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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Samsara é o mundo das comparações




Monge Genshô: Uma vez eu fui a Mônaco, um lugar onde moram  pessoas muito ricas diferentes de um viajante economizando, no porto havia um iate de 20 metros. Aqui, um iate de 20 metros é de um milionário, o sujeito tem um iate sensacional, mas ali em Mônaco não é nada porque do lado tem um de 100 metros,  tem quase transatlânticos de Sheiks Árabes, alguém gastou uma fortuna enorme para mostrar para os outros bilionários. Então para ser mais sensacional que o outro, manda colocar torneiras de ouro nos banheiros ou qualquer coisa assim. Este é o mundo do samsara, de comparações, ele não cessa e as pessoas que baseiam suas vidas nisso sempre são insatisfeitas, o mundo do samsara é um mundo de insatisfação.

Agora o nirvana é o local sem paixões, sem ventos, não tem mais o vento de uma paixão ou de uma ambição movendo você, então aquilo que você tem  já é maravilhoso. (continua)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Bem e mal, bom e ruim, visões duais




Aluno: Ao se tornar um buda simplesmente a onda cármica deixa de existir?

Monge Genshô: Não tem força suficiente para uma nova manifestação.

Aluno: Seria bom construir “carma bom” e diminuir a força da onda até que se elimine?

Monge Genshô: Depende do que você está falando como bom. Por exemplo, você tem um carma bom de generosidade. Isso produz tradicionalmente vipaka, um fruto de facilidade em obter coisas, elas vêm facilmente para você. Como você sempre foi generoso, outras pessoas são generosas com você. Isso retorna. Isso é um carma bom? É, em um certo sentido, mas no sentido de aprisionamento, continua aprisionando você aqui. Na realidade, extinguir o carma é uma tarefa mais profunda, muito mais profunda. Tem que ser generoso, sem que a outra pessoa saiba da sua generosidade. Aí sim a probabilidade de retorno é muito menor. Não estou dizendo que o agradecimento foi ruim, foi bom.

Temos que distinguir bem isso. Existe o bem e o mal. Mas isso é uma visão dual. Há o bem e há o mal, isso é visão dualista, pois na realidade estão misturados. Pois quando você diz  - bom e ruim -  esse bom e ruim também são julgamentos comparativos. Como julgamentos de comparação eles também vivem dentro da dualidade. E a dualidade pode ser um excelente instrumento da nossa linguagem e muito bom do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista de compreensão espiritual, bem e mal são pares de opostos que nos levam à discriminação, conceituação, julgamento e nos amarram à pensamentos dualistas. É portanto um pensamento instrumental,  típico da linguagem, mas não um pensamento de compreensão absoluta.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O mundo da perambulação


(Palestra em Goiânia)
Tathagata,  é um dos nomes de Buda. Significa aquele que assim como vai, assim ele vem. Isso tem um significado para nós meditarmos, porque nós vivemos em mundos de perambulação, em que estamos continuamente alterando a nós mesmos. Nós mesmos nos alteramos internamente e os mundos em volta se alteram junto conosco. Chamamos o perambular, o mundo da perambulação de samsara, o mundo do samsara.

O que caracteriza o mundo do samsara é a procura incessante. Nós queremos achar algo que nos falte. Na verdade, nós todos estamos aqui porque vivemos no mundo do samsara, senão, não iríamos ouvir uma palestra. Se tudo estivesse perfeito, completamente perfeito, não tinha porque ouvir uma palestra. Temos que nos conscientizar – ah, eu vivo no mundo da perambulação. Nós perambulamos procurando felicidades, vamos a uma banca de revista e vemos a revista dos “felizes”.  As pessoas vão lá, lêem esse tipo de revista sobre famosos, que têm dinheiro, vivem em ilhas, têm iates ou qualquer coisa assim, achando que a felicidade é alcançada através da prosperidade, que vão alcançar a felicidade através de ter coisas. Mas isto é o próprio mundo do Samsara. Perambulo atrás de uma coisa a mais. Aquela coisa que vejo não é suficiente. Então procuro aquela outra coisa.

Qualquer pessoa que está nesse mundo de perambulação olha em volta e se compara com os que estão em volta. Os que estão na favela olham em volta e vêem os outros da favela. E ele vai se sentir próspero, vai se sentir melhor se tiver mais do que o vizinho. Então compra uma televisão melhor do que a do outro, assim então ele acha que se destacou do grupo. Só que se ele continua crescendo e sai da favela, tem outro grupo, outro grupo e outro grupo.

Uma vez tive a oportunidade de passar em Mônaco. Mônaco tem um porto e nesse porto estão estacionados iates. Mas quem tem um iate de 15 metros é um pobretão, coitado dele. O cara não é ninguém, tem apenas um iate de 15 metros. Ao lado há um iate de um sheik de 150 metros, 3 vezes maior, muito mais alto, com torneiras de ouro. Ele se vê pequeno no mundo da comparação. Então o que acontece quando vemos essas revistas por onde comecei, é que as pessoas olham para a revista para se comparar. Elas olham e vêem a comparação. Olham e imaginam que existe um outro mundo. Um mundo mais abundante do que o seu mundo próprio. E atrás de coisas materiais as pessoas fazem isso. Mas as pessoas fazem isso em outras áreas também.

As pessoas dizem - ah se eu tivesse um amor. A pessoa perambula de amor em amor. Este amor não deu certo, esse não é suficiente, essa pessoa não tem tudo que eu queria. Tem falhas nessa pessoa. Aí ela vai  para outra, outra pessoa, outra pessoa. Isto é também um perambular. Perambula achando que logo a seguir vai achar. É como se andasse sem rumo num mundo de um lado para o outro, procurando algo que fosse, enfim, o satisfatório. Agora o que o mundo do samsara ensina para nós é que não existe na verdade o satisfatório. Foi isso que Buda ensinou. Essa é a primeira nobre verdade, não existe o satisfatório. O satisfatório é inalcançável, pois a característica da vida é Dukkha, é ser insatisfatória. (continua)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Treinando a mente no retiro

            Final de refeição em retiro na Sangha Zen de Florianópolis  SC   Morro das Pedras.


Pergunta – Qual o problema do erro? Existe, de fato, problema em cometer erros?

Monge Genshô – Os erros acontecerão, isso não é importante. Por exemplo, eu chamo o Jisha e lhe digo: “O altar de Buda está sujo”. Ele estará errado se disser, para se desculpar: “Pois então, o pessoal da limpeza não veio ontem e hoje o encarregado faltou”. Se o altar de Buda está sujo, ele deve pegar um pano e limpá-lo rapidamente, sem desculpas ou questionamentos. A atitude correta é essa, sendo incabível tentar encontrar o encarregado ou responsável que não exerceu corretamente sua função. Não perguntamos quem quebrou o vaso, juntamos os cacos e varremos o chão. Perguntar ou procurar pelo culpado é enaltecer o ego, que é separação. (O culpado está lá o certo sou eu que estou aqui, sou superior...etc...)

Pergunta - Uma das coisas que a gente percebe em qualquer individuo é o surgimento de uma certa vaidade. Assim como na mente de zazen surge o pensamento, pode surgir a culpa?

Monge Genshô – Como pode haver culpa se somos todos uma unidade? Se alguém se mexe no zazen, quem está se mexendo? Suponhamos vinte pessoas na sala e uma que se mexe: quem está se mexendo? Todos. A Sangha está se mexendo. A Sangha não está imóvel. Não é aquela pessoa que não está imóvel, é a Sangha. É essa a visão. Não há culpa ou não culpa, simplesmente, está acontecendo, é essa a visão que temos que entender. Você vai para um sesshin e alguém deseja algum cargo, alguma função. Não deve existir o desejo por alguma coisa. Se alguém receber alguma incumbência, deverá cumpri-la; se não receber função alguma, não deve sentir-se sensibilizado por isso, pois essa é  demonstração de ego. Temos que atentar para o fato de que cada um deve cuidar de si mesmo. É isso que está sendo visto. Vocês percebem que isso é diferente do que vemos no mundo, onde todos querem se destacar e ter sucesso. Na Sangha não pode haver o desejo de destacar-se. Há um ditado japonês, que provavelmente veio do zen, que diz: “Um prego que se destaca será martelado”. E se não se destaca? Ótimo. Ele está no mesmo nível de todos os pregos, não está fazendo nada para tornar-se diferente, está executando exata e tão somente sua função, que é segurar a madeira. As regras são essas, não se justifique, não explique, não compare.

Comentário – Eu faço muito isso Monge, o tempo todo. Há coisas com as quais as pessoas não se importam e eu gostaria que elas se importassem, pois gostaria de ter seu reconhecimento, gostaria que elas vissem que ajo ou faço algo corretamente.

Monge Genshô – Mas se você percebe, isso já é uma grande coisa, porque fazemos coisas erradas o tempo todo; eu faço muitas coisas erradas. É impossível ser perfeito. Mas temos que saber de onde vem, por que e como agir nestas situações, e pedir desculpas, porque não é isso que as pessoas estão acostumadas a fazer, as pessoas estão acostumadas a se justificar, a se defender. Dizem: “imagina, não fui eu, aliás, isso aconteceu porque Fulano fez tal coisa”. As três palavras no treinamento zen dos monges noviços são: sim, desculpe, obrigado.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Apenas juntamos os cacos


Pergunta – Qual o problema do erro? Existe, de fato, problema em cometer erros?

Monge Genshô – Os erros acontecerão, isso não é importante. Por exemplo, eu chamo o Jisha e lhe digo: “O altar de Buda está sujo”. Ele estará errado se disser, para se desculpar: “Pois então, o pessoal da limpeza não veio ontem e hoje o encarregado faltou”. Se o altar de Buda está sujo, ele deve pegar um pano e limpá-lo rapidamente, sem desculpas ou questionamentos. A atitude correta é essa, sendo incabível tentar encontrar o encarregado ou responsável que não exerceu corretamente sua função. Não perguntamos quem quebrou o vaso, juntamos os cacos e varremos o chão. Perguntar ou procurar pelo culpado é enaltecer o ego, que é separação.

Pergunta - Uma das coisas que a gente percebe em qualquer individuo é o surgimento de uma certa vaidade. Assim como na mente de zazen surge o pensamento, pode surgir a culpa?

Monge Genshô – Como pode haver culpa se somos todos uma unidade? Se alguém se mexe no zazen, quem está se mexendo? Suponhamos vinte pessoas na sala e uma que se mexe: quem está se mexendo? Todos. A Sangha está se mexendo. A Sangha não está imóvel. Não é aquela pessoa que não está imóvel, é a Sangha. É essa a visão. Não há culpa ou não culpa, simplesmente, está acontecendo, é essa a visão que temos que entender. Você vai para um sesshin e alguém deseja algum cargo, alguma função. Não deve existir o desejo por alguma coisa. Se alguém receber alguma incumbência, deverá cumpri-la; se não receber função alguma, não deve sentir-se sensibilizado por isso, pois essa é a pior demonstração de ego. Temos que atentar para o fato de que cada um deve cuidar de si mesmo. É isso que está sendo visto. Vocês percebem que isso é diferente do que vemos no mundo, onde todos querem se destacar e ter sucesso. Na Sangha não pode haver o desejo de destacar-se. Há um ditado japonês, que provavelmente veio do zen, que diz: “Um prego que se destaca será martelado”. E se não se destaca? Ótimo. Ele está no mesmo nível de todos os pregos, não está fazendo nada para tornar-se diferente, está executando exata e tão somente sua função, que é segurar a madeira. As regras são essas, não se justifique, não explique, não compare.