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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Poucos Continuam no Zen



Nós dizemos aos monges quando entram nos mosteiros que quando se entra é noviço, e o que o noviço tem que fazer é calar a boca e limpar o chão: “está aqui o pano, limpe o chão e cale sua boca. Só faça, esse é seu treinamento, você é zero aqui dentro”. Um instrutor disse-me num mosteiro: “você é o último da cadeia alimentar aqui”. Eu respondi: “Sim, senhor! Hai!”. 

Isso é muito importante, pois se você aprender a ser nada, você entrou no caminho. Enquanto você estiver pensando na sua importância, em como vai ser respeitado, enquanto você pensar na sua opinião, você terá um grande problema. Um aluno escreveu-me: “na minha opinião, isso, e isso e isso”, e eu respondi: “é por isso que existem senseis e noviços. Você é noviço e sua opinião não conta”. Então ele entendeu e disse: “hai, Sensei, eu sou só um noviço”. E é assim que tem que ser, ou então desista, porque no Zen é mais ou menos como no filme tropa de elite: pede para sair!

No Zen é bem assim, é tudo feito para desistir. Então são poucos que vão continuar, mas é isso mesmo que os mestres querem. Não é a tradição do Zen fazer força para conquistar muitos alunos. A tradição do Zen é a que vem de Bodhidharma, 600 d.C., que ficou nove anos dentro de uma caverna, e todas as pessoas que chegavam até ele pediam para serem seus alunos e ele nem dava atenção, até que Taiso Eka foi lá e ficou 3 dias na frente da caverna sem comer e nem beber. Na terceira noite nevou e a neve cobriu os pés de Taiso Eka. Ele ficou desesperado e cortou o braço. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma achou que ele estava ali a sério, foi lá e perguntou:

-                     “Muito bem, o que você quer?
-                      “Minha alma não tem paz, por favor, pacifica minha alma.”
-                     “Mostra-me tua alma, e eu a pacificarei.”
-                     “Não consigo.”
-                     “Pronto, já pacifiquei tua alma”


E nesse momento Taiso Eka viu todas as suas ilusões desmoronarem e despertou, e Bodhidharma o aceitou como seu discípulo

Nove anos para aceitar um discípulo. E no Zen é assim mesmo. O meu Mestre, 40 anos trabalhando como monge, um dos mais importantes Mestres do mundo, hoje é superior geral da América do Sul inteira, e ele na sua vida só aceitou seis discípulos. Eu vou fazer 70 anos e ainda não tenho nenhum. Se não conseguir, a minha linhagem pessoal morre. Essa é a tradição Zen: muitas linhagens morreram, porque você precisa de um aluno com uma iluminação para continuar a transmitir o Dharma

Por tudo isso nossas salas são pequenas.

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei] 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

SOMOS TODOS UM

É claro que isso aqui é o ensinamento do Dharma, a própria teoria da prática que é extremamente difícil, porque inevitavelmente as pessoas abrem suas bocas e começam a falar, a dizer o que pensam e o que acham. Isso nós vemos constantemente nas redes sociais não é?

Todo mundo tem uma opinião, todo mundo acha que sabe, todo mundo quer ensinar aos professores. Mas não fazem perguntas, já saem dizendo o que pensam. E esse é o grande problema da quantidade de atritos que nos temos no mundo.

Porque não se pensa longamente, se sai tendo uma opinião e depois que alguém manifestou uma opinião, tem que defender aquela opinião com unhas e dentes porque é a “minha” opinião. No fundo isso é produto do eu. Eu tenho a “minha” opinião.

Enquanto você não se esquecer desse “eu”, de mim mesmo, você não cresceu, porque você está separado, não consegue ver os outros seres como seus seres, seres iguais a você, no fundo, você mesmo, a quem você tem que amar indistintamente e tem que procurar achar a semente do bem dentro de todos.

Por isso o voto do Bodhisattva no fim do zazen é sempre: “Os seres são inumeráveis eu faço votos de libertá-los todos”. 

Se você faz esse voto é porque você acredita que cada um dos seres, mesmo o pior deles, tem a semente búdica dentro de si, ou seja, pode se libertar. Ele tem condição de se libertar. Não existe aquele ser para ser condenado eternamente, recusado eternamente, não existe. Se você não for capaz de tentar estender a mão a todos os seres, então você está descumprindo o primeiro voto do Bodhisattva.