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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Treinando a mente no retiro

            Final de refeição em retiro na Sangha Zen de Florianópolis  SC   Morro das Pedras.


Pergunta – Qual o problema do erro? Existe, de fato, problema em cometer erros?

Monge Genshô – Os erros acontecerão, isso não é importante. Por exemplo, eu chamo o Jisha e lhe digo: “O altar de Buda está sujo”. Ele estará errado se disser, para se desculpar: “Pois então, o pessoal da limpeza não veio ontem e hoje o encarregado faltou”. Se o altar de Buda está sujo, ele deve pegar um pano e limpá-lo rapidamente, sem desculpas ou questionamentos. A atitude correta é essa, sendo incabível tentar encontrar o encarregado ou responsável que não exerceu corretamente sua função. Não perguntamos quem quebrou o vaso, juntamos os cacos e varremos o chão. Perguntar ou procurar pelo culpado é enaltecer o ego, que é separação. (O culpado está lá o certo sou eu que estou aqui, sou superior...etc...)

Pergunta - Uma das coisas que a gente percebe em qualquer individuo é o surgimento de uma certa vaidade. Assim como na mente de zazen surge o pensamento, pode surgir a culpa?

Monge Genshô – Como pode haver culpa se somos todos uma unidade? Se alguém se mexe no zazen, quem está se mexendo? Suponhamos vinte pessoas na sala e uma que se mexe: quem está se mexendo? Todos. A Sangha está se mexendo. A Sangha não está imóvel. Não é aquela pessoa que não está imóvel, é a Sangha. É essa a visão. Não há culpa ou não culpa, simplesmente, está acontecendo, é essa a visão que temos que entender. Você vai para um sesshin e alguém deseja algum cargo, alguma função. Não deve existir o desejo por alguma coisa. Se alguém receber alguma incumbência, deverá cumpri-la; se não receber função alguma, não deve sentir-se sensibilizado por isso, pois essa é  demonstração de ego. Temos que atentar para o fato de que cada um deve cuidar de si mesmo. É isso que está sendo visto. Vocês percebem que isso é diferente do que vemos no mundo, onde todos querem se destacar e ter sucesso. Na Sangha não pode haver o desejo de destacar-se. Há um ditado japonês, que provavelmente veio do zen, que diz: “Um prego que se destaca será martelado”. E se não se destaca? Ótimo. Ele está no mesmo nível de todos os pregos, não está fazendo nada para tornar-se diferente, está executando exata e tão somente sua função, que é segurar a madeira. As regras são essas, não se justifique, não explique, não compare.

Comentário – Eu faço muito isso Monge, o tempo todo. Há coisas com as quais as pessoas não se importam e eu gostaria que elas se importassem, pois gostaria de ter seu reconhecimento, gostaria que elas vissem que ajo ou faço algo corretamente.

Monge Genshô – Mas se você percebe, isso já é uma grande coisa, porque fazemos coisas erradas o tempo todo; eu faço muitas coisas erradas. É impossível ser perfeito. Mas temos que saber de onde vem, por que e como agir nestas situações, e pedir desculpas, porque não é isso que as pessoas estão acostumadas a fazer, as pessoas estão acostumadas a se justificar, a se defender. Dizem: “imagina, não fui eu, aliás, isso aconteceu porque Fulano fez tal coisa”. As três palavras no treinamento zen dos monges noviços são: sim, desculpe, obrigado.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A justificação



Pergunta – Existe algum tipo de prática para durante o dia, com os olhos abertos?

Monge Genshô – Durante o dia? Claro. Experimente andar na praça durante o dia e olhar para as árvores e entre em samadhi ( concentração). Por que não? Existem muitas oportunidades de prática durante o dia para samadhi, para olhar para sua mente. Você precisa observar sua mente. Por que eu agi dessa forma? Qual o sentimento que me leva a agir dessa forma quando alguém me diz alguma coisa? O que me leva a justificar-me constantemente? Por que as pessoas fazem isso? Por exemplo, uma pessoa escorrega e quase cai. O que acontece? A reação, em geral é: “Ah, mas esse chão molhado, sem uma placa!”, ou “Ah, essa calçada mal feita!”. A culpa é sempre dos outros, nunca é você que não prestou atenção ao chão molhado e não caminhou mais cuidadosamente. Sempre nos justificamos e culpamos os outros. Isso, nos mosteiros, é facilmente aprendido, pois nenhuma justificativa é permitida.

 A justificativa é sempre a defesa do ego, mesmo que você tenha razão. No mosteiro, se você for repreendido injustamente, você simplesmente diz: “hai”, ou seja, “sim”, mesmo que o autor do erro tenha sido outra pessoa. Ser capaz de fazer isso sem se justificar, aceitar toda a injustiça, isso é realmente importante, mas é muito difícil. Para fazê-lo, é necessário esquecer-se de si mesmo. Enquanto eu quiser defender meu ego, minha vaidade e minha imagem, o prêmio se justifica. Por isso, é admirável quando uma pessoa, tendo algo de errado acontecido, chama para si a responsabilidade, assumindo a culpa - embora a gente saiba que a culpa não é só dela, pois existe todo um grupo na execução da tarefa. Ao assumir a culpa, ela encerra a discussão, pois não existem motivos para continuar a conversa. Se existe a justificativa, existirá a réplica e também a tréplica, e todo o carma continua. 

Então, quando a gente vê alguém assumir o erro, mesmo não sendo seu, isso é uma grande coisa. Já assisti várias vezes Saikawa Roshi pedir desculpas e assumir algum erro como sendo seu. Uma vez, em minha casa, minha esposa reclamou que eu havia ido para um angô (retiro de meses) e ela teve muitos problemas por ter ficado sozinha. Então Saikawa Roshi baixou a cabeça e lhe disse: “Me desculpe”. 
Ele não tinha culpa alguma, seu trabalho é formar seus discípulos, mas ele viu que havia sofrimento ali.
Ele retira dos outros e assume para si a culpa. Essa é uma demonstração muito importante desse tipo de visão a respeito das coisas. Monges noviços têm dificuldades nesse sentido, pois, sempre que são questionados, tendem a dar explicações ou justificar-se.