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sábado, 1 de abril de 2017

Buda era budista?



Podemos responder esta questão de duas formas:

1) Buda ensinou um caminho além dos extremos, sem comprometer-se com as palavras nem afirmar um conhecimento absoluto sobre todas as coisas, para várias questões alegou desimportância em considera-las. Não disse que revelava ou era um mensageiro de uma divindade ou que tinha em mente uma organização perfeita para difundir seu ensinamento. Alegou ser um ser de sonho ensinando para seres oníricos e enfatizou continuamente a relatividade das palavras, colocando em dúvida a capacidade destas de transmitir uma experiência não transmissível.

2) O mesmo Shakyamuni Buda, estabeleceu um corpo minucioso de regras para a comunidade dos monges e sua relação com os leigos. Ordenou os monges através de rituais colocando neles vestes especiais, o manto budista. Ensinava tendo em mente hierarquia entre a assembléia, colocando os mais antigos em uma posição e os mais novos em outra. Estabeleceu portanto rituais e um corpo canônico de regras de comportamento. Estruturou um processo de ensino em passos cuidadosamente graduados. Deu autoridade a discípulos mais destacados e reconheceu a realização espiritual dos que a atingiam. Criou portanto uma instituição muito bem estruturada, cujo arcabouço permanece sendo usado mais de dois milênios mais tarde por diferentes escolas budistas, as quais o vem adaptando a diferentes países e culturas.

Assim podemos concluir, somando ambas as afirmações, que, do ponto de vista doutrinário, Buda ensinou muito além de meras organizações mundanas. Porem para atingir seus objetivos estabeleceu sim uma organização religiosa e foi seu líder durante décadas. Desta forma Buda ensinou algo muito elevado mas simultaneamente, foi, sem dúvida alguma, o primeiro e o maior dos líderes budistas, o fundador original de um sistema de transmissão de seu ensinamento.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Por quê ordenações oficiais no zen? Perguntas


P: Por quê ordenações oficiais?

R: Porque desde os tempos de Buddha há regras para as ordenações, elas incluem concordância das famílias dos noviços jovens,raspar a cabeça para mulheres e homens, presença de monges testemunhas, ordenação por alguém que foi por sua vez devidamente ordenado e galgou o reconhecimento formal da instituição e de um mestre como realizado espiritualmente. Se uma pessoa, sem este reconhecimento ligado a uma linhagem sólida, faz ordenações, ou se são feitas fora das regras criadas por Buddha, elas simplesmente não são a continuação da linhagem de Buddha e portanto são inválidas.
Para entender melhor imagine encontrar um padre que clame ser um sacerdote católico, mas que você descobre não ter cursado o seminário, não ter sido ordenado por um bispo, não ser reconhecido nem registrado dentro da Igreja Católica, você o tomaria como um sacerdote legítimo?

P: Mas ouvi dizer que Buddha não criou uma religião organizada, que nunca foi buddhista, coisas assim!

R:Isto é desconhecimento dos próprios sutras buddhistas, eles contam detalhadamente que Buddha organizou seus discípulos com regras claras,( o Vinaya), estabeleceu uma extensa regulamentação, criou hierarquia entre seus discípulos, regras de subordinação, vestimentas distintivas, etc... tudo o que identificamos como uma religião organizada.

P: Como o senhor acha que ordenações irregulares, organizações paralelas, professores auto nomeados, serão problemas superados no futuro?

R: Isto não é novidade na história buddhista, já aconteceu no passado muitas vezes, as organizações paralelas tendem a enfraquecer com o tempo pois não tem raízes sólidas. Passados os séculos mal temos referências sobre suas existências, só as ordens oficiais e organizadas sobreviveram. No Brasil, e eu mesmo passei por esta experiência, pois fui ordenado sem registro inicialmente, monges nesta situação que tinham grupos de prática começaram a procurar registro, reconhecimento oficial e ordenações válidas, isto acabará ocorrendo no restante da América do Sul. Sempre que merecido a organização central os acolheu e regularizou a situação. Isto provê a estes religiosos a oportunidade de treinar e progredir além da situação de noviços (Jôza), dá a eles a oportunidade de viajar pelo mundo nas diferentes sedes da Soto Zen Shu, receber apoio em seu trabalho, ascender recebendo novas graduações e mesmo chegar a transmissão da luz, oficial, e vestir digna e corretamente o manto amarelo dos monges plenos (Osho).

P: Mas isto não faz da Soto Zen Shu a "Igreja" do zen?

R: Voltamos a questão inicial, as instituições tem defeitos e inevitavelmente são feitas de homens imperfeitos, porem elas é que realmente preservaram os ensinamentos e conseguiram passa-los adiante. As organizações paralelas independentes tendem a cair em lutas internas por poder, mal crescem um pouco, por esta razão não sobrevivem, falta-lhes a força da linhagem. A Soto Zen Shu,que traça sua linhagem de mestres desde Shakyamuni Buddha, não por acaso, há quase 800 anos sobrevive e criou universidades, centros, mosteiros, são 14 000 templos oficiais, e espalhou o ensinamento zen pelo mundo, sua plêiade de grandes mestres é impressionante, os descaminhos tiveram oportunidade de ser elaborados por uma forte crítica interna que está bem viva nos dias de hoje, esta vitalidade é a seiva da qual podemos todos nos nutrir para preservar o Dharma de Buddha.