porque você se emociona demais, mas é resultado de você cultivar sentimentos de gratidão, compassividade, amorosidade com as pessoas. (continua)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Palestra de Goiânia - Parte III

(continuação de Palestra Pública realizada em Goiânia, 30/11/15)


Eu estava num mosteiro na Califórnia, nos Estados Unidos, eram montanhas e era inverno então nevava sem parar e a temperatura ia a 15º abaixo de zero. Eu estava falando com uma cozinheira holandesa e ela perguntou como era o Brasil. Quando eu contei que aqui fazia sol e não nevava, a reação dela foi exatamente essa: “para mim parece o paraíso”.



As religiões tentaram sempre entregar para as pessoas uma solução para a questão da morte. Os egípcios embalsamavam corpos e construíam pirâmides para enterrar faraós com todas as suas riquezas, os vikings imaginavam um paraíso onde poderiam saquear e lutar sem parar, já os gregos tinham um paraíso que era um ilha onde não se precisava trabalhar, a comida caia das árvores e os homens caminhavam discutindo filosofia, paraíso de gregos... Cada um pensa uma coisa. Então as religiões tentaram entregar uma ilusão que fosse confortável, infelizmente no budismo não é assim. O budismo diz que esse desejo de escapar da morte só ocorre porque você acredita na sua individualidade separada, porque você acredita em seu eu.


Hoje nós sabemos neurologicamente que o cérebro produz essa ilusão de uma individualidade separada. Você vê tudo separado, eu aqui e tudo lá, todos os sentidos informam para você que nós estamos separados, não vemos a nossa interconexão, embora nós saibamos intelectualmente que estamos profundamente ligados. Todos sabem aqui que só respiram porque as plantas produzem oxigênio, portanto você e as plantas são um, é uma simbiose. Toda a vida é conectada, todos os nossos átomos são muito velhos e, na realidade, têm origem em estrelas muito antigas. Todo mundo aqui em termos químico-físicos é velhíssimo. O ferro que está dentro do nosso sangue, que faz o nosso sangue ficar vermelho, só é produzido por supernovas, no caso foram estrelas que já morreram bilhões de anos atrás. Eu perguntaria: “mas carmicamente será que é diferente?”, não é diferente. É que a nossa tempestade cerebral é tão imensa, tão complexa, que produz essa sensação de consciência. Dentro do cérebro 100 bilhões de neurônios e cada um deles faz perto de 5 mil conexões. Cada dendrito do neurônio faz de 5 a 8 conexões por segundo. O número de conexões dentro do cérebro de um homem é da ordem de 10 seguido de cem de zeros. O número de átomos que existe no universo é igual a 10 seguido de 80 zeros. Nós temos muitíssimo mais possibilidades dentro da nossa consciência do que o número de átomos dentro do imenso universo conhecido, tão imenso que não conseguimos calcular.

Normalmente nós não entendemos grandes números. Esses dias eu estava com um amigo e nós falávamos sobre um bilhão de reais, eu disse que ele não sabia quanto era isso e ele: “eu sei quanto é um bilhão”. Pedi então que ele me dissesse quantas maletas precisaria para juntar um bilhão. Fomos calcular quanto caberia dentro de uma maleta executiva e descobrimos que cabe por volta de 300 mil em notas de cem. Para fazer um milhão precisaríamos de três maletas. Para fazer um bilhão precisaríamos de três mil maletas. Daria um quilômetro de maletas, se colocássemos uma ao lado da outra. Se você roubar 100 bilhões, como já aconteceu num desvio em uma grande estatal brasileira, isso daria 100 quilômetros, o que seria como forrar a estrada daqui até Pirenópolis com maletas cheias de notas de cem. Isso é que é um bilhão. Eu estou fazendo esse raciocínio para dizer que se nós temos dificuldade de calcular de cabeça quanto é um bilhão, vocês têm noção do quanto é 10 seguido de cem de zeros? Ninguém tem. E depois nós nos admiramos por nossas mentes serem tão confusas, mas não tem como ser diferente.

Nós não sabemos como surge mente, cérebro e corpo, mas o Zen diz que mente e corpo estão conectados, portanto você só vai fazer sua mente se acalmar e funcionar de outra forma caso acalme o seu corpo, é por isso que a prática da meditação funciona. Eu disse na nossa demonstração inicial: sentem, fiquem eretos, respirem assim para atingir o sistema parassimpático, se acalmem e fiquem imóveis. No momento que se faz isso a mente tende a frear. Mas alguém aqui da sala conseguiu passar aqueles dois minutos sem pensar em passado ou presente? Conseguiu ficar aqui mesmo? Não é não pensando, é estando aqui. Alguém? Ninguém. Interessante. Ou seja, frear a nossa mente e mudar o seu estado é muito difícil, mas o que diz o budismo? Os diferentes métodos e escolas budistas existem para mudar a mente. Nós temos aqui nossos amigos da sangha tibetana que usam muitos métodos também, mas qual é a intenção final de todos eles? Mudar a mente. Por quê? Porque se eu mudar a mente eu consigo mudar as minhas marcas cármicas e se eu mudar o meu carma eu mudo aquilo que eu falei no princípio, mudo a minha continuidade.

Se eu mudar a maneira como a minha mente funciona, eu mudo toda a vida e o universo inteiro muda junto comigo. O que o budismo diz é que nós somos donos das nossas vidas, não dependemos de nada que vem lá de fora, não precisamos pedir nada para alguém fora de nós e não precisamos acreditar em nada além da experiência. Ou seja, método e treinamento podem mudar o carma e mudando o carma eu mudo a continuidade, portanto mudo não só esta vida como as outras que ainda irão surgir. Aquilo que vai acontecer com vocês não está escrito e é alterável por cada um de vocês. Vocês são donos de seus próprias vidas, portanto do próprio futuro. Nesta definição carma não passa de: ação e consequência. Isso explica como a gente pode sair de um início e ir para um fim diferente. Tudo o que vocês são agora é efeito de atos de vocês no passado, que ocorreram nesta ou em outras vidas. Não era o mesmo eu, mas era a sua continuidade. Vocês são continuidade do passado, portanto são responsáveis por tudo que acontece com vocês agora, então não reclamem.
  


sexta-feira, 6 de março de 2015

Depressão, pânico, ansiedade


Pergunta: Minha esposa está passando há um tempo por crise de depressão, pânico, ansiedade.  A pergunta é se a meditação silenciosa tem algum tipo de contraindicação para esse tipo de problema.

Monge Genshô: Sabemos que a meditação em si muda o cérebro. O cérebro tem certas qualidades plásticas que podem ser alteradas. E o cérebro do praticante de meditação se altera, muda. Agora, as pessoas doentes muitas vezes precisam de ajuda clínica. Hoje temos medicamentos que podem ajudar. As duas coisas se interpenetram, corpo e mente estão ligados. Se você conseguir interferir no corpo e conseguir mudar um pouco as condições cerebrais, que bom, pode ajudar. Conheço uma praticante que sofre de esquizofrenia. Na realidade, ela é perturbada mentalmente de forma muito grave. Se ela ficar sem medicamento, ela tem alucinação. O cérebro dela tem um defeito de funcionamento.

Se você tem um medicamento que consegue interferir nesse defeito, criou-se uma outra condição. E não é porque tem um problema cerebral que a pessoa é diferente de todos nós que temos algum problema físico. Por exemplo, toda a minha família tem pressão alta, meu pai tinha pressão alta, morreu por causa disso; minha mãe tinha pressão alta, não morreu por causa disso pois tomou medicação, viveu até os 97 anos. Então, eu tomo medicação para pressão alta. Se alguém vem e me diz, "eu não queria tomar medicação para o meu cérebro", eu direi: mas se você tem um defeito funcional em seu cérebro, tem que tomar medicação. Isso vai ajudar e acrescentar à prática. Vamos ser realistas a respeito disso. "Ah, mas eu queria ter um cérebro perfeito, queria que a meditação resolvesse isso". Mas pode ser que a meditação seja insuficiente para você. Você precisaria atingir um nível muito alto para conseguir superar todo esse problema. Em geral, depressão ainda consegue ser controlada. Mas outras coisas mais graves não. E existem casos de depressão muito graves, bipolaridade, etc., que precisam ser controlados com estabilizantes do humor.

Conheço monges que precisam tomar medicação. E por quê não? A vaidade de dizer "eu tenho um corpo perfeito, um cérebro perfeito", é só mais uma forma de vaidade. Você pode admitir que tem problemas em seu corpo. Eles têm origem cármica? Não interessa. O que interessa é que nós temos meios para ajudar. Então vamos ajudar. Agora, uma outra consideração, o zazen já é complicado para as pessoas normais. A gente senta a pessoa normal, ela faz zazen, às vezes fica angustiada, às vezes bate em porta sem saída. Vê problemas que antes não via, descobre e sofre com tensões, medos. Então é uma prática em que a pessoa já deve estar bem, porque você vai interferir e pode desequilibrar. Então uma pessoa que esteja doente, tem que ser bem acompanhada. Já tive a  experiência de acompanhar uma pessoa como monge, junto com o psiquiatra e conversando com o psiquiatra. "Como ela está?" "está assim. Precisamos fazer isso". "agora fazemos mais isso e menos daquilo", junto com o psiquiatra.

Semana passada, fiz uma palestra na Universidade Federal de Santa Catarina com um amigo meu que é um Ph.D. em psicanálise. Foi uma palestra muito interessante. Nós trocamos muitas informações, somos amigos, gostamos muito de conversar um com o outro, ele fez um Ph.D. na Inglaterra, trabalhou quatro anos lá, como psicanalista. Então, essa conversa é muito interessante porque tem abordagens dele com as quais eu entendo mais e posso ajudar melhor as pessoas com elas. "Essa pessoa tem esse problema, mas a origem é assim, assim e tem tal forma de raciocínio. "Ah, entendi". Isso é muito bom. Para quem trabalha com pessoas, não tem limite naquilo que você precisa aprender para poder ajudar.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Não acreditem em mim, testem.


4) Qual a função da meditação?

Monge Genshô – Nós vivemos numa grande turbulência. Como um copo d’agua com areia que está sendo constantemente mexido e a areia deixa a água turva, porque não paramos em nenhum momento. As pessoas tomam banho todos os dias porque suam, e aí começam a cheirar mal. Então adquirimos o hábito de tomar banho todos os dias. Nos lugares onde as pessoas não podem tomar banho todos os dias, o cheiro torna-se rapidamente muito forte.

Mas as pessoas deixam que suas mentes sejam sujas todos os dias. Secretam maus pensamentos, más atitudes, se perturbam, se preocupam com memórias, se preocupam com o futuro. Ninguém pára para limpar sua mente, muitas pessoas deitam na cama para dormir e começam a pensar - Amanhã, semana que vem, etc - e não conseguem dormir direito. O sono já tem a função de deletar muitos arquivos. Arquivos temporários que estão atravancando a mente. Mas ele não é suficiente, tanto que vemos muitas pessoas ansiosas ou com depressão. Se nós sentarmos em zazen, começamos a mudar nossa mente. E se começarmos a ter experiências de despertar cada vez maiores, nosso cérebro torna-se cada vez mais feliz. Há uma mudança verdadeira verificável por ressonância magnética. De vez em quando a gente vê uma noticia assim, “Os médicos examinaram tal Monge Budista que pratica meditação e ele é o homem mais feliz do mundo”. Então já tivemos o homem mais feliz do mundo da India, o homem mais feliz do mundo do Butão, o homem mais feliz do mundo da França, etc. isso é bobagem, basta você praticar meditação e você se torna uma pessoa mais feliz por natureza, porque você começa a descartar essas coisas, começa a aprender, ouvindo o Dharma, praticando o treinamento da mente, usando o zazen para estabilizar a mente e ganhar força psíquica. Isso é mero treinamento, não existe nada de milagroso, não existem milagres no Zen. Não existem poderes sobrenaturais que vêm de fora, não existem bençãos sobrenaturais que um monge pode dar. As imagens são só para nos lembrar.

Manjushri, discípulo de Buda, está sentado tranquilamente sobre um leão, está colocado na sala de meditação porque vocês sentam nos “leões turbulentos” de suas mentes. É só isso, na realidade é apenas pedra sabão. Mas fazemos reverências. Fazemos reverências para quem? Não para pedras, mas para “idéias”. Para treinar a nós mesmos, porque corpo e mente estão ligados e porque corpo e mente estão ligados, adotamos posturas corretas. Dessa forma, nossa mente começa a se corrigir, a ser disciplinada. Usamos roupas também para isso. Tudo são métodos de treinamento. Podem ser outros métodos, não importa, não há nada de “o verdadeiro” ou “o certo” no Zen. Não se trata disso, trata-se só de método de treinamento. Que é um método bastante interessante, tem uma certa tradição, são 2.600 anos mais ou menos de prática, então ele já foi bastante aperfeiçoado, não tente aperfeiçoá-lo apressadamente. Depois que você praticar uns trinta anos, então pode começar dar alguns palpites. Ficou bem claro para que serve o zazen? Treinamento, limpeza, felicidade, despertar. Aqueles que despertaram estão livres. O dedo do Budismo aponta para a liberdade. O Budismo não é nenhuma prisão e não depende de nenhuma crença, só de experiência. A única coisa que você precisa é acreditar que vale a pena treinar, que você desconfia que dá certo. E pronto. Buda mesmo disse - “Não acreditem em mim, testem”. Eu como Monge Zen digo a mesma coisa para vocês – “Não acreditem em mim, testem”.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Possível mas raríssimo


Pergunta: Como o Budismo vê a relação mente e cérebro?  Por um lado poderíamos pensar que a mente é um reflexo do cérebro, o que poderia sugerir que somos escravos do que nos acontece. Talvez através da meditação poderíamos alterar o estado do cérebro e automaticamente a mente. Por outro lado o funcionamento do cérebro permite o uso da linguagem e é como se a mente tivesse vida própria.

Monge Genshô – Em primeiro lugar, essa colocação, “como o Budismo explica...?”. O Budismo não se dedica a dar explicações. Esse problema das explicações é com a ciência. O que a ciência faz é procurar descrições e explicações que se aproximem da realidade observada. Caracteristicamente, e por isso, a ciência é o que é, essas explicações podem ser declaradas erradas e substituídas por outras melhores e isso pode acontecer sem parar. Ou seja, não existe nenhuma afirmação em termos de ciência que possamos chamar de "verdadeira". De outro lado, o Budismo não declara nenhuma verdade. Ele usa um método para libertação e usa raciocínios para você enxergar as coisas, ou seja, tudo é demonstrável e não depende de fé. Todos os raciocínios que fiz sobre a vacuidade inerente aos “eus”, dando o exemplo da casa e do copo, não passam de raciocínio demonstrável. Qualquer um pode chegar à mesma conclusão. Isso é o Dharma em si. O Dharma de Buda não é uma exclusividade de Buda, ele está presente e pode ser redescoberto. Por isso, quando recitamos os nomes dos Budas, recitamos seis nomes de Budas míticos antes de Shakyamuni Buda. Eles não existiram, são Budas míticos. O primeiro Buda histórico foi Shakyamuni Buda. Mas então porque recitamos seus nomes? Para que todos entendam que surgem Budas e, qualquer um, pensando, meditando e despertando, pode chegar ao Dharma. Vamos dizer que a cada era surge um Buda, ou seja é possível mas é raríssimo.

O Budismo também não é dono do Dharma, nem detém uma verdade exclusiva, nem o Zen. É apenas um método e um método apropriado para algumas pessoas, outras não. Sobre a pergunta sobre mente e cérebro, eles estão ligados, assim como mente e corpo estão ligados. Não separamos isso. Se você interferir no seu corpo, sua mente se alterará, se você comer mal seu cérebro e sua mente serão atingidos, se você come muito, fica sonolento. Se tomar uma substância alucinógena, seu cérebro será perturbado e poderá ter alucinações confundindo isso com realidade ou iluminação, o que não é nem uma coisa nem outra. Estamos procurando clareza e não obscurecimento, não fantasia. Já temos fantasias demais. Para quê tomar qualquer substância que altere a consciência?  É absolutamente vetado para o praticante Budista tomar substâncias que alterem a consciência, é um grave erro que não levará a lugar algum. Só pode levar a mais confusão e já somos confusos o suficiente.
(continua)

quinta-feira, 1 de março de 2012

A vida universal se manifesta


Se praticarmos desta forma não poderemos deixar de perceber que nossos pensamentos são, realmente, nada mais que secreções do cérebro. Assim como nossas glândulas salivares produzem saliva, nossos estômagos produzem suco gástrico, da mesma forma nossos pensamentos nada mais são que secreções cerebrais.
Geralmente, no entanto, as pessoas não entendem isto. Quando pensamos: “Eu o odeio”, odiamos a pessoa, esquecendo que o pensamento é simplesmente uma secreção. O ódio ocupa a nossa mente tiranizando-a. Ao odiar uma pessoa, ficamos subordinados a este tirano. Quando amamos alguém somos arrastados para longe por nosso apego à esta pessoa; tornando-nos escravizados a este amor. Esta é a fonte de todos os nossos problemas.
Por exemplo, nossos estômagos liberam suco gástrico para a digestão da comida. Se eles liberam demais, isso não é bom, podemos desenvolver uma úlcera ou até mesmo um câncer de estômago. Nossos estômagos liberam suco gástrico para nos manter vivos, mas em excesso é perigoso. Hoje em dia as pessoas sofrem de um excesso de secreções- cerebrais e, além disso, elas se permitem ser tiranizadas por estas secreções. Esta é a causa de todos os nossos erros.
Na realidade, os vários pensamentos que surgem nas nossas mentes são apenas cenário da vida do eu. Este cenário existe sobre o terreno da nossa vida. Como disse anteriomente, não deveríamos ficar cegos, ou inconscientes deste cenário.O zazen tem uma visão de todas as coisas como o cenário da vida do eu. Em antigos textos zen refere-se a isto como “hochino fuko” (o cenário do terreno original).
Não é que nós tomemos a Vida-universal como resultado da nossa prática. Todos e cada um de nós recebe e vive esta Vida–universal. Somos um com o universo inteiro, porém não o manifestamos como sendo o universo no verdadeiro sentido
.(TEXTO) Nós não nos manifestamos assim. Nós somos um com o universo inteiro mas não o sentimos Não percebemos assim. Nós nos sentimos como? Separados, cada um sentado na sua almofada. Por isso no sesshin a gente faz tanta pressão no sentido tudo junto, tudo junto. Não pense, não decida, não faça, vá junto com o fluxo, obedeça sinais sonoros, comece as coisas na hora junto com todos, termine junto com todos, faça reverência junto com todos, não cogite, não ache bom, não ache ruim, faça junto, só isto. Para que? Para voltar, voltar para nós mesmos porque nós nos perdemos de nós mesmos com os nossos pensamentos.(COMENTÁRIO)
Já que nossas mentes estão discriminando percebemos apenas a extremidade das secreções. Quando fazemos zazen, nós largamos os pensamentos e então os pensamentos caem. Aquilo que surgem em nossas mentes, desaparece. Aí a vida universal se manifesta.(TEXTO) Neste momento ela tem espaço para se manifestar. Então é proposital que a gente acorde tão cedo, agora chegou a hora da palestra, saiu da almofada, tem o encosto da cadeira, aí vem o sono, estamos sentados para que? O homem cansa, a gente cansa e então surge o espaço para a gente perceber a Vida-universal. Quando vocês estão em zazen prestem bem atenção, às vezes o sono no sesshin começa a tomar conta e naquele momento que o sono está chegando se a gente não se entrega para o sono e abre os olhos, aquela mente que vem a ser um pré-sono ela é uma mente muito especial, muito vazia, então este é um bom momento de agarrar aquele estado. Mas se você deixar que o sono se instale aí você dorme e entram outras fantasias.São as fantasias dos nossos sonhos que também manifestam o conteúdo da nossa mente. Então enquanto estamos fazendo zazen estamos sonhando acordados e se nos libertarmos do sonho então poderemos ver a perfeita felicidade e é a percepção da Vida-universal, da unidade. Quando percebemos isto, nosso verdadeiro eu, então nos sentimos muito, muito bem e aí desejaríamos não sair daquele estado nunca. Mas quando surge este sentimento, este sentimento também é uma armadilha porque é armadilha ficar neste estado prazeroso. E este estado prazeroso a gente começa a atingir na prática, mas também não deve se agarrar a ele, tem que ir mais longe.(COMENTÁRIO)
(Em itálico texto de Uchiyama Roshi, comentários de Monge Genshô em palestra de sesshin)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Meditação altera estrutura do cérebro


Moriyama Roshi, mestre zen que estará no sul do Brasil neste início de ano, conversa com praticantes de Florianópolis no evento de 50 anos do Templo Busshinji, SP.

Meditação altera estrutura do cérebro em oito semanas

Redação do Diário da Saúde

Este estudo reforça resultados de pesquisas anteriores ao eliminar outros efeitos e

documentar que as diferenças foram efetivamente produzidas pela meditação.

Massa cinzenta

Dois meses de prática de meditação são suficientes para gerar mudanças mensuráveis nas regiões do cérebro associadas à memória, ao sentido de si mesmo, à empatia e ao estresse.

Em um estudo que será publicado na revista Psychiatry Research, uma equipe liderada por cientistas do Hospital Geral de Massachusetts (MGH) relata os resultados deste que é o primeiro estudo a documentar alterações na massa cinzenta do cérebro produzidas pela meditação.

Os praticantes de meditação sempre afirmaram que, além da sensação de relaxamento e tranquilidade física, eles experimentam benefícios cognitivos e psicológicos de longa duração.

Os cientistas agora confirmaram essas alegações e demonstraram que elas estão associadas a alterações físicas reais no cérebro.

Meditação que altera o cérebro

Estudos anteriores de vários grupos encontraram diferenças estruturais entre os cérebros de praticantes de meditação experientes e de indivíduos sem história de meditação, sendo observado um espessamento do córtex cerebral em áreas associadas com a atenção e a integração emocional.

Este estudo reforça essas conclusões ao eliminar outros efeitos e documentar que tais diferenças foram efetivamente produzidas pela meditação.

O estudo usou imagens de ressonância magnética do cérebro dos participantes.

Os participantes relataram também redução do nível de estresse, que foram correlacionados com a diminuição da densidade da massa cinzenta na amígdala, que é conhecida por desempenhar um papel importante na ansiedade e no estresse, mas também na sociabilidade.

Plasticidade do cérebro

Por muito tempo os cientistas acreditaram ter "evidências" de que o cérebro era uma estrutura fixa, com um número de neurônios que só fazer decrescer ao longo da vida.

Hoje já é reconhecido não apenas que o cérebro é dotado de uma incrível plasticidade, mas também que mudanças no cérebro podem ser induzidas voluntariamente.

"É fascinante ver a plasticidade do cérebro e que, praticando a meditação, podemos desempenhar um papel ativo para mudar nosso cérebro e aumentar o nosso bem-estar e nossa qualidade de vida," diz Britta Hölzel, da Universidade de Giessen, na Alemanha, coautora do estudo.


Fonte: http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=meditacao-altera-estrutura-cerebro&id=6138&nl=nlds

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A compaixão ilumina a questão do aborto


Kanzeon é a representação da compaixão no budismo, não por acaso tomou a forma feminina na China e Japão. Yokoji, inverno de 2010.

A discussão sobre o tema do aborto, adotou um viés legalista, pior ainda, eleitoreiro, com candidatos mudando de opinião ao sabor das pesquisas, pessoas flexíveis, para quem o poder vale qualquer venda de suas convicções.
Quer-se saber se o aborto é um crime ou não, quer-se definir se o estado deve ou não preocupar-se com as centenas de mortes de mulheres vítimas de complicações ou se devem ser socorridas sem ameaças legais, e elas são simplesmente 1 000 000 a cada ano nesta nação.
Existe uma outra forma de olhar as questões humanas que não é a meramente legal, esta pode levar, como aconteceu recentemente, a obrigar uma mulher com um feto sem cérebro, condenado à morte automática após o nascimento, a arrostar toda a gravidez sabendo o que a esperava na sala de parto, porque a lei a proibiu de interromper a gravidez, já que o aborto era “ilegal”, posto que esta eventualidade não estava prevista nas exceções dos legisladores.
O olhar que pode alterar tudo é o de ver os eventos, não da maneira engessada de um texto legal, mas através da consideração do sofrimento que envolve os participantes, o olhar que o budismo propõe.
Se olharmos através desta ótica veremos que lei alguma poderá abranger todas as nuances do que ocorre com a humanidade, e que os casos apresentados precisam de um intérprete flexível com um olhar para o sofrimento. Visto assim, um juiz, com as melhores informações, poderia decidir se o caso acima era, não um crime, mas uma intervenção destinada a diminuir o sofrimento da mãe e de toda a família que circundava uma tragédia, já de per si intensa. Este intérprete não poderia tardar em seu julgamento, sua decisão é urgentíssima e não se presta ao lento trâmite a que estamos acostumados em nosso judiciário, um rito veloz precisa ser criado.
Quanto a grossa maioria dos abortos, usados como método anticoncepcional tardio, basta olhar de novo pela ótica do sofrimento maior, melhor o acesso livre a anticoncepção que a pílula abortiva, melhor a pílula do dia seguinte que um aborto cirúrgico, melhor o apoio a um nascimento do que o remorso de uma vida inteira com uma voz ao fundo da consciência se perguntando, “como seria o filho que não deixei nascer”?
Para o budismo a questão deve ser: "Qual a maneira de agir que provoca menor sofrimento a todos os envolvidos, todos inclui o ser que deseja nascer, e abrange o tempo infinitamente longo das consequências"

Monge Genshô

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Medicina e meditação no Brasil

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Meditação reduz a ansiedade e o estresse e auxilia na cura de doenças

Pacientes do hospital da Unifesp estão aprendendo a estimular o cérebro através da meditação. Na UnB, uma pesquisa está avaliando os efeitos da meditação no cérebro de pacientes que tiveram câncer de mama.

Globo Repórter, 08/10/2010.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Que é Hishiryo?


Texto de T. Deshimaru sobre hishiryo:

Que é Hishiryo? É pensar sem pensar, não pensar, mas pensar. É o além do pensamento, o pensamento absoluto. Não pensamos, mas o inconsciente se eleva, e pensamos inconscientemente, a partir do tálamo, do cérebro central. O verdadeiro pensamento aparece, o pensamento sem pensamento, para lá de todo pensamento.

Querer cortar os desejos, as ilusões é impossível, a nossa vontade, por si só, é impotente. Por intermédio do zazen, todavia, os desejos, pouco a pouco, deixam de perturbar-nos, diminuem por si mesmos, inconscientemente, naturalmente. Não se deve tentar nem cortá-los, nem segui-los. Nem cortar, nem seguir: isso é Hishiryo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Denshô


O sino, chamado Denshô, do Hattô, ou templo, no monastério de Yokoji.

P: Qual é a relação entre meditação, iluminação e o cérebro humano?

R: O cérebro faz parte do instrumental para a meditação, suas ondas mudam para alfa e depois teta (sono profundo) na meditação, embora a vigília permaneça. A iluminação não pode ser descrita com precisão nem existem estudos fisiológicos que possam descrevê-la, é como examinar a anatomia de um cérebro e tentar descrever a emoção de um amor.

P: Um cérebro defeituoso, ou um corpo paralítico é inadequado à sua prática?

R: Doenças mentais são impeditivos certos, é necessário trata-las antes, o uso de qualquer droga que afete a consciência idem. Um corpo paralítico não, temos histórias de iluminação para pacientes deitados e imóveis por doenças.

P: Quais são os perigos reais de uma prática incorreta de meditação?

R: Muitos, em particular o aprisionamento em estados mentais alguns agradáveis e que são confundidos com algum tipo de realização.

(2004, lista Chungtao)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Depressão e meditação


P: Tenho depressão e uso medicamentos, posso usar meditação no lugar deles?

R: Você tem uma doença de desequilíbrio em transmissores cerebrais, os medicamentos alteram a química cerebral e por isso você precisa deles, a meditação também altera esta química, são coisas a serem usadas concomitantemente, não deixe de usar os medicamentos e procure estar sempre bem, se consegue diminuí-los ótimo, mas isso nada tem a ver com seu ego e sim com uma doença, como quem tem pressão alta e precisa usar medicamento, coisa que acontece com famílias inteiras e pode ser de fundo genético, nesse caso nada tem a ver com estresse, pode-se baixar a pressão no zazen, mas não fora da meditação, diferentemente do estresse que é um motivo emocional de hipertensão, curável com atitudes mentais.
Não é diferente de você, continue praticando e não tente se curar com o zazen, se isto ocorrer será um subproduto da prática, não a finalidade dela, e nada impede que você atinja a libertação e o seu cérebro mudará porque é plástico, e a presença dos transmissores é alterada tanto pela meditação quanto pela medicação, uma ajuda a outra, mais fácil do que a pressão alta de fundo genético.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Remédios


P: Tenho déficit de atenção e preciso tomar uma medicação tarja preta,( atua especificamente no cérebro),que me ajuda muito na execução do meu trabalho,consigo ter uma produtividade normal, sem ela resulta-me muito difícil me adaptar as tarefas comuns. Mas fico me perguntando ... devo aceitar as coisas do modo que são e não tomar a medicação,aceitando o meu pobre desempenho e as conseqüências ou devo tomar? As vezes penso que não é diferente de uma pessoa míope usar óculos, mas a duvida volta e não consigo sossegar, a meditação pode ajudar?

R: Se você precisa dela para agir normalmente deve continuar com a medicação, se atraves da prática da meditação você for alcançando uma capacidade maior de concentração poderá diminuir a dose progressivamente, mas para isso você precisa do acompanhamento de um médico que saiba como funciona a meditação e nela acredite.

Não tente abandonar a medicação de repente e substituir pela meditação, esta abordagem precisa ser progressiva, e acompanhada, a meditação pode mudar seu domínio sobre o cérebro e mesmo alterar sua produção de serotonina, o cérebro é plástico e você pode altera-lo por sua vontade, com treinamento, vale a pena se esforçar porque os efeitos a longo prazo destas medicações não estão suficientemente avaliados e se sabe de muitos efeitos colaterais.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Dados científicos sobre efeitos da meditação

Estes dados são interessantes, mas não se pode evitar que sejam um exame grosseiro sobre o tema, no sentido em que o exame do cérebro não nos informa sobre o sentimento do amor, por exemplo, que está em uma esfera de maior sutileza. Assim, sabemos algo, com os exames atuais, sobre os efeitos da meditação, tal como as reações de bem estar ou a aparência dos cérebros de pessoas felizes na ressonância magnética, mas não sobre o desenvolvimento espiritual em si.

Mais aqui:

Dados sobre efeitos da meditação.

http://www.pnas.org/cgi/content/full/101/46/16369

terça-feira, 10 de julho de 2007

Qual é a relação entre meditação, iluminação e o cérebro humano?

O cérebro faz parte do instrumental para a meditação, suas ondas mudam para alfa e também teta (sono profundo) na meditação, embora a vigília permaneça.
A iluminação não pode ser descrita com precisão nem existem estudos fisiológicos que possam descrevê-la, é como examinar a anatomia de um cérebro e tentar descrever a emoção de um amor.