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segunda-feira, 18 de junho de 2018

É Possível Mudar



Há uma história de um monge, amigo meu, que foi assaltado e a esposa perdeu o filho na ocasião. Nunca mais tiveram filhos. Depois do acontecimento ele disse: “que bom que eu não tinha uma espada”, porque ele seria um assassino naquela hora, se tivesse esse recurso. Então, numa sociedade como a nossa há um enorme desperdício e pobreza por causa dessa cultura, da falta do agradecimento e do respeito ao outro. 

Esses princípios foram impregnados na cultura japonesa através dos séculos pelo budismo. Os livros mostram que antigamente havia muitos assaltantes nas estradas japonesas, lá era um país cheio de guerras civis, e agora tudo mudou. Portanto, se eles mudaram, nós podemos mudar também, mas para isso precisamos pensar de outra forma, enxergar esses mitos ancestrais que nos prejudicam e colocar outros valores na sociedade.

As crianças são uma grande chave para essa transformação: se nós as ensinarmos, teremos uma geração nova, capaz de pensar diferente. Esses ensinamentos de Buda, essa maneira de ver de Buda, criou sociedades muito pacíficas.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Virtude, Compaixão e Não-Dualidade



Quando nós chegamos num segundo nível de ensinamento, os preceitos se mantêm, mas ensinamos que é claro que não se deve enganar ninguém, a não ser que seja um momento em que isso tenha um valor maior, como perceber que é melhor dizer: “Kyo Hô saiu daqui, não está” do que dizer a verdade e o algoz encontrá-la e matá-la. Então você mente. Mas existe um terceiro nível, um nível mais alto, exemplificado por aquela história de um Mestre que estava em seu templo, a cidade tinha sido invadida e entrou um soldado com a espada suja de sangue e pergunta a ele que permanece sentado calmamente: “você não vê que posso matá-lo neste instante?” e o Monge levanta os olhos para ele e diz: “e você não vê que eu posso morrer neste instante?”. Para ele tanto fazia viver ou morrer, tudo é fluxo, não existe ir nem vir. Esse é um nível de compreensão absoluta.

A resposta é que a 4ª Nobre Verdade aponta para os preceitos, para a virtude, e temos três níveis: virtude, compaixão e não dualidade. Na não dualidade não existe nem de quem se compadecer. O sofrimento do outro é o seu sofrimento. Nesse estágio não existe a ideia de compadecer-se e é perfeitamente lógico e legítimo que você se ofereça para morrer no lugar de outra pessoa, porque para você não há essa diferenciação. Se o assassino chega e pergunta quem é Kyo Hô, eu digo: “sou eu”. Ele me mata e pronto, está resolvida a sua missão. Temos que manter esses níveis de ensinamento em mente quando estivermos lendo.

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

sábado, 1 de abril de 2017

Buda era budista?



Podemos responder esta questão de duas formas:

1) Buda ensinou um caminho além dos extremos, sem comprometer-se com as palavras nem afirmar um conhecimento absoluto sobre todas as coisas, para várias questões alegou desimportância em considera-las. Não disse que revelava ou era um mensageiro de uma divindade ou que tinha em mente uma organização perfeita para difundir seu ensinamento. Alegou ser um ser de sonho ensinando para seres oníricos e enfatizou continuamente a relatividade das palavras, colocando em dúvida a capacidade destas de transmitir uma experiência não transmissível.

2) O mesmo Shakyamuni Buda, estabeleceu um corpo minucioso de regras para a comunidade dos monges e sua relação com os leigos. Ordenou os monges através de rituais colocando neles vestes especiais, o manto budista. Ensinava tendo em mente hierarquia entre a assembléia, colocando os mais antigos em uma posição e os mais novos em outra. Estabeleceu portanto rituais e um corpo canônico de regras de comportamento. Estruturou um processo de ensino em passos cuidadosamente graduados. Deu autoridade a discípulos mais destacados e reconheceu a realização espiritual dos que a atingiam. Criou portanto uma instituição muito bem estruturada, cujo arcabouço permanece sendo usado mais de dois milênios mais tarde por diferentes escolas budistas, as quais o vem adaptando a diferentes países e culturas.

Assim podemos concluir, somando ambas as afirmações, que, do ponto de vista doutrinário, Buda ensinou muito além de meras organizações mundanas. Porem para atingir seus objetivos estabeleceu sim uma organização religiosa e foi seu líder durante décadas. Desta forma Buda ensinou algo muito elevado mas simultaneamente, foi, sem dúvida alguma, o primeiro e o maior dos líderes budistas, o fundador original de um sistema de transmissão de seu ensinamento.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O treinamento ideal ocorre além das palavras

(Continuação) Voltando à questão dos rituais: você faz oryoki, mas por que faz isso dessa forma? Por que são três tigelas? Por que abrir a aba primeiro para frente? Quando eu abro para frente eu devo pensar: primeiro os outros, depois eu. Cada pequeno detalhe do ritual está cheio de ensinamentos, mas os ensinamentos devem ser compreendidos idealmente através de insights e não através de explicações. Agora que eu expliquei isso, o insight para vocês está perdido, então eu fiz algo que o Mestre não deve fazer, porque o aluno tem que descobrir sozinho. O treinamento ideal é através do insight, de uma compreensão além das palavras, porque compreensão com as palavras é pequena. É tudo que nós temos, mas é pequena, limitada, não é grande como uma compreensão de um insight. Uma boa comparação com esse momento é uma anedota: você conta uma anedota, a pessoa não entende e então você explica, mas ela não ri. Por quê? Porque não tem insight. Só tem riso se tiver insight. A mente só dá uma descarga de energia quando ela tem um salto de compreensão que é completo e absoluto. (Continua)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Os ensinamentos são apenas indicações

Continuamos com mais três trechos do Sutra: “O Tathagata os reconhecerá. Sim, ele perceberá claramente esses puros de coração, porque eles não caem na ideia de uma ego entidade, de um ser ou de uma individualidade separada, nem sucumbirão ao erro de considerar a ideia das coisas como tendo qualidades intrínsecas, nem mesmo de coisas constituídas de qualidade intrínsecas, porque se eles pensassem assim, eles estariam atribuindo uma ego entidade, um ser separado dessas coisas, através das suas características. Esta é a razão porque o Tathagata sempre ensina este axioma: ‘meu ensino da boa lei deve ser comparado com um barca, um homem que já cruzou a correnteza seguramente numa barca, continua carregando aquela barca em sua jornada sobre sua cabeça?’. O ensinamento do Buda, quando finalmente compreendido, deve ser abandonado, e, mais ainda, devem ser abandonados falsos ensinamentos, porque na realidade esses ensinamentos todos são apenas indicações”.(continua)