Mostrando postagens com marcador separação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador separação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O louvor a igualdade das mulheres por Dogen Zenji


Postado por Monge Komyô:

Nestes dias de conscientização sobre a cultura de misoginia e abuso contras as mulheres, apresento excertos de um belo ensaio do grande mestre zen Eihei Dogen, em seu tratado Shobogenzo.

Em um período (1240 C.E.) onde o desmerecimento às mulheres era galopante, Dogen Zenji escreve um maravilhoso ensinamento de respeito ao Feminino, e um louvor a igualdade.

A tradução destes poucos trechos é minha, adaptada para sintetizar alguma passagens. O texto original que usei é de tradução do Prof. Emeritus Stanley Weinstein Ph.D., especialista no Budismo Sino-japonês da universidade de Yale.

“Raihai Tokuzui” (Prestando homenagem e atingindo a Essência)

Eihei Dogen - Dezembro 1240 C.E.

Não há dúvida de que existem pessoas que não prestam homenagem a mulheres ou monjas, tendo estas obtido o Dharma e que o estejam transmitindo. Aquelas pessoas não entendem o Dharma, e desde que obviamente elas jamais o estudaram, são como bestas, completamente afastadas dos Buddhas e ancestrais.

O feminino não é diferente do masculino, portanto homens e mulheres podem obter o Dharma sem distinção entre os dois (...) Assim, não te percas em ideias de separação como a de que homens são diferentes das mulheres.

Do mesmo modo, hoje em dia, existem aqueles que são extremamente estúpidos e pensam, "Mulheres são nada mais do que objetos sexuais e provedoras de comida." Estas pessoas falham em considerar que esse tipo e pensamento resulta de visões distorcidas e erradas. As crianças de Buddha não deveriam ser assim.

Há monge tolos, na China, que fazem o seguinte voto, 'Eu não irei olhar para uma mulher por incontáveis renascimentos no porvir.' Em qual Dharma isto está fundamentado? Qual é o terrível demérito em ser uma mulher? Qual é o grande mérito em ser um homem? Há muitos homens maus, e muitas boas mulheres. Se tu desejas ouvir o Dharma e pôr um fim ao seu sofrimento e tumulto, esqueças de tais coisas como a ideia de distinção entre mulheres e homens.

Monges que tem aversão às mulheres estão profundamente inebriados com o vinho da arrogância, e suas palavras de desprezo são palavras de loucura induzida pela intoxicação. Seres humanos e deuses jamais deverão levar a sério estas atitudes.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Cercado pelas paredes da memória

Quando Subhuti diz que ele não reside ou prende-se em lugar nenhum e que é perfeitamente livre, temos duas ideias. Primeiro: quando alguém diz “eu realizei isto” é porque não realizou. E a outra ideia é: aquele que realizou, ele não está em lugar nenhum, porque se estivesse em algum lugar ele seria delimitado, teria características, estaria como este copo, separado e rodeado pelas paredes de plástico, não estaria lá no oceano. Esses aqui somos nós, cercados pelas paredes de nossos pensamentos, de nossas memórias, nós somos como o copo d'água, mas a nossa sensação e noção de separação é em última análise ilusória e isso não quer dizer que ela não exista. O copo existe, mas é ilusão dizer que esta água está separada daquela, porque é tudo a mesma água. Alguém despertou? (continua)

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O ego separado é a raiz de todo sofrimento

Se cada um de nós conseguisse através do zazen apagar completamente passado, futuro e pensamentos de eu, como: meu surgimento, minha morte, minha vida, meus acontecimentos, minhas incomodações, minhas visões, se jogássemos fora todos esses eus, jogaríamos fora toda essa noção de identidade. Isso seria o mesmo que esse copo entender que sempre foi e nunca deixou de ser aquele imenso mar. Então, o que Buda está dizendo no seu despertar é: a noção de eu separado é que é a ilusão fundamental e é ela que origina todos os nossos sofrimentos e todas as nossas visões particulares, que fazem com que nós queiramos agir assim ou assado, mas na realidade não nascemos e não morremos ( tudo é fluxo, continuidade ).

O budismo não está declarando que nada existe, não é niilismo, e não está dizendo que as coisas sempre serão as mesmas, que sua alma é eterna e portanto seu ego separado está preservado. Não é isso. O que o budismo diz é: este ego separado é a raiz de todo o sofrimento, é por conta dele que nós nos perdemos, é porque acreditamos neste ego separado que nós morremos. É essa fantasia de separação que não tem como permanecer e que não sobrevive ao colapso das nossas memórias, por exemplo. (continua)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Não existe ninguém para ser liberado




(Continuação) Nesse momento um grande ensinamento é colocado, porque ele diz “ninguém foi liberado, não existem seres para serem liberados”. Isso é como se nós olhássemos agora a nossa assembleia aqui e disséssemos: existem pessoas para serem liberadas aqui? Parece que existem, porque cada uma pensa “eu sou separado, sou eu que tenho um problema, não é possível que essa outra pessoa do lado tenha uma dor na perna igual a minha, afinal é outra pessoa, não é possível que os outros tenham mentes turbulentas como a minha”. Cada um alimenta ideias de separação e diferenciação, mas quando ele diz que “um real bodhisattva não aprecia a ideia de uma ego entidade, uma personalidade, um ser ou uma individualidade separada”, então do ponto de vista de eliminar todas as ilusões, não existem seres separados aqui nesta assembleia, e não existe, em última análise, do ponto de vista absoluto, seres para serem liberados, porque todos que estão aqui são apenas uma única coisa. Isso é o que o Sutra está dizendo e é bem difícil porque contraria toda a nossa experiência pessoal. (Continua)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Palestra em Goiânia [02/11/2015] - Parte 1


Gostaria de falar um pouco sobre distinções. Sidarta pertencia à segunda casta mais importante na Índia no seu tempo. Sua casta era a dos privilegiados que não precisavam trabalhar porque a sociedade sustentava. Na medida em que a sociedade começou a ter excedentes, ela começou a sustentar os seus religiosos. Essa é a história humana. Podemos chegar a uma tribo de índios e veremos também o xamã que não precisa fazer esforços para produzir a comida, por exemplo, fica disponível apenas para realizar cerimônias. Os guerreiros também possuem privilégios e assim por diante. Sidarta era filho de um rei de um pequeno principado e quando ele sai do palácio e raspa a cabeça, ele abdica de sua condição social. Mas o que importa para nós é que dali em diante ele admite na ordem budista, como Monges, todas as classes sociais, mesmo a mais baixa de todas, que era a classe dos intocáveis, ou seja, pessoas que as outras não poderiam tocar porque a eles estavam reservados os piores trabalhos, como: lidar com estrume e coisas assim. Essas pessoas eram párias sociais e até hoje isso existe no mundo.

Essas distinções estão presentes em todas as ideias de classificação, quando dividimos a sociedade em classes sociais, em classes de trabalho, ou criamos estratificações de qualquer espécie, seja por raça, por cor, ou por gênero, qualquer coisa que fazemos nesse sentido cria distinção, cria privilégio de um lado e opressão de um outro. Ao invés de fazer uma discussão sociológica sobre esses aspectos e ficarmos contaminados por teorias e ideologias, vamos ver o exemplo de Buda. Quando as mulheres foram admitidas na ordem budista e Prajna Pati, que era tia de Buda, foi nomeada a primeira Mestra, ela também raspou a cabeça, recebeu o manto amarelo e Buda disse que não havia diferença entre homens e mulheres na capacidade de atingir a iluminação, portanto não tem distinção. Distinções culturais acabaram sobrevivendo, prejudicando e atrapalhando, mas quando você faz a distinção, você não sabe mostrar onde você a fundamenta.

Eu fui para um mosteiro nos Estados Unidos com Monges e Monjas e quando você senta e olha para as pessoas que também estão sentadas, você não sabe dizer quem é homem e quem é mulher. Ficam todos com as mesmas roupas, com as cabeças raspadas e todos são absolutamente idênticos. Nesse mosteiro a vice abadessa era Daien Bennage e a figura da vice abadessa é muito importante. Ela chegou a ser designada para ser superiora geral da América do Norte, mas recusou. Outro Monge acabou sendo escolhido,  Daigaku Rumme Roshi, que significa grande montanha, porque ele é muito alto. Uma vez eu estava nas montanhas e lá fazia 15º abaixo de zero e eu não desliguei o aquecedor, sendo que a regra é: quem ligou tem que desligar. Esse Monge me chamou no pátio todo coberto de neve e me disse: “você ligou o gás?” e eu: “sim, senhor”. Ele disse então: “e você não desligou o gás”, nesse momento eu me dei conta, disse que iria desligar, mas ele: “eu já desliguei” e disse várias outras coisas como repreensão. Você pode dizer só uma coisa numa situação dessas: “obrigado”, no Japão é: “hai”. Ou diz “obrigado por se importar comigo”. Mas o importante é que ali no monastério ela é mais importante que ele. (Continua)

quarta-feira, 29 de julho de 2015

TOMANDO REFÚGIO NA SANGHA


Alguns praticantes, quando lhes tiramos as ilusões, sentem-se desapoiados. Onde me apoio? Porém, mesmo no Zen existe um apoio e esse apoio chama-se Sangha. Apoiando-se na Sangha ele não está só e, além disso, ele tem ainda pais, irmãos e amigos. Quando ele diz que sente um vazio dentro de si difícil de preencher, lhe falta engolir o universo, pois ainda vê as coisas de forma separada e dual. “Eu estou separado, eu sinto um vazio”! O sentimento de solidão irá acabar quando ele conseguir pôr fim à dualidade, quando não mais enxergar o “outro” e “eu”. 

A solidão só existe com a separação. Vocês percebem que com frequência falo de meu Mestre, Saikawa Roshi? Por quê? Porque ele me é precioso. A última vez que esteve em Florianópolis fomos caminhar na praia e cada concha, cada pequeno peixe ou água viva que ele encontrava na areia, devolvia ao mar. Acredito que este seja verdadeiramente o sentimento de estar junto com todos os seres. Esta é também uma marca constante no praticante, a referência ao Mestre, porque quando fala no Mestre está dizendo “minha família”. Essa ligação que temos com o Templo sede, com nosso Mestre e até mesmo com templos de fora do Brasil, nos coloca na sensação de unicidade, desta forma nunca estamos sós.

Aqueles que se sentem desamparados quando iniciam a prática, ainda não perceberam o quão acompanhados estamos. Mas é necessário vir à Comunidade, sentir a prática coletiva e escutar seu professor. Isso é muito importante.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Para o ano novo



Peço desculpas, mas não vou desejar bom ano novo. Não irei desejar um ano novo ruim, tampouco.
Vou ficar aqui, à espera, olhando o sol passar pelo dia e a lua surgir no horizonte para anunciar a noite.
Mais um dia irá passar, e sua passagem será o início do resto de nossas vidas.
Não irei comemorar um novo ano. Pois, de fato, o que faz um ano se tornar velho e outro ser um horizonte de desejos e anseios? A cada dia, um ano inteiro se passou e novo ano começa. Portanto, por que esperar que um dia - um mero e comum dia - seja mais significativo do que todos os outros?
Diz o meste zen Eihen Dogen: "se há uma separação da mera espessura de um fio de cabelo entre o céu e a terra, então é como o infinito abismo a separa-los". Da mesma forma, se há uma separação de um décimo de segundo, então é como o golfo da eternidade a separar o passado e o futuro.
Não, não irei separar nada! Não irei criar a ilusão de uma distância, o conflito de uma diferença entre o ontem e o amanhã.
Vou continuar. Vou assumir que ainda não realizei objetivos, mas que já conquistei muito em mim mesmo; que perdi entes queridos, mas que ainda abrigo em meu coração o mérito de possuir bons amigos e belos amores.
Vou admitir que estou envelhecendo, mas que aprendi a rir e celebrar como as crianças; que estou amadurecendo em discernimento e consciência, mas que também esqueci de confiar mais na sutil sabedoria implícita em minhas próprias ignorâncias; que acertei muito, mas que também errei bastante.
Entre o céu e a terra, se há a distância de um fio de cabelo, é como um infinito abismo de separação. Entre um ano passado e um ano futuro, se existe a divisão de um mero segundo, é como se eu jamais fosse íntegro em minha história de vida.
O tempo é o rio do Tao, e nossa vida segue una enquanto vivemos. Não se prenda ao passado; não anseie o futuro. Assuma, corajosamente, o seu AGORA. Não crie sonhos para um tempo depois. Aja, agora, sem guardar promessas vazias.
Entre o Ontem e o Amanhã, mesmo que haja a lacuna de um mero segundo, o Hoje permanece.
Celebre o Agora. E, sem ansiar por se tornar outra pessoa em um futuro vazio, seja o melhor de si mesmo neste exato momento.
______________________________________
Separação, dezembro 2012 (revisado em 2014)
Monge Kōmyō

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Não mais de uma dúzia


Pergunta: Dentro do tema que o senhor estava colocando, realmente as experiências podem se chamar samadhi? Existe algo maior ou mais prolongado? E isto seria a transmissão?

Monge Genshô: Varia de pessoa para pessoa. Há pessoas que amadurecem lentamente e há pessoas que têm uma grande evolução, uma grande experiência. Só para corrigir algumas palavras, “samadhi” é concentração, não é kensho. Samadhi é você estar sentado em zazen e penetrar num estado de “estou aqui presente, realmente ouvindo tudo e não estou sendo arrastado por pensamentos, emoções, eventos, isso não está acontecendo, estou realmente aqui”. No momento em que você pensar “ah, samadhi! Eu estou...”, já perdeu, já não é mais samadhi.

A segunda correção é sobre a transmissão. Transmissão no Soto Zen é um “reconhecimento”. Seu mestre reconheceu em você uma experiência, uma qualidade. Você conseguiu mostrar para ele isso, então, ele diz: “Eu estou transmitindo para você essa lâmpada, você agora também é um portador da lâmpada então, transmita essa lâmpada, essa luz pra outros, faça os outros despertarem e dê a eles a lâmpada também, para que nossa linhagem continue.”

Temos 2600 anos de transmissão viva. Isso é tão importante no Zen que, de manhã, nós recitamos os nomes de todos, desde Shakyamuni Buda: “SHĂKĂMŬNĬBŬTSŬ DĀIŎSHŌ. “Butsu” é Buda. MĂKĂKĂSHŌ DĀIŎSHŌ, ĂNĀNDĂ DĀIŎSHŌ, SHŌNĂWĂSHŬ DĀIŎSHŌ, ŬBĂKĬKŬTĂ DĀIŎSHŌ. Recitamos os nomes de cada um que foi passando a lâmpada pro outro. Hoje de manhã recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHO. Normalmente, nós paramos em Keizan, porque depois de Keizan as linhagens se dividem no Japão. Então, recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ que é Saikawa Roshi. “Saikawa” é o nome de família dele. O nome de Monge é TĀI·GĀN,  TĀI·GĀN DŌ·SHŌ. Se eu conseguir dar a transmissão para alguém, então vamos ter na lista após a minha morte, TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHŌ, MEIHÔ GENSHÔ DĀIŎSHŌ. E vamos recitar até ali. Se eu não der a transmissão para ninguém, meu nome está apagado da história das linhagens. E isso é um evento bastante comum. Muitos professores não conseguiram dar a transmissão para nenhum aluno. Então, isso que é a transmissão no Soto Zen, um reconhecimento.

Você pode ter um aluno leigo que se iluminou e não existe a cerimônia de “shihô”, de transmissão para ele, só existe de monges para monges. Então, embora esteja iluminado fica entre nós. Fica entre nós, porque ninguém sai dizendo isso. Há pessoas que saem dizendo, “eu sou iluminado”, vocês podem achar facilmente na Internet, mestres iluminados. Esses dias alguém me falou que havia uma pessoa num fim de semana dando um curso de três dias para a iluminação e que custava cinco mil. Alguma coisa assim.
..................

Monge Genshô:  Bem barato. Se somarmos os sesshins aqui... ainda não dá isso e não tem garantia. Então isso existe bastante, mas aqui no Soto Zen não há garantia alguma. E se alguém diz “eu sou iluminado”, nós já sabemos que não é, porque a própria declaração “eu sou” é uma declaração de separação - eu e não os outros. Então, essa declaração jamais é dita. Shunryu Suzuki, autor daquele famoso livro “Mente Zen, Mente de Principiante”, conta-se que um aluno chegou para ele e perguntou: “O senhor é iluminado?” E ele olhou para o aluno e disse: “Não.” E o aluno estava olhando nos olhos dele e começou a chorar, essa história é interessante.

Alguém também perguntou: “Há muitos graus de iluminação, né”?  Alguém conseguiu uma compreensão, alguma coisa, o Mestre reconhece isso, dá a ele a transmissão para continuação da linhagem, e diz: “Continue, você precisa praticar ainda mais 40 anos”.

Estamos cheios de histórias nos Sutras, de monges que se iluminaram, despertaram e aí então ficaram mais vinte anos treinando junto com o mestre, antes de começar a ensinar. Isso é que é a prática. Então existe essa iluminação que eu disse, iluminação bem rasa. Pouca coisa. Conseguiu pouca coisa, mas já foi reconhecido, recebeu a transmissão. Mas alguém perguntou para Shunryu: Suzuki “Quantos mestres verdadeiramente, completamente iluminados, há no mundo?” Aí Shunryu Suzuki disse para ele: “Não mais de uma dúzia.” No mundo todo. Não mais de uma dúzia! Isso nós temos que levar em conta. Qualquer experiência iluminada que vocês tenham é extraordinária em si, mas também é muito simples, não é grande coisa. Porque quando você recebe a transmissão, aí o Mestre diz: “bom, agora que começa, agora que começa seu treinamento”. Antes foi só preparação. Você sempre vai ter essa sensação de que está começando.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O abandono de si mesmo


Esses dias coloquei em um post de uma palestra que dei em Goiânia, a declaração de Matsu, quando alguém relata a história de que Buda menino, nasceu e saiu andando, e choveu uma chuva doce e pétalas, flores caíram do céu, e ele apontou com uma mão pra cima e outra para baixo, há uma estátua de Buda menino assim, e disse: “entre o céu e a terra eu sou o mais honrado”. Comentário do mestre Zen Matsu: “se eu estivesse lá nesta hora, eu o teria matado a pauladas e jogado sua carne aos cachorros”.

Esse é o comentário do Zen, por quê? Porque o evento em si contradita o “espírito” do budismo, uma vez que transforma Buda em um ser extraordinário, capaz de andar e falar logo depois de nascido e ainda se achando mais honrado entre o céu e a terra do que todos os seres, ou seja, é a própria declaração da separação.

Mas voltando ao início da palestra, sobre a reverência, a quem fazemos a reverencia? Nós não podemos fazer a reverência para outro, assim como não podemos fazer reverência para Buda, porque aquele que entra na sala e faz uma reverência para Buda, é um herege no Zen, porque nós não fazemos reverências para uma estátua de Buda, nós fazemos reverências para o “ideal” de sermos capazes como Buda, de despertar. É esta a idéia na qual nós tomamos refúgio, nós dizemos no início do ritual da manhã: “eu tomo refúgio no Buda”. Não é na pessoa, eu tomo refúgio na possibilidade de despertar esse ideal, eu sei que é possível que eu desperte, junto com todos os seres. Eu não tomo refúgio em uma pessoa, porque a pessoa representada no altar aqui atrás, é morta, extinta, há muito tempo. Não é possível uma reencarnação de Buda por exemplo, isso que a gente vê às vezes na imprensa, é um absurdo, não existe isso. Primeiro porque não existe reencarnação no budismo, existe continuidade cármica, não de um “eu”; segundo porque Buda, ao extinguir sua energia cármica com sua iluminação, ao esgotar seu carma, não tem porque retornar. É justamente esta a vitória, deixar de ser onda, para ser oceano, ser uno com tudo, mas não ser uma energia que força novas manifestações, com todas as suas consequências. Isso é que é visto como aprisionamento.

Aquilo que em geral é visto como vitória sobre a morte nascer de novo, ganhar novo corpo, ser um eu eterno, do ponto de vista budista é um tremendo de um castigo porque ficar condenado a repetir isso, aqui, de novo, sempre, a mesma coisa, isso é um aprisionamento. E despertar seria se libertar desse aprisionamento. Então é o contrário de ambicionar ter um eu eterno. Na realidade, é ambicionar ter uma integração perfeita, completa, absoluta e não uma eternidade de um eu. Se nós fossemos pesquisar profundamente em outras tradições religiosas, mesmo na tradição religiosa da casa onde nós estamos, uma casa católica, nós acharíamos a mesma ideia, porque a idéia de estar junto a Deus significaria um abandono de si mesmo, seria outra coisa, não é estar sempre eu aqui,  uma idéia primitiva.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Juntando os cacos


Temos então duas grandes fontes de sofrimento: apegos, principalmente afetos, meu filho está passando as férias aqui comigo, amanhã pela manhã ele irá embora, ontem eu sonhei que ele estava indo embora, então me emocionei. A outra fonte de sofrimento é a aversão, o “não gosto”. É claro que na nossa vida comum, se temos um problema difícil de resolver e você não consegue ficar junto, é melhor não conviver. Mas aí não é a vida dos mosteiros. No caso, fora dos mosteiros, o melhor é evitar os relacionamentos perturbadores. Mas com relação ainda aos apegos, não é porque sofreremos por termos apegos que deixaremos de ter amor. O que temos que fazer é admitirmos que a vida é constituída desses envolvimentos e das consequentes perdas, e aceitar que os afetos vêm e vão, que as coisas surgem e terminam.

Para quem trabalha com pessoas e ouve esses tipos de problemas o tempo todo, acaba aprendendo, pois vem uma pessoa e lhe diz - “Eu tinha um relacionamento, um amor, e agora aconteceu uma separação e estou sofrendo muito”. Sei que o sofrimento é real, mas também sei que em alguns anos ao encontrar essa mesma pessoa e ao lhe perguntar sobre o relacionamento ela dirá, “que bom que acabou, encontrei outra pessoa”. Por isso no Sutra do Coração está escrito que “aquele que atinge a iluminação livra-se de toda dor, agonia e sofrimento”. Sua dor e sofrimento desaparecem, pois sua visão de mundo mudou. É como você gostar muito desta xícara, mas ela cai no chão e quebra, o que deve ser feito? Buscar a vassoura e juntar os cacos. Não existe muita utilidade você lamentar sobre os cacos. Não tem muita utilidade essas coisas que arrastamos. Quando as coisas caem e quebram o que temos que fazer é juntar os cacos.

PERGUNTAS

1) Quais são as causas do sofrimento que o Senhor falou?

Monge Genshô – O apego, a aversão e a ignorância. A ignorância é a falta de compreensão. Conhece as pessoas que fazem escândalo porque quebra alguma coisa? Elas brigam e criam um mal estar tremendo por causa de algo que não tem conserto, esse é um dos aspectos da ignorância.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Meu apoio, a comunidade


É comum as pessoas me escreverem quando começam a praticar dizendo estarem perdidas e sentindo um grande desconforto. Outro dia recebi um email em que a pessoa dizia ter um vazio dentro de si que não sabia como preencher. O que acontece é que o budismo é um método que começa com uma desconstrução completa daquilo que as pessoas costumam usar como bengala ou apoio. Quando começamos a ensinar o Dharma, as pessoas perdem seus referenciais tais como: “A quem pedirei algo? Quem pode me ajudar, Buda? Existem anjos ou seres celestiais que possam me ajudar?” A mensagem do Zen é que não há ninguém lá fora para quem você possa pedir ajuda, nem à Buda, que foi um homem com nós.

As escolas budistas às vezes são mais piedosas, o zen não é exceção, e dão ao praticante algo a que se agarrar, como por exemplo, o Bodhisattva da Compaixão ou Buda Amida. Muito embora se formos fundo no estudo, veremos que esses seres não são exatamente alguém lá fora. Isso é muito bonito no sentido de existir uma fé e este processo é bastante consolador. Mas em última análise o método do Zen não é consolador e é chamado de “O Caminho Direto”, pulando todos os estágios de prática, levando diretamente a um confronto consigo mesmo e com a vacuidade do “eu”. A única coisa oferecida pelo Zen na qual o praticante pode se apoiar são suas próprias ações.

São com as suas ações que um praticante Zen budista pavimenta o caminho que ele irá percorrer. A cada pedra colocada, o praticante pode avançar no caminho. Ele pavimenta o caminho com a construção de seu próprio carma, portanto, ele altera seu carma e com isso tiramos a responsabilidade ou o poder sobrenatural de qualquer outro ser lá fora. Nós temos os poderes sobrenaturais para a construção de nossas próprias vidas. Desta e das futuras. Como? Através de seus pensamentos, atos e palavras, através da construção de seu carma.

Alguns praticantes, quando lhes tiramos as ilusões, sentem-se desapoiados. Onde me apoio? Porém, mesmo no Zen existe um apoio e esse apoio chama-se Sangha. Apoiando-se na Sangha ele não está só e, além disso, ele tem ainda pais, irmãos e amigos. Quando ele diz que sente um vazio dentro de si difícil de preencher, lhe falta engolir o universo, pois ainda vê as coisas de forma separada e dual. “Eu estou separado, eu sinto um vazio”! O sentimento de solidão irá acabar quando ele conseguir pôr fim à dualidade, quando não mais enxergar o “outro” e “eu”. A solidão só existe com a separação. Vocês percebem que com frequência falo de meu Mestre, Saikawa Roshi? Por quê? Porque ele me é precioso. A última vez que esteve em Florianópolis fomos caminhar na praia e cada concha, cada pequeno peixe ou água viva que ele encontrava na areia, devolvia ao mar. Acredito que este seja verdadeiramente o sentimento de estar junto com todos os seres. Esta é também uma marca constante no praticante, a referência ao Mestre, porque quando fala no Mestre está dizendo “minha família”. Essa ligação que temos com o templo sede, com nosso Mestre e até mesmo com templos de fora do Brasil, nos coloca na sensação de unicidade, desta forma nunca estamos sós.

Aqueles que se sentem desamparados quando iniciam a prática, ainda não perceberam o quão acompanhados estamos. Mas é necessário vir à Comunidade, sentir a prática coletiva e escutar seu professor. Isso é muito importante.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Vazio é a forma


Hoje à noite recitaremos o Sutra do Coração em português. Ele é o “Sutra do Coração da Sabedoria”. O que ele diz é que a forma - nós somos forma - é o vazio. O vazio se manifesta como forma. Não existe uma entidade que chamamos “o vazio” não existe uma entidade além da forma, o grande ser é vazio de um si mesmo. O vazio é a qualidade de todas as coisas serem vazias de um “eu”.  Lemos “vazios de um eu”, tudo em volta são formas, tudo é vazio de um “eu”, tudo é uno. Não existe em cima ou embaixo, direita ou esquerda, surgimento ou cessação, tudo é simultaneamente vazio e forma, porque o vazio só se manifesta como forma e as formas,  somos o próprio vazio. Não existe propriamente uma intenção, um plano ou uma história; simplesmente todo tempo está contido em um único ponto, passado e futuro estão contidos em um presente e esse presente é a única coisa que podemos realmente agarrar  a cada instante que se esvai. Se você conseguir mergulhar no presente plenamente, você é dono de passado e futuro e, se esquecer de si mesmo pode abarcar o universo inteiro. Como diz o Sutra, aquele que atinge isso, a perfeita e completa iluminação, livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento. Esse é o texto que recitamos, toda dor e sofrimento desaparecem se você esquecer a ilusão do “eu”, mergulhar no presente e abarcar todo o vazio com todas as suas manifestações.

Entendendo, nada está separado, você e todas as coisas são uma única coisa. Os pássaros lá fora são você. Os sons são você. As árvores são você. O riacho é você. Você não é você. Você é tudo isso, só está perdido nesse instante pensando que você é você, abrindo os olhos e vendo tudo separado. Mas esse fenômeno que vivemos ao abrirmos os olhos e vermos tudo, que é como se fôssemos um pequeno olho, um pequeno senso do universo que permite ter uma grande experiência. Essa grande, maravilhosa e complexa experiência que nós como seres humanos temos, é linda, não pode ser desperdiçada, uma fantástica oportunidade que permite ouvir, cheirar, olhar e provar. Essa experiência maravilhosa é o dom da vida. Mas ela é um instrumento para um passo maior. Nós podemos atingir uma consciência maior e, ao atingi-la, não seremos mais pequenas ondas na superfície do universo, mas nos perceberemos como o próprio mar. Nós mergulhamos no mar das paixões, mar das angústias, sensações, amores, todas as paixões. Porque o Bodhisattva mergulha no mar das paixões, ele pode colher as pérolas do fundo. É através dos caminhos equivocados que o Bodhisattva encontra as jóias da vida. Não se perturbem porque mergulharam no mar das paixões, essa é a grande oportunidade para encontrar as pérolas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Olhar para a frente




P: Hoje é muito comum ouvir a expressão “Aquela pessoa é Zen”. Mas pelo que escuto sobre os retiros e práticas Zen, não é nada fácil, ou seja, não é o que é dito como Zen.
 
Monge Genshô – Na verdade o treinamento do Zen é muito duro. Se não fosse duro não seria Zen. É duro e com grande sofrimento físico e mental. Mas só dessa forma você consegue se libertar. Os professores do Zen costumam ser severos. Lembro-me de uma pequena história com Moriyama Roshi, que foi meu professor. Uma senhora foi conversar com ele sobre sua separação e começou a falar do marido, da traição e de toda a tristeza que estava vivendo. Então o mestre olhou para ela e disse, “Agora vai ter que trabalhar, não é?”. Qual a realidade do momento, de que interessa tudo aquilo que aconteceu? Está sozinha e terá que trabalhar, essa é a parte que realmente interessa. Foi a própria pessoa que me contou isso e disse que foi como se tivesse levado uma bofetada. Assim é o Zen. 
 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Como um leão prestes a saltar





Pergunta – Aquele momento de torpor, que as vezes acontece, são momentos muito prazerosos...

Monge Genshô – O torpor é um indicativo que você relaxou. Estar cansado com um pouco de sono é bom para o zazen. O problema é que esse relaxamento só pode ir até certo ponto, não pode cair no torpor verdadeiro, ou seja, um pouco daquele sentimento de “estou relaxado e calmo, em paz”. Para que isso aconteça é necessário que não estejam surgindo pensamentos cheios de estímulos, raiva, ambição e desejos, nada disso. Esse é um bom indicativo, mas é como um fio de navalha, se você for um pouco além, esse torpor sonolento lhe tira a atenção e o alerta. É necessário manter o espírito como um leão prestes a saltar, ou seja, muito atento, mesmo que você tenha um sentimento de relaxamento, mantenha sua atenção bem clara no momento presente, tentando manter-se nele.

Pergunta – Se a maioria absoluta dos seres vivem nesse estado de inconsciência, e o estado de consciência, o despertar é tão bom, quem é o responsável por esse estado de ilusão? No filme Matrix, que tinha uma base filosófica grande, haviam as máquinas que eram responsáveis por esse estado, pela ilusão, existia um motivo por trás disso. Entendo a questão do ego, do eu, não entendo quem me boicota, quem não quer que eu desperte e por que, se é o ego, com qual intenção ele me mantém nesse estado de ilusão?

Monge Genshô – Ele é um surgimento natural, na verdade nós somos uma coisa magnífica. De um lado é plena ilusão, de outro é a grande consciência se manifestando, o grande ser se manifestando. De um lado você é onda individual, mas porque é onda e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, percepção, formação mental, você é como se fosse o olho do universo, você vê e isso é maravilhoso, porque a vida é maravilhosa e você é um fenômeno do universo, fantástico, lindo.

Infelizmente esse fenômeno, por ver as coisas, ouvir e perceber, sente-se separado de todo o resto. É como se olho estivesse separado de você e visse, não tivesse o resto do corpo para conduzi-lo e o olho então pensasse, “eu vejo” e perdesse todo o resto, pois nítidamente ele enxerga e pensa, “eu sou”. Mas esse olho, não consegue ver a si mesmo, o ouvido não ouve a si mesmo, sua mente não vê a si mesma. Você inteiro é como se fosse uma partícula que se pensasse só, isso é uma grande solidão, uma solidão imensa que nós temos porque sentindo, pensando e vendo, somos só nós, estamos profundamente presos a essa noção e assim perdemos todo o resto.

Os sutra dizem, “a verdade do não nascimento”, nós não podemos deixar de pensar que nascemos, nós sentimos, “eu nasci, eu sou, eu penso, não quero morrer” e assim nos perdemos, porque somos muito mais que isso, nós somos o grande ser e perdemos o grande ser, perdemos tudo na ilusão de um pequeno ser, um pequeno ínfimo ser que se pensa e que percebe, “ele se pensa sozinho”, o grande despertar é perder-se de si mesmo pra mergulhar no grande ser, ser o grande Ser e não uma pequena partícula pensando em si mesma, é difícil de explicar, mas se em algum momento você sentir, mesmo que em um pequeno instante, que você é o grande ser, naquele relâmpago não há nascimento e não há morte, essa fugaz existência que vocês têm, perdidos em prazeres tolos dessa vida, em dores desde pequeno ser, estas pernas e joelhos que doem por ficar tanto tempo parados, esse é o nosso engano, como despertar? Primeiro é necessário abandonar nossa maior ilusão que é nossa mente, uma mente que não para, se essa mente ao menos pudesse parar um instante de conceber, poder sentir como é parte do grande ser, se nós abandonarmos a noção individual, o grande ser pode ter espaço, perceber isso é libertar-se de tudo, é despertar, não é algo extraordinário, fantástico, é tudo como sempre, só que completamente diferente.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Acreditar que somos separados



Pergunta – Fiquei pensando no que o senhor disse semana passada, que somos atmosfera...Mas então me veio a idéia do carma, eu me identifico perfeitamente quando dizes que somos iguais e feitos da mesma substância, mas e o carma? O senhor falou do banco de plástico e do cabide, mas o tempo de decomposição de um é diferente do outro, eu tentei imaginar que somos atmosfera, mas onde entra o carma de cada um, como vai se formando ou de onde originou?

Monge Genshô – O budismo não responde esse tipo de pergunta, por exemplo, “qual a origem do universo?”, ou ainda, “Como surgiu o primeiro carma?”. O objetivo do Budismo não é dar explicações sobre coisas não verificáveis. Há uma história nos sutras que ilustra bem isso, adaptando: - Um homem levou uma flechada e um amigo chega perto e lhe pergunta, “quem atirou a flecha era alto ou baixo, magro ou gordo?” O homem então lhe responde, “qual a importância disso, apenas tire a flecha”, ou seja, todos estamos sofrendo mergulhados em nossas ilusões, que utilidade teria para nós saber a origem do universo? Sabemos que o carma surgiu em algum momento e de alguma forma, pronto. Explicações são objeto da ciência. Provavelmente tenha surgido naturalmente pelas irregularidades da vida e do universo. Há o primeiro ato e qualquer ato provoca um efeito. Tudo tem consequência. Todo e qualquer efeito tem uma causa anterior. Se você pergunta qual a primeira causa pode cair numa regressão sem fim e sem sentido. Há outra história também muito interessante sobre isso. Um rei perguntou à um Monge: “A Terra está apoiada sobre o que?”, e o Monge respondeu: “Sobre um grande elefante”. “E em baixo do elefante o que tem?”, “Uma tartaruga” respondeu o Monge. “E em baixo da tartaruga, o que tem?”, “Outra tartaruga, Majestade é melhor pararmos por aqui por aí em diante são só tartarugas”.

Pergunta – O senhor falou da mente que se engana, como eu sei que estou enganado?

Monge Genshô - O que você pensa sobre isso, como você sabe que sua mente está enganada? Como você sabe que está separada das outras pessoas? Você olha para todas essas pessoas e as vê separadas de você. Mas você não vive sem elas. Não vive sem nada que existe, sem sol, sem chuva, árvores, pássaros, na realidade você é tudo isso misturado. Se você pensar sobre o que é esse guardanapo de papel em sua mão, do que ele é formado? Chuva, sol, árvore, carbono, tudo igual a você. Você é tudo isso junto, no entanto você olha para tudo e diz: “Eu estou separado”. Isso em si só já é uma grande ilusão. Por acreditar nessa ilusão é que você nasce e morre. Chamamos isso de ignorância. Por sermos ignorantes nascemos e morremos e acreditamos estar separados.

O carbono presente nessa folha de guardanapo em sua mão é muito antigo, bilhões de anos, os resíduos de bilhões de anos e de resto de estrelas estão todos contidos aí nessa folha na sua mão. O que você diria se essa folha dissesse: “Eu sou um guardanapo separado”? Você não diria para esse guardanapo, para esse carbono que ele está enganado? Claro que diria, no entanto olhando para sua mão você pode dizer que ela é predominantemente carbono. É tão evidente que estamos mergulhados em uma ilusão, o simples fato de você estar vivo e dizer “eu sou” é uma grande ilusão. É um sonho. Eu sou um ser de sonho falando para seres de sonho. Se acordarmos veremos que é tudo igual, mas tudo diferente. “Antes de estudar o Zen, pensava que as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Quando comecei a estudar o Zen percebi que as montanhas não são montanhas e os rios não são rios. Agora que despertei, as montanhas são montanhas e rios são rios”, essa é uma famosa história Zen. São as mesmas montanhas e os mesmo rios, só que é tudo diferente. Por isso os mestres Zen dão tantas risadas. Em um diálogo com Shariputra, um homem da Escola de Zoroastro, que acreditava num Deus único e criador do universo, diz à Shariputra, “Nós temos a verdade e acreditamos em um Deus único”, então Shariputra ri e responde: “Ah, temos muito de deuses únicos aqui na Índia também”. (Gore Vidal)

Os homens criam muitas histórias para acreditar, todas são ilusórias. As crenças são ilusões, quando você chega no Budismo ele não lhe oferece nada em que crer ou algo do tipo, acredite no que o professor está dizendo. O Budismo é experiencial. Teste e experimente, se funciona pra você é bom se não funciona, desista. Se você não gosta do professor porque ele é muito desagradável dizendo coisas desoladoras, pode ir embora. O Budismo não faz força para atrair pessoas, mais ainda, costuma dizer coisas para as pessoas irem embora. O Zen Budismo é para despertar, não para acreditar. Uma pergunta que sempre surge é: “Em que que o Budismo acredita?”, a resposta, não sei, isso é problema seu que acha que é preciso alguma crença.

Sempre conto essa historinha ilustrativa, se vem alguém na Sangha dizendo que acredita em homenzinhos verdes de uma galáxia distante, não há problema algum nisso, podem sentar e meditar. Agora, se os homenzinhos falarem com você então o caso é grave e é melhor procurar tratamento. O zen tem sempre muitas histórias. Conta-se uma história de um monge que sentado em meditação dizia estar vendo os discípulos de Buda em seu redor cantando mantras. O mestre então mandou que os outros monges lhe dessem um banho de água gelada e dessa forma resolveu o problema.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Onde fica o Vazio?



Pergunta – Levando isso em consideração, seria a morte uma libertação?

Monge Genshô – Nem uma libertação nem uma não libertação. A morte é tão somente um evento inerente a vida, tudo que nasce morre.

Pergunta – Então o que sobra após a morte é...

Monge Genshô – O que sobra o que? Do que? O que sobra do redemoinho quando cessam as energias que o colocaram em movimento? Onde está o eixo do redemoinho quando ele para? Esta em toda a parte na atmosfera. Está tudo na atmosfera, nada foi embora, tudo está no mesmo lugar, somente o movimento daquele momento que cessou. Mas a atmosfera está ali livre para produzir novos redemoinhos.

Pergunta - No sutras se fala que forma é vazio e vazio é forma. Eu entendo como forma todas as manifestações que teriam como origem e destino o vazio...

Monge Genshô – Não, não existe destinação no vazio. Todos os seres e todas as coisas, tudo, tem uma forma, mas nem um deles tem um “eu” inerente, todos são interdependentes, interligados e interconectados. Isto é a vacuidade. A vacuidade não é uma coisa, não é um algo, não é um substrato que sustenta o universo e tão pouco um Deus. Quer continuar a pergunta?

Pergunta – Agora complicou um pouco...Mas por exemplo, prosseguindo minha linha de raciocínio, o cabide de madeira, a destinação dele é a extinção do “ser” cabide, pois a madeira irá se extinguir através de fogo ou cupim. Minha pergunta é, esse vazio seria um estado de não-ser...

Monge Genshô – O vazio não é um estado de não-ser. O vazio é o fato de que todas as coisas tem a mesma característica ou qualidade de serem interligadas e interdependentes, e nenhuma delas ter um “eu” em si mesmas, ou seja, inerente. Assim como o redemoinho é um movimento do vento e não existe por si mesmo, nós não existimos por nós mesmos, somos um movimento da vida, cada um de nós é como uma onda ou pé de vento. Somos um movimento no vazio. Vazio de que? De um “eu”. Se você tirar a forma não existe vazio, porquê o vazio se manifesta como forma. Imagine o mar com suas ondas e você passar uma lâmina e tirar todas as ondas de cima do mar, o que sobra? A água, certo? Mas se no momento seguinte você olhar novamente o que surgirá? Novas ondas. Porque o mar só se manifesta desta forma, com ondas. A vacuidade só se manifesta como forma. Você não pode tirar a forma e então restar a vacuidade.

Pergunta – E onde fica o vazio?

Monge Genhô – O vazio não fica. Ele é todas as formas. Onde fica o mar? Não é onde ficam as ondas? Dá para separar as ondas do mar? Quanto mais ondas você tirar mais ondas surgirão.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Treinando a mente no retiro

            Final de refeição em retiro na Sangha Zen de Florianópolis  SC   Morro das Pedras.


Pergunta – Qual o problema do erro? Existe, de fato, problema em cometer erros?

Monge Genshô – Os erros acontecerão, isso não é importante. Por exemplo, eu chamo o Jisha e lhe digo: “O altar de Buda está sujo”. Ele estará errado se disser, para se desculpar: “Pois então, o pessoal da limpeza não veio ontem e hoje o encarregado faltou”. Se o altar de Buda está sujo, ele deve pegar um pano e limpá-lo rapidamente, sem desculpas ou questionamentos. A atitude correta é essa, sendo incabível tentar encontrar o encarregado ou responsável que não exerceu corretamente sua função. Não perguntamos quem quebrou o vaso, juntamos os cacos e varremos o chão. Perguntar ou procurar pelo culpado é enaltecer o ego, que é separação. (O culpado está lá o certo sou eu que estou aqui, sou superior...etc...)

Pergunta - Uma das coisas que a gente percebe em qualquer individuo é o surgimento de uma certa vaidade. Assim como na mente de zazen surge o pensamento, pode surgir a culpa?

Monge Genshô – Como pode haver culpa se somos todos uma unidade? Se alguém se mexe no zazen, quem está se mexendo? Suponhamos vinte pessoas na sala e uma que se mexe: quem está se mexendo? Todos. A Sangha está se mexendo. A Sangha não está imóvel. Não é aquela pessoa que não está imóvel, é a Sangha. É essa a visão. Não há culpa ou não culpa, simplesmente, está acontecendo, é essa a visão que temos que entender. Você vai para um sesshin e alguém deseja algum cargo, alguma função. Não deve existir o desejo por alguma coisa. Se alguém receber alguma incumbência, deverá cumpri-la; se não receber função alguma, não deve sentir-se sensibilizado por isso, pois essa é  demonstração de ego. Temos que atentar para o fato de que cada um deve cuidar de si mesmo. É isso que está sendo visto. Vocês percebem que isso é diferente do que vemos no mundo, onde todos querem se destacar e ter sucesso. Na Sangha não pode haver o desejo de destacar-se. Há um ditado japonês, que provavelmente veio do zen, que diz: “Um prego que se destaca será martelado”. E se não se destaca? Ótimo. Ele está no mesmo nível de todos os pregos, não está fazendo nada para tornar-se diferente, está executando exata e tão somente sua função, que é segurar a madeira. As regras são essas, não se justifique, não explique, não compare.

Comentário – Eu faço muito isso Monge, o tempo todo. Há coisas com as quais as pessoas não se importam e eu gostaria que elas se importassem, pois gostaria de ter seu reconhecimento, gostaria que elas vissem que ajo ou faço algo corretamente.

Monge Genshô – Mas se você percebe, isso já é uma grande coisa, porque fazemos coisas erradas o tempo todo; eu faço muitas coisas erradas. É impossível ser perfeito. Mas temos que saber de onde vem, por que e como agir nestas situações, e pedir desculpas, porque não é isso que as pessoas estão acostumadas a fazer, as pessoas estão acostumadas a se justificar, a se defender. Dizem: “imagina, não fui eu, aliás, isso aconteceu porque Fulano fez tal coisa”. As três palavras no treinamento zen dos monges noviços são: sim, desculpe, obrigado.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O EU separado de tudo




Poucos dias atrás eu vi um vídeo com um pequeno trecho de uma palestra de Thich Nhât Hanh. Vou reproduzir as idéias que ele expôs. É um vídeo bem curto.

Naquela pequena aula ele disse: “Minha mão direita escreve poemas. Minha mão esquerda não escreve poemas. No entanto, minha mão direita não menospreza nem diminui a mão esquerda dizendo: “Eu sou melhor que você”. Ela não tem complexo de superioridade com relação à mão esquerda. Nem a mão esquerda tem complexo de inferioridade com relação a minha mão direita. Há algum tempo eu estava pregando um prego na parede, e bati com o martelo no dedo da mão esquerda. Imediatamente, as duas largaram o que estavam fazendo e a mão direita segurou a mão esquerda para cuidar dela carinhosamente. Minha mão direita não disse: “Estou cuidando de você agora que você esta machucada, lembre-se, no futuro se acontecer alguma coisa você cuida de mim, não seja mal agradecida”. Minha mão esquerda não disse: “Você me feriu, dê-me o martelo, eu quero vingança”. Porque minha mão direita e minha mão esquerda, se sentem unas. Sentem-se em uma unidade. Sentem-se uma junto à outra em tudo. Não sentem inveja, nem sentimentos de cobrança, nem sentimentos de vingança, nem superioridade nem inferioridade.”

Nós somos, na verdade, mãos da grande unidade de todos os seres. E quando nos sentimos melhores ou piores, ou queremos justiça, ou compensações, é porque nós não vemos isso, porque começamos a ver a noção de eu dentro da mão. Se a mão direita sentisse “eu sou”, ela teria esses sentimentos. O mesmo ocorreria se a mão esquerda tivesse esse sentimento de “Eu sou, eu sou separada” – elas são separadas, não são? Fisicamente são separadas, mas não existe o sentimento “eu sou separada”. Por isso uma cuida da outra, não pedem compensação, por isso uma não pede vingança à outra. O que existe nas nossas duas mãos, é uma noção dentro da nossa mente de unidade; ambas se referem à mesma mente, ambas se comunicam com a mesma mente e por isso não se sentem separadas, embora o estejam fisicamente.

 Mas nós aqui nos sentimos realmente separados. Não sentimos que pertencemos a uma grande unidade. Sentimo-nos sós. Quantas vezes vocês já ouviram a frase “é possível estar sozinho dentro de uma multidão”? Na verdade, a iluminação significa o abandono de todo eu, então é impossível estar só daí em diante. É impossível sentir solidão. É impossível ter quaisquer desses sentimentos de que estávamos falando antes - superioridade, inferioridade, vingança, justiça. Qualquer coisa assim é impossível se houver percepção da nossa verdadeira natureza. Numa palestra, há algum tempo, eu disse que o eu possui ganchos, ganchos nos quais nós penduramos coisas - conceitos, nomes, cargos, títulos, noções de superioridade, inferioridade, raça, espécie. Eu sou homem, os outros seres não são homens. Aqueles que não são homens eu posso matar, não tem importância, eles não são da minha espécie.
(continua)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A vida é que nos vive




(Cont.)

De modo que Maha Prajna Paramita significa
que a sabedoria se revelou agora,
não apenas como você, mas como toda a vida,
de tudo.
E nós a estamos vivendo!
E nós somos vividos por ela!
Isso é o que significa mahaprajnaparamita,
e é isso o que o Bodisatva Avalokiteshvara faz.


Neste trecho, há um conceito que originalmente em língua japonesa parece mais claro, que faz mais sentido. Na tradução para o português, assim como para o inglês não faz o mesmo sentido. A pergunta é: nós estamos vivendo ou é a vida que está nos vivendo? De certa maneira nós estamos vivendo, mas de outra maneira mais ampla a vida inteira está nos vivendo. Nós somos apenas parte da vida. Nós é que pensamos que somos especiais, indivíduos que precisam se iluminar para ver as coisas tais como são. Se vocês olharem pela janela e perguntarem, mas e esta árvore ali fora no meio de toda esta floresta ela precisa se iluminar? Não, ela não cogita, não pensa. Ela vive naturalmente. Como ela vive naturalmente nem teme a morte. Ela partilha a existência dela com a floresta. Ela não é indivíduo. É a própria floresta. Quando ela morre dela nascem outras árvores. Ela aduba o solo. Coisas assim acontecem. 
A floresta é que é o ser, o grande ser e as árvores em si nascendo e morrendo não tem muita importância. Existe um equilíbrio nisso. Nós conseguimos entender isso olhando para a floresta. Nós temos enorme dificuldade para entender olhando para os seres humanos. Quando morre um ser humano nós choramos ou nos entristecemos. Quando nascem nos alegramos, é assim porque nós vemos todos os seres humanos como indivíduos, porque olhamos para nós como separados. Se nós apagássemos esta noção de que somos indivíduos separados, e nos sentíssemos a humanidade, ou mais do que a humanidade, os seres sencientes, ou mais do que os seres sencientes, nos sentíssemos como - a vida; nascimento e morte não teriam mais importância. Por não conseguirmos enxergar assim é que tememos a morte, por isso nós sofremos, ficamos na margem de cá, porque a margem de lá seria a percepção com sabedoria de Prajna Paramita. A percepção da outra margem não tem essas angústias. Porque ela também não tem mais a noção de um eu. Budismo parece muito complicado. Falamos muito, ensinamos muito sobre muitos aspectos filosóficos, mas se nós fossemos resumir o budismo seria com isso – não há um eu. Não há um eu intrínseco a coisa alguma. Se nós conseguíssemos desconstruir esse eu particular tudo estaria resolvido. (Comentário de Monge Genshô)